Greve de cérebros

Tomo este assunto já que estou em pleno aeroporto, viajando durante as festas de fim de ano, em meio a ameaças de greves dos aeronautas – ou aeroviários, sei lá. Ameaça é uma palavra que combina bem com greve, porque é exatamente isso que ela representa.

A greve é um instrumento extremo de negociação, através do qual uma classe profissional suspende as atividades até que suas exigências – normalmente salariais – sejam atendidas. Descrito assim, soa como chantagem. E é. Mas não deveria ou não precisava ser.

Quando feita da maneira correta, atinge seus objetivos sem traumas nem desavenças. Sem fanfarra, megafone nem passeata. Provavelmente sem sindicato também.

Os problemas começam quando os grevistas insistem que eles precisam chamar a atenção das pessoas. Em primeiro lugar porque prejudicar é uma péssima maneira de chamar a atenção. Em segundo, porque estão chamando a atenção das pessoas erradas.

A esmagadora maioria das pessoas que voa de avião não tem nenhuma influência sobre quem trabalha no setor. Então por que querem a minha atenção?

Perceba a força dos numerosos grevistas em Congonhas.
Perceba a força dos numerosos grevistas em Congonhas.

Eles realmente só chamam a minha atenção (e a de qualquer passageiro) quando fazem algo errado – e acho que é assim que isso deve funcionar. Numa greve, eles decidem e asseguram que tudo dará errado. E que todos sairão perdendo.

Querem pedir algo do governo federal? Então não precisa parar o país inteiro no Natal.

Parem apenas Brasília, numa quinta-feira qualquer. Impeçam que deputados e senadores voltem para casa no fim de semana e vejam se a solução não vem logo.

Querem pedir aumento? Então façam a greve no segundo dia do maior evento de turismo do país (porque todo mundo já terá ido, mas não terá como voltar).

Mas resolvam seus problemas com quem pode resolver seus problemas. Não usem sua profissão para prejudicar quem não tem nada a ver com isso. Até porque, a função dos passageiros neste mercado é outra: como clientes, eles pagam seus salários.

Se a bronca de vocês é com isso, então estabeleçam corretamente o objetivo e digam que estão em greve pelo aumento do preço das passagens. Digam que a culpa de vocês ganharem pouco é porque cobram apenas R$ 1.200,00 por uma ponte aérea Rio-São Paulo. Antevejo enormes sucessos, neste caso.

Outro pessoal que não entende muito bem o que esse lance de greve significa são os estudantes da USP. Recentemente eles entraram em greve também.

OK, mas como eu disse antes, você entra em greve quando pode privar a outra parte de alguma coisa que lhe faz falta. No caso dos estudantes, eles estão privando quem de quê? Se eles continuarem com a greve, o que pode acontecer? Eles serem jubilados? E isso é ruim para quem?

Antes de encerrar, deixo claro que não sou contra o direito de greve – desde que a pessoa seja forçada a trabalhar em determinada empresa, contra sua vontade. De resto, acredito que todo sejam livres para procurar outro emprego.

Ou ainda, que o direito de greve seja proporcional ao direito de demitir.

(Se você for me criticar nos comentários, peço a gentileza de acrescentar tudo o que o seu sindicato já fez por você – além de tomar-lhe um dia de trabalho por ano, sem a sua permissão.)

9 pensamentos em “Greve de cérebros”

  1. Grevistas e sindicalistas são os mais improdutivos. Sanguessugas, folgados, vagabundos, idiotas. Eles querem aumento sem merecer, ou usam a greve como desculpa para ganhar um folguinha de fim de ano ou antes da copa do mundo.
    As pessoas são livres para trabalhar onde quiser, se não está bom reclame, se não resolveu peça demissão. Agora essa corja se junta pra fazer barraco e chantagem. Medíocres!

  2. Oi Rodolfo, mexeu comigo. Concordo inteiramente contigo.
    Mas você sempre me põe pra pensar. Acho que você pôs o dedo numa questão fundamental para nossa sociedade hoje: quais são os instrumentos de luta disponíveis para combater a exploração do homem pelo homem. Você descarta a greve, que foi o instrumento sagrado no tempo em que se podia falar em luta de classes: os donos do capital versus os que só tinham o seu trabalho para vender.
    A greve fazia todo o sentido. Lembra dos filmes épicos tipo Sacco e Vanzetti, da década de 70?
    E das greves do ABC? Me faz lembrar do dia em que eu estava no comitê de negociação do lado patronal de 4 empresas, na indústria têxtil na Bahia. Foi irônico: eu, que era comunista enrustido, tava daquele lado, e na minha frente estava um membro da comissão de negociação dos operários, ex-candidato a vereador pela Arena. Eles queriam comissão de fábrica. Eu era a favor, assim como o diretor de uma multi holandesa, pois na Holanda as empresas eram civilizadas. Aí chegou uma ordem do Delfim, ministro do Figueiredo, para a FIEB (Federação das Indústrias) não aceitar essa cláusula.
    Ou seja, as empresas não eram civilizadas. Comissão de fábrica? Nada de conversa.
    Pra “nós, que amávamos tanto a revolução” (nome de filme), greve fazia todo sentido, 30-40 anos atrás. Estávamos no auge do taylorismo-fordismo.
    E agora, que a classe operária quase sumiu? Quem são os explorados? Motoboys, atendentes de telemarketing (só a Contax tem 100.000, 4 vezes mais do que tinha a Volks, maior exemplo de empresa industrial na época). Daqui a uns aninhos esses 100.000 estarão trabalhando em casa, sem precisar bater cartão, pois o Big Brother medirá cada pausinha pra ir ao banheiro (já mede, e em casa vai medir do mesmo jeito). E, sim, os milhões de professores, os médicos explorados por nós através do sistema de convênios), os policiais explorados por nós quando fechamos os olhos para os desvios dos nossos impostos. O sistema de exploração tornou-se opaco: não há mais mocinho e bandido. O bandido é difuso: mora na casa ao lado.
    Então, a questão que você tangencia é profunda: greve hoje é uma excrescência. E você começa a apontar novas formas de luta, focadas: greve talvez sim, mas no aeroporto de Brasília. Mas faço um desafio: vamos aprofundar a discussão das formas de luta apropriadas nessa nova era econômica, em que o que vale é o conhecimento e não o trabalho manual? Como vencer o gap que existe entre os 99% e os 1% (um bocado de gente, senão a indústria de helicópteros e iates não estaria tão bem). Aí tem bastante chão pra percorrer. Uma dica de leitura pra ler enquanto espera o embarque: “Que herege era aquele Gramsci liberal”? http://gilvanmelo.blogspot.com/2011/10/que-herege-era-aquele-gramsci-liberal.html. É de Massimo D´Alema, que foi um dos melhores primeiros ministros na Itália.

  3. Certo,eles que vão sitiar Brasília!!!!Isso com certeza iria “movimentar a economia brasileira” no setor de aluguel de jatos executivos e helicópteros!Ou eles usariam o auxilio combustível?
    Entendo que greves em um pais como o nosso muitas vezes parecem não fazer sentido.
    Mas quando percebo que o nosso governo joga as responsabilidades de segurança, saude e educação sobre as pessoas, para que elas, apesar de pagarem impostos por isso,se virem por fora,buscando melhor educação, saude e segurança de empresas privadas,não por escolha, mas por necessidade,vemos como equivocos como esses acontecem.Nós pagamos por tudo e mais um pouco.As vezes penso que vivemos em um Brasil violento principalmente por causa da impotência.Essa que nos faz sentir fracassados por não exercermos um cargo publico bem pago,por ver um movimento de greve que junta seis mil pessoas em praça publica e nem assim o governo do estado dá atenção(porque desviou a verba), a midia não cobre, é tendenciosa e o resultado é só prejuízo,numa sociedade que só faz administrar prejuízos.
    Obrigada,como sempre,ótimo conteudo.
    bjos

  4. Meus Queridos, o direito de se brigar pelo seus direitos faz com que todos possam ser valorizados pela tal “Sociedade” que voces pregam ser a correta. So vou por um ponto quando poderia descrever um livro das conquistas que os sindicatos já conquistaram para o seu povo. O Movimento sindical colocou um Presidente da Republica que tirou um pais das mão dos sanguinarios capitalistas como voces e faz um pais de oportunidades para todos, que hoje é reconhecido e respeitado por todo o planeta. Além mais colocamos um amulher que tem infernizados os capitalistas como voces. RSRSRSR

  5. Marcos, em qual teta do Governo petista você mama?
    Sim, porque um discurso desses (só faltou dizer que o Mensalão não existe) só petista faz. Exaltar um governo que tem primado pela roubalheira e pela multiplicação da presença do Estado na economia, comprando eleições com cargos públicos, só pode ser coisa de companheiro.
    Você abomina o capitalismo, não é mesmo? Então o que está fazendo no seu computador, navegando na Internet, usando Windows, falando no celular, brincando no Facebook? Quanta incoerência…

  6. Rodolfo,
    Muito cuidado antes de tocar num assunto (direito de greve) sem o conhecimento necessário para proferir uma opinião madura.
    A greve, no Brasil, exige, necessariamente, uma deliberação sindical, portanto, o seu “provavelmente sem sindicato também” revela ignorância a respeito de como um movimento grevista deve ocorrer. Sem a assembleia geral do sindicato respectivo, com quórum qualificado, toda greve é ilegal.
    Além disso, saiba que, desde 2004, a greve se tornou basicamente o único meio de obtenção de patamares mais elevados de condições de trabalho para os empregados, pois, por lobby das empresas, a provocação dos tribunais regionais do trabalho para estipulação de normas coletivas, quando não há consenso em fazê-las espontaneamente, depende, ironicamente, da concordância dos sindicatos dos patrões e dos empregados. Se o sindicato patronal quiser se manter reticente em conceder alguma vantagem econômica aos empregados, e sem um TRT para servir como terceiro julgador, só resta a greve como meio de pressão.
    E digo tudo isso como advogado de sindicato patronal, que, apesar de defender os interesses do capital, sei que não há verdade una, que a dualidade de classes existe e que, se os TRTs não podem servir como destinatários das manifestações dos grevistas, a sociedade terá que arcar com a modificação constitucional que os nossos representantes paralamentares empreenderam em 2004. Pesquise algo sobre dissídio coletivo e a Emenda Constitucional n.º 45 e verá que golpe de mestre os empresários conseguiram – mas que acaba trazendo todo esse efeito colateral negativo que você narrou.

  7. O Brasil só irá para a frente quando acabarem os sindicatos. Essas máfias já duraram demais. O duro é ter que ler balelas do tipo: “Assembléia Geral com quórum qualificado”, vai me dizer que você acredita mesmo nisso? Digamos que o seu sindicato seja um monumento da ética e da integridade, e o resto? Agora a maior besteira que você vomitou foi:
    “Além disso, saiba que, desde 2004, a greve se tornou basicamente o único meio de obtenção de patamares mais elevados de condições de trabalho para os empregados”-> Para tudo. Não compensa nem começar um debate a respeito.

  8. “Antes de encerrar, deixo claro que não sou contra o direito de greve – desde que a pessoa seja forçada a trabalhar em determinada empresa, contra sua vontade. De resto, acredito que todo sejam livres para procurar outro emprego.”
    Engraçado. Ainda nesta semana eu estava viajando com um amigo e discutindo a questão. Usei exatamente o mesmo argumento. Hoje passamos por uma época de beira o pleno emprego. Quem não está satisfeito com o emprego atual, se se sente prejudicado ou explorado, que procure outro.

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