O desserviço da imprensa

Mais de uma vez, ao revisar textos, atitudes ou crenças, senti uma firme convicção de que eu era um irremediável pessimista. Consigo, inclusive, imaginar a leitora acenando com a cabeça, concordando.

Ao terminar de ler The Optimism Bias: A Tour of the Irrationally Positive Brain (Pantheon, 2012), de Tali Sharot, surpreendi-me ao reclassificar-me como um otimista nato. Embora isto pareça incoerente com as opiniões aqui publicadas, há uma explicação bastante simples para tal constatação: sou uma pessoa que acredita firmemente na bondade humana.

Minha crença tem pouco a ver, no entanto, com pirações new age, inclinações religiosas, ou isoladas manifestações de amor ao próximo. Como em outras áreas da minha vida, baseio meus instintos na Ciência. Diversos estudos já sugeriram que o homem é um ser gregário, amoroso, empático, caridoso. Aqueles que se desviam deste tipo de conduta representam, portanto, a exceção, não a regra.

Um forte indício em favor desta observação está no excepcional documentário Sex, Death and The Meaning of Life, de Richard Dawkins. No primeiro dos três episódios (assista abaixo, no YouTube), Dawkins entrevista o psicólogo canadense Steven Pinker, autor do provocante The Better Angels of Our Nature: Why Violence Has Declined.

Professor de Psicologia em Harvard, Pinker baseia seu livro em estatísticas oficiais sobre crimes e sua conclusão é a de que os índices de violência vêm caindo sistematicamente no mundo inteiro. Nos últimos 40 anos, por exemplo, os estupros diminuíram 80% nos EUA.

Mas por que será que, de uma forma geral, nossa impressão é a de que a maldade vem, ao contrário, aumentando? A resposta está no que os próprios psicólogos costumam chamar de viés de disponibilidade: tendemos a acreditar que o que lembramos mais facilmente é, de fato, o que mais acontece.

Em outras palavras, quando algo é extensamente publicado, noticiado – e, por isso, não sai da nossa cabeça – somos levados a acreditar que aquilo é muito mais frequente do que realmente é.

Na prática, é isto o que acontece quando você assiste um programa do Datena, no qual ele passa três horas falando de crianças molestadas, idosos espancados e assassinos ensandecidos. Você imediatamente imagina que o mundo está acabando. Mas a verdade, felizmente, está bem longe disto.

Boa parte da mídia, no entanto, é ocupada por este tipo de programação, ou dá destaque exagerado a estes eventos. Por causa do viés de disponibilidade todos ficamos, então, com a sensação de que o mundo é habitado por criaturas terríveis. E todos passamos, assim, a tratar os outros como criaturas terríveis.

Mas por que este tipo de programa policial pseudo-jornalistico proliferou na última década, especialmente nas TVs abertas? Porque isso dá audiência e vende jornal. Porque o público gosta. Porque o público quer ver sangue. Porque o público é sádico.

A verdade é que o mundo está melhorando. Nunca foi tão bom. Nunca tivemos coisas tão sensacionais. Nunca houve tanta tolerância, aceitação e respeito – o que não significa que não exista, ainda, um longo caminho a percorrer. E mesmo assim insistimos em achar tudo uma porcaria.

Claro que há lugares onde realmente (quase) tudo é uma porcaria. Nossa política é um antro de corrupção. A violência no Brasil ainda é uma aberração – e honestamente eu não saberia dizer para onde apontam as tendências.

Mas acredito sinceramente que são pontos fora da curva dentro de um cenário mais amplo. E nenhuma destas exceções deveria fazer com que acreditássemos no destino sombrio que a imprensa nos sugere diariamente.

Pense nisso na próxima vez em que assistir a um noticiário. Por que a imprensa fala tanto de violência? Por que as pessoas assistem tanto estes programas? Por que eu assisto?

7 pensamentos em “O desserviço da imprensa”

  1. Sr. Rodolfo!
    Sobre o argumento principal texto, eu concordo! A forma sensacionalista com a qual a imprensa trata casos de violência é o principal vetor da sensação de insegurança que vivemos. Me irrita sobremaneira minha família assistindo programa policial na hora do almoço, por exemplo. Querem ver sangue, a carnificina escancarada.
    Sobre sua crença: “sou uma pessoa que acredita firmemente na bondade humana.” Tenho uma observação pra fazer…
    Sendo um libertário convicto, não me dou ao direito de questionar sua liberdade de crer firmemente na bondade humana. Mas penso que o paradigma “o homem é bom” assim, taxativo, deve ser questionado.
    Primeiro porque bom ou mal são conceitos amplamente subjetivos e culturalmente dependentes. Em algumas civilizações indígenas, por exemplo, é algo “bom” matar crianças deficientes logo após o nascimento. No longo prazo, se está preservando a civilização.
    Na minha perspectiva, seria interessante tratar dos conceitos de “mal” e “bom” com a utilização de algumas abordagens que permitam olhar a coisa com mais profundidade.
    Veja que a Economia Comportamental tentou afirmar categoricamente por vários anos “o homem é bom e altruísta”, mas tem sido fortemente questionada pelos últimos estudos de John List.
    Sob outra perspectiva, há também a abordagem econômica da natureza humana, a qual atualmente faz mais sentido pra mim. Ela afirma que reagimos a incentivos, nesse sentido os conceitos de mal e bom são apenas subprodutos do contexto econômico, regulatórios e psicológico a que estamos submetidos….
    Perdoe-me se estou tentando ensinar a missa ao vigário, mas acho que valeria muito a pena ler um post seu que tratasse desse assunto específico: “a bondade humana”.

  2. A crenças, suas dos dois personagens da entrevista, etc., devem ser respeitadas…Mas se a imprensa presta um desserviço explorando de forma sadomasoquista as perversas ações que permeiam em larga escala toda a humanidade, assim também faz este pessoal que insiste , dogmaticamente , em afirmar que estamos evoluindo.

  3. Os dois personagens não necessitam que suas crenças sejam respeitadas , pois muito dificilmente acreditam nelas. Apenas servem um prato para os incautos prontos para engolir qualquer coisa que falem e comprar seus livros e lhes dar ibope

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