O nascimento do autoatrapalha

Depois dos calmos Quem mexeu no meu monge? e O monge, o queijo e a vida real, eu havia prometido não falar mais de livros de autoajuda. Mas quando vejo uma revista de administração que se diz topo-de-linha, onde um articulista pretensamente idem vem com essa balela de “o seu sucesso só depende de você”, “você tem as rédeas da sua vida” e coisas semelhantes, eu não consigo me conter.

Pensei um pouco mais a fundo sobre o tema – pelo menos ele serve para alguma coisa – e bolei uma teoria que agora divido com vocês, em primeira mão. Mas segura aí porque vai doer! Senão vejamos:

- Vai lá, tigrão!
– Vai lá, tigrão!

A maioria desses livros se apóia na seguinte falácia:

Você é brilhante e para ser um sucesso só falta querer! Isto é:

SER UM GÊNIO + QUERER SER UM SUCESSO = SER UM SUCESSO!

Bom, se você já é um gênio e a única coisa que faltava para ser um sucesso era querer ser um sucesso, então tudo está resolvido. Porque depois de ler o livro de autoajuda você também passou a querer ser um sucesso! OK, então eu concordo que as pessoas devem ler UM livro de autoajuda, porque ele as fará querer ser um sucesso.

Bom, então o passo seguinte é todo mundo virar um sucesso, certo? Mas peraí, nem todo mundo é um sucesso… Então deve ter alguma coisa errada com a equação acima.

Se a segunda premissa é verdadeira (afinal, quem não quer ser um sucesso?) e o resultado esperado não aconteceu, então deve ter alguma coisa errada com a primeira premissa.

Exatamente! O problema está aí! Você não é um gênio…

Há algumas razões para isso. Mas há, também, muita esperança e você não precisa desanimar!

Em primeiro lugar não há motivos para ficar triste agora. Eu também não sou um gênio, porque também quero ser um sucesso, mas não sou. Logo, você tem ao menos a minha companhia.

Então, depois de ler o seu primeiro livro de autoajuda, você descobriu duas coisas:

1. Você não é brilhante;

2. Você precisa querer ser um sucesso – e isso você já quer!

Então, a única coisa que você precisa consertar é a primeira. Você precisa ser brilhante e, para isso, só existe uma maneira: RALAR, ESTUDAR!

O grande problema disso é que as pessoas não querem ralar, não querem estudar, querem o menor esforço. Elas querem ser brilhantes – e, consequentemente, um sucesso – sem nenhum trabalho. E os picaretas que escrevem livros de autoajuda prometem exatamente isso: você vai tornar-se um sucesso da noite para o dia sem nenhum esforço. Claro, porque querer ser um sucesso não dá trabalho nenhum e é, aliás, uma tendência natural do ser humano. Praticamente uma obrigação.

Aí, o sujeito nada brilhante que lê esse livro prefere acreditar somente na parte que diz que ele vai ser um sucesso sem fazer nada, do que na que diz que ele vai ter que estudar muito e que isso vai dar um trabalho danado.

Más notícias, amigo: isso não vai acontecer.

6a00e554b11a2e8833010536190a95970c-250wiRecentemente o Malcolm Gladwell abordou esse tema em Fora-de-série – que você não leu porque tinha nas mãos a décima versão de “O padre e a cafetina” – mostrando que há três fatores essenciais para o sucesso: ser brilhante, praticar e sorte.

Você – que, lembre, não é brilhante – acha que estudar dá trabalho, praticar dá mais ainda e prefere, assim, apostar tudo na sorte. Afinal de contas, os papas da autoajuda dizem que se você realmente acreditar, a sorte virá. E você acredita. Senta em cima da sua bunda e fica esperando. Só que eles te enganam, espertamente esquecendo de dizer que você precisa se esforçar um pouco, ao menos. É como se Deus te dissesse que você vai ficar rico ganhando na loteria e aí você nem sequer se dá ao trabalho de comprar o bilhete.

Certa vez o magnata do petróleo Jean Paul Getty deu sua receita de sucesso: “Acorde cedo, trabalhe muito, ache petróleo”. Perfeito! O problema é que ela só funcionou para cinco pessoas até hoje. Eu, particularmente, não tenho nenhum amigo que achou petróleo na rua. Tudo bem, eu tenho poucos amigos. Talvez você conheça alguém que achou.

Mas não, as pessoas continuam a acreditar nisso. Tinha uma pessoa que trabalhava comigo que sonhava com uma posição na área comercial – onde era preciso estudar muito, falar muito bem para ser convincente e ter facilidade com números. Tudo o que essa pessoa não tinha – e que demoraria muito para conseguir. Eu brigava com o meu chefe, porque em vez de ficar incentivando esse sonho inalcançável, penso que ele deveria apontar-lhe caminhos mais factíveis, de acordo com as habilidades que ela já tinha, ou com as que conseguiria desenvolver mais facilmente.

"Meu sonho é ser um Smurf..."
“Meu sonho é ser um Smurf…”

Sonhos impossíveis não servem para manter a esperança acesa. Servem para confirmar um futuro frustrado. Dizem que devemos deixar as pessoas sonharem com o que quiserem. Tudo bem, desde que realmente saibam que aquilo é uma fantasia. Tipo Smurfs voadores ou baleias falantes.

Mas sonhar em ser astro da novela das oito (a menos que você realmente esteja se dedicando à carreira de ator) ou campeão do mundo de futebol (desde que você tenha entrado na escolinha com três anos de idade) não te farão uma pessoa feliz. Não faz bem querer ser bebê Johnson’s com vinte e nove anos.

Claro que é melhor sonhar do que ser pessimista. Mas sonhar enquanto faz alguma coisa pelo seu sonho é melhor ainda! Então vá lá! Leia um livro de autoajuda. Qualquer um, porque tanto faz. Se você já leu, então mãos à obra, vá estudar! Mas se começar a ler o segundo livro de autoajuda, então definitivamente você não é um gênio.

Outra prova disso, é que livros de autoajuda vendem milhões de cópias e os casos de sucesso são bem menos frequentes do que isso. Então a fórmula não funciona. No todo, ou em parte dela. Qual parte? Provavelmente a que diz que você é um gênio.

O que esses livros realmente dizem, nas entrelinhas, é que todos nós somos uns bostas. Porque se só depende de nós sermos um sucesso – e mesmo assim somos um bostas – então quer dizer que somos realmente uns bostas. Ninguém prefere continuar a ser um bosta se tiver a opção de ser um sucesso ao alcance das mãos.

Talvez o problema resida no fato de as pessoas darem um valor desmedido à esperança e aos elogios (“Você é um gênio e, para ser um sucesso, só falta querer!”). Num interessante artigo sobre Qualidade e Performance, Peter Scholtes conta a ilustrativa história vivida pelos pilotos e instrutores da Força Aérea de Israel.

"Quero ser igual ao Tom Cruise!"
“Quero ser igual ao Tom Cruise!”

Estes notaram que, depois de um vôo ruim, seus pilotos eram repreendidos e, então, melhoravam a performance. Por outro lado, os pilotos que faziam bons vôos e recebiam elogios acabavam por piorar suas performances nas tarefas subsequentes.

Mas em vez de atribuir a melhora da performance à reprimenda e a piora ao elogio, eles perceberam que as mudanças nada mais eram do que caminhos naturais.

Quando você atinge a sua melhor marca, o caminho natural é piorar. Do mesmo modo, quando faz um trabalho ruim, provavelmente vai melhorar depois. Naturalmente.

Então, quando você está no fundo do poço, só há um lugar para onde pode ir: para cima. Há até um nome técnico para isso: regressão à média.

Antes de ser um pessimista-fatalista, espero que você veja nesse texto uma necessária dose de realidade na hora de pensar em seus sonhos. A tão propalada autoajuda dos livros adormece suas ambições, travestindo-as de falsa esperança. Ela te embala com a promessa de um maravilhoso sonho, enquanto você vive uma dura realidade, bem diferente daquela pintada em letras douradas na conta-corrente do autor que te engana. Assim, a grande falácia da autoajuda nada mais é do que uma grotesca lorota de autoatrapalha.

O monge, o queijo e a vida real

O recente texto sobre os livros de auto-ajuda rendeu alguns papos interessantes e reflexões idem.

Os pitorescos temas que buscam analogias com o mundo corporativo dão origem a títulos emblemáticos. Vale qualquer coisa: um religioso e um título de líder (“O padre franciscano e o CEO” e “A freira e a cafetina”); alguém-avacalhou-alguma-coisa-que-me-pertencia (“Quem chutou o meu despacho?” ou “Quem molhou minha chapinha?”); segredos secretos que ninguém sabe (“Os mistérios do Jogo da Velha”); dicas infalíveis para conseguir tudo (“Como ganhar na Mega-Sena sozinho – apesar de esse livro ser um best-seller“); truques e quebra-galhos numerados (“Os nove hábitos dos esquimós canhotos” e “Seiscentas dicas para emagrecer muitíssimo”); além de adaptações de A Arte da Guerra para todos os gostos (“A arte da guerra no Vaticano”, “A  arte da guerra para bebês”).

6a00e554b11a2e8833011570b601b3970b-320wiAlém dos best-sellers instantâneos, temos também as historinhas motivacionais da moda, tão infantis quanto vazias, com enorme  poder de proliferação através de emails que prometem resolver sua vida – mesmo que você não tenha pedido por isso. Senão vejamos:

Existe aquela do sujeito que atira do precipício sua vaquinha leiteira, da qual tirava o seu sustento e cujo gesto, ensinam, faria-o abandonar a estabilidade, desistir da sua zona de conforto e buscar novas conquistas.

Além de ser difícil imaginar a subsistência de uma família apenas com leite, renunciando ao churrasco, o politicamente incorreto sacrifício do bovino revela a incapacidade de perseguir um objetivo. Não é preciso renunciar ao que se tem – de forma tão dramática – para buscar novas conquistas. Em vez da força de vontade sugerida, ensinar a vaquinha a voar pode revelar, isto sim, uma insidiosa fraqueza de caráter.

A motivação deve ser um sentimento interno de superação, não uma atitude forçada pelo desespero. Um conselho tão útil como atirar-se no mar para aprender a nadar. Aumentar suas conquistas soa muito melhor do que começar do zero. Ainda mais de maneira forçada.

6a00e554b11a2e883301156fc0d9a6970c-320wiHá também a aldeã que carregava um jarro d’água com um furo no meio mas, ainda que isso desperdiçasse metade do seu esforço, regava um lindo jardim que ela admirava pelo caminho. Antes de mais nada é um contra-senso realizar o dobro do trabalho por menos resultado – e isso não deveria ser incentivado.

A tentativa de transformar uma árdua tarefa (muitas vezes realizada em condições sub-humanas na luta pela sobrevivência) num passeio no parque admirando flores pelo caminho beira o mau-gosto. É pintar de cor-de-rosa a cadeira elétrica. Esse exercício de ver a beleza em meio ao sacrifício só vale para o sacrifício alheio. Como dizia Joãozinho Trinta, quem gosta de miséria é intelectual.

A mais recente – e que mereceu até citação da Míriam Leitão – é a do rico viajante que deixa uma nota de 100 euros com o dono de um hotel num pequeno vilarejo, enquanto vai escolher seu quarto. Nesse meio tempo o hoteleiro faz a nota girar pela cidade, onde todos eram devedores e credores de todos e o dinheiro recém-chegado vai saldando as dívidas em seqüência. Só que aí ele não gosta do hotel e vai embora levando consigo a cédula que circulou pelo povoado.

Das duas uma: ou o hotel é gigantesco ou a cidade é minúscula, pois antes de o viajante terminar sua vistoria a nota já tinha percorrido a maioria dos estabelecimentos comerciais do vilarejo. Como o turista não ficou na cidade e não gastou ali um tostão, então não fez a menor diferença. Não havia crise nem dívidas, apenas falta de papel moeda. Uma comunidade que vivia muito bem na base do escambo. O dinheiro ali não serviu de nada. Qual o motivo então do otimismo por um futuro melhor?

6a00e554b11a2e8833011570b623f7970b-320wi Voltando aos livros de auto-ajuda, você mudou radicalmente a sua vida depois de ler algum desses títulos? Trocou de emprego? Foi promovido ou recebeu um aumento? (Só vale se tiver sido por causa do livro e não apesar do livro.)

Se você flagrar o presidente da sua empresa lendo “O monge e o executivo” ou “Quem mexeu no meu queijo?”, das duas uma: ele está procurando alguma coisa engraçadinha para falar na próxima Convenção da empresa ou você deve mudar de emprego. Pois se ele busca ali suas inspirações, então seu repertório é menor do que isso ou a situação está realmente desesperadora.

Quantas cópias você acha que um livro desses vende no Brasil? Cinqüenta mil? Cem mil*? E quantos presidentes de empresas há no país? Bem menos, certo? Então quem compra esses livros? Muito provavelmente as pessoas que trabalham nas funções menos complexas, os estagiários e os estudantes. Depois do deslumbramento inicial, achando que sua empresa assemelha-se a algum próspero reino distante onde a felicidade abunda, o leitor cai na real e percebe-se rodeado de ogros que não compartilham seus hábitos de leitura nem compactuam sua visão pollyanna do universo.

O mundo – especialmente o corporativo – não é um pequeno vilarejo entre o nada e o lugar nenhum, nem seus companheiros de trabalho se chamam Heitor, Cícero e Prático. Assim, ler “O monge e o executivo” ou “Quem mexeu no meu queijo?” provavelmente não lhe trará mais benefícios do que “Os três porquinhos”, “O pequeno príncipe” ou até mesmo a Bíblia.

Porque, na boa? Quando a coisa apertar, o monge come o queijo e o mundo que passe fome…

____________________

* Para deleite do seu autor, O Monge e o Executivo vendeu 4,5 milhões de cópias – sendo que 2,5 milhões foram no Brasil. Para um país que tem José Sarney e Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras, isso não deveria ser surpresa.

Quem mexeu no meu monge?

Dando uma rápida passada pela livraria do aeroporto, tenho um arroubo de otimismo, um alento de esperança: são tantos títulos prometendo futuros brilhantes, vidas tranqüilas, fortunas nababescas! Por um instante convenço-me de que todas as mazelas do mundo podem ser resolvidas numa prateleira da Sodiler.

Mas o que há de errado com monges executivos, líderes servidores, alquimistas e demais ex-possuidores de queijos extraviados? Se as fórmulas mágicas de riqueza, felicidade e sucesso estão disponíveis por R$ 19,90, por que todo mundo não exala amor a cada feira literária? Por que os fabulosos ensinamentos não iniciam tsunamis de prosperidade, avalanches de boa vontade e temporais de caridade?

6a00e554b11a2e883301157082f909970b-320wi O modelo ideal e único de felicidade é tão utópico quanto enganoso. Como a felicidade é um conceito abstrato e individual, o que faz uma pessoa feliz pode não ser o suficiente para o seu vizinho ou seu irmão gêmeo. Enquanto um se satisfaz com um copo d’água sem gás, outro precisa de um Jaguar conversível, ao passo que um terceiro extasia-se com uma martelada no dedo.

Já o toque de Midas, capaz de transformar num George Soros todo pé-rapado, esbarra em qualquer exame de lógica. Se todos souberem o atalho mágico para fazer fortuna na Bolsa, parece mais provável que todos percam dinheiro. Se uma idéia inovadora, um negócio bombástico, uma oportunidade única espalha-se por bancas de jornais através do Manual do Milionário, seu valor dissipa-se na multidão, evapora-se na quantidade.

Métodos infalíveis para passar em concurso, ganhar na loteria ou achar petróleo, quando ensinados para todos nivelam tudo novamente. É o segredo que todo mundo sabe.

Por fim, meus favoritos: o segredo para ser feliz está dentro de você. O problema com essa frase é que ela é um resumo de “o segredo para EU ser feliz está dentro DA CARTEIRA que VOCÊ carrega”.

Antes de prosseguir, quero deixar claro que não sou contra o pensamento positivo, tampouco nego o valor da auto-confiança, da humildade ou do amor ao próximo. Muito pelo contrário! Entendo apenas que esses são traços tão marcantes da nossa personalidade e caráter que não podem ser osmoticamente absorvidos com a leitura dinâmica de um almanaque.

6a00e554b11a2e883301156f8d2134970c-320wi Se para ser um grande líder é preciso amar o próximo, servir com humildade, ter um grande coração e, claro, ser um gênio, você não vai aprender isso no faça-você-mesmo do Jack Welch. Não é como uma nova técnica de respiração que você sai praticando na hora.

Ler, ouvir e repetir palavras bonitas não faz de você uma pessoa mais bonita. Às vezes é exatamente o oposto. Trabalhei numa empresa onde o encarregado da fábrica era pastor de uma Igreja Evangélica. Ele estudava Teologia e dava aulas para os iniciantes. Conversávamos sobre seus rígidos sermões, seus disciplinados ensinamentos e suas parábolas de fraternidade.

Mas no trabalho, o pastor humilhava seu rebanho, diminuía seus subordinados e fazia questão de deixar claras as relações hierárquicas. Era um algoz capataz, cujos atos caprichosos destoavam de sua pregação.

Assim, quando você lê sobre humildade e a forma cristã de servir e oferecer a outra face, ao mesmo tempo em que avança o sinal de trânsito e rosna para o garçom, parabéns seu trouxa, você caiu no golpe do livrinho encantado. Você lerá coisas maravilhosas sobre uma pessoa que não existe – e isso será o mais próximo que você chegará dessa pessoa.

O que? Você leu todos esses livros e adorou? Não tem problema! Se você não tiver ficado rico ainda – alias, riquíssimo – você deixará de acreditar no que leu assim que atingir a maioridade. Caso contrário, aguarde o MEU livro de “Auto-me-ajude”. Breve, numa livraria perto de você, em letras douradas.

Caro Rocky Balboa,

Carta escrita por Apollo Creed para Rocky Balboa, reconhecendo e elogiando seu grande adversário nos ringues e amigo fora deles.

Sugar Ray Robinson
Sugar Ray Robinson

Através de uma dica do meu grande amigo Sugar Ray Robinson, fã do blog do Balu, fui ler um texto que você escreveu para o seu filho (você não tem idéia de como a Internet é rápida aqui no céu!).

Confesso que fiquei realmente emocionado com suas palavras e, assim, resolvi psicografar esse texto para o Rodolfo. Ele ficou meio assustado no começo, não queria acreditar. Mas depois viu que era uma oportunidade como a que você compartilhou comigo naquele longínquo Independence Day de 1976.

Tudo o que eu queria era ficar bem na foto no Bicentenário da Independência. Dar uma chance a um descendente de italianos – mesma origem do descobridor da América – pareceu uma ótima ideia. Nem prestei atenção no fato de você ser canhoto.

Que ironia, escolher um lutador pelo nome! Imagina se você se chamasse Maguila…

Como eu apanhei na nossa primeira luta… Senti-me como um daqueles bifes que você espancava no açougue onde Paulie trabalhava. Bati muito, é verdade, mas levei mais da metade dos quinze assaltos tentando entender contra o que eu estava lutando, porque a soberba me cegou e à minha equipe.

Nenhum de nós percebeu do que era feito aquele homem que subiu ao ringue para a chance de sua vida. Mas nada como um knock-down no primeiro assalto para te fazer mudar de ideia. Nas minhas 46 lutas anteriores, eu jamais havia ido à lona, nem demorado quinze assaltos para demolir outro lutador. Ali comecei a ver que aquela noite não seria mais um espetáculo de Apollo Creed, mas um momento que ficaria marcado para sempre na história do boxe, cujo protagonista seria o até então desconhecido Garanhão Italiano.

6a00e554b11a2e8833010536ea12cf970b-350wi Apesar de você ser bem mais magrinho que eu na época dessa luta, você partia para cima de uma forma que eu nunca entendi. Compensava o seu despreparo inicial com um ímpeto fora do comum.

Por falar em preparo, aliás, o pessoal aqui brinca comigo dizendo que se você estivesse melhor preparado, teria me moído. Sua evolução foi notável, mas nas primeiras lutas ainda era precário. Fumando e bebendo, você mal chegava ao topo das escadarias do Museu de Artes da Filadélfia. Tivesse você alguém para cuidar da sua parte física e controlar sua alimentação – como o menino do blog que eu li – talvez nem houvesse revanche.

Mas acho que precisei muito mais daquela segunda luta do que você. Não foi só o mundo do boxe e a imprensa esportiva que me questionaram. Eu também me perguntava se havia ganho. Aquilo havia ferido o meu orgulho – a única coisa que era mais forte que meus músculos. Não dei ouvidos nem ao Tony, meu fiel escudeiro. Desde o início ele havia percebido o perigo que você representava.

6a00e554b11a2e8833010536f48b22970c-300wi Ainda bem que só depois que eu cheguei aqui é que fiquei sabendo que você treinou para aquela luta correndo atrás de galinhas. Mal sabia eu que depois a coisa ficaria séria e que você teria a direita mais poderosa com que um canhoto jamais me acertou.

Aquela luta em que você me ganhou o cinturão foi, na opinião de todos os que estão em paz aqui comigo, o mais feroz combate de todos os tempos. E o mais bonito também. Pura arte. Uma batalha épica entre pugilistas do mais alto nível, com reviravoltas espetaculares e dois lutadores quase nocauteados.

Confesso que cheguei a ficar preocupado contigo quando você chegou ao topo. O outrora humilde Garanhão Italiano estava se deixando seduzir pela fama. Comecei a ver em você o orgulhoso Apollo de outrora. Quando sua vida virou um show, arremessando brutamontes dos ringues de telecatch, gritando bravatas em público, vi que você tinha se perdido. O show virara circo.

Quando você chega no topo, só há um lugar para onde pode ir: para baixo. E porque você estava muito lá em cima, a queda foi feia.

É como dizia aquela música do Survivor que a gente gostava de ouvir enquanto treinava: “Muitas vezes as coisas acontecem rápido demais. Você troca sua paixão pela glória.” Você estava lento, sem agilidade nem reflexos, deixou a fama subir à sua cabeça. Foi trabalhoso. Mas a música continua com “Não deixe que os sonhos do passado lhe escapem. Você deve lutar para mantê-los vivos”.

E eu não deixei você me passar naquela corrida na praia. Você trabalhou duro. Sempre dei o melhor de mim em tudo o que fiz. Foi assim na primeira luta, como te disse no hospital depois. Você não ultrapassa as pessoas porque elas ficam para trás. Elas ficam para trás porque você as ultrapassa.

6a00e554b11a2e8833010536f48c6a970c-320wi As coisas nunca foram fáceis para você, Rocko. Você precisou de fórceps para nascer. A saga de Rocky Balboa desde o início, tal como a conheci, é a história de muitos batalhadores, gente que segue em frente, não desiste, cai, se machuca, levanta, tenta de novo. Você é a inspiração dos milhões de rockys que treinam dentro de nós. Os rockys que vivem à espera de um apollo que os acorde para a vida, que lhes ofereça uma chance. Mas o mundo não tem tantos apollos quanto rockys.

A vida é feita de adversários, Rocky, de adversidades, não de inimigos. Enquanto você encarar suas limitações como inimigos, perderá suas batalhas, porque derrotando um inimigo, você derrota a si mesmo. Você ganhou porque lutou contra suas adversidades, não contra Apollo Creed. Você mostrou isso ao me vencer na segunda luta e me dedicar o primeiro agradecimento do seu discurso. A vontade de vencer deve ser um sentimento interno, um instinto, não uma força destrutiva.

Enquanto procuramos o inimigo que nos puxa para baixo, nos impede de ir além, estamos apenas personificando nossas limitações, nossas frustrações. O inimigo não tem culpa do nosso fracasso. Nós temos. Isso eu aprendi com você, Rocky, mas só depois que eu não tinha mais o cinturão que então envolvia sua cintura. Só então eu entendi que, como você costuma dizer, não importa o quão forte você bate, mas o quanto você aguenta apanhar e continuar seguindo em frente.

Alexander Alekhine e Jose Raoul Capablanca
Alexander Alekhine e Jose Raoul Capablanca

Senna sempre me conta como as coisas são diferentes quando você tem um Prost na sua cola. Ou um Mansell. Alekhine e Capablanca hoje se divertem aqui com as histórias de sua rivalidade ao tabuleiro. Mas ambos reconhecem o quanto se ajudaram, apesar de terem sido adversários em vida. Adversários, não inimigos.

Seu pai dizia que você não havia nascido com muito cérebro e que precisaria usar o corpo para compensar. Quando encontrei com ele aqui, disse-lhe que estava errado. É seu cérebro que ganha as lutas, pois é de onde vem sua vontade sobrehumana (e acredite, hoje eu sei bem o significado de sobrehumano). Todo preparo do mundo, toda força e agilidade não lhe servem de nada se você não souber o que fazer com elas.

6a00e554b11a2e8833010536f48fd5970c-120wi Eu nunca me dei conta de que quanto mais eu lutava, mais forte você ficava. Demorei para entender que era a minha superioridade que lhe dava coragem. E que quanto mais eu tentava te derrotar, mais resistente você se tornava. De todos os lutadores que conheci, Rocky, aí embaixo ou aqui em cima, nenhum poderia ter tornado uma derrota mais honrosa. Por isso me orgulho tanto da minha maior obra: Rocky Balboa.

Do seu amigo e (agora) anjo da guarda,

Apollo Creed.

P.S.: Essas histórias são tão inacreditáveis que acho que dariam um bom filme! Esse menino, o Denzel Washington podia fazer o meu papel. Queria mesmo o Will Smith, mas ele já fez “Ali”. Aliás, o Cassius tá mandando um abraço pra ele!

_______________

Dedicado ao meu amigo Mazinho e seu filho Augusto que, pequenino, já pedala uma Caloi Cross!