Vender pra burro

Embora o título deste texto pareça inocente e despretensioso, espero que ao terminá-lo você consiga entender seu irônico duplo sentido. Se não conseguir, não tente novamente. Vá às compras e boa sorte!

6a00e554b11a2e883301543756b11a970c-800wiA imagem ao lado foi tirada de um site que, honestamente, não me recordo. Mas o veículo que publica tal coisa tem sua credibilidade imediatamente comprometida.

Ele pode até argumentar que a escolha dos anunciantes é aleatória e fica a cargo da rede que os administra. Em última instância, contudo, o site é co-responsável por aquilo que publica.

Mas este não é o tema do texto, até porque evito atirar no mensageiro sempre que possível. Minha crítica também não é sobre o que se anuncia, tampouco. O problema está no tipo de pessoa que vai atrás de algo assim.

Apesar de esta mensagem específica vir de algum site obscuro, ela ilustra um comportamento difundido em todas as classes sociais, níveis educacionais, inclinações religiosas e preferências terapêuticas. Uma sinistra doutrina, em que a falta de credibilidade é o que confere credibilidade.

A crescente tendência da sociedade é deixar de lado a Ciência para confiar em crendices populares. Troca-se o cientificamente comprovado pelo duvidoso e improvável. Confia-se no fundo de quintal em vez de o laboratório multinacional. Segue-se a dica do balconista em vez de a prescrição do médico. O chazinho milagroso da manicure substitui a dieta da nutricionista.

No lugar da antiga lenda popular de que beber leite e chupar manga pode matar, hoje temos exemplos não tão benignos, senão malignos. Adotar uma dieta macrobiótica para tratar um tumor pode custar um tempo que o paciente não tem. Ou tomar extrato de cogumelos desconhecidos pode piorar uma condição pré-existente.

O longo caminho da superstição à razão, traçado por pensadores como Newton e Galileu desde o Iluminismo, trezentos anos atrás, parece ter tomado sentido inverso neste movimento New Age. Uma onda que nega o conhecimento, despreza a ciência, deturpa evidências. E deixa vítimas pelo caminho.

Se um tratamento alternativo passa por testes rigorosos e prova sua eficácia, ele deixa de ser alternativo e assume seu lugar na medicina tradicional. Mas se continua sendo chamado de alternativo, é porque não passou por testes, ou simplesmente falhou em mostrar resultados. Grosso modo, essa é a medicina alternativa que você usa.

Isso não quer dizer que você deva se sentir como uma cobaia. Afinal, uma cobaia é assim chamada quando participa (voluntariamente ou não) de um teste controlado, que haverá de produzir um resultado (favorável ou não), que indicará o caminho das pesquisas futuras. Logo, quem usa a medicina alternativa, não se qualifica nem como cobaia.

Deve-se questionar que bizarro mundo é este em que uma “dica velha e estranha” ganha ares de solução milagrosa e infalível, travestida de mensagem publicitária.

Se você acha que eu peguei pesado nos argumentos, então precisa assistir o documentário Inimigos da Razão, de Richard Dawkins, cujo objetivo é “(…) contestar a epidemia do pensamento supersticioso irracional”. Perto dele, pareço um querubim…

“Como cientista, não penso que nossa tolerância às superstições irracionais seja inofensiva. Acredito que isso sabota profundamente nossa civilização.”

“Vivemos uma época perigosa em que a superstição ganha terreno e a ciência está sob ataque.”

4 pensamentos em “Vender pra burro”

  1. Então você nunca toma um chazinho digestivo, vai logo apelando para o Sonrisal, não é?
    A falta de testes, da Anvisa, por exemplo, faz com que fitoterápicos usados e conhecidos há gerações, por índios, ou por nossos avós, pareçam “receitas milagrosas”.
    Nem tanto ao mar….. Laboratórios multinacionais também deixam vítimas no caminho.
    Isso não quer dizer que eu defenda tratar de um tumor tomando pózinho de pri-lim-pimpim, mas não sejamos ignorantes ao arsenal de remédios naturais, encontrados na nossa flora e fauna muitas vezes roubados por nobres cientistas estrangeiros.

  2. Concordo em larga medida. Porém, a utopia de um mundo livre de superstições não vai ocorrer. O melhor é buscar combater as crenças prejudiciais e estimular as crenças positivas. Esse gosto pelo “pensamento mágico”, pelo obscuro, pelo sobrenatural, pelo que está “além do concreto” está arraigado na natureza humana. Funcionava há 5 mil anos e funciona hoje. Nesse sentido, pode até ser que essa propaganda esteja tendo sucesso em seus objetivos.
    Veja, eu conheço uma médica que toma suplemento de vitamina C quando está resfriada. Já comentei com ela que tal comportamento não é respaldado pelas pesquisas científicas e ela respondeu que sabe disso. No entanto, continua tomando. Há algo de crença aí, algo de “vai que as pesquisas mudam novamente”. Esse é o grande “problema” da ciência: a incerteza (na realidade é uma virtude, mas se torna problema por ser encarada como tal). Quando você acredita que o chá da planta X serve para curar a doença Y, você tem uma certeza meu caro. Uma certeza que não se abala por qualquer argumento científico. E isso dá conforto psicológico às pessoas. A ciência nunca te dará isso. Quando eu digo que o tratamento “A” é eficaz, estou simplesmente falando de probabilidade estatística, não de certeza.
    Por isso falei que é necessário estimular as boas crenças e desestimular as prejudiciais. As pessoas precisam acreditar na ciência para buscá-la. Assim, não recrimino quem faz suas rezas e terapias alternativas E também vai ao médico e toma os remédios receitados. Pessoalmente, não preciso das terapias alternativas assim como não preciso da crença em deus. Mas algumas pessoas possuem essas necessidades psicológicas e eu não as considero inferiores por isso.

  3. Interessante…
    Adorei a expressão:
    “Se um tratamento alternativo passa por testes rigorosos e prova sua eficácia, ele deixa de ser alternativo e assume seu lugar na medicina tradicional. Mas se continua sendo chamado de alternativo, é porque não passou por testes, ou simplesmente falhou em mostrar resultados.”
    Alguns pesquisadores brasileiros publicaram estuos nesse sentido. Existe um estudo do tipo ensaio clínico, que foi feito com o AVAL e até mesmo usando médicos da Sociedade Brasileira de Homeopatia – que evidenciaram que esta se tratav de puro efeito placebo.

  4. Um livro extremamente interessante sobre esse assunto é o ” Mundo Assombrado pelos Demônios” do Carl Sagan, ele fale sobre o analfabetismo científico e da importância da Ciência.
    Sinceramente,esse livro mudou minha vida.
    e ótimo post!

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