Censura para quem precisa

Esta polêmica envolvendo o Rafinha Bastos é um bom retrato do que se transformou a mídia – especialmente a TV – nos últimos anos: completa inversão de valores e justificativas erradas, temperadas com a arrogância de quem se acha a bala que matou o Kennedy.

Particularmente não gosto do CQC. É um programa bobinho, atrapalhado por grafismos vintage do Batman barrigudo e sonoplastia do Pica-Pau. As piadas ficam abaixo da média e as reportagens são de uma obviedade melancólica.

Perguntar a um político se ele procura o SUS quando fica doente, ou se seus filhos estudam em escolas públicas é engraçadinho para a classe média. Mas para quem depende destes serviços, não acho que seja motivo de piada. Mas quando você ri, não toma nenhuma outra atitude. E está muito mais preocupado em ofensas contra outras minorias do que com pobre, não é mesmo?

O caso específico do Rafinha reflete a visão de um famoso quem? que se acha acima do bem e do mal. Depois de ter sido eleito a pessoa mais influente do twitter, pelo New York Times, o rei que vive em sua barriga virou imperador. E daí a ditador é apenas um passo.

- Meu Deus, que cagada!
– Meu Deus, que cagada!

Rafinha não percebeu o claro erro da eleição e passou a agir de acordo – mesmo que acima do Equador ninguém o tenha visto mais alto.

No Dia dos Pais, perguntou aos tuiteiros como os órfãos comemoravam a data. Depois, na TV, disse que comeria a cantora Wanessa Camargo e o filho que ela espera. Apesar de extremamente grosseiro e descabido, o comentário ainda seria desculpável. Em programas ao vivo tudo acontece muito rápido e não dá tempo de pensar em como as palavras soam.

Frente à repercussão negativa, Rafinha poderia ter se desculpado – especialmente com a própria Wanessa – e, provavelmente, o assunto morreria ali. Mas não o Rafinha. Ele não pode pedir desculpas. Ele não erra. E tem direito de dizer o que quiser, por causa da liberdade de expressão. Por causa da democracia.

Mas não é bem assim, Rafinha. A liberdade de expressão traz consigo a responsabilidade pelo que se diz. Você é jornalista, então deveria saber disso. Se você fala o que quer, ouve o que não quer. E só há um regime onde alguém realmente pode dizer tudo impunemente: a ditadura.

Uma rede de conexões logo fez chegar à direção da Band algo que ela já sabia: Rafinha havia ido longe demais. Anunciante e agência se mobilizaram pela punição do rapaz. E aí ele torceu tudo a seu favor, dizendo que estava sendo censurado pela emissora. Como disse o Pierre ele se transformou, erroneamente, em mártir.

Ora, a emissora é quem tem o poder de tomar uma atitude, mas Rafinha foi censurado pelo país inteiro. É impossível lutar pela liberdade de uma expressão como esta. Felizmente, ninguém defendeu a infâmia de transar com um feto no ventre da mãe. Pois é neste momento que você percebe que a liberdade de expressão não deve ser um privilégio absoluto, isento de regras ou limites.

Em Publicando o joio, lembro que a mídia obedece à equação oferta X demanda. E o que o público pede, o anunciante paga. Nenhum anunciante, contudo, vai pagar alguém para lhe ofender. Isto é óbvio e, convenhamos, justíssimo.

Antes que os patrulheiros retruquem que isso compromete a isenção de um veículo, peço que deixem a ingenuidade e o pirulito de lado. Isenção é uma ilusão criada por quem não tem patrocínio. É melhor aceitarmos que existe conflito de interesses – e fazer os devidos descontos – do que ficarmos neste faz-de-conta. Este texto, por exemplo, claramente não é isento, pois eu não gosto do CQC nem do Rafinha.

Chupa, Rafinha...
Chupa, Rafinha…

Além disso, são duas coisas completamente diferentes. Isenção – que não existe – seria importante em questões de política ou economia, nas quais você não pode deixar de falar sobre determinados temas. Mas, como sabemos, este tema específico era completamente evitável.

Do outro lado da bancada, o menos talentoso mas infinitamente mais carismático Marco Luque brilha. É garoto-propaganda do Itaú e da Claro. A concorrente, Nextel, paga Rafinha para ouvi-lo dizer que seus clientes são traficantes e, por isso, contrataram o Fábio Assunção. Questionado sobre o assunto por Mônica Bergamo, da Folha, acrescentou insulto à injúria respondendo: “Chupa o meu cacete”.

Quando defendi a censura em Sua próxima vítima, referia-me a casos como este. Se não existe censura de direito, ela deve existir de fato. O público deve decidir se quer conviver com isso.

Esta não é uma escolha do Rafinha, tampouco da Band, muito menos da Claro. É uma escolha sua.

14 pensamentos em “Censura para quem precisa”

  1. Rodolfo, excelente!
    Confesso que eu não sei muito bem que é esse Rafinha – assisti CQC poucas vezes. Sempre achei que rir com as pessoas é bem melhor que rir das pessoas. Mas o episódio é lamentável, e a arrogância do tal foi merecidamente punida.
    Parabéns duas vezes, pelo texto e pelo aniversário.
    Beijo

  2. Boa, Rodolfo.
    Mas ele só dançou pois foi mexer com “gente graúda”. Caso contrário, ficaria por isso mesmo e bola pra frente.
    O pior de tudo é que esta, assim como várias outras piadas da figura, não teve a menor graça.
    Vamos ver desfecho da novela e que o público possa saber escolher.
    Abs

  3. Concordo com o texto, mas acho que tudo isso faria sentido se acontecesse na primeira (ou nas primeiras) vez que ele transpôs esse limite. Como comentaram abaixo: ele só foi punido porque dessa vez atingiu gente grande.
    Não gosto e não costumo assitir CQC, mas estou acompanhando o caso e não sei qual está mais errado. Se a Band acerta ao punir ele pelo que fez está dizendo que esteve errado durante todas as dezenas de programas anteriores em que ele adotava a mesma postura e a emissora deixava passar em nome dessa tal liberdade de expressão.

  4. “Isenção é uma ilusão criada por quem não tem patrocínio”
    Eu só discordo (parcialmente) dessa sua frase, Rodolfo.
    Nos anos 80, algumas grandes agências de publicidade se negavam a trabalhar para empresas de cigarros e bebidas, e isso soava como um charme ou simplesmente um modelo de negócio.
    Essas empresas, obviamente, faliram. Porém, acredito que tudo é cíclico, e hoje, muitos dos que se aventuram a desafiar as regras do comercio tradicional possuem grandes chances de crescer.
    Eu nunca gostei do CQC. Ouvia o nome desse Rafinha, e me perguntava: Quem?
    CQC, Panico e família, são cópias de tudo o que o Silvio Santos já roubava dos americanos nos anos 70. Copiar audiência suja é fácil, criar público fiel é que é complicado. Exige tempo e qualidade na pauta. Mas a promessa de ficar rico rápido vendendo lixo parece ser o viagra dos velhos que administram esse mundo caduco que é a TV no mundo inteiro.

  5. Concordo que a censura deve ser feita por cada um.
    Não gosta, desligue a televisão, deixe o babacar falar só.
    O Estado interferir na liberdade de expressão de cada um? Não dá.
    E outra, sério mesmo Rodolfo, você achou que ele queria ter relações sexuais com o feto?
    O problema é que o povo esta rindo dos políticos e levando as piadas a sério…
    Olha o que eu vi no site do CHARGES:
    Sobre a campanha do Facebook, contra a violência infantil, meus amigos colocaram a foto do Chaves ou de algum personagem da série. Mas é meio controverso, uma vez que o programa é um dos que mais mostram crianças sendo mal tratadas. E pior: tem um homem que maltrata todas as crianças da vizinhança, uma mulher rabujenta que maltrata todo mundo, uma senhora que sofre com o bullying praticado pelas crianças e a rejeição pelo homem amado e uma criança que passa fome e ainda é mal tratado por todos os adultos e crianças da série… Não tenho nada contra, só acho que não são os personagens mais adequados para defender a infância.
    Amanda Machado Barbosa – Uruguaiana – RS
    Corram para as montanhas! O Chaves não é mais politicamente correto!

  6. Laccosta, não acho que o Rafinha tenha realmente a intenção de ter relações com um feto, mas isso não tira o peso nem a responsabilidade do que ele disse.
    Eu não vou sair por aí dizendo que gostaria de transar com cadáveres só porque as pessoas sabem que isso não é verdade. O mau gosto permanece.
    Abraço, Rodolfo.

  7. Rodolfo, necrofilia existe, assim como pedofilia.
    Mas tudo, TUDO, depende de um contexto.
    O dele, era um contexto jocoso. Não dá para levar a sério, não é?
    Como eu disse lá no AC:
    “Eu tiro onda dos meus amigos, eles tiram onda de mim…
    Dá para sacar quando eles estão me sacaneando e quando a coisa é séria mesmo… Você não percebe a diferença?
    Ou todos seus amigos são politicamente corretos 100% do tempo e não tiram onda de nada?
    Lembre-se, toda piada, gracinha, se baseia num estereótipo, ou tem algum preconceito ou brinca com uma deficiência…
    A do pintinho cotó que foi ciscar e caiu é uma delas…
    E quando um humorista tira onda de uma figura pública, ele está fazendo HUMOR, bem diferente de quando DATENA acusa alguém, ou, ainda assim, você não percebe a diferença?”
    Eu acabo pensando com muito mais prudência nesses temas quando me deparo com os argumentos de Reinaldo Azevedo.
    Há muito fascismo e imposição de pensamento no tocante ao tema “humor” e, prefiro que todos possamos falar qualquer babaquice do que o Estado estar ditando o que devemos falar.
    Prefiro sofrer preconceito pela minha condição e poder PENSAR, do que o Estado me dizendo como pensar.
    Como você disse, a censura somos nós, ou o controle da televisão.
    Se a nossa sociedade se torna cada vez mais babaca, não dá para pôr a culpa na televisão, mas sim no nosso decadente sistema de ensino que, pela cartilha do politicamente correto, não xinga corrupto, mas quer prender humorista.
    Lembre-se dos seus textos passados, eu sempre acompanho seu blog!
    Att,

  8. Liberdade de expressão não significa que não se possa ficar chateado com o que alguém diz, e reclamar muito, e xingar também, e até demitir alguém pelo que fala. Não é isso. Significa apenas e tão-somente que o estado não pode se meter (aí incluída a justiça). Isso, sim, é muito errado, é absurdo e ridículo. Você que tem um blog, pense que um dia você pode falar mal do Sarney e ele te processar na justiça… do Maranhão! Você vai ter que ficar indo lá responder. O direito de processar alguém pelo que diz eqüivale à total ausência de liberdade de expressão. Nos EUA, não é possível processar ninguém pelo que se diz ou escreve. Por isso, existe Michael Moore, e varios outros como ele.

  9. Sinceramente não entendo a diferença do Rafinha Bastos para o @clubedomacho (do qual você escreveu em “Pelo direito de ter opinião”). Talvez eu apenas seja muito burro- para não notar diferença-mas, pessoalmente, considero uma grande hipocrisia da sua parte.
    Muitos dizem que Rafinha não pediu desculpas, mas ele chorou no Faustão e disse que só não pediu porque seria hipocrisia, isso-para mim- já é um pedido de desculpas.
    Não vou perder meu tempo tentando convencer ou converter vocês a minha opinião, estou apenas para expressar o que penso.

  10. Stranger, a diferença reside no fato de o Clube do Macho fazer piadas genéricas, de ser um personagem fictício e ter uma clara inclinação para a galhofa.
    Já o Rafinha Bastos é uma pessoa real e fez uma piada direcionada a outra pessoa real – o que muda tudo.
    E ninguém precisa convencer ninguém aqui. Opiniões divergentes são sempre bem-vindas – e eu prometo não chamar ninguém de hipócrita.

  11. Verdade, eu não tinha refletido bem sobre isso. Eu não vejo nem o CQC, nem o clube do macho, mas acompanhei o episódio das duas piadas mais infames do Rafinha Bastos. A mais recente eu achei merecido um processo, mas a primeira piada (que falava sobre estrupo) foi achei tão genérica quanto qualquer outra.
    Desculpa a parte que falo de hipocrisia, sou meio “esquentado”, mas tento me corrigir.

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