The bed of Procrustes – Nicholas Nassim Taleb

6a00e554b11a2e88330148c6864110970c-120wi A primeira conclusão a que cheguei ao terminar The Bed of Procrustes: Philosophical and Practical Aphorisms (Random House, 2010) é que Nicholas Nassim Taleb perdeu o resto de fé que tinha na humanidade.

Três anos após o clássico A Lógica do Cisne Negro Taleb castigou seus fãs com uma obra sofrível – talvez não por seu conteúdo, mas certamente por sua forma.

Suas magras 112 páginas (contra 480 da obra anterior) reúnem uma coleção de sentenças raivosas, observações rancorosas e muito despeito. Dei-me ao trabalho de contar 402 frases divididas em 22 “temas”. Pois é, o livro é um apanhado de frases aleatórias cuspidas por uma metralhadora giratória, especialmente apontada, eu diria, para os economistas.

Minha maior decepção foi, talvez, pelo fato de Taleb ter desperdiçado um argumento excelente –  algo como o Paulo Coelho escrever sobre o assassinato do Kennedy. O título do livro refere-se ao mito grego de Procrusto, o esticador, um bandido filho de Posseidon, que morava numa fortaleza vizinha a Atenas.

Diz a lenda que Procrusto convidava os viajantes a passar a noite em sua casa e dormir em sua famosa cama. Ocorre que o anfitrião obrigava seus hóspedes a se encaixar perfeitamente no leito, seja esticando os mais baixos, ou cortando as pernas dos mais altos.

Ainda segundo a mitologia, Procrusto foi morto por Teseu (sim, o do Minotauro) em sua própria cama, usando o mesmo modus operandi de Hércules, que derrotava seus inimigos com suas próprias armas.

A Cama de Procrusto representa, portanto, uma ilustrativa metáfora para aquilo que é excessivamente padronizado e abusivamente imposto, independentemente das particularidades de quem a necessite*.

Taleb é, sim, um cara brilhante, dono de uma erudição invejável que ele não faz nenhuma questão de esconder. Até aí tudo bem, porque somente uma inteligência assim poderia nos dar algo do quilate de The Black Swan. Mas The Bed of Procrustes tem um ranço de “minha obra genial que ficará para a posteridade”.

A impressão que dá é que Taleb joga um monte de frases de efeito no ventilador, esperando que algumas se tornem lemas, ditados ou mesmo leis imutáveis. Pelo que você verá a seguir, em seleção e tradução próprias, ele passou longe de ser o novo Barão de Itararé…

Para falir um tolo, dê-lhe informação.
To bankrupt a fool, give him information.

Se pela manhã você souber com precisão como será o seu dia, você está meio morto – quanto mais precisão, mais morto você está.
If you know, in the morning, what your day looks like with any precision, you are a bit dead – the more precision, the more dead you are.

Procrastinação é a alma se rebelando contra o aprisionamento.
Procrastination is the soul rebelling against entrapment.

Elogiar alguém por sua falta de defeitos também implica na sua falta de virtudes.
By praising someone for his lack of defects you are also implying his lack of virtues.

Muitos alimentam suas obsessões tentando se livrar delas.
Most feed their obsessions by trying to get rid of them.

Rumores só têm valor quando negados.
Rumors are only valuable when they are denied.

As pessoas normalmente se desculpam para poder repetir o erro.
People usually apologize so they can do it again.

Os três vícios mais danosos são heroína, carboidratos e um salário mensal.
The three most harmful addictions are heroin, carbohydrates, and a monthly salary.

Você constantemente precisa se lembrar do óbvio: o charme está no não-dito, no não-escrito e no não-mostrado. É preciso maestria para controlar o silêncio.
You need to keep reminding yourself of the obvious: charm lies in the unsaid, the unwritten, and the undisplayed. It takes mastery to control silence.

Ciência de base dá resultados sensacionais através de um processo terrivelmente entediante; a filosofia dá resultados entediantes através de um processo sensacional; a literatura dá resultados sensacionais através de um processo sensacional; a economia dá resultados entediantes através de um processo entediante.
Hard science gives sensational results with a horribly boring process; philosophy gives boring results with a sensational process; literature gives sensational results with a sensational process; and economics gives boring results with a boring process.

Ainda me lembro daquilo que aprendi sozinho.
What I learned on my own I still remember.

O trágico é que muito do que você acha que é aleatório está sob o seu controle e, o que é pior, o contrário.
The tragedy is that much of what you think is random is in your control and, what’s worse, the opposite.

Você só convence as pessoas que pensam que terão benefícios se forem convencidas.
You can only convince people who think they can benefit from being convinced.

Evite chamar de heróis aqueles que não tiveram escolha.
Avoid calling heroes those who had no other choice.

Um homem ético adapta sua profissão às suas crenças, em vez de adaptar suas crenças à sua profissão.
Ethical man accords his profession to his beliefs, instead of according his beliefs to his profession.

Falar sobre a “matemática da incerteza” é o mesmo que falar sobre a “castidade do sexo” – o que é calculado não é mais incerto, e vice versa.
Saying “the mathematics of uncertainty” is like saying “the chastity of sex” – what is mathematized is no longer uncertain, and vice versa.

Um matemático começa com um problema e cria uma solução; um consultor começa oferecendo uma “solução” e cria um problema.
A mathematician starts with a problem and creates a solution; a consultant starts by offering a “solution” and creates a problem.

Ciências Sociais significa inventar um tipo de humano que possamos entender.
Social science means inventing a certain brand of human we can understand.

Você sabe que tem influência quando as pessoas começam a notar mais a sua falta do que a presença dos outros.
You know that you have influence when people start noticing your absence more than the presence of others.

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* Serviu, inclusive, como tema para a pergunta de abertura de minha entrevista com Nicholas Carr.

Livros de 2010 – parte II

No texto anterior comecei uma revisão dos livros lidos em 2010. A pedidos, inclusive, acrescentei aqueles que já foram lançados em Português e podem ser comprados aqui sem dificuldades. Curiosamente, sobraram dois temas bem ligados a trabalho. Então vejamos a continuação.

LIDERANÇA e MOTIVAÇÃO

6a00e554b11a2e88330148c7285bc0970c-150wi Fiquei muito bem impressionado com Daniel Pink depois de assistir a uma palestra sua no TED. Seu segundo livro, Drive: The Surprising Truth About What Motivates Us (Riverhead, 2009) tem os mesmos traços de humor refinado que seu autor esbanja em vídeo.

Pink aborda o tema da motivação de forma completamente fora dos padrões tradicionais – e é exatamente aí que reside todo o valor da sua obra.

Num mundo em que tudo muda numa velocidade assustadora, é incrível notar como coisas tão importantes como a motivação permaneçam atreladas a dogmas de 20, 30 anos atrás. Ou mais. (Em Português: Motivação 3.0.)

6a00e554b11a2e88330147e0aebc43970b-200wi Em todo o mundo, a indústria da autoajuda rende bilhões de dólares, subtraídos de trouxas, digo, leitores que esperam encontrar em algumas páginas a solução de todos os seus problemas. Se você é desses, fique longe de Bright-sided: How the Relentless Promotion of Positive Thinking Has Undermined America (Metropolitan Books, 2009).

Barbara Ehrenreich é uma crítica ferrenha não só da autoajuda, mas também do pensamento positivo de um modo geral. Para ela, a promessa de que o pensamento positivo tudo resolve serve apenas para paralisar a iniciativa e esperar o próximo sopro de sorte. Faz um tentido enorme, não faz

6a00e554b11a2e88330133f5977df6970b-200wi Sir Ernest Shackleton é considerado por muitos o maior líder que já existiu. Em Leading at the Edge : Leadership Lessons from the Extraordinary Saga of Shackleton’s Antarctic Expedition (AMACOM, 2000) Dennis Perkins analisa algumas das características do explorador irlandês que podem explicar tal fascínio.

Perkins divide o livro em dez traços de personalidade ou atitudes muito marcantes de Shackleton, que tornaram possível manter 28 homens unidos durantes os mais de dois anos em que permaneceram perdidos na Antártida, no início do século passado.

Importantes lições atemporais, úteis para quem precisa liderar equipes sempre no limite – seja da sobrevivência ou da performance. (Em Português: Liderança no Limite.)

6a00e554b11a2e88330147e11ef9f6970b-150wi Dentro do mesmo tema, Margot Morrell tem uma abordagem bem mais detalhista, em seu Shackleton’s Way: Leadership Lessons from the Great Antarctic Explorer (Penguin, 2002).

Ela é responsável, também, pela única descrição que já vi da vida de Shackleton antes da sua famosa expedição com o Endurance. Foi neste livro que descobri, por exemplo, que The Boss era filho de um médico Quaker e que tinha nada menos do que oito irmãs. (A edição em Português, Shackleton – uma lição de coragem, está esgotada na editora.)

6a00e554b11a2e88330147e11f0742970b-150wi John Kotter é um dos mais celebrados autores sobre Lidarança, com meia dúzia de títulos publicados, todos sempre frequentando as melhores listas de best-sellers. Lendo The Heart of Change: Real-Life Stories of How People Change Their Organizations (Harvard Business Press, 2002), percebemos que isso não é à toa.

O livro é uma compilação de diversas pesquisas feitas por Kotter ao longo de mais de 20 anos como consultor, das quais ele extraiu uma série de oito comportamentos típicos de líderes de sucesso.

Mas longe de oferecer uma receita pronta para o sucesso, The heart of change é uma revisão de conceitos bastante simples, que a maioria de nós conhece ou já ouviu falar ao menos uma vez. A grande diferença aqui é vê-los em situações onde fizeram a diferença e foram responsáveis pelo sucesso de uma empresa. Absolutamente imperdível! (Ver O Coração da Mudança.)

6a00e554b11a2e88330148c72899d4970c-150wi Ian Ayres é um advogado, professor de Yale e articulista do Freakonomics. E, como boa parte da população adulta, percebeu que estava perdendo sua briga com a balança. Carrots and Sticks: Unlock the Power of Incentives to Get Things Done (Bantam, 2010) conta um pouco dessa sua luta (vitoriosa) e dos seus aprendizados sobre motivação e inspiração.

Através de curiosos experimentos científicos, Ayres desvenda um pouco do que funciona, do que não funciona e do que tem o efeito inverso quando procuramos aliados na luta contra nossa apatia, preguiça, gula, vício ou simples tendência a procrastinar um pouco mais.

Em Carrots and Sticks você verá o que funciona melhor de acordo com o seu objetivo. Perder peso, parar de fumar, ligar regularmente para a avó, estudar para as provas ou qualquer outra atitude que requeira um pouco mais do que força-de-vontade podem ter suas chances de sucesso multiplicadas se você souber a medida exata de incentivo – ou o castigo correto – que pode se auto impôr. Quer testar?

PROCESSOS DECISÓRIOS

Como você toma suas decisões? Que tipo de considerações faz – ou acha que faz – quando pesa prós e contras de cada opção? Escolhe entre alternativas por impulso ou delibera longamente sobre elas?

6a00e554b11a2e88330147e1224657970b-150wi Em How We Decide (Mariner Books, 2010), Jonah Lehrer desce (ou sobe?) até os níveis subcorticais do nosso cérebro para entender os caminhos percorridos pelos processos decisórios dentro dos nossos próprios centros de poder.

Além da parte biológica do processo – que no texto de Lehrer ganha uma leveza ímpar – você verá em How we decide a importância da emoção na tomada de decisão, abalando a velha crença de que boas escolhas devem ser feitas de forma estritamente racional. Ao contrário do que prega o senso comum, “razão sem emoção é impotente”. (Foi lançado recentemente O momento decisivo, que acredito que seja How we decide)

6a00e554b11a2e88330148c6b8b875970c-200wi Já Zachary Shore concentra-se nos erros mais comuns que cometemos quando tomamos decisões. Como o título sugere, Blunder: Why Smart People Make Bad Decisions (Bloomsburry, 2009) trata das peças que nosso cérebro nos prega quando escolhemos algo. O pior de tudo é que são peças invisíveis, já que ninguém cometeria erros de forma deliberada.

Shore tem um histórico de consultoria junto às Forças Armadas americanas, construído ao longo de sua carreira de professor de história. Sua narrativa é recheada de análises bastante interessantes de guerras e conflitos desde a Antiguidade até a Era Moderna, destacando erros e acertos, bem como o que poderia ter sido diferente.

6a00e554b11a2e88330133f5bedaed970b-150wi Indo da teoria à prática, Bruce Bueno de Mesquita é o que pode se chamar de um Nostradamus com muitos recursos. As impressionantes taxas de acerto deste especialista em Teoria dos Jogos são sustentadas por sua lógica nua e crua e vitaminadas por poderosos modelos matemáticos.

Mas nada disso torna maçante a leitura de  The Predictioneer’s Game: Using the Logic of Brazen Self-Interest to See and Shape the Future (Random House, 2010) que, antes disso, assemelha-se mais a uma história de suspense – mas que na maioria das vezes você conhece o final.

6a00e554b11a2e88330147e12297b4970b-150wi E como tomar decisões quando o ambiente é complexo demais, quando muitas variáveis influenciam o resultado, ou quando fatores imprevisíveis parecem vir do nada, com a força de sete furacões?

Kenneth Posner tenta responder algumas destas questões em Stalking the Black Swan: Research and Decision Making in a World of Extreme Volatility (Columbia University Press, 2010), um livro cujo título pega uma carona no best-seller de Nassim Taleb.

Da sua rotina de analista de um grande conglomerado financeiro, Posner certamente foi assombrado por vários Cisnes Negros – eventos com baixíssima probabilidade de acontecerem, mas com efeitos devastadores.

Sua experiência no assunto resulta em valiosas dicas para passar de presa a predador – ainda que, francamente, não acredito que se possa realmente caçar um Cisne Negro…

Livros de 2010 – parte I

Depois da Retrospectiva 2010, lembrando os textos que mais gostei de escrever neste ano, senti-me um pouco forçado a comentar sobre o que mais gostei de ler.

A leitora haverá de notar que, mesmo para os meus padrões, 2010 foi um ano atípico pela quantidade. Do lado de cá, no entanto, diria que foi ainda mais atípico pela qualidade. Como li coisas boas neste ano! Não foram raros os momentos em que terminava um livro com um sentimento de pesar, por virar a última de uma sequência de ótimas páginas.

Assim como na revisão dos textos, achei por bem dividir os livros em tópicos, mesmo que eu jamais tenha pensado em qualquer classificação enquanto os lia, tampouco no momento de comprá-los.

Como o texto vai ficar longo, recomendo que você dê uma passada de olhos e pare nos títulos ou assuntos que mais lhe interessem.

BIOGRAFIAS

6a00e554b11a2e88330147e118e087970b-150wi Depois de conhecer os perturbadores estudos de Stanley Milgram – onde ele avaliava o poder da autoridade sobre um indivíduo – busquei mais informações sobre a pessoa por trás do cientista (no bom sentido, claro). The Man Who Shocked The World: The Life and Legacy of Stanley Milgram (Basic Books, 2009) é um relato primoroso sobre o peso que representa escancarar ao mundo uma face do ser humano que ele próprio preferia não conhecer.

Mas Thomas Blass faz ainda mais e nos conta um pouco sobre vários outros trabalhos de Milgram, revelando um pesquisador inquieto, criativo e extremamente ousado para o seu tempo. Leitura fácil se você gosta de Psicologia.

6a00e554b11a2e88330147e1197547970b-150wiEndurance: Shackleton’s Incredible Voyage (Carroll & Graf, 1999) não é exatamente uma biografia, mas um relato sobre uma das mais incríveis aventuras de todos os tempos: os dois anos em que Sir Ernest Shackleton e seus 27 companheiros vagaram pela Antártida, no início do século passado, depois de uma fracassada tentativa de atravessar o contiente a pé.

A narrativa de Alfred Lansing foi escrita na década de 1950, a partir dos diários originais dos tripulantes, além de diversas entrevistas com os próprios e, por isso, serve como base para a maior parte do que se escreve sobre a viagem. Mais abaixo você ainda verá um pouco mais sobre este tema…

CIÊNCIAS

6a00e554b11a2e88330147e11900f1970b-150wi O primeiro livro desta categoria é a antítese de um livro sobre Ciências. Idiot America: How Stupidity Became a Virtue in the Land of the Free (Anchor, 2010) critica a forma como a disciplina é ensinada nas escolas e posteriormente tratada pela sociedade americana.

Os autores mostram como as políticas científicas de sucessivos governos foram capazes de aumentar ainda mais o abismo existente entre a comunidade acadêmica e o público leigo, marginalizando aqueles e condenando estes às eternas trevas da imbecilidade – situação com a qual parecem extremamente confortáveis.

6a00e554b11a2e88330148c72272a7970c-150wi Parece pouco promissor que alguém seja capaz de escrever algo sobre a inexatidão – e, menos ainda, que isso possa ser interessante. Pois Kees van Deemter consegue as duas coisas em Not Exactly: In Praise of Vagueness (Oxford University Press, 2010), um livro tão agradável quanto improvável.

Sua obra mostra o quanto conceitos tomados como finitos, concretos e absolutos são, em verdade, infinitos, abstratos e relativos. Sem apelar muito para fórmulas elaboradas ou explicações muito científicas – coisa que o livro anterior já deveria ter desencorajado – o autor desfia uma lógica extremamente elegante para expor a falta de precisão de nossas frases, argumentos e pensamentos.

A parte boa, segundo van Deemter, é que a maioria das imprecisões que propagamos são benignas e até necessárias pois sem ela, prossegue, não haveria muita alternativa para a comunicação.

6a00e554b11a2e88330148c7227fe9970c-150wi A leitora mais assídua já não aguenta mais me ouvir falar/ver escrever sobre The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains (WW Norton, 2010). Além de uma longa resenha sobre o livro (leia aqui), também publiquei uma entrevista com o autor, Nicholas Carr (veja aqui).

HISTÓRIA

Origin of Wealth: Evolution, Complexity, and the Radical Remaking of Economics (Harvard Business Press, 2007) foi sugerido pelo amigo Marcelo Pereira de Carvalho, com efusivas recomendações sobre sua qualidade.

6a00e554b11a2e88330147e11929f8970b-150wi Nenhum elogio era exagerado ou desmerecido, mas o início desta leitura foi adiado diversas vezes devido ao seu intimidador tamanho: quase 600 páginas bem recheadas – e que valem uma por uma.

Eric D. Beinhocker foge um pouco dos textos tradicionais da economia que buscam mostrar a forma como a riqueza é dividida. Para ele interessa, antes disso, a forma como ela é criada. Boa parte dos argumentos são emprestados da biologia e suas teorias evolutivas.

Ao mostrar a gênese da organização econômica através destas analogias, Beinhocker propõe um modelo extensivo, abrangente e, ao mesmo tempo, de fácil compreensão.

ILUSÕES COGNITIVAS

6a00e554b11a2e88330148c7229969970c-150wi Tanto Think Twice: Harnessing the Power of Counterintuition (Harvard Business School Press, 2009) quanto The Invisible Gorilla: And Other Ways Our Intuitions Deceive Us (Crown, 2010) são excelentes coleções de Ilusões Cognitivas muito bem explicadas.

O primeiro, escrito por Michael Mauboussin, é um pouco mais técnico e já mereceu, inclusive, uma resenha (leia aqui). Aliás, não escrevi ainda sobre o jogo de palavras da capa do livro. Você consegue percebê-lo?

6a00e554b11a2e88330148c722a23a970c-150wiThe invisible gorilla é a transposição para o papel de um estudo realizado por seus autores, Simons e Chabris, e que resultou numa espetacular ilusão, dando origem a diversas variações de pesquisas.

6a00e554b11a2e88330148c722d1f5970c-150wiThe Upside of Irrationality: The Unexpected Benefits of Defying Logic at Work and at Home (Harper, 2010) é o segundo ótimo livro de Dan Ariely, sobre o qual já escrevi uma série de três textos (veja o primeiro aqui) e, por isso, não vou me repetir.

O livro é bom – não tanto quanto Predictably Irrational por conta da novidade do tema – mas a escrita é mais pessoal e mostra um autor bem mais maduro.

Ariely escreve um pouco sobre alguns de seus dramas pessoais que motivaram a realização de pesquisas que respondem a perguntas aparentemente bizarras, como: Será que gente feia procura gente feia para casar? Por que umas pessoas aguentam mais a dor do que outras? É melhor sentir uma dor forte de uma vez ou uma dor fraca e mais prolongada?

PSICOLOGIA

6a00e554b11a2e88330148c722bc4b970c-150wi Demorei quase um ano para conseguir terminar de ler The Lucifer Effect: Understanding How Good People Turn Evil (Random House, 2008). Não porque o texto fosse ruim, o tema desinteressante ou o livro muito extenso (576 páginas embaralhadas com a menor letra distinguível a olho nu). Muito pelo contrário, talvez tenha sido o melhor do ano.

Tanto que antes mesmo de começar a ler The Lucifer Effect eu já havia escrito dois textos sobre o tema, dentro da série Experimentos em Psicologia.

Mas o tema é pesado, algumas passagens são extremamente deprimentes e a todo o tempo você compartilha das desanimadoras conclusões de Philip Zimbardo sobre a natureza humana, mostrando por que mesmo pessoas boas são capazes de atos de abominável maldade.

6a00e554b11a2e88330148c722c6f0970c-150wi A parte boa é que Zimbardo tem uma mensagem de otimismo muito positiva, ao descrever o que ele acredita ser o antídoto para o Efeito Lúcifer: a Imaginação Heróica.

O interessante é que recentemente fui consultado pela revista Amanhã (uma publicação do Sul especializada em negócios) , numa matéria sobre o Efeito Lúcifer nos escritórios.

Na qualidade de especialista sobre o tema e a obra de Zimbardo (sim, eu…!) ajudei a elaborar o texto que acabou sendo a capa da edição de Outubro de 2010, como você pode ver ao lado.

Bom, não teve jeito, vou precisar deixar os demais livros para outro texto. Minha leitura não terminou aqui. Veja aqui a outra metade…

Para o pessoal que está pedindo, apenas dois destes livros foram lançados aqui: A incrível viagem de Shackleton e Positivamente Irracional (The upside of irrationality).

Nem sempre o touro perde…

Causou consternação no mundo todo, na semana passada, a notícia da trágica morte da treinadora Dawn Brancheau, de 40 anos, afogada pela orca Tilikum, numa das piscinas do SeaWorld, na Flórida. Brancheau teria sido atacada pelo cetáceo e depois puxada pelo rabo-de-cavalo para o fundo da piscina, de onde seria resgatada já sem vida.

O acidente foi, de fato, uma tragédia. Mas não uma novidade, nem uma surpresa. Fatos semelhantes já haviam ocorrido antes – inclusive com a própria Tilikum, que coleciona outras duas mortes na sua extensa ficha corrida.

Mas há um outro detalhe por trás do episódio que parecemos não nos dar conta: a orca matar a treinadora é o desfecho mais natural desta relação e das outras que envolvem perigos desnecessários.

Uma delicada relação
Uma delicada relação

O esperado ocorre, da mesma forma, quando o leão come o domador, o touro empala o toureiro, o alpinista morre congelado ou o equilibrista cai da corda bamba. Isto seria o normal. Sempre que não ocorre desta forma é por alguma habilidade excepcional – ou sorte – da pessoa que, por essa exímia destreza1, recebe o título de artista.

Quando você entra num parque aquático ou num circo, pagou para ver alguém correndo risco de morte para seu deleite, quer isso envolva animais ferozes ou não. O mais plausível ali, entenda, seria a pessoa ser despedaçada ou esmigalhada pelo animal que tem cem vezes o seu peso e dentes do tamanho da sua mão.

Ao sentar-se no seu lugar, porém, você parece esquecer que em qualquer outra situação o tigre devoraria o lépido domador. Independentemente da cadeira ou do chicote, o felino lamberia os beiços com seu incauto quitute. Se você sai do picadeiro sem ter presenciado o sinistro banquete, algo não natural ocorreu. Mas você pode tentar de novo no horário seguinte.

Do mesmo modo, o alpinista que sobe o Everest deve morrer, pois assim ocorre quando uma pessoa enfrenta aquelas condições climáticas. Não há surpresa, portanto, quando isso ocorre, já que este é o desfecho natural para um ser humano sob neve e com ar rarefeito.

O destemido mundo dos recordes e dos feitos extraordinários está construído sobre as lápides dos menos aptos, dos não tão heróicos e dos azarados. As mortes nada glamorosas e rapidamente esquecidas (como era mesmo o nome daquele “domador” de crocodilos morto por uma arraia…?) dos agora anônimos aventureiros tornam-se meros efeitos colaterais da hipnotizante diversão da quase-tragédia.

Por isso eu adoro a piada do cara que vai a um restaurante ao lado de uma arena, em Madri, e pede o prato típico do local. Quando chegam os cojones, ele indaga o que seriam aquelas duas grandes bolas de carne em seu prato. Son los cojones del toro que murió hoy en la arena, explica o solícito garçom. Satisfeito e deliciado, o turista volta na semana seguinte para repetir a iguaria. Para sua surpresa, porém, o mesmo garçom traz-lhe duas pequenas bolotinhas. Quando reclama do tamanho da porção, ouve a plausível explicação: Ni siempre el toro pierde

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1. No meu caso particular seria “canhoteza”?