Quem deve fazer a prova?

Pelo Twitter o amigo Flavio Carvalho faz o seguinte desabafo:

6a00e554b11a2e8833015392f1021d970b-400wiDe fato, o modelo educacional tradicional deixa muito a desejar quando mede o desempenho dos alunos através de provas, testes e outros elementos quantitativos. Mas como escrevi em Aprender a ensinar ou ensinar a aprender?, tal sistema ainda é utilizado para atender a uma necessidade do início do século passado: a padronização do ensino, para atender ao maior número possível de alunos.

A inadequação do método fica mais evidente conforme mudam as habilidades exigidas dos profissionais no mercado de trabalho. Em tarefas onde inovação e criatividade são essenciais, tem-se alunos habituados a preencher formulários, marcar opções corretas (ou erradas), memorizar datas e decorar fórmulas.

Pergunta ruim, resposta adequada
Pergunta ruim, resposta adequada

Mas hoje o ambiente corporativo tem necessidades bem diferentes. Se um jovem é acostumado a escolher dentre alternativas pré-estabelecidas, como ele haverá de criar suas próprias, quando as atuais não servirem?

O atual modelo educacional condiciona o aluno a um pensamento de múltipla escolha, para depois forçá-lo a viver num mundo dissertativo. Quando se enfrenta a realidade, não adianta saber dar as respostas – é preciso saber fazer as perguntas.

Ora, se o importante é saber fazer as perguntas – em vez de dar as respostas – então nada melhor do que uma prova! O erro está em quem faz a prova. Se você quer que o aluno aprenda a fazer as perguntas, então deixe que ele, o aluno, elabore a prova.

Dê-lhe uma folha em branco e peça-lhe que escreva o que deveria ser perguntado na tal prova. Que tipo de questão deveria ser feita? Quais os principais temas abordados no último bimestre ou semestre? Como deve ser aplicado o conhecimento adquirido até então? Como você avaliaria o seu próprio aprendizado?

Este breve momento de reflexão do aluno servirá para que ele faça uma revisão muito mais valiosa de como foi o seu aproveitamento durante o curso. Além disso, servirá como um incentivo à criatividade na elaboração das questões, fugindo um pouco da mesmice que sempre marcou as provas acadêmicas, seja na escola ou na universidade, seja em Literatura ou em Física (“se um carro parte do ponto A às 10:00h a 60 km/h em direção ao ponto B blá, blá, blá…”)

Algum professor aí se habilita a seguir minha sugestão? Desde já deixo o espaço do blog aberto para contar a experiência.

4 pensamentos em “Quem deve fazer a prova?”

  1. Rodolfo
    Primeiramente, obrigado por ter feito um post em resposta ao meu tweet. Foi uma honra.
    Tive que concordar com a tua ideia. Até já fiz uma prova assim, na disciplina de Administração de Recursos Materiais.
    Como você falou, a necessidade do mercado é diferente do que o atual modelo forma. Não se prepara o aluno para pensar, para ter as perguntas certas, mas sim ou para ter a resposta decorada ou a resposta que mais agrada o professor.
    E falando em agradar o professor, este é mais um aspecto negativo do modelo vigente. Esses tempos trouxemos um palestrante para a universidade que falou sobre as ideias do Daniel Pink, autonomia, domínio e propósito como motivação muito mais do que dinheiro. O que meu professor de RH (o próprio nome da disciplina me causa ânsia)falou no dia seguinte? “Isto só funciona na teoria, na realidade do mercado o que motiva é o dinheiro”. E aí? Eu sou inocente demais ou o professor precisa de uma reciclagem?
    Ontem procurei no Google “universidade diferente”. Não encontrei nada que possa dizer fora do comum. Algo tem que mudar.
    Abraço.

  2. Na UnB, em Introdução a Contabilidade (para alunos que não de Ciências Contábeis), nós diversificamos as avaliações na tentativa de evitar que um aluno seja penalizado pelo mau desempenho em determinado momento (dentre outras motivações). Uma das novidades foi uma tarefa na qual há exatamente a chance que você sugeriu: elaborar a pergunta, justificar a resposta, dentro do conteúdo estudado. Mão livre. Como são muitas turmas, uma forma que encontramos para graduar essa atividade foi a criação de uma “régua” (o que deveria estar contido no texto para que a nota fosse x). A única diferença entre a nota 10 e a 9 era que, para a nota máxima, deveria ser observada a criatividade do aluno. Legal né? Eu achei supimpa quando criamos isso. Ainda mais porque era a minha primeira turma em uma universidade, grandes expectativas…
    [A única forma de tirar nota baixa era escrever algo absurdamente errado! Tipo… contabilidade é chata! Há! ]
    Eu já tive problemas de autoestima decorrentes da forma como eu era avaliada ou de como o professor agia. Achava que era burra em física por ser péssima em alguma assunto que hoje domino, por exemplo. E foi com o tempo que percebi que sou diferente… então, consequentemente, a forma como estudo não é tradicional. Faz parte. Ok. Falo até isso pros meus alunos. Mas é difícil aplicar uma progressão revolucionária de ensino na prática. Talvez em uma universidade com poucos alunos e com professores energéticos… Talvez.
    Quanto a avaliação que adotamos em Introdução, não ouvi o fim das reclamações dos meus adoráveis alunos. Era sacal, boba, sem noção, bla bla bla. Vários alunos deixaram de responder, sequer tentaram (o que pra mim é inadmissível e eu quase trucidei essas pessoas). Sabe o que acontece? Independente da graduação, se é ensino médio ou doutorado, quando um aluno se senta na cadeira, assume determinadas características universais. Você tem as suas prioridades. Se uma avaliação for subjetiva o suficiente pra, de certa forma, absorver a característica de “fácil”, você irá se preparar pra prova de cálculo, que não é tão tranquila. Ou vai pro cinema com os seus amigos pra distrair, ou vai fazer hora extra no trabalho pois precisa de dinheiro… cada um tem a sua lista. Infelizmente realizar tarefas criativas na universidade não é uma delas!
    Uma vez meus alunos estavam resmungando tanto, que eu os liberei para que dali a duas semanas a aula fosse deles (eles pediram, eu aceitei e eles ficaram surpresos, assustados e empolgados). Poderia ser gincana, jogos de empresas, o que fosse. Dois alunos se responsabilizaram, me disponibilizei para auxiliar apenas… Resultado? Os alunos não tiveram tempo de preparar nada. E é claro que eu imaginei isso e fui com uma aula pronta… A possibilidade foi dada a eles, mas foi aceita? Não. E não porque são maus alunos, mas porque eles tinham outras demandas concomitantes a isso…
    Eu entendo o que você falou e acho mesmo muito legal. E eu poderia dar uma de supernanny da academia e falar que um dia o modelo educacional vai ser isso e aquilo então os alunos irão se adaptar e dar valor a atividades assim e assado. Mas a verdade é que lá na trincheira da guerra, aluno é trabalhoso. A minoria é interessada. Eu aviso no primeiro dia e ressalto sempre que necessário que na universidade o papel do professor não é ensinar, mas sim agir de forma com que o aluno aprenda. A obrigação deles é ir para sala com um mínimo de conteúdo (leituras prévias do capítulo, por exemplo) e o meu papel é ajudá-los a assimilar isso. Na minha experiência, colocar testes e provas é uma forma de fazer com que alunos, especialmente universitários, aprendam. Mas eu não cobro presença em sala de aula, não cobro resolução de exercícios, não veto os meus alunos. Mesmo assim eu, por vários motivos, sou uma professora exigente. Faço provas que exigem raciocínio, passo controle de leitura, duas provas, um teste e mais dois desses textos “livres”. E quanto mais alunos folgados tenho em sala, mais criativa fico!!! =p
    Pra finalizar: Caramba ow, o tanto de “folgadeza” dos alunos daria um texto inacreditável!!! (Que um dia ainda pretendo escrever). 😉

  3. Eu acredito que avaliação que visa a aprendizagem dos alunos é o Programa de Avaliação da UNB(PAS-UNB). O aluno faz a prova sem perceber a dimensão dela, eu não li o seu outro post sobre aprender a ensinar, mas acredito que a questão é aprender a aprender.

  4. Com todo respeito, profª. Isabel Sales, não a conheço, mas pela descrição fornecida temo que a eficácia de seu método não esteja na proporção da nobreza de suas intenções. Minha humilde opinião é em parte baseada em alguns estudos de psicologia mas especialmente baseada em atenta observação dos anos em que pude estar, quase sempre de forma concomitante, tanto do lado docente quanto discente.
    Quiçá lhe impressionaria saber que alguns dos alunos tão “folgados” podem virar noites e noites se preparando para uma prova. E sem dúvida eles acabarão aprendendo muito da matéria dessa prova! E terão resultados com esse aprendizado. Talvez seja para a prova de um professor “carrasco”, um professor que venha a ser responsável por “traumas” como o que você relatou. Então me parece que a virtude está no caminho do meio…
    Verdade que há sim professores sádicos, que infligem sofrimento gratuito, sem fins didáticos, apenas para extravasar frustrações pessoais. Há também professores negligentes, profissionais indolentes, que não compartilham nem um milionézimo de suas nobres preocupações, cara Isabel. No entanto, há também professores que erram a mão indo ao extremo oposto. Acabam sendo professores pouco respeitados e todos querem pegar as matérias desses professores para ganharem créditos sem esforço.
    Seria lindo se as universidades estivessem repletas desses alunos ideais que simplesmente aproveitam ao máximo as oportunidades de aprendizado baseados em um estímulo intrínseco de pura vontade de saber. Alunos que, independentemente de variáveis externas como vontade de sucesso e medo do fracasso, empenhassem sempre o máximo de seus esforços. Bem, não é assim que as coisas funcionam.
    Um aluno pode ter forte desejo de sucesso e dar o máximo de si para garantir a excelência acadêmica, obtendo notas máximas mesmo nas matérias mais difíceis. Um aluno pode ter fundado temor de fracassar, de “sujar” seu histórico escolar, de ser jubilado. Em ambos os casos é provável que ele abra mão de momentos de descanso, de horas de sono, de saídas com a namorada no final de semana, de uma cerveja com os colegas depois da aula, de um jogo de futebol na TV… Isso somente se ele imagina que lhe será exigida uma preparação intensa, com excelente domínio dos assuntos estudados. Se crê que irá submeter-se a uma avaliação em que é impossível fracassar porventura haverá alguma racionalidade em abrir mão dos momentos de lazer (ou do estudo de outras matérias) em prol de tal disciplina? Por melhores que sejam as intenções, a vontade de realizar atividades criativas, a vontade de aprender, a preocupação com um eventual mercado de trabalho no futuro… Tudo isso é muito abstrato e distante. Não tem força diante do argumento concreto e presente de que é mais legal tomar uma cerveja do que estudar para uma disciplina de aprovação garantida.
    Tive um grande professor na UnB cujas disciplinas costumavam ser frequentadas apenas pelos alunos realmente interessados em aprender. No primeiro dia de aula ele apresentava o cronograma de trabalhos do semestre e as regras da disciplina. Aqueles que não estavam dispostos a um trabalho intenso e profissional, os que não estavam dispostos a respeitar valores básicos como o da pontualidade (tão pouco em voga no Brasil), costumavam retirar/trancar a matéria logo no primeiro dia.
    Expondo regras claras e impessoais, sem exceções personalistas, evidenciando qual seria o ritmo exigido dos trabalhos, o professor sugeria temas, apresentava possíveis pontos de partida, indicava caminhos a serem seguidos e compartilhava sua experiência e conhecimento balizado por demandas discentes reais e espontâneas. Com isso, os alunos escolhiam seus caminhos e elaboravam seus prórprios trabalhos. Utilizavam a criatividade, mas se esforçavam com profissionalismo, já que era exigida produção e havia prazos improrrogáveis. As faltas e atrasos eram absolutamente raros, já que não tolerados. Existia um desafio a vencer e com isso uma motivação de busca pela excelência. O que se cobrava de cada um era o melhor que cada um podia dar. Acontecia de haver, eventualmente, alguma nota um pouco mais baixa, mas nunca vi ninguem ser reprovado. Ora, quem decidia não retirar a disciplina e empenhava tanto esforço e tempo para acompanhá-la dificilmente se permitiria pôr isso tudo a perder. Resultado: energia total do início ao fim.
    Por favor, não joguem a água fora junto com o bebê. O método tradicional possui incompletudes e imperfeições, mas não pode ser inteiramente posto no lixo. Se eu ensinei “X” e faço uma prova em que o aluno precisa simplesmente reproduzir esse conhecimento estou deixando de trabalhar a criatividade e inúmeras outras habilidades. Isso precisa ser mudado. Mas não significa, jamais, que tenha se tornado dispensável que o aluno saiba X. Continua sendo inadmissível que alunos obtenham resultados semelhantes em face de desempenhos gritantemente diferentes – em que pese as eventuais críticas sobre como aferir esses desempenhos. Quando isso ocorre – e na UnB tive várias experiências assim – fere-se de morte o valor da meritocracia, que é a pedra angular da excelência acadêmica e de todos os dividendos que ela gera para a sociedade.

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