O bonzinho e o bundão

Em recente entrevista, durante a inauguração de um estádio em Natal, a presidente Dilma reforçou seu discurso ufanista tecendo maravilhas sobre o campeonato de futebol que nosso país talvez sedie em junho. Como de praxe, suas palavras pediram o apoio público ao evento e, por extensão, às obras realizadas para tal:

“É como dizia Nelson Rodrigues: não é possível apostar no pior. O governador [do Paraná, Beto Richa], o prefeito [de Curitiba, Gustavo Fruet] e o empresário [CAP/SA] vão fazer estádio no prazo. O Brasil tem que apostar a seu favor, não contra”

O bonzinho e o bundãoCitando o canteiro de obras do Paraná, Dilma apela às pessoas que ela diz torcer para tudo dar errado na Copa. Que o dever do brasileiro é torcer pelo Brasil.

Aqui eu me incluo fora dessa.

Eu quero, SIM, que dê tudo errado nesta Copa, por um simples motivo: quando as coisas dão certo no final, todo mundo acha que tudo foi feito de maneira correta desde o início.

Este é um erro grave. Um bom resultado não significa, necessariamente, que boas decisões foram tomadas.

Mas ninguém fica revendo as decisões tomadas depois de um bom resultado. E, ainda pior, elas tendem a se repetir. Decisões só costumam ser revistas quando algo dá errado de verdade. E enquanto nós, brasileiros, continuarmos a achar que nosso país está dando certo, nada faremos para mudá-lo.

Antes que digam que este é um discurso anti-PT, adianto que estou me referindo a “país que dá certo” em um sentido muito mais amplo do que o vosso complexo de perseguição alcança.

Não me refiro apenas aos problemas de corrupção (que ocorrem, sabemos, independentemente da sigla), mas a mazelas muito mais profundas da nossa sociedade. Além da corrupção, temos a violência, o altíssimo custo de vida, os impostos e aquela lista a que, infelizmente, já nos acostumamos.

O “infelizmente” acima, no entanto, refere-se ao “nos acostumamos”, não aos problemas. Porque o brasileiro é, antes de tudo, um povo acostumado a se foder. Acostumado a sofrer violências. Acostumado a pagar caro por tudo. Acostumado a não fazer nada. Acostumado a ser passivo, fraco, bonzinho, bundão. Acostumado a achar que é feio torcer contra.

Enquanto o povo continuar assim, nada muda. Enquanto acharmos que é erradinho torcer contra, vamos continuar a sofrer violências, pagar caro e só ficar olhando. Enquanto acharmos que as coisas dão certo por fora, não saberemos o que deu errado por dentro.

Como em vezes anteriores, este texto ficou com ares um tanto pessimistas. Mas ainda vai piorar.

Eu acho que o país tem jeito sim. Acho que as coisas aqui podem mudar. Mas as mudanças não virão de pessoas comuns, como eu e você, que um belo dia acordarão e irão para as ruas mudar o país. Aquelas manifestações patéticas do ano passado deixaram isto bem claro. As mudanças também não virão de movimentos organizados e líderes políticos.

Infelizmente, mais uma vez, as mudanças de que este país precisam só virão quando ocorrer uma grande, enorme tragédia.

Não falo em tragédias como perder a final da Copa do Mundo em pleno Maracanã (se você pensou isso, está perdendo a transmissão do BBB e eu não quero te atrapalhar). Também não me refiro ao estouro de uma possível bolha imobiliária, ou outro tipo de crise financeira. Nem de vinte centavos. (Aliás, no fim das contas, era isso mesmo, né?) Como disse antes, esse tipo de coisa não abala o brasileiro, este ser tão acostumado a se foder.

Lamentavelmente precisaremos de algo grave, muito grave. Algo que jamais tivemos. Muitas pessoas só se transformam após traumas aparentemente irrecuperáveis. Assim parece acontecer com povos, também. Os exemplos estão aí, para quem quiser ver. E para quem não quiser também.

6 pensamentos em “O bonzinho e o bundão”

  1. Muto bom! Infelizmente só mesmo vivenciando algo de muito ruim é que aprenderemos alguma coisa..e o que me preocupa ainda mais é o que virá depois da copa!

  2. Amigo Zulmar! O Rodolfo Araújo prega o renascimento após a morte. Isto é correto quando estamos fundamentados no esoterismo ou em dogmas devotos. Mas quando falamos com base em ciências o pensamento dele é equivocado e totalmente desconexo com a realidade. Quem conhece um pouco de administração ou de gestão pública sabe que todos os processos se interligam e são complementares quando destinados a realização de um projeto. Na gestão pública há inúmeros projetos. Isto significa que um projeto de nação não depende apenas de decisões internas e restritas ao governo. Como tal ele está sujeito aos requisitos do conjunto de interessados no empreendimento, que é tornar o país adequado aos seus cidadãos. Por formação profissional, estou convicto de que as decisões para a realização da copa foram todas corretas. A complexidade está na execução em razão das restrições comuns a realização de um projeto e nos riscos envolvidos. Isto é a grande aflição de quem não conhece as técnicas e restrições para implementação e para a gestão de um projeto. O projeto para ser bem sucedido não precisa ser imutável, inclusive porque isto não existe. Posso afirmar como especialista em gestão pública e interessado que este é o melhor escopo e com os melhores processos já executado no Brasil. Por outro lado, as forças que se opõem a realização de um projeto de nação vão além, muito além, de qualquer restrição para a construção de qualquer empreendimento. Não é fácil conceber e executar um projeto de nação quando se trabalha com uma massa considerável de analfabetos, semianalfabetos e analfabetos funcionais, porque são facilmente manipulados em função dos conflitos de interesse na sociedade. Mesmo assim, as realizações têm sido consideráveis diante das restrições e riscos envolvidos. Este é um resumo da nossa conjuntura; haja vista que neste espaço não é possível analisar cada processo para explicar o sucesso que se tem obtido na realização deste projeto. Aqui não está nenhum pensamento partidário, afinal o PT, que está na coordenação do projeto, não implementa este projeto sozinho. Há a participação de vários partidos e a contribuição da maioria de cidadãos da sociedade. Há também a oposição partidária e os interesses contrariados das nações concorrentes, mesmo assim as vitórias tem sido maiores que as dificuldades e derrotas. Os que estão contra também têm contribuído, pois mantêm todos os interessados neste projeto em plena atividade, o que é positivo. Somente o jogo sujo é que tem atrapalhado o cronograma de execução, mas isto é natural. Um grande abraço. Como disse La Bruyère: “O prazer da sociedade entre amigos se cultiva com uma semelhança de gostos no que concerne aos costumes e por alguma diferença de opiniões sobre as ciências; assim, ou se solidariza com seus sentimentos, ou se exercita e se instrui pela disputa”. É exatamente a instrução e a persistência nas boas práticas que tornará este projeto, cada vez mais, bem-sucedido.

  3. É como diz o populacho que só tranca-se a porta
    depois da visita do ladrão.
    Infelizmente o povo sofre,leva tareias
    e repete o mesmo erro como n’uma espécie
    de ciclo malditamente vicioso.
    Lastimoso tudo isso,Dilma realmente
    está vacilando.
    Meus cumprimentos,e votos de uma quinta-feira tranquila.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *