Aprender a ensinar ou ensinar a aprender?

Educação tem sido um tema recorrente aqui no blog. Algumas vezes é o meu lado ogro falando da falta dela. Outras, é dentro de um dos meus esportes favoritos: dar pitaco sobre o que não sei. Este texto encaixa-se na segunda categoria, tomando Educação no sentido puramente pedagógico.

O ponto de partida é o excelente Disrupting Class: How Disruptive Innovation Will Change the Way the World Learns (McGraw-Hill, 2008), de Clayton Christensen e Michael Horn. Na obra, os autores fazem uma profunda análise do sistema educacional adotado atualmente, destacando seus prós e contras e, principalmente, sugerem uma radical solução de transformação.

Os autores valem-se, basicamente, da teoria de Inovação Disruptiva do próprio Christensen para fundamentar suas ideias que, embora espelhem o modelo americano, servem à maioria dos países, por adotarem metodologias semelhantes.

Grosso modo, o estudo parte do conceito de Inteligências Múltiplas de Howard Gardner, que sustenta a tese de que cada pessoa tem um tipo particular de inteligência predominante, da qual desenvolve suas habilidades características. Gardner identificou ao menos sete diferentes características.

Um atleta ou bailarino, por exemplo, tem a Inteligência Cinética mais desenvolvida, que alia a coordenação dos seus movimentos a uma percepção espacial mais desenvolvida. Do mesmo modo, um artista terá como habilidade principal a Inteligência Estética ou a Inteligência Sonora, conforme o caso.

O reflexo disso no aprendizado é que cada uma destas predisposições influencia no modo como cada pessoa aprende. Se uma pessoa tem uma Inteligência Visual diferenciada, aprenderá melhor através de estímulos visuais – o mesmo se aplicando para as demais.

Ocorre que o sistema educacional ocidental foi desenvolvido com o objetivo de atender ao maior número possível de pessoas, numa época em que ainda não havia estudos mostrando as diferentes formas de aprendizado. Noutras palavras, as escolas hoje buscam a melhor maneira de ensinar – que não necessariamente coincide com a melhor maneira de aprender.

Esta padronização – que serviu muito bem ao objetivo da inclusão – deixa sérias lacunas no quesito efetividade. Enquanto alguns alunos se destacam por se adaptarem bem ao atual modelo, a maioria fica para trás, passando de ano aos trancos e barrancos. Em Motivação 3.0, Daniel Pink deixa claro que passar na prova de Francês é uma coisa e aprender o idioma é outra, completamente diferente.

A solução apontada por Christensen e Horn apoia-se no aprendizado individualizado, possível através da informatização das salas de aula. Eles alertam, no entanto, que entupir as escolas de computadores está longe de ser a solução. Até porque a maioria das experiências neste sentido falhou no sentido de melhorar o nível do ensino, uma vez que continuavam reproduzindo o atual modelo de ensino.

Na proposta dos autores, softwares específicos preparariam os planos de aulas mais adequados à forma como cada aluno melhor aprende, a partir de bancos de conteúdos preparados pelos professores – e até pelos próprios alunos ou seus pais.

O mais curioso desta proposta é que recentemente tive a oportunidade de experimentá-la na prática, mesmo sem saber. Por acaso comecei a assistir a um documentário da BBC, com o sugestivo título de Power, Proof and Passion – The Story of Science. O programa, dividido em seis episódios, busca responder às questões que mais intrigaram a humanidade desde os seus primórdios, como De que o mundo é feito? ou É possível ter energia inesgotável? Veja abaixo uma parte do primeiro episódio (em Inglês):

A produção absolutamente impecável da TV inglesa, aliada ao primoroso texto de Michael Mosley, também o entusiasmado apresentador da série, abordam temas com os quais todos nós brigamos em nossos tempos de escola. (ATUALIZAÇÃO 31/05/2012: a série virou um livro belíssimo, todo ilustrado, que já foi lançado em Português. Veja aqui: Uma História da Ciência.)

Mas quando Mosley nos mostra os primeiros motores a vapor construídos por James Watt, fica fácil aprender as leis da termodinâmica. Quando o vemos repetindo os experimentos de Lavoisier nos castelos franceses, a explicação da lei da conservação das massas parece simples. Ao entrarmos nos subterrâneos de Paris, onde os primeiros fósseis encontrados deram origem à Origem das Espécies, entender a evolução torna-se um prazer. Ou então conhecer o caminho do estudo do peixe elétrico ao desenvolvimento da primeira pilha por Alessandro Volta – que, pasme, não tinha nenhuma utilidade! -, à descoberta acidental do eletromagnetismo. Ter um déjà vu acadêmico é inevitável.

Mais importante do que isso, talvez seja o modo como Mosley mostra o todo o desenvolvimento de determinadas áreas do conhecimento, os caminhos percorridos pelos cientistas da época, a destruição de antigas teorias para o aparecimento das novas. O espectador participa da evolução das ideias, compartilhando as dúvidas geradas e respondidas, num fluxo intelectualmente estimulante e de contínua surpresa.

Outra grata surpresa em documentários é The Ascent of Money*, baseada no livro homônimo de Niall Ferguson (The Ascent of Money: A Financial History of the World), que faz uma viagem através da história mostrando a influência do dinheiro nos acontecimentos mais marcantes da humanidade. O trailer abaixo também está em Inglês.

Em vários aspectos, The Ascent of Money vale por diversas aulas de História e várias de Geografia, ou um período inteiro de Economia, dependendo das suas aspirações acadêmicas.

Mas talvez a maior contribuição destes exemplos seja mostrar, no sentido mais amplo da palavra, como temas desinteressantes nas aulas com a tradicional combinação cuspe e giz (ou mesmo datashow), podem se tornar interessantes e estimulantes dependendo do formato. E, mais do que isso: alguns destes formatos já estão disponíveis por aí.

A pergunta passa a ser, então: por que não experimentar?

7 pensamentos em “Aprender a ensinar ou ensinar a aprender?”

  1. Já existem há tempos. Na minha infância eu era fã do mundo de beakman! A-D-O-R-A-V-A! Com aquele jeito lúdico e explicações simples eu já conhecia aos 9 anos conceitos de mecânica que so viria a receber formalmente 5 ou 6 anos mais tarde na escola. E naquele método terrível que fazia todos os meus colegas odiarem física – com toda razão. Mera decoreba de fórmulas para aprovação nos testes…

  2. te agradeço pela indicação da série da BBC “Power, Proof and Passion – The Story of Science.” Estou assistindo ao segundo episódio e adorando.

  3. Demorei um tempo para comentar até verdadeiramente assistir às indicações. Adorei “Power, Proof and Passion – The Story of Science.” Fiquei fascinada com “The Ascent of Money”.
    Bom demais, valeu!
    Bjo

  4. Sobre novos formatos para ensinar e aprender, e também fazendo uma referência ao post anterior, professores do CE Damásio de Jesus fazem revisões pelo twitter. Interessante, dinâmico, relativamente novo – e eficaz.

  5. Quem deve fazer a prova?

    Pelo Twitter o amigo Flavio Carvalho faz o seguinte desabafo: De fato, o modelo educacional tradicional deixa muito a desejar quando mede o desempenho dos alunos através de provas, testes e outros elementos quantitativos. Mas como escrevi em Aprender a…

  6. Muito bom o “Power, Proof and Passion – The Story of Science.”
    O grande problema é que ter uma ensino desse nível leva tempo e educação. No meu ensino médio aprendi da forma tradicional, depois com muito tempo de estudo comecei a ver a história das ciências e como ela se desenvolveu, mas para isso,repito é necessário muito tempo,estudo e investimento.
    O que está longe da nossa realidade.

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