A marca da maldade

Em épocas de eleição, onde precisamos escolher dentre uma multidão de candidatos aqueles que nos representarão na tomada de importante decisões acerca do nosso futuro, deparamo-nos com as mais variadas personalidades – e isso parece ainda mais marcante em pleitos municipais. Encontramo-nos, nessas ocasiões, diante de escolhas entre bons, maus, honestos, corruptos, alguns bem-intencionados e outros nem tanto. É um momento em que questionamos, assim, nossos próprios valores. Ou ao menos deveríamos fazê-lo.

odeteroitmanDiante de tantos (maus) exemplos sobre a diversidade de caráteres, da escassez de modelos de comportamento e de honestidade, proponho a seguinte pergunta: o que torna uma pessoa má? O que faz com que ela desvie-se dos padrões morais estabelecidos e aceitos pela sociedade? Que escusos eventos lubrificam secretas prostituições da alma?

No célebre estudo de Stanford, da década de 1970, Phil Zimbardo idealizou um experimento que, de forma inesperadamente rápida, adquiriu proporções não imaginadas. Com a finalidade de estudar a psicologia de uma prisão, estudantes da Universidade de Stanford foram divididos entre presidiários e carcereiros, num cenário idêntico a um presídio convencional, dentro do próprio campus. O que se seguiu foi uma série de barbaridades perpetradas pelos “guardas” contra os “criminosos” – na realidade colegas – obrigando os pesquisadores a suspender a pesquisa no seu sexto dia, embora o planejamento inicial previsse duas semanas.

Na busca pelos motivos que faziam pessoas comuns cruzarem a fronteira entre o bem e o mal, tornando-se capazes de atrocidades semelhantes àquelas presenciadas por sua equipe, Zimbardo cunhou o termo efeito Lúcifer – numa alusão ao outrora preferido anjo de Deus, que rebelou-se diante da obrigação de adorar uma criação divina que, apesar de idealizado à Sua imagem e semelhança, despertou-lhe a inveja: o homem.

um_plano_simplesOutra interessante ilustração sobre o efeito Lúcifer pode ser acompanhada no excelente filme Um plano simples, de Sam “Spiderman” Raimi. Esse ótimo thriller psicológico conta a estória de um casal comum (ela grávida), vividos por Bill Paxton (de “Twister” e “Apollo 13”) e Bridget Fonda (“Mulher solteira procura”) que se depara com uma tentação difícil de recusar: uma bolsa contendo US$ 4 milhões no interior de um pequeno avião caído perto da pequena cidade onde moram. Para manter o inesperado tesouro, os dois iniciam uma escalada de maldades, cuja gravidade aumenta gradativamente até fugir do controle.

O que ambos os casos sugerem é que pessoas colocadas em ambientes ou situações hostis por natureza, tendem a esticar seus limites morais, ainda que nada de mal lhes tenha sido feito. Seria, então, uma reação natural (??) e inconsciente a um possível prejuízo – seja ele material, físico ou psicológico? Ocorre, no entanto, que muitos de nós já se deparou com cenários semelhantes. E a maioria de nós, felizmente, escolheu não vender sua alma – mesmo ciente das conseqüências.

Isso representa, na realidade, um dos princípios que possibilitam a vida em sociedade: a renúncia a alguns benefícios individuais em nome do bem-estar coletivo. Por esse motivo a maioria de nós paga Imposto de Renda, não suborna guardas de trânsito (aqui não sei se realmente é a maioria), respeita sinais de trânsito, não rouba, não mata. As leis e suas posteriores punições servem, ainda, como métricas reguladoras desses contratos sociais.

Vivemos épocas, talvez, onde essas simples convicções encontram-se minadas, corroídas, combalidas. O mero respeito a alguns desses princípios básicos representa a exceção, não a regra e causam mais estranheza do que a sua (esperada) obediência.

messiasE o que nos leva, cidadãos de bem, a agir assim? O que gera a corrupção de poucos e a omissão de muitos? Por que nas eleições, mais vale a honestidade de um candidato do que suas reais propostas, seus projetos políticos, suas crenças? Por que aceitamos que tudo seja nivelado tão por baixo? Você pensa nisso quando vota?

__________

Leia o outro texto que escrevi sobre os experimentos de Zimbardo em Experimentos em Psicologia – Phil Zimbardo e o efeito Lúcifer e Experimentos em Psicologia – Phil Zimbardo e a imaginação heróica.

Desafios gravitacionais

Seguindo mais um interessante post do blog do Balu, cheguei a um curioso artigo publicado recentemente no British Medical Journal, uma das mais respeitadas revistas de divulgação científica do mundo. Antes do artigo, porém, um breve preâmbulo sobre o seu contexto:

MedicinaO conceito de medicina baseada em evidência diz que só se devem utilizar métodos cientificamente comprovados no tratamento de doenças. À primeira vista parece um tanto quanto razoável, uma vez que por trás de um comprimido parece haver sempre uma enorme carga de ciência. Mas é aí que a coisa começa a se complicar.

Há vários níveis de estudos que podem ser feitos para que a eficácia de um medicamento seja, de fato, comprovada. Para a aprovação de um tratamento, de um medicamento, as exigências são bem altas com o objetivo de torná-lo o mais à prova de erros (e fraudes) possível.

Alguns pré-requisitos são básicos como um grupo-controle (o mesmo número de pessoas que toma o medicamento em teste toma uma pílula igual porém sem efeito – ou, placebo – para comparação dos resultados); duplo-cego (quando nem o médico nem o paciente sabem quem está tomando o medicamento e quem está tomando o placebo – para evitar o conhecido “efeito placebo”, que é a melhora do quadro clínico do paciente, mesmo ele tomando um comprimido inerte); randomizado (onde quem-vai-tomar-o-quê é decidido aleatoriamente).

O número de pacientes que participa do estudo também influi na sua credibilidade uma vez que, quanto maior a amostra, mais representativa ela é da população e, portanto, mais fiéis serão os resultados.

wise_monkeysQuestões éticas também devem ser observadas. A inclusão de crianças em estudos é sempre polêmica – ainda que determinadas doenças sejam eminentemente infantis. Outras condições crônicas apresentam alguns dilemas: não se pode suspender a medicação usual para dar placebo a um hipertenso ou diabético num estudo, pois sua condição pode se agravar.

A comunidade médica busca, assim, comprovações fortemente embasadas para suas práticas, de forma a melhor avaliar riscos e benefícios na escolha de uma conduta terapêutica. E consegue, indiretamente, proteção para suas decisões – já que sustentam-se em guidelines correntes.

A discussão do artigo mencionado acima gira em torno do excessivo apego a resultados de estudos. Claro que a medicina deve ser baseada em evidências científicas, mas não só isso. Muito do que se faz hoje – e com resultados – é fruto de observações mas que, por algum motivo, não podem ser comprovadas da forma como os mais puristas gostariam. E assim fecham-se as portas para alguns métodos e procedimentos há muito consagrados pela medicina tradicional.

Gordon Smith (professor da Universidade de Cambridge) e Jill Pell (Universidade de Glasgow) questionaram as evidências científicas de que o uso de pára-quedas previne morte ou traumas graves no “combate a desafios gravitacionais” – nada mais do que uma queda livre.

Para tanto eles realizaram uma meta-análise (revisão de todos os estudos já publicados sobre o assunto, combinando seus resultados através de procedimentos estatísticos) em busca de artigos que explorassem o tema (o pára-quedas é “bom” para queda livre?)obedecendo aos critérios:

paratrooper_2:: grupo controle (parte das pessoas pulavam com pára-quedas, parte pulava sem);

:: duplo-cego (nem os pesquisadores nem os voluntários sabiam que mochilas continham os pára-quedas); e

:: randomizado (os voluntários que receberiam mochilas com e sem pára-quedas seriam escolhidos aleatoriamente).

Buscando as principais fontes de artigos médicos disponíveis, Smith e Pell encontraram mais ou menos, algo em torno de aproximadamente nenhum exemplo que obedecesse aos critérios acima. Óbvio, não? Ora, por que, então, as pessoas continuam usando pára-quedas? Afinal, esclarecem, nem todo mundo que usa pára-quedas sobrevive e nem todo mundo que pula ou cai de alturas altas morre.

O tom um tanto jocoso e galhofesco do artigo, bem como o absurdo de seu tema, servem a um objetivo bastante claro na medicina, qual seja, a necessidade de referências altamente científicas que justifiquem uma opinião própria.

Claro que os avanços tecnológicos do século XXI formaram bases para uma medicina não tão baseada no achismo e na experimentação. Até porque os advogados do século XXI seguiram o mesmo caminho. Mas isso não significa que práticas consagradas pelo uso, pela tradição e, principalmente, pelo bom-senso devam ser completamente abandonadas

 

medicina_tradicionalTraçando um paralelo para outras áreas do conhecimento, talvez precisemos dar um pouco mais de atenção ao bom-senso em detrimento da ciência pura.

Um pouco mais de atenção à intuição e outros sentidos do que a fórmulas e cientificismos exagerados. Ou, pelo bem da ciência, da humanidade, você estaria disposto a participar do primeiro estudo controlado, duplo-cego e randomizado testando a real eficácia dos pára-quedas?

No meio desse post encontrei um outro artigo falando sobre o mesmo tema, o mesmo paper. Quase desisti de terminá-lo, pois está muito bem escrito e seu autor é um médico. Mas eu não poderia fazer isso com vocês, queridos leitores… De qualquer forma, sugiro uma olhada!