O país do futebol… mixuruca!

Já que está todo mundo mega engajado no Carnaval, aproveito a saudável falta de atenção para escrever sobre um tema polêmico e do qual não manjo muito. Combinação esta, aliás, muito frequente por aqui. De qualquer forma, exerço meu inalienável direito de dar palpites aleatórios sobre aquilo que não entendo.

Em recente coluna, o rabugento (no ótimo sentido) rubro-negro Renato Maurício Prado menciona uma entrevista de Pep Guardiola, festejado treinador da máquina de jogar bola chamada Barcelona. As palavras do técnico catalão servem de pano de fundo para mais uma forte e merecida crítica ao moribundo futebol brasileiro.

Festejado pela imprensa internacional como um artista dentro e, principalmente, fora dos gramados, Guardiola aponta como ídolos e modelos técnicos argentinos e holandeses. Sua lista exclui, de forma sintomática e categórica, qualquer profissional brasileiro. Ficam de fora os treinadores do país que mais ganhou Copas do Mundo, berço de mais craques do que qualquer outra nação, mas que hoje amarga a sétima colocação no ranking da Fifa. Por enquanto.

- Lá na frente esse troço vai azedar...
– Lá na frente esse troço vai azedar…

Numa das poucas áreas em que alcançou destaque e notoriedade o Brasil representa, atualmente, um melancólico papel de coadjuvante, embora ainda considere-se na vanguarda. Infelizmente, esta não é uma situação restrita ao futebol.

Comandado em nível mundial por dirigentes retrógrados, o esporte bretão carece de inovação e criatividade. Sem novidades no lado técnico, os principais avanços ocorreram na parte física.

Resulta, então, que o futebol de hoje é um esporte muito mais coletivo do que individual. Vem sendo assim, aliás, há pelo menos duas décadas, embora nem jogadores tampouco técnicos brasileiros tenham se dado conta do fato ainda.

Continuamos limitados a esporádicos pseudocraques, que encantam com suas firulas enquanto equipes mais organizadas levantam troféus. Pagamos fortunas a moicanos especializados em desculpas nas derrotas e deprimentes espetáculos egocêntricos nas raras vitórias.

O jogador criativo, para os padrões nacionais, é o que dribla bem, pedala com maestria, distribui canetas e lençóis. Habilidades individuais, cujos resultados também são individuais. Afinal, o malabarismo é uma atividade individual. Não há conjuntos de focas amestradas (qual o coletivo desta espécie?), nem matilhas de cães dançarinos. São artistas solitários e, portanto, não é de se admirar que tenham performance pífia em atividades coletivas.

Porque não há um técnico a guiar-lhes, falta-lhes direcionamento, propósito, finalidade, objetividade. É a firula por si só, o drible suficiente, a presepada solitária. Nada disso mexe no placar, mero detalhe.

Atrevo-me a dizer que no festejado Barcelona não há craques individuais. Messi é um ótimo jogador em seu clube, mas um fracasso na seleção argentina. Puyol é um brucutu bastante limitado. Xavi é um maestro em campo, mas o que realmente faz dele um jogador fora-de-série?

Seu toque de bola preciso, seus passes milimétricos como que adivinhando onde seu companheiros estarão. Não são habilidades coletivas, então? Não dependem de seus companheiros? Da forma como eles se posicionam em campo, como se movimentam, o modo como se espalham e se concentram?

Certamente que o Barcelona tem uma ótima estrutura, uma administração competente e uma filosofia de trabalho vencedora. Mas tudo isso é direcionado para uma finalidade coletiva e não um propósito individual.

Nossa habilidosa dupla de ataque
Nossa habilidosa dupla de ataque

Num cenário assim, dá pena ver os times nacionais. Os últimos Campeonatos Brasileiros foram sofríveis, que dirá os Estaduais. Fora raros lampejos individuais, a qualidade dos jogos vai do horroroso ao medíocre.

Neste ambiente, dominado por estrelismos e vaidades, não é de se admirar que seu jornalismo tenha como estrela máxima uma criança mimada que o transforma num circo grotesco.

Se não há coisas boas para se falar, falemos das ruins. Ou melhor, criemos coisas ruins, para termos sobre o que escrever. Vamos distribuir intrigas, salgar feridas, provocar desafetos, alimentar boatos. Depois fazemos graça com os resultados e apontamos os personagens. Riremos nós, ao menos.

E assim, desta forma já claudicante, caminhamos a passos largos para um fracasso épico, dentro de nossa própria casa. Mano Menezes não é sombra de técnico e suas convocações inconsistente transbordam incompetência. Símbolo de um esporte que endeusa felipões, leões e outros animais, embora recompense-os regiamente, por resultados jamais entregues.

Para piorar isso tudo, nessas fogueiras de vaidades são forjados os ídolos das próximas gerações, garantindo a perpetuação da mediocridade. Moleques imberbes, recém-saídos da adolescência servem de exemplo aos mais novos, espalhando valores frouxos e atitudes inconsequentes.

Em muitos casos, o esporte serve como base para a formação de caráter. Do futebol, especificamente, uma herança perversa está moldando uma juventude torta, desvirtuada. De torcedores passamos a espectadores. O que seremos em seguida?

3 pensamentos em “O país do futebol… mixuruca!”

  1. Ótimo texto!
    O padrão técnico e a própria evolução do futebol brasileiro são enraizados no alicerce cultural do país. É um problema intelectual.
    Pode-se, infelizmente, trocar o assunto por outro que dá na mesma. Se fosse um texto sobre educação, política, arte, tecnologia ou ciência o resultado seria o mesmo.

  2. Caro Rodlfo, disse tudo. O futebol é e sempre foi um esporte coletivo com alguns destaques individuais. Mas aqui no Brasil, impera o individualismo anunciado com todos os holofotes pela imprensa que não é nada isenta. Parabéns também por ter chamado a atenção para o fato de que o futebol era um modelo de formação, mas agora desperta sim, valores frouxos nessa juventude carente de valores sólidos, base para mudar muita coisa nesse país, de futebol à política.

  3. Agência de futebol ou time de marketing?

    Nem esfriou o meu texto sobre o péssimo momento do futebol brasileiro e já vemos outras claras demonstrações de que o cenário pode ser mais sombrio do que parece. Desde que o esporte tornou-se um negócio multimilionário, o futebol em…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *