Pai patrão

Acompanho intrigado um processo trabalhista que ganhou a mídia, no qual o reclamante acusa seu ex-empregador de assédio moral. A suposta vítima responsabiliza a Ambev por obrigá-lo a participar de reuniões de vendas em que garotas de programa desfilavam nuas e eram oferecidas como prêmios por alcançar metas de vendas.

Já ouvi diversas histórias tristes de gente que trabalhou na Ambev, falando de seus métodos pouco ortodoxos de trabalho. Além da lavagem cerebral que proíbe seus funcionários de consumir qualquer produto do concorrente, há um regime de trabalho extremamente puxado e uma exagerada competição interna – sempre incentivada pelos gestores.

Se a publicidade é assim, o que você espera da empresa?
Se a publicidade é assim, o que você espera da empresa?

Mesmo estas práticas gerenciais sendo públicas e notórias, a Ambev continua sendo o sonho de consumo de muitos profissionais – especialmente de trainees.

A razão é muito simples: a política de remuneração da empresa é agressiva, isto é, ela paga muito bem.

À primeira vista, os candidatos parecem dispostos a trocar um quinhão da sua dignidade por dinheiro. Aceitam colocar a ambição profissional antes de seus valores pessoais.

Uma vez lá dentro, no entanto, percebem o erro que cometeram – ou o quão fracos são.

Havia, porém, outra coisa que me parecia estranha na reportagem: se o funcionário estava tão insatisfeito com as normas da empresa, por que simplesmente não pedia demissão? Ou por que não fazia uma denúncia formal à área de governança corporativa?

A resposta estava um pouco adiante: ele queria ser demitido, mas a companhia não concordava. Ou seja: ele queria receber mais dinheiro, para deixar a empresa por sua livre e espontânea vontade.

A prática – pedir para ser demitido para receber a multa de 40% do FGTS, além do direito de sacar o fundo – é tão disseminada que ninguém questiona sua legitimidade, tampouco sua ética. Por conta disto, o rapaz da reportagem conta que ficou mais dois anos na Ambev, até que sua demissão fosse liberada – e ele pudesse se livrar do ambiente que tanto lhe fazia mal, coitado. E aí, mesmo conseguindo a demissão como queria, entrou na Justiça do Trabalho contra a empresa, por assédio moral.

Ora, a regra faz parte da Consolidação das Leis do Trabalho e seu objetivo é garantir alguns direitos básicos do trabalhador. Mas, como tantas outras coisas no Brasil, ela acabou tomando ares de direito adquirido e passou a ser exigido mesmo por aqueles que tomam a decisão de se desligar do seu empregador. O trabalhador pega, então, algo que deveria proteger-lhe e usa como arma contra seu patrão.

Este mesmo trabalhador depois vem reclamar que faltam empregos com carteira assinada, que a empresa quer pagar por fora ou contratar através de pessoa jurídica. Este mesmo trabalhador depois reclama que o custo Brasil é muito alto, que os impostos oprimem a classe média e que os políticos têm muitos benefícios.

Quando este trabalhador for reclamar na imprensa – ou na Justiça – que se sentia um lixo ao trabalhar ao lado de garotas de programa, deveria pensar antes em quê ele difere delas. Fora o fato de desprezá-las gratuitamente.

3 pensamentos em “Pai patrão”

  1. Nada mais a acrescentar.
    Penso o mesmo de grevistas. Se acham o trabalho tão ruim ou tão mal recompensado, bastaria que se desligassem e procurassem outro.
    Seu último parágrafo foi sensacional!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *