O holocausto dos mensageiros

Não me interessa a sua inclinação política. Não quero saber se você é torcedor do PT ou apoia a oposição. A discussão em torno dos últimos fatos envolvendo política e economia – e sua relação cada vez mais promíscua no Brasil – extrapola qualquer preferência ideológica, pois envolve riscos muito mais sérios do que o iminente colapso econômico do país.

O holocausto dos mensageirosComo se sabe, o Banco Santander enviou a seus clientes uma análise do cenário econômico, fazendo previsões pessimistas em caso de reeleição da presidente Dilma.

Para um observador isento, trata-se de uma avaliação de perspectiva econômica, com base em um futuro cenário político.

Como especialista em Comunicação, entendo que há diversas maneiras de se dar uma mesma notícia – o que na Psicologia costumamos chamar de framing. Se há um viés na mensagem acima – e sempre há! – ele pende a um discreto alarmismo pois, como é sabido, o medo é um dos melhores vendedores.

De resto, é uma análise de uma tendência facilmente verificável por qualquer estudante de Economia ou Estatística: quando uma pesquisa eleitoral aponta a queda da presidente nas intenções de voto, o mercado (especialmente o Ibovespa) sobe; do contrário, ele cai. Isto é um fato.

Pois eis que o Governo se lança em uma cruzada para matar o mensageiro. Em instantes os responsáveis pelo comunicado foram sumariamente demitidos e a instituição emitiu um pedido oficial de desculpas através de seu presidente mundial, que vestiu a carapuça, ou melhor, a mordaça.

A motivação do gesto espanhol, embora disfarçada, reside na incestuosa relação mantida entre bancos (todos eles) e Governo (todos eles), através de incentivos, ajudas, concessões e outras benesses patrocinadas por seus benfeitores oficiais, como BNDES, Caixa e outros.

Mas a mensagem é clara: não pode dar notícias negativas sobre o Governo ou o desempenho da economia. Mesmo que elas sejam verdadeiras. Ou principalmente se elas forem verdadeiras. Porque se elas forem fantasiosas – ou em um Português mais claro, mentirosas – mas falarem bem do governo ou, mais especificamente de seu representante máximo, aí pode.

Foi o que ficou claro no affair envolvendo o novo porta-voz oficial Jeferson Monteiro, mais conhecido como Dilma Bolada. Depois da mal-explicada aposentadoria, a personagem voltou com força máxima e chapa branca.

A carta do Santander atingiu cerca de 40 mil correntistas, uma única vez, segundo informações do próprio banco. O perfil fake atinge diariamente 1,4 milhão de seguidores no Facebook. Qual o entendimento do zeloso TSE (Tribunal Superior Eleitoral) neste caso? Que espécie de malabarismo lógico ele fará para determinar que a Dilma Bolada não é propaganda política?

Porque o mesmo TSE teve um entendimento bem diferente em outro caso semelhante ao do banco espanhol: uma consultoria de investimentos foi denunciada na mesma corte e teve seus textos censurados. O motivo? Análises negativas do atual momento econômico. A justificativa? Conluio com o PSDB e interesse eleitoreiro.

Para falar da economia brasileira, você tem que estar a milhares de quilômetros de distância, em um país democrático de fato, no qual a liberdade de imprensa é inatacável. Como a Alemanha, por exemplo, onde um banco pode emitir sua opinião a respeito da economia sem temer represálias covardes. Em lugares assim, uma entidade privada pode fazer análises que mostram que a política econômica do país é desastrosa, como mostra esta outra matéria do Financial Times lembrando que a previsão de crescimento do Brasil foi corrigida para baixo nove vezes seguidas.

Fica combinado assim, então: se você achar que a economia vai mal, cale-se. Está proibido de divulgar sua opinião e, por consequência, está impedido de trabalhar. Se quiser levar comida para casa, alimentar sua família, tem que falar bem do Governo. Nunca foi tão perigoso ter opinião no Brasil, onde mensageiros são abatidos como moscas.

4 pensamentos em “O holocausto dos mensageiros”

  1. Sem dúvida um erro de estratégia, Leonardo. Provavelmente as 40 mil pessoas que receberam a comunicação do banco já sabiam o impacto da reeleição da Dilma na economia. Mas aí fizeram o país inteiro saber que o governo está censurando as notícias.
    Um abraço, Rodolfo.

  2. Não sou “torcedora” de nenhum partido e acho até que você faz algumas boas colocações, mas sua categórica afirmação ao final do artigo, dizendo que nunca foi tão perigoso ter opinião no Brasil, é de uma tremenda leviandade, que só posso interpretar como uma brincadeira propositalmente hiperbólica. Já foi muito mais perigoso ter opinião no Brasil, como todos bem sabem. Aliás, fosse o governo do PT ou PSDB, tenho quase certeza de que o desfecho seria o mesmo. E isso não tem a ver com censura.
    Na verdade, o Santander poderia ter arcado com as consequências de expressar sua opinião sem que ninguém tivesse que morrer por isso. O que muitos “opinadores” parecem esquecer é que opiniões são seguidas de repercussões, e é fundamental que se tenha a segurança e a propriedade para sustentar as opiniões quando estas repercutem, senão o mundo não muda, não avança. Que governo do mundo receberia uma crítica de um banco ou de qualquer outra pessoa ou instituição e diria “Oh! Tem razão, estamos sendo um mau governo. Vamos mudar e fazer do seu jeito. Obrigado por nos alertar”?
    Não há perigo em se ter opinião no Brasil. Há sim o perigo de se ter tantas opiniões esparsas, fracas e desorganizadas (como as manifestações do ano passado, por exemplo), que o brasileiro se torne exemplo de um povo que não sabe o que quer, ou pior, de um povo que não é capaz de lutar por aquilo que quer.

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