À espera de um milagre

Toda essa gritaria em torno da presença do Deputado Marco Feliciano (PSC-SP) na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias na Câmara tem muita histeria e pouca razão. Antes que a leitora fique indignada, esclareço que não estou defendendo a pessoa do parlamentar, mas as condições através das quais ele chegou ao cargo.

Senão vejamos: Marco Antônio Feliciano teve 211.855 votos nas últimas eleições, fazendo dele o 13⁰ deputado federal mais votado de São Paulo (31⁰ no geral). E ele ainda ficou atrás de Paulo Maluf (PP-SP, 497.203 votos), réu em diversos processos criminais e de João Paulo Cunha (PT-SP, 255.497 votos), condenado à prisão pelo STF no caso do Mensalão. Ele tem, portanto, direito legítimo ao mandato.

Sua eleição para a CDHM*, acordada entre a lideranças dos partidos, obedeceu ao regimento da Câmara e é, assim, legal. O que é ilegal é a forma como os protestos estão se realizando durante as sessões da Comissão, provocando tumultos, gritando insultos e interrompendo os trabalhos parlamentares. Qualquer que seja a reivindicação, esta não é a maneira correta de fazê-la. No mínimo, fere a própria democracia.

- Um beijo para vocês que me colocaram aqui! (FOTO: Minervino Junior/BG Press)
– Um beijo para vocês que me colocaram aqui! (FOTO: Minervino Junior/BG Press)

Da mesma forma que as manifestações contra o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e os deputados João Paulo Cunha (PT-SP) e José Genoíno (PT-SP), a repulsa que ora se abate sobre Marco Feliciano está, no mínimo, dois anos atrasada. Ela deveria ter-se manifestado nas eleições.

Mas quando o povo vota em renans, genoínos e felicianos, está dando poder a quem repudia agora, que é tarde. Pior ainda é notar que os três parlamentares condenados à prisão foram acusados de envolvimento no caso do Mensalão muito antes das eleições.

Assim como são muito ateriores ao pleito os vídeos do pastor Feliciano, que tanto fizeram sucesso nas redes sociais, mostrando a forma vil como ele explora os frequentadores da sua igreja. Mais uma vez, a rejeição foi tardia.

Nada disso importa agora. O eleitor brasileiro não dá nenhum valor ao seu voto. O eleitor brasileiro não lembra em quem votou e, quando lembra, não sabe o que o seu representante faz no Congresso. O eleitor brasileiro só sabe reclamar e botar a culpa no outro. Não quer que o pastor com um forte viés conservador assuma uma Comissão que briga pelas minorias, embora assuma este risco no momento em que o elege. Não quer que futuros presidiários liderem a Comissão de Constituição e Justiça, mesmo sabendo que seu voto abre esta possibilidade. Aí não adianta ir para as tribunas da Câmara fazer algazarra.

A reboque deste imbróglio, outra discussão vem tomando forma: a força que a bancada evangélica tem conseguido na política.

- Quer que eu saia? Pede pra Ele...
– Quer que eu saia? Pede pra Ele…

Mas por que bispos, pastores, ministros e apóstolos estão ganhando espaço, tanto na política quanto em outros setores da sociedade? Simplesmente porque eles têm atitude.

Para os evangélicos, os milagres estão na Bíblia e, em escala muito maior, em seus templos. Mas quando chega a hora de atingir um determinado objetivo, eles põem a mão na massa.

Eles se mobilizam e eles agem. Eles entendem que petições on line são tão eficazes quanto galhinho de arruda atrás da orelha.

Assim, se você ainda está à espera de um milagre para que Feliciano deixe a presidência da CDHM, saiba que o lobby dele é muito mais forte do que o seu.

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*Os outros integrantes da CDHM são Domingos Dutra (PT/MA), Erika Kokay (PT/DF), Nilmário Miranda (PT/MG), Padre Ton (PT/RO), Liliam Sá (PSD/RJ), Anderson Ferreira (PR/PE), Keiko Ota (PSB/SP), Pastor Eurico (PSB/PE), Mário Heringer (PDT/MG), Henrique Afonso (PV/AC), Simplício Araújo (PPS/MA), Antônia Lúcia (PSC/AC), Otoniel Lima (PRB/SP) e Jean Wyllys (PSOL/RJ). A propósito, Jean Wyllys teve 13.018 votos.

Todas estas informações estão disponíveis para qualquer um que se interesse, nos sites da Câmara dos Deputados e do Tribunal Superior Eleitoral. Alguma vez você já acessou?

LEIA TAMBÉM: Aos cariocas.

6 pensamentos em “À espera de um milagre”

  1. Eu não sinto pena de quem recebe os resultados de suas próprias ações. Pelo menos nesse momento está havendo justiça. Isso aplica-se a indivíduos e a povos.

  2. Discordo sobre as petições on-line… tb são formas de ação válidas e legais. A coletividade pode fazer muito mais do que colocar as esperanças em uma só pessoa. Acho que a comparação com o galho de arruda não foi feliz… pq não tem o mesmo peso. Não acredito tb em fantasias, mágicas ou palavras… mas sim em ações que viabilizem a informação sem filtros ou manipulação pela mídia.

  3. É interessante como o povo só quer democracia quando democracia significa “impor o que EU acho que é certo a TODOS”. Acho que a própria eleição do Feliciano é um movimento contra esses diversos movimentos que tentam universalizar valores que não são universais. Há uma fração grande da população que não concorda, e viu no Feliciano uma (ou talvez a única) voz contrária. Democracia foi muito bem definida como “a tirania da maioria”. O grande problema dela é que todos os que não votaram no Feliciano são obrigados a aturá-lo… da mesma forma que todos os que não votaram no Renan Calheiros, no Sarney, e em qualquer outro.
    A idéia de que a democracia é capaz de levar a um mundo melhor pra mim não passa de uma ilusão. A ilusão de que é realista as pessoas terem que se envolver com todas as causas políticas ao mesmo tempo em que cuidam de todos os assuntos pertinentes à sua vida diária. Como se um representante de um grupo fosse capaz de… representar de fato todos os indivíduos de um determinado grupo.
    É engraçado que Hans Hermann Hoppe no livro “Democracia: o deus que falhou” afirma que uma das virtudes da monarquia sobre a democracia é que na monarquia é clara a idéia de que o povo nunca chegará ao poder. Na democracia o povo tem a ilusão de estar no poder, enquanto é espoliado e manipulado por poderosos e grupos de interesse.
    Abraços. Tirei o dia pra encher seus posts velhos de comentários. Hehehe…

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