Despojos de um mundo perfeito

Uma das coisas mais interessantes que aprendi com a Economia Comportamental é que quando você quer entender o comportamento de uma pessoa, precisa conhecer suas motivações, seus incentivos. Que tipo de objetivos pessoais faz com que alguém tome esta ou aquela atitude, com maior ou menor dedicação?

Isto vale para pessoas e empresas. Descubra o que a pessoa (ou organização) está buscando e você será capaz de prever suas ações. Mas se você se deixar levar pela primeira impressão, provavelmente errará – e terá a companhia de quase toda a humanidade.

Nossos desejos e vontades são bem mais complexos do que imaginamos – ou nossa paciência/dedicação em decifrá-los esgota-se bem antes. As motivações são tão obscuras que, não raro, desconhecemos nossas próprias. A Psicologia Experimental está aí para comprovar isto.

Como se vende jornal num mundo perfeito?
Como se vende jornal num mundo perfeito?

Isto posto, proponho a seguinte reflexão: que tipos de serviços sumiriam se o mundo fosse perfeito? Ou ainda: que setores da economia aproveitam-se das imperfeições ou mazelas do mundo?

Um exemplo banal: quando a telefonia era estatal – e uma porcaria – havia centenas de empresas que alugavam linhas de telefone. Embora você estranhe isto se tiver nascido de 1990 para cá, era uma realidade com a qual convivíamos.

Estas empresas baseavam sua atividade na precariedade de uma determinada situação. Elas se aproveitavam de uma falha, sem que tivessem culpa disso. Mas se pudessem escolher, prefeririam que a telefonia continuasse um lixo.

Mas voltemos aos dias atuais. A violência, por exemplo, faz prosperar a indústria da segurança privada, das armas de fogo e do seguro patrimonial, dentre outros. Do mesmo modo, boa parte da imprensa baseia-se em más notícias, em escândalos, guerras, homicídios, assaltos, massacres, fofocas, crises econômicas, bizarrices, escatologia, corrupção.

Imperfeições vendem jornais, anúncios, assinaturas. O que você leria no jornal de um mundo perfeito? Para quê compraria um jornal se não estivesse pensando em trocar de carro – e desconhecesse os classificados online? Então que interesses estas indústrias têm em ver um mundo melhor?

Agora volte ao início do texto, quando explico que você precisa saber as motivações das pessoas ou empresas para entender suas ações. E lembre-se disto na próxima vez em que estiver lendo jornais ou qualquer outra fonte de informação. Baseado nos interesses desta publicação, o quanto você deve confiar no que está escrito?

3 pensamentos em “Despojos de um mundo perfeito”

  1. O desserviço da imprensa

    Mais de uma vez, ao revisar textos, atitudes ou crenças, senti uma firme convicção de que eu era um irremediável pessimista. Consigo, inclusive, imaginar a leitora acenando com a cabeça, concordando. Ao terminar de ler The Optimism Bias: A Tour…

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