JAC Motors X BR Motors

Tomei emprestado do amigo Pierre Lucena parte do título deste post, fazendo alusão ao lúcido texto do Acerto de Contas, JAC Motors X incompetência nacional. Em seu blog, o futuro reitor da UFPE destaca o verdadeiro alvo da covarde medida do Governo que aumenta o IPI sobre autopeças: a JAC Motors.

Sem nenhum pudor, o Ministério da Fazenda revela querer frear o acelerado crescimento das vendas de carangos chineses no país – recado mais do que direto ao Carrão do Faustão. Sugiro, inclusive, que se refiram à medida como o Imposto JAC Motors.

Em recente artigo, escrevi que a indústria nacional passaria, em breve, por um choque de produtividade, já que a concorrência externa – asiática, principalmente – não deixaria pedra sobre pedra na incompetente indústria nacional, historicamente apoiada no binômio altas marges e baixa produtividade/competitividade.

- Ô lôco, meu! Esse Governo é do tempo em que "agasalhar o croquete" era somente aquecer a iguaria...
– Ô lôco, meu! Esse Governo é do tempo em que “agasalhar o croquete” era somente aquecer a iguaria…

Mas eis que o Governo já reage* a este possível futuro – sombrio para o cartel automobilístico, porém saudável para o resto do país – da maneira que mais lhe agrada ou, talvez, a única que conheça: aumentando impostos.

Não é preciso ser sócio da Ernst & Young para deduzir que o efeito em cascata da medida será diminuir a competitividade e, assim, dificultar a concorrência. Não é preciso, sequer, ser estagiário da Ernst & Young para concluir que haverá aumento generalizado de preços, tanto de importados quanto de nacionais.

Muitos apoiam a medida dizendo que é necessária para proteger a indústria nacional e, desta forma, permitir que ela cresça e se desenvolva. Sejamos honestos: o protecionismo vigorou por décadas e o resultado foram modelos antiquados, tecnologia obsoleta e produtividade paleolítica. Somente com a abertura do mercado, no Governo Collor, os fabricantes locais se coçaram, ao sentir a água bater na bunda.

- Meu sonho é ter salário de metalúrgico do ABC...
– Meu sonho é ter salário de metalúrgico do ABC…

Outros argumentam, ainda, que os carros chegam baratos aqui porque são fabricados por mão-de-obra escrava do outro lado do mundo.

Ora, o noticiário recente deixou bem claro que o trabalho escravo está bem mais perto do que se imagina – e, nem por isso, os preços das empresas flagradas nesta prática são baixíssimos.

Além disso, o custo da mão-de-obra não é tão relevante assim na composição do preço de um carro, em tempos de fábricas altamente robotizadas. Meu carro, por exemplo, foi fabricado na Bélgica e custa o mesmo do que um concorrente nacional na mesma categoria, com IPI e tudo. Será que os metalúrgicos belgas ganham menos do que seus companheiros do ABC ou de Xangai?

Essa esfarrapada desculpa – custo da mão-de-obra, escrava ou não – está no mesmo nível da onipresente muleta dos impostos, segundo a qual automóveis custam caro por causa da carga tributária.

As montadoras, através da ANFAVEA, escondem-se sob este manto que há décadas ilude o consumidor brasileiro, acostumado a comprar o carro mais caro do mundo, o computador mais caro do mundo, a TV mais cara do mundo, o celular mais caro do mundo.

Proteja a gloriosa indústria nacional - e pague a conta!
Proteja a gloriosa indústria nacional – e pague a conta!

Este tema é tratado de forma brilhante em Predictable Surprises: The Disasters You Should Have Seen Coming, and How to Prevent Them, de Max Bazerman, no qual o autor revela o lado obscuro do protecionismo.

Segundo Bazerman, quando o Governo institui um imposto, alíquota ou subsídio para proteger determinada indústria local, cobra a conta de toda a população, em nome do segmento protegido.

Seguindo esta lógica, uma minoria barulhenta vai impondo penalidades à maioria que, de pouco em pouco, sustenta uma aberração pouco saudável para a economia: setores pouco competitivos, indústrias atrasadas e cartéis e oligopólios protegidos sob a égide de um bem maior. Na ponta do lápis é uma conta que não vale a pena pagar.

Ainda assim, a indústria automobilística nacional nunca vendeu tanto carro. À vista ou em 60 meses, com os juros mais altos do mundo, que pagamos certos de estarmos fazendo um negócio da China – aliás, esta expressão perdeu completamente o seu sentido, já que os negócios da China estão sendo todos tributados.

Enquanto isso, é possível comprar o mesmo carro vendido aqui por quase a metade do preço no México, no Chile ou na Argentina. Desta vez, ao menos, nossos hermanos rirão por último.

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* Alguém no Ministério da Fazenda anda lendo o Não Posso Evitar…

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ATUALIZAÇÃO 14/10/2011: Japão e Coreia vão à OMC contestar a alta do IPI para carros importados.

7 pensamentos em “JAC Motors X BR Motors”

  1. Claro, o absurdo da medida se torna óbvia com no máximo 2 segundos de reflexão. No entanto, para grande parte dos próprios prejudicados a medida vai parecer fazer sentido pelo “nobre” objetivo de proteger a indústria nacional. Ora, se uma indústria precisa de proteção sua incompetência já está caracterizada, ipso facto. E uma indústria incompetente deve sumir para dar lugar a uma que faça um trabalho melhor, assim como um empregado incompetente deve ser demitido em favor de um mais produtivo. Não se trata apenas de eficiência econômica, mas de justiça. Um país só poderá usufruir dos benefícios gerados por uma economia de livre mercado quando perceber (entre outras coisas) o quão saudável é deixar as empresas surgirem E sumirem livremente.
    Vamos ser sinceros, existe, em essência, alguma diferença entre este comportamento do governo atual e o daqueles que obrigavam os brasileiros a dirigir carroças, como se referiu Collor? Podemos concordar que há sim uma diferença quantitativa, mas qualitativamente são medidas tão socialistas quanto as adotadas em Cuba, por exemplo. E esteja certo de que, na proporção em que nos aproximarmos do rigor das medidas, poderemos esperar os mesmos resultados.
    Enquanto isso o confisco vai se intensificando…

  2. Tem um outro lado da moeda que estamos esquecendo. Milhões de pessoas saíram recentemente da pobreza e estão loucas para comprar o primeiro carro. Só que as cidades já estão entupidas de veículos, onde não importa se eu sou milionário ou um pé rapado qualquer. Dentro do carro, preso no congestionamento, todos nós somos iguais e devemos seguir as mesmas regras. Não existe privilégios por modelo ou valor do carro. Nesse ponto de vista, a atitude de governo serve também para não sobrecarregar ainda mais as defasadas estradas e causar um colapso no trânsito das grandes cidades. Uma boa desculpa do governo seria usar o imposto para melhorar a infraestrutura viária ou pensar em outras formas de mobilidade… mesmo que seja dificil de acreditar.. hehe

  3. Jefferson, se é para evitar congestionamentos e, de quebra aumentar a arrecadação, muito mais eficiente seria cobrar o IPVA e multas atrasados. Cidades como RJ e SP têm, em média, 40% da frota em situação irregular.

  4. A solução é simples, basta abrir mão da obsessão pelo carro novo, se você troca de carro todos os anos, troque a cada dois anos. O dinheiro não gasto com carros vai fazer a economia girar em outras áreas mais saudáveis.
    As pessoas estão se referindo ao aumento do imposto como se carro fosse item de primeira necessidade, como se fôssemos obrigados a consumi-los. Está na hora de pensar fora da caixinha (de metal).

  5. De que Santo é o milagre econômico?

    Já faz algum tempo que venho questionando esta falácia do milagre econômico brasileiro: Em Mercado Livre, Livre de Concorrência (13/04/2011) mostrei como a reserva de mercado ancorou os preços de algumas categorias de produtos em patamares tão altos qu…

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