O lado negro do racismo

Já faz algum tempo que a leitura habitual de jornais é coisa do passado para mim. Em nada me acrescenta saber os pormenores do mais recente escândalo de corrupção, detalhes do último crime hediondo, nem análises das chances de cada um no próximo paredão – o que, definitivamente, virou pauta dos jornais antes sérios.

Exceto ligeiras variações nos nomes dos envolvidos, as histórias se repetem indefinidamente. Como minha mãe ainda cultiva tal hábito, cabe a ela apresentar-me as bizarrices do dia. Assim, peço à leitora, antecipadamente, um voto de confiança para acreditar no que escrevo a partir de agora, dada sua aparente inverossimilhança.

O mercado: esse eterno opressor das minorias
O mercado: esse eterno opressor das minorias

Eis que em dado domingo, um preocupado cidadão passeava pela Feira Hippie, em Ipanema, e estranhou o fato de duas bonecas diferentes, ainda que parecidas, serem vendidas por preços distintos numa mesma banca.

Ao zeloso especialista, que entende muito de bonecas e pouco de comércio, não ocorreu que uma pode ser mais cara por vender mais, por gastar mais material, ou por dar mais trabalho na sua confecção. A única explicação coerente com seu cérebro de pano era que a boneca mais cara era branca e a mais barata era negra.

O caso foi parar na coluna do Ancelmo Gois – que se presta a esse tipo de papel – e aterrissou no Conselho Estadual dos Direitos do Negro, ávido por uma notinha de rodapé.

Como toda ONG que ainda não descobriu sua utilidade, o CEDN resolver desperdiçar uma ótima oportunidade de não se envolver: anunciou que enviará três (!!!) representantes à feira para checar os preços das bonecas.

Caso a entidade conclua que o preço deve-se à diferença de cor das bonecas (três pessoas precisam ir lá para concluir isso?), ela vai denunciar a artesã ao Ministério Público (que também não tem nada mais importante para fazer) pelo crime de… racismo!

Se a boneca branca é mais cara, claro que é porque ela vende mais do que a preta – e isto já é motivo suficiente para os preços serem diferentes. Agora, o motivo de a boneca branca vender mais é outra história completamente diferente.

Pode ser porque há mais brancos do que negros na feira; pode ser porque só as crianças brancas têm dinheiro; ou pode ser que exista uma escola de balé na região. Qualquer que seja o motivo, a artesã não tem absolutamente nada a ver com isso!

O CEDN corre o sério risco – e esta é a única coisa séria desta história – de ser transformado em piada quando:

Minicraques– Compradores de automóveis pedirem o fim do racismo nas concessionárias, onde o pobre carro preto custa mais barato do que todos os outros;

– Exigirem que o mini craque do Adriano Bolota tenha a mesma cotação da figurinha do Bebeto. Aliás, por que eles não brigam pela isonomia dos preços dos jogadores de futebol? O Messi vale mais do que o Eto só porque é branco?

– Pedirem o estabelecimento de cotas para a Barbie negra e o Ken mulato;

– Precisarem explicar o que realmente fazem, quando não estão se metendo neste tipo de palhaçada.

Claro que a causa do racismo é nobre e justa, mas este tipo de ação envergonha aqueles realmente engajados, além de expor as ONGs a mais um ridículo desnecessário. Não é usando uma artersã de uma feira popular que eles chamarão atenção para o problema, muito menos buscando destaque numa coluna de jornal que já foi séria e hoje destina-se às fofocas.

A menos que este seja o único e real objetivo da presepada. Porque imagino que os movimentos legítimos de defesa das minorias queiram uma igualdade que vá além das barraquinhas de feira.

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NOTA: caso alguém do CEDN chegue a ler este texto, entre uma importantíssima diligência e outra, adianto que não inventei a conotação pejorativa da cor negra e só troco o título se o caso for parar no Ratinho. Ou então vou dizer que não lembro de ter escrito o texto, porque me deu um branco. Não, branco não…

6 pensamentos em “O lado negro do racismo”

  1. Caro Rodolfo, em poucas palavras, novamente disse tudo. A causa é justíssima, mas esses ocorridos realmente não têm nada de isentos. Fico imaginando se a Artesã for de cor Negra, o que esse distinto senhor que inciou tudo isso dirá?
    A grande discussão sobre discriminação que todos deveriam mover é a discriminação à saúde, educação, segurança; que os Políticos nos impingem, pois eles t~em tudo isso de montão, e com suas políticas, leis, decisões judiciais, interesses e atitudes de corrupção tiram de todo o resto da população, discriminando-as, independente de sua raça.

  2. Sabe, sinto que o uso da palavra racismo em vez de discriminação ou preconceito é um fator que gera este tipo de conclusão equivocada.Todas as pessoas são racistas, isso é inerente á condição humana na classificação e reconhecimento dos grupos humanos,seja positiva ou negativamente(antes de criticar a afirmação,pense bem,veja lá no fundo aquele que você julga ser menos,digno de ir ao inferno,lesado, perdedor,superior, melhor,em vantagem ou que te geram sentimentos do gênero).Sempre há um grupo que despreza a outro seja por raça,cultura ou condição social. Seria racista dizer que o indiano é indiano? Sim.Como identificativo.Imagine você anular esse conhecimento. O censo usa o racismo,a biblia e até nosso sistema de ensino.É natural.
    O que acontece , por exemplo quando uma pessoa que sofre de ciúmes confessa seu sofrimento á outro ciumento??Mesmo que o ouvinte diga que é errado, lá no fundo há compreensão e entendimento.Mesmo que o ciumento continue a sofrer,nada é feito,pois o sentimento é conhecido de muitos.O mesmo acontece quanto ao racismo.Se procurarmos racismo por racismo, encontraremos em toda parte.Violência gerada por esse motivo, é que é o problema e deve ser duramente punida criminalmente.E como vivemos um tempo onde botamos assuntos sérios em um jornal e eles resultam em nada sistematicamente,as coisas vão se esvaziando de utilidade e significado.Creio ser o motivo de levarem ao publico mistakes como essa.E o pior, tem gente que aceita,acende as tochas e vai á rua,não percebendo que eles mesmos são o fator violência no tocante ao racismo…Fácil como confundir igualdade como obrigação de sermos identicos em tudo, enquanto igualdade é como um manto que deve cobrir a todos,seja qual for seu formato,com os mesmos direitos.
    Bjo.

  3. Rodolfo, creio que o racismo no Brasil é muito difícil de ser combatido, porque ele é velado e até envergonhado. Nos esquecemos de nosso passado escravocrata (ou nos fazem esquecer…) e de como foi feita a transição dos “negros libertos” em nosso país para um povo livre. Nenhum trabalho de integração foi realizado, sendo somente a poucos anos iniciado o trabalho das, muito discutidas, cotas universitárias. Me recordei de um artigo da The Economist, de janeiro deste ano, que faz um belo apanhado sobre esta questão no Brasil. (disponível aqui: http://econ.st/zxh83V) Como aprendemos desde pequenos, no Brasil tudo esconde algum interesse, neste caso fico na dúvida: Quem esta ganhando com esta situação? Porque nossa mídia não publica matérias como esta da Economist?
    Abraços.

  4. É por isso que agora eu chamo o antigo bolo “nega maluca” de mulher afro-descendente com deficiência mental.
    Concordo plenamente: há exagero sim, e não só com relação a raça. Por vezes me sinto excluído da sociedade por não pertencer a algum grupo injustiçado.
    Não é dando privilégios que se acaba com as diferenças.

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