A passeata e o passeio

It's not 20 Cents...
It’s not 20 Cents…

As recentes manifestações que se espalharam pelo país tomaram, em alguns momentos, ares de eventos contra a corrupção. Enquanto os líderes do movimento não se decidem contra o quê estão lutando, de fato, vamos a algumas ideias que me vieram à cabeça neste ínterim.

Como venho escrevendo, acredito que a corrupção não é um problema do político. É um problema do cidadão.
Além da parte mais visível da nossa índole corrupta – com gente que suborna policiais, fuma a maconha do fim de semana e consulta o twitter para fugir do bafômetro – há uma parte invisível e, talvez, ainda mais danosa: a omissão.

A corrupção é um evento que precisa de, no mínimo, dois agentes para se realizar: o corrupto e o corruptor. O corrupto, segundo entendimento popular, é o político que desvia verbas e enriquece ilicitamente. É o secretário que libera construções irregulares, o vereador que aprova incentivos criminosos e o prefeito que opera a quadrilha.

Ocorre que, independentemente da esfera, o político tem a chave do cofre, mas não pode pôr a mão lá dentro para pegar o dinheiro. Isto é: a verba não costuma sair das contas públicas diretamente para a conta corrente do político. Para isso ele precisa de ajuda. O dinheiro deve passar, antes, pelas mãos de um intermediário, normalmente um empresário. E este é o ponto em quê eu quero chegar.

Se, por acaso, você é um desses empresários, desejo-lhe uma morte horrenda e dolorida.

Mas como provavelmente você não é um desses empresários, então deve estar se perguntando o quê, exatamente, você tem a ver com isso. Simples: um empresário não movimenta uma empresa sozinho. Ele tem uma secretária. Ele tem um contador. Ele tem um motorista. Tem uma pessoa que emite as notas.

Não é possível que ninguém ache nada estranho vendo uma ambulância vendida por três vezes o valor de mercado. Não consigo acreditar que ninguém que trabalhe em uma empresa que faz falcatrua sequer desconfie que há algo errado ali.

Um amigo que trabalhava em uma empresa de transportes foi recolher, certa vez, um caríssimo equipamento médico em um hospital público – destes que periodicamente ilustram matérias sobre a falta de recursos na saúde. Após o término do contrato de comodato, a máquina continuava intacta no mesmo lugar onde havia sido deixada. A única coisa que havia mudado era uma camada de dois anos de poeira. Mas absolutamente nenhum exame fora realizado.

Todos na empresa de transporte viram a mesma coisa. Todos entenderam o significado daquilo. A empresa que alugou o equipamento sabia o significado daquilo. Vendedores, gerentes, técnicos, assistentes. Por baixo, somando todo mundo, umas cinquenta pessoas testemunhando um ato de corrupção. Mas ninguém fez nada.

Aposto que pelo menos uma pessoa que presenciou esta safadeza foi diretamente prejudicado por ela. Em algum momento precisou de atendimento de saúde, mas não o teve. E, ainda pior, não percebeu que aquilo também era culpa sua. Resultado da sua própria omissão.

Quando será que aprenderemos a defender nossos direitos? Por que assistimos calados enquanto nossos chefes estão roubando nosso próprio dinheiro? Por que somos tão bundões?

Se você acha que as recentes manifestações são uma demonstração de que o povo não é tão bundão assim, então você precisa deixar de ser ingênuo – e não estou me referindo a motivações políticas, tampouco ideologias. Simplesmente questiono o resultado prático disso tudo. Reduções de preços de passagem são esmolas.

Efeito prático é um estádio de futebol vazio em pleno jogo da seleção1. Efeito prático é a Câmara cassar imediatamente os mandatos dos condenados pelo Mensalão que lá se asilaram, para que eles sejam presos sem demora. Efeito prático é, principalmente, você não deixar mais a corrupção passar bem debaixo do seu nariz. Isso você pode fazer!2

Se você ainda não entendeu o teor do texto, aqui vai um resumo: DENUNCIE A CORRUPÇÃO. Senão sua passeata vira apenas um passeio.

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1. É bom não esquecer que a seleção brasileira de futebol é a representação da CBF, uma entidade privada que intermediou as negociatas da Copa, na gestão do amado Ricardo Teixeira. É para esta coisa bizarra que você está batendo palmas.

2. Outra coisa que você pode fazer é não votar mais nos mesmos safados de sempre. Não adianta um movimento colocar duzentas mil pessoas na rua, se mais do que o dobro disto votou no Maluf. Você não pode ficar quieto quando o seu vizinho diz que vai votar no Renan Calheiros, no Sarney!

4 pensamentos em “A passeata e o passeio”

  1. do meu ponto de vista Rodolfo, essas manifestações são fruto desse despertamento também sobre a índole. A nova geração que está aí não herdou totalmente os genes da corrupção e aos poucos isso vai se diluir.

  2. Cara, adoro seus textos. Vou para as manifestações, mas sempre com a impressão de que vários manifestantes são tão corruptos quanto os políticos. É um problema de cada pessoa, não só dos políticos.
    Esqueceram que políticos fazem parte do povo. Todos nós somos o povo.
    Quebraram carros e placas na minha frente os manifestantes e os policiais batem em quem não faz nada.
    Somos todos culpados de certa maneira.
    Vai demorar pra resolver problemas enquanto não pararem de achar que só os outros são culpados e o próprio indivíduo que reclama não erra, ou pode fazer uma besteirinha de vez em quando, que tá tudo certo.

  3. Saindo um pouco da corrupção inerente ao brasileiro, o que me incomoda é essa história do desperdício de dinheiro com a Copa. Se os brasileiros não se importassem tanto com futebol, o governo não teria se empenhado em trazer o evento para cá. Os políticos simplesmente cantam a música que a malta quer ouvir.
    E aí caímos no questão do comportamento do grupo. Que Brasil queremos? O Brasil do futebol, samba, sertanejo universitário, massacre nas estradas, caos na saúde, etc? Ou um Brasil de primeiro mundo com todas as responsabilidades que essa escolha acarreta.
    Pois não se engane, as mesmas pessoas que reclamam da Copa, vão assistir aos jogos pela televisão ao invés de ler um livro ou fazer alguma coisa produtiva. E continuarão jogando lixo na rua, levando seus cachorros para sujar a calçada alheia, desrespeitando leis de trânsito, incomodando seus vizinhos de condomínio, enfim, sendo os mesmos brasileiros de sempre.

  4. É por tudo isso que cada vez mais eu tenho certeza que a única solução pra isso é reduzir ao máximo o poder do governo. Onde há dinheiro público, sempre haverá grupos de interesse querendo fazer uso dele, e empresários ávidos por fazer negociatas e encher os bolsos. Seja através de corrupção, seja através da aquisição de subsídios, e quem paga a conta somos eu e você: o cidadão comum. E o Estado sempre vai estar lá pra te mostrar o quanto ele beneficiou, sem te dizer exatamente o quanto você perdeu pra receber esse “benefício”. Ou, uma metáfora interessante que eu li uma vez: o estado quebra suas pernas, te dá muletas e diz “Está vendo? Sem mim você não conseguiria andar!”.
    Cada vez mais eu creio que a raiz da corrupção e da passividade está no tamanho e na presença do estado na vida das pessoas. Quanto mais presente, maior vai ser a tendência das pessoas buscarem no estado a solução pros seus problemas, ao invés de botarem a mão na massa e irem resolvê-los elas mesmas.
    A qualidade dos seus textos continua ótima, Rodolfo. Tenho a impressão de que melhoraram com os anos. Abraços!

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