Censura para quem precisa II*

Gostaria muito que censurassem irrevogavelmente este debate em torno da Censura. É a coisa mais chata das últimas horas – dadas nossas infinitas pressa e criatividade em criar coisas chatas.

Até hoje li três ou quatro biografias na minha vida. Duas me impressionaram bastante: Chatô – O Rei do Brasil (Companhia das Letras, 1994), de Fernando Morais e O Anjo Pornográfico (Companhia das Letras, 1992), de Ruy Castro.

Na primeira, aprendi que Assis Chateaubriand criou um vasto império da comunicação do país valendo-se, várias vezes, de pura e simples chantagem a quem lhe atravessava o caminho. Na segunda, espantei-me com a figura inocente e semi-angelical por trás dos picantes romances e peças teatrais, cujos enredos eram compostos de uma vil mistura de sordidez, mesquinharia e sexo, muito sexo – além de descobrir que Nélson Rodrigues teve todos os seus dentes arrancados aos 21 anos, porque à época acreditava-se que isto era um tratamento adequado à tuberculose.

Nada como uma edição após a outra...
Nada como uma edição após a outra…

Biografias servem para trazer o lado humano de figuras sobre-humanas, salvo exceções. Funcionam, também, para contextualizar determinados fatos, certas atitudes e passagens específicas. E o resto.

Daí surgem duas categorias distintas: a história e a fofoca.

A história explica um pouco daquilo que o biografado viveu, contra o quê lutou, seus demônios e talentos, vícios e virtudes. É o que opõe o gênio da comédia ao pedófilo, o inventor do automóvel ao simpatizante nazista, o criador do cubismo ao adúltero.

Já a fofoca simplesmente sacia a incompreensível e nefasta sede por detalhes sórdidos da vida privada, não só dos famosos em geral, mas também das subcelebridades e dos ilustres desconhecidos como um todo. A vontade de conhecer os podres alheios como se isso aliviasse nossas próprias consciências, quase sempre pesadas.

Exemplo disso nota-se em um dos mais célebres casos de censura a biografias aqui no Brasil: Estrela Solitária (também de Ruy Castro, Companhia das Letras, 1995), sobre a vida de Garrincha. Nos debates pós-lançamento, o fato mais comentado não foi que ele era muito mais inteligente do que a mídia insistia em especular – e o folclore acabou por sacramentar – mas detalhes sobre a avantajada anatomia do jogador do Pau Grande (refiro-me ao time do bairro de Macaé-RJ, onde Mané nasceu, seus obscenos).

Daí já é possível separar o que se entende por biografia e o que apenas coleciona polêmicas para vender mais exemplares – bem como o público de um e de outro.

Em um outro extremo, vemos celebridades com destaque parecido antecipando-se e revelando, elas mesmas, seus mais íntimos segredos, suas piores passagens, seus mais loucos desvairios. Dois vêm imediatamente à mente: Lobão e Casagrande que, recentemente, expuseram ao escrutínio público fatos dos quais não se orgulham, que provavelmente prefeririam esconder, mas que são parte de suas vidas, traços de suas personalidades, resquícios de seus caráteres.

- Põe pra fora, filho!
– Põe pra fora, filho!

Curiosamente, ambos são figuras malditas, quase proscritas em seus próprios meios. Provavelmente por causa da autenticidade de suas opiniões e da franqueza de suas ideias, que sempre doem em quem deve doer. Algo virtualmente impensável para outros que acreditam pairar acima do bem e do mal, reinando em palácios com telhados aparentemente feitos de vidro.

Ocorre que todos eles dependem da mesma máquina de moer carne chamada mídia e, assim, precisam lidar com seus status de celebridades.

Este é o outro lado da moeda de depender de um público ávido por saber quem está comendo quem, quem faz xixi sentado e quem gosta de pipoca doce.

Este é o revés de ser notícia por fatos tão cotidianos como atravessar uma rua em Ipanema, comprar pão na Rio-Lisboa ou comer uma pizza na Guanabara.

Este é o ônus por vender tantos discos ruins e livros vazios, quanto os bons e geniais. É a cama da fama, muitas vezes desfeita e bagunçada.

Já falei demais sobre este interesse quase doentio que o público em geral tem por este tipo de inutilidade – e combater isso seria uma campanha muito mais útil na qual as figuras públicas poderiam se engajar.

Jamais impedindo (ou tentando impedir) a divulgação de o que quer que seja, mas mostrando o quão inútil isso é, o quão idiota, fútil, imbecil e vazio (eu poderia escrever um post inteiro só com adjetivos para isso). Mas sugerindo que gastem seu tempo com coisas mais importantes, que leiam coisas mais interessantes e não este desfile de fofocas que parecem apoiar e do qual teimam em se aproveitar.

Porque cedo ou tarde, essas fofocas acabam reunidas em um livro, que alguém haverá de chamar de biografia. Aí, quando eles tentam impedir, já é tarde demais – e o tiro sai pela culatra.

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Leia o outro post em que defendo a Censura (mas não da forma como você está pensando): Censura para quem precisa.

2 pensamentos em “Censura para quem precisa II*”

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