As periguetes e os virgens

Enquanto elas se preparam para seduzir quem vier pela frente, eles se concentram em estratégias para resistir aos cantos destas sereias modernas.

Capa da última Veja São Paulo (O ataque das periguetes), o perfil das atrevidas moçoilas inspira-se em mais um exemplo duvidoso, oferecido sempre em abundância pelas novelas globais.

Herdeiras das popozudas do funk e das maria-chuteiras do futebol, elas podem se diferenciar no estilo ou ambiente, mas não negam suas origens e confirmam o DNA volúvel, superficial, narcisista e interesseiro.

Forever alone por opção?
Forever alone por opção?

Do lado diametralmente oposto, surge o movimento Culto dos Príncipes: um grupo de rapazes com inclinações religiosas buscando reafirmar os valores da abstinência sexual, da castidade e, de preferência, da virgindade.

Cientes de que a tarefa não é fácil – afinal, as periguetes estão aí – os líderes do grupo sugerem que se atravesse a rua ao deparar-se com tentações ou, então, orar para espantar os desejos, reconhecendo que estão lutando contra algo natural.

Como de hábito, o peso dos pecados – e sua associação com o demônio – é distorcido para justificar alguns ensinamentos: “Biblicamente, beijo de língua não é pecado. Mas comida também não é e te leva à gula.” A frase usa a famosa hipérbole de Shoppenhauer, exagerando o lado que se quer invalidar para criar uma dicotomia que não existe. Usando o mesmo raciocínio, com a mesma analogia, pode-se dizer que sem comida a pessoa morre.

Confirmando que merece fazer uma matéria dessas, o repórter lança a inacreditável pergunta: “Por que se masturbar é pecado se Deus nos fez de braços longos?” Uma situação típica em que não sabemos quem está zombando de quem.

E quando questionado sobre o que fazer quando o desejo reprimido transforma-se em dor física, um missionário responde que Jesus resistiu a dores maiores. Este, certamente, não deve usar anestesia no dentista.

Até entendo que esses rapazes não queiram se relacionar com as periguetes, mas novamente estão tomando um exemplo extremo como regra. Não há dúvidas de que essas moças tenham valores incompatíveis com seus ideais, mas daí a negar o sexo feminino como um todo vai uma enorme distância. Soa como a criança que desdenha daquilo que não consegue ter.

A reportagem da Veja São Paulo traça o perfil da periguete:

Sem vergonha de ser sem-vergonha
Sem vergonha de ser sem-vergonha

– Moças de vinte e poucos anos, mas já veteranas na noite, aproveitando-se da permissividade das casas noturnas (crime), aliada ao uso de documentos falsos (crime).

– Pouco gastam na noite, porque não pagam entrada (fazem de tudo por um camarote) e há sempre um interessado em bancar sua recreação alcoólica, composta de fortes destilados diluídos em energéticos, que haverão de transformá-las em bêbadas deprimentes ao final do expediente.

– Repetem um ensaiado discurso sobre princípios e caráter, mas só se aproximam de quem puder garantir as mordomias que acreditam merecer. Parecem orgulhosas em dizer que já recusaram dinheiro em troca de sexo, ignorando que a oferta em si revela muito sobre a imagem que transmitem.

– Roupas curtíssimas e apertadas, marcando o corpo cultivado com muita malhação, anorexia e eventuais cirurgias, na tentativa de compensar a característica falta de cérebro.

Sem saber – até porque o raciocínio não é o forte delas – essas moças reforçam um ciclo vicioso do qual elas talvez se ressintam mais tarde: a falta de relacionamentos sérios.

A razão mais óbvia é que é difícil levar a sério alguém com este perfil. Uma outra, mais sutil, surge quando você analisa o problema sob a ótica da oferta e da demanda, como fez Tim Harford em The Logic of Life.

Grandes centros urbanos caracterizam-se por uma maior prevalência de mulheres em relação aos homens. São Paulo, por exemplo, tem cerca de um milhão de mulheres, digamos, sobrando. Como em qualquer mercado, o excesso de oferta faz o preço cair. Então a disputa fica mais acirrada e começam as promoções. A alta disponibilidade, por sua vez, faz com que o comprador não precise escolher uma, já que pode ter todas.

O lado positivo dessa história – se é que existe um – é que não há nenhuma chance de estes dois grupos se misturarem. Seria trágico ver uma geração resultante de fanáticos religiosos com meninas de caráter duvidoso.

6 pensamentos em “As periguetes e os virgens”

  1. Nossa… vou apelar para o que já virou ridiculamente comum: tanta coisa acontecendo por aí e é isso que sai na capa?
    Eu não vi a revista (mesmo pq nem sou de Sampa), mas achei que você mandou muitíssimo bem: “Confirmando que merece fazer uma matéria dessas, o repórter […]”. Trecho felia, engraçado e perfeito.
    Para isso ser capa da revista, há de se esperar que o repórter e o corpo editorial sejam da mesma qualidade! E a Veja continua ofendendo o intelecto de alguns… e agradando a tantos outros. ⎝╰_╯⎠

  2. Que bom texto! Necessário sim comentar essa questão das piriguetes x fanáticos religiosos. A questão das piriguetes está muito em evidência e tem muita moça de “conteúdo” que eu conheço se vestindo e agindo igualzinho… é o fenômeno da moda, a necessidade de exposição, enfim todos os fatores que vc enumerou.
    Quanto à Veja, nem comento que é prá não aumentar o Ibope.
    Abraços,

  3. “não há nenhuma chance de estes dois grupos se misturarem. Seria trágico ver uma geração resultante de fanáticos religiosos com meninas de caráter duvidoso”
    KKKKkkkkk
    Eu não estaria tão certo disso se fosse você 😛

  4. Conteúdo de pelúcia

    Como é comum em muitos mercados, a imprensa obedece, também, às dinâmicas de oferta e demanda, entregando ao seu público aquilo que ele deseja ter. Por isso temos sexo e sangue na novela das oito, sexo e sangue nos telejornais…

  5. um milhão de mulheres a mais.. se essa proporção tende a se manter estável ao longo do tempo então a solução é (estimular) aumentar o número de fanáticos religiosos..
    o valor da commoditie PIRIGUETE forçosamente tenderá a baixar..

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