Um brinde à ineficiência

Aproveito o mais recente capítulo da pendenga comercial entre Brasil e Argentina para voltar a um tema que tem sido frequente aqui: o subdesenvolvimento da indústria nacional.

Temendo pela sobrevivência das vinícolas brasileiras, os mui habilidosos diplomatas brasileiros resolveram aumentar o imposto de importação dos vinhos argentinos, passando a alíquota de indecentes 27% para inescrupulosos 55%. Além disso, a medida prevê limites de cotas e uma autorização, que pode levar até 60 dias para ser concedida.

A justificativa para a Circular no 9, da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Indústria e Comércio, é que o produto nacional vem perdendo competitividade frente ao importado. Ora, mais uma vez é o rabo balançando o cachorro: em vez de preocupar-se com a causa (a baixíssima produtividade da Indústria Nacional), ataca-se a consequência, garantindo a perpetuação do problema.

Quem precisa de vinho argentino?
Quem precisa de vinho argentino?

Se o vinho nacional não tem competitividade, é um problema interno, não externo. É como culpar os carros importados por serem melhores do que os nossos. Este mesmo raciocínio estúpido e deturpado fez com que toda a nossa indústria ficasse parada no tempo, sustentando a ineficiência às custas de um consumidor sem opção.

Este caso é um exemplo de como minorias barulhentas agem em detrimento do restante da população, através de lobbies e outros grupos de interesse. Segundo Bazerman e Watkins (Predictable Surprises: The Disasters You Should Have Seen Coming, and How to Prevent Them), “são grupos que buscam ganhos para seus membros com pouca ou nenhuma preocupação com o efeito global de seus objetivos para a sociedade, mesmo que tais ganhos sejam muito menores do que o seu custo social” (p. 125).

Em 2002, trinta países membros da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômicos) gastaram US$ 311 bilhões em subsídios agrícolas – ou o equivalente a todo o PIB da África. 35% da renda de agricultores europeus vem de subsídios do governo, enquanto que nos EUA este número fica em 20%.

Na mesma América, foram gastos em 2001 US$ 87 bilhões em programas assistenciais (Aid to Families with Dependent Children, Medicaid etc.), contra US$ 167 bilhões em subsídios.

Segundo o Banco Mundial, e União Européia paga aos pecuaristas um subsídio anual de US$ 913,00 por cabeça de gado. Dá US$ 2,50 por dia, por vaca, enquanto um bilhão de pessoas sobrevivem com menos de US$ 1,00 por dia.

Outro efeito destes subsídios é que ao incentivar uma produção excessiva os governos derrubam os preços no mercado mundial: commodities como café, cacau, arroz e açúcar tiveram desvalorização de mais de 60% entre as décadas de 1980 e 2000, com impactos desastrosos para os países que dependem de exportações.

Já os efeitos internos dos subsídios são igualmente nocivos. Suponha que determinada medida do governo vise proteger 20.000 empregos da indústria de calçados, ameaçada pelas importações da China. Como resultado, deixamos de comprar sapatos R$ 20,00 mais baratos. Se cada pessoa no Brasil comprar um sapato por ano, estaremos pagando R$ 3,6 bilhões para proteger 20.000 empregos – ou R$ 180.000,00 por emprego.

Claro que é uma conta idiota, feita com dados fictícios, mas o que ela mostra é que o custo dos subsídios, frente ao benefício esperado pode não valer a pena. E estamos considerando apenas sapatos. Some-se a eles os subsídios do trigo, feijão, café, leite e derivados, carne, frango, automóveis, combustíveis…

É um preço alto demais, para gente de menos, empurrando nossa paupérrima indústria nacional cada vez mais para o buraco. Tin-tin!

7 pensamentos em “Um brinde à ineficiência”

  1. Engraçado,que hoje eu também fiz um comentário no Yahoo Brasil sobre o tema de barreiras aos produtos argentinos novamente virem à tona. Mencionei o fato da União Europeia não estar nem um pouco interessanda em ajudar a falida Grécia e que para eles (Alemanha e França) seria melhor chutar o traseiro dos gregos à la Valcke.
    Voltando a terra dos “sudacas”,vejo como a nossa união – Mercosul – vem fazendo o mesmo com os países em crise,no caso a Argentina e,que nos mostra que o bloco sulamericano caminha para o mesmo abismo que os primos ricos. Se o Mercosul é uma área de livre comércio,não dá para entender realmente o que querem esses políticos.
    Bom,aliás eu sei,e você,também.
    Um brinde ao Cantina da Serra!

  2. Entendo toda a argumentação e concordo, menos com a parte do vinho argentino/brasileiro. OK, concordo, mas discordo. Explico.
    A “desculpa” oficial é a de proteção ao vinho brasileiro, mas se fosse esse o caso mesmo, o imposto deveria ser aumentado pra toda importação(chilenos, uruguaios, franceses), não somente para os argentinos. Não há sentido, a menos que o vinho argentino represente uma parcela muito grande do comércio nacional, digamos, mais de 50%(chutômetro), em barrar somente o dos hermanos, portanto isso me parece mais específico contra a Argentina, possivelmente uma espécie de retaliação por causa do problema com as concessões revogadas à Petrobrás em território argentino.
    Obviamente a medida não vai ter efeito algum nas terras tupiniquins, uma vez que ainda teremos a preços “bons” toda sorte de vinhos importados, menos os argentinos. Quem perde mais nessa medida é a Argentina.

  3. A aplicação de barreiras comerciais e proteções depende do contexto. Dependendo do grau de desenvolvimento de um setor, torna-se necessário protege-lo ou ao contrário trazer concorrência.
    Uma boa referência sobre questões como livre comércio e protecionismo pode ser encontrada no livro “Maus Samaritanos” de Ha-Joon Chang. Nesse livro há o exemplo da Toyota que foi protegida durante sua fase inicial de produção de automóveis. Se hoje vemos o Toyta Corolla como um produto campeão de vendas e de qualidade, no ínicio os carros da Toyota eram vistos como lixo.

  4. JottaElle, entendo que o contexto deve ser considerado. Mas no caso da indústria vitivinicultora, ela já é secular. Entendo que já tenha tido oportunidades suficientes para se desenvolver. Se não teve, as medidas do Governo deveriam focar no seu próprio crescimento – e não barrando a concorrência.
    No caso da Toyota, ela floresceu no mercado americano – e isto não aconteceria se os EUA impusessem barreiras comerciais à montadora japonesa.
    Abraço, Rodolfo.

  5. Aiás, vale comentar algo que disse em um post sobre o assunto: Vinho – para ficar neste caso – é uma escolha baseada em gosto. Eu, por exemplo, acho o vinho brasileiro pavoroso. Não importa qual seja, do Sangue de Boi que eu tomava com 16 anos até o que consideram chique e “bom”. Não gosto.
    Meus favoritos sequer são os chilenos, apesar de ótimos, mas os espanhóis/bascos e franceses/provençais, em especial os da Rioja Alavesa e Pays D’oc. Ou seja, escolho não pelo preço ou por barreiras estúpidas, mas por gosto, pelo prazer do vinho. Logo, não faz o mais remoto sentido em se impor barreiras ao vinho de fora para forçar o consumo do, em geral, péssimo vinho brasileiro. Para muitos como eu é mais fácil aprar de tomar vinho que ser forçado a tomar o local.
    É uma estupidez e um stalinismo brasileiro que me deixa sem palavras, aliás, qualquer semelhança com a política da Ditadura – não à toa Dilma é Geisel de Saias – de substituir importação não é mera coincidência. E alguém lembra dos resultados da política da ditadura?
    http://www.tsavkko.com.br/2012/03/sobre-proibicao-de-vinhos.html

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