Traído pela ambição

Acompanho com tristeza os recentes desdobramentos da meteórica carreira do escritor americano Jonah Lehrer. Os eventos da última semana puseram em xeque o talento do jovem autor que, aos 31 anos, já tinha três livros lançados com enorme sucesso e despontava para uma promissora carreira.

Formado em Neurociências pela Universidade de Columbia e com Doutorado em Literatura e Psicologia em Oxford, Lehrer tem inegável talento para traduzir Ciências para o público leigo, mostrando no dia-a-dia as implicações do que se pesquisa na Academia.

Além dos livros, Lehrer era editor-assistente da Wired, até ser contratado pela The New Yorker para seu staff de articulistas. Foi quando tudo começou a azedar.

Jonah Lehrer em São Paulo - junho de 2012 (FOTO: minha mesmo)
Jonah Lehrer em São Paulo – junho de 2012 (FOTO: minha mesmo)

Conheci Lehrer em junho, quando da sua vinda a São Paulo para um evento de educação corporativa no qual promoveria, também, seu mais recente livro, Imagine: How Creativity Works, resenhado como Livro do Mês no blog da PharmaCoaching.

Simpático e articulado em conversa informal, Lehrer surpreendeu-me pela sua postura em palco, ao dar sua palestra: apático, parecia ler um texto pronto, demonstrando pouca empatia com o público. Apesar de ter-se mostrado cordial e inclusive deixado uma entrevista agendada para o mês seguinte, quando da minha ida a Los Angeles, onde reside, algo parecia errado.

Minhas suspeitas se confirmaram dias depois, quando encontrei Daniel Pink em Phoenix. Comentei o encontro e minhas impressões com Pink, que disse que, de fato, havia algo errado ali. Mas, elegante, ele não disse o quê.

Numa rápida googlada encontrei o possível motivo de seu comportamento errático: Lehrer estava sendo acusado de auto-plágio, caracterizado pela reutilização de material próprio, previamente publicado, sem referência ao original. O autor requentara alguns textos antigos na The New Yorker. Uma falha grave, mas pequena em comparação com o que viria a seguir.

Em Imagine, um profundo estudo sobre as origens da criatividade e como ela funciona, Lehrer usa Bob Dylan como exemplo para alguns dos conceitos que explora no livro. Mas Michael C. Moynihan, jornalista do Tablet e fã ardoroso do ídolo pop americano, encontrou inconsistências nas referências a Dylan e começou a questionar Lehrer.

Profundo conhecedor da biografia do autor de Like a Rolling Stone, Moynihan pressionou o autor de Imagine, até que ele confessou: algumas frases e contextos haviam sido fabricados. Lehrer citou frases que Dylan nunca pronunciou e distorceu alguns fatos para embasar suas teorias.

A farsa manchou de vez a reputação de Lehrer, expondo um comportamento reprovável para um autor de sua projeção. Enquanto via-se forçado a pedir demissão da The New Yorker, sua editora, a  Houghton Mifflin Harcourt, iniciava um recall do recém-lançado Imagine. De fato, o livro já não é mais encontrado na Amazon, nem na Barnes & Noble.

Mas o que leva um autor em franca ascensão a tal comportamento que, no fim das contas, pode custar-lhe a carreira? Uns dizem que o compromisso assumido com a The New Yorker seria o início de uma pressão para a qual ele talvez não estivesse preparado, sendo obrigado a publicar frequentemente, num tema extremamente complexo e original.

Outra vertente sustenta que Lehrer foi traído pela própria ambição, ao despontar muito cedo numa carreira que exige constante inovação – curiosamente, o tema de sua derradeira obra.

Qualquer que seja a razão, fica o alerta não só para os autores iniciantes sobre os limites do próprio talento, algo que muitos teimam em não reconhecer. Escrever já não é nada fácil, especialmente quando você entra numa lista de best sellers da qual não quer mais sair, ou precisa reinventar-se o tempo todo. E o mesmo vale para a textos acadêmicos.

Do outro lado, cabe aos editores o cuidado de equilibrar o que o público quer com o que sua equipe pode oferecer. Quantidade e qualidade raramente andam de mãos dadas no mercado editorial. A relação com o staff de escritores deve ser pautada pela confiança, mas resguardada pela pesquisa e investigação criteriosa dos materiais submetidos.

Fico triste com o ocorrido, porque além de gostar de Imagine e de How we decide?, sua obra anterior, Lehrer certamente tem talento para produzir livros de alto nível, sem precisar apelar a artifícios tão grosseiros quanto infantis. Porque, a bem da verdade, Imagine tem seus méritos e poderia passar sem Bob Dylan, por assim dizer.

Torço para que Lehrer aprenda as lições do erro cometido e consiga dar a volta por cima, com mais maturidade e menos ansiedade.

Aprender a ensinar ou ensinar a aprender?

Educação tem sido um tema recorrente aqui no blog. Algumas vezes é o meu lado ogro falando da falta dela. Outras, é dentro de um dos meus esportes favoritos: dar pitaco sobre o que não sei. Este texto encaixa-se na segunda categoria, tomando Educação no sentido puramente pedagógico.

O ponto de partida é o excelente Disrupting Class: How Disruptive Innovation Will Change the Way the World Learns (McGraw-Hill, 2008), de Clayton Christensen e Michael Horn. Na obra, os autores fazem uma profunda análise do sistema educacional adotado atualmente, destacando seus prós e contras e, principalmente, sugerem uma radical solução de transformação.

Os autores valem-se, basicamente, da teoria de Inovação Disruptiva do próprio Christensen para fundamentar suas ideias que, embora espelhem o modelo americano, servem à maioria dos países, por adotarem metodologias semelhantes.

Grosso modo, o estudo parte do conceito de Inteligências Múltiplas de Howard Gardner, que sustenta a tese de que cada pessoa tem um tipo particular de inteligência predominante, da qual desenvolve suas habilidades características. Gardner identificou ao menos sete diferentes características.

Um atleta ou bailarino, por exemplo, tem a Inteligência Cinética mais desenvolvida, que alia a coordenação dos seus movimentos a uma percepção espacial mais desenvolvida. Do mesmo modo, um artista terá como habilidade principal a Inteligência Estética ou a Inteligência Sonora, conforme o caso.

O reflexo disso no aprendizado é que cada uma destas predisposições influencia no modo como cada pessoa aprende. Se uma pessoa tem uma Inteligência Visual diferenciada, aprenderá melhor através de estímulos visuais – o mesmo se aplicando para as demais.

Ocorre que o sistema educacional ocidental foi desenvolvido com o objetivo de atender ao maior número possível de pessoas, numa época em que ainda não havia estudos mostrando as diferentes formas de aprendizado. Noutras palavras, as escolas hoje buscam a melhor maneira de ensinar – que não necessariamente coincide com a melhor maneira de aprender.

Esta padronização – que serviu muito bem ao objetivo da inclusão – deixa sérias lacunas no quesito efetividade. Enquanto alguns alunos se destacam por se adaptarem bem ao atual modelo, a maioria fica para trás, passando de ano aos trancos e barrancos. Em Motivação 3.0, Daniel Pink deixa claro que passar na prova de Francês é uma coisa e aprender o idioma é outra, completamente diferente.

A solução apontada por Christensen e Horn apoia-se no aprendizado individualizado, possível através da informatização das salas de aula. Eles alertam, no entanto, que entupir as escolas de computadores está longe de ser a solução. Até porque a maioria das experiências neste sentido falhou no sentido de melhorar o nível do ensino, uma vez que continuavam reproduzindo o atual modelo de ensino.

Na proposta dos autores, softwares específicos preparariam os planos de aulas mais adequados à forma como cada aluno melhor aprende, a partir de bancos de conteúdos preparados pelos professores – e até pelos próprios alunos ou seus pais.

O mais curioso desta proposta é que recentemente tive a oportunidade de experimentá-la na prática, mesmo sem saber. Por acaso comecei a assistir a um documentário da BBC, com o sugestivo título de Power, Proof and Passion – The Story of Science. O programa, dividido em seis episódios, busca responder às questões que mais intrigaram a humanidade desde os seus primórdios, como De que o mundo é feito? ou É possível ter energia inesgotável? Veja abaixo uma parte do primeiro episódio (em Inglês):

A produção absolutamente impecável da TV inglesa, aliada ao primoroso texto de Michael Mosley, também o entusiasmado apresentador da série, abordam temas com os quais todos nós brigamos em nossos tempos de escola. (ATUALIZAÇÃO 31/05/2012: a série virou um livro belíssimo, todo ilustrado, que já foi lançado em Português. Veja aqui: Uma História da Ciência.)

Mas quando Mosley nos mostra os primeiros motores a vapor construídos por James Watt, fica fácil aprender as leis da termodinâmica. Quando o vemos repetindo os experimentos de Lavoisier nos castelos franceses, a explicação da lei da conservação das massas parece simples. Ao entrarmos nos subterrâneos de Paris, onde os primeiros fósseis encontrados deram origem à Origem das Espécies, entender a evolução torna-se um prazer. Ou então conhecer o caminho do estudo do peixe elétrico ao desenvolvimento da primeira pilha por Alessandro Volta – que, pasme, não tinha nenhuma utilidade! -, à descoberta acidental do eletromagnetismo. Ter um déjà vu acadêmico é inevitável.

Mais importante do que isso, talvez seja o modo como Mosley mostra o todo o desenvolvimento de determinadas áreas do conhecimento, os caminhos percorridos pelos cientistas da época, a destruição de antigas teorias para o aparecimento das novas. O espectador participa da evolução das ideias, compartilhando as dúvidas geradas e respondidas, num fluxo intelectualmente estimulante e de contínua surpresa.

Outra grata surpresa em documentários é The Ascent of Money*, baseada no livro homônimo de Niall Ferguson (The Ascent of Money: A Financial History of the World), que faz uma viagem através da história mostrando a influência do dinheiro nos acontecimentos mais marcantes da humanidade. O trailer abaixo também está em Inglês.

Em vários aspectos, The Ascent of Money vale por diversas aulas de História e várias de Geografia, ou um período inteiro de Economia, dependendo das suas aspirações acadêmicas.

Mas talvez a maior contribuição destes exemplos seja mostrar, no sentido mais amplo da palavra, como temas desinteressantes nas aulas com a tradicional combinação cuspe e giz (ou mesmo datashow), podem se tornar interessantes e estimulantes dependendo do formato. E, mais do que isso: alguns destes formatos já estão disponíveis por aí.

A pergunta passa a ser, então: por que não experimentar?

Livros de 2010 – parte II

No texto anterior comecei uma revisão dos livros lidos em 2010. A pedidos, inclusive, acrescentei aqueles que já foram lançados em Português e podem ser comprados aqui sem dificuldades. Curiosamente, sobraram dois temas bem ligados a trabalho. Então vejamos a continuação.

LIDERANÇA e MOTIVAÇÃO

6a00e554b11a2e88330148c7285bc0970c-150wi Fiquei muito bem impressionado com Daniel Pink depois de assistir a uma palestra sua no TED. Seu segundo livro, Drive: The Surprising Truth About What Motivates Us (Riverhead, 2009) tem os mesmos traços de humor refinado que seu autor esbanja em vídeo.

Pink aborda o tema da motivação de forma completamente fora dos padrões tradicionais – e é exatamente aí que reside todo o valor da sua obra.

Num mundo em que tudo muda numa velocidade assustadora, é incrível notar como coisas tão importantes como a motivação permaneçam atreladas a dogmas de 20, 30 anos atrás. Ou mais. (Em Português: Motivação 3.0.)

6a00e554b11a2e88330147e0aebc43970b-200wi Em todo o mundo, a indústria da autoajuda rende bilhões de dólares, subtraídos de trouxas, digo, leitores que esperam encontrar em algumas páginas a solução de todos os seus problemas. Se você é desses, fique longe de Bright-sided: How the Relentless Promotion of Positive Thinking Has Undermined America (Metropolitan Books, 2009).

Barbara Ehrenreich é uma crítica ferrenha não só da autoajuda, mas também do pensamento positivo de um modo geral. Para ela, a promessa de que o pensamento positivo tudo resolve serve apenas para paralisar a iniciativa e esperar o próximo sopro de sorte. Faz um tentido enorme, não faz

6a00e554b11a2e88330133f5977df6970b-200wi Sir Ernest Shackleton é considerado por muitos o maior líder que já existiu. Em Leading at the Edge : Leadership Lessons from the Extraordinary Saga of Shackleton’s Antarctic Expedition (AMACOM, 2000) Dennis Perkins analisa algumas das características do explorador irlandês que podem explicar tal fascínio.

Perkins divide o livro em dez traços de personalidade ou atitudes muito marcantes de Shackleton, que tornaram possível manter 28 homens unidos durantes os mais de dois anos em que permaneceram perdidos na Antártida, no início do século passado.

Importantes lições atemporais, úteis para quem precisa liderar equipes sempre no limite – seja da sobrevivência ou da performance. (Em Português: Liderança no Limite.)

6a00e554b11a2e88330147e11ef9f6970b-150wi Dentro do mesmo tema, Margot Morrell tem uma abordagem bem mais detalhista, em seu Shackleton’s Way: Leadership Lessons from the Great Antarctic Explorer (Penguin, 2002).

Ela é responsável, também, pela única descrição que já vi da vida de Shackleton antes da sua famosa expedição com o Endurance. Foi neste livro que descobri, por exemplo, que The Boss era filho de um médico Quaker e que tinha nada menos do que oito irmãs. (A edição em Português, Shackleton – uma lição de coragem, está esgotada na editora.)

6a00e554b11a2e88330147e11f0742970b-150wi John Kotter é um dos mais celebrados autores sobre Lidarança, com meia dúzia de títulos publicados, todos sempre frequentando as melhores listas de best-sellers. Lendo The Heart of Change: Real-Life Stories of How People Change Their Organizations (Harvard Business Press, 2002), percebemos que isso não é à toa.

O livro é uma compilação de diversas pesquisas feitas por Kotter ao longo de mais de 20 anos como consultor, das quais ele extraiu uma série de oito comportamentos típicos de líderes de sucesso.

Mas longe de oferecer uma receita pronta para o sucesso, The heart of change é uma revisão de conceitos bastante simples, que a maioria de nós conhece ou já ouviu falar ao menos uma vez. A grande diferença aqui é vê-los em situações onde fizeram a diferença e foram responsáveis pelo sucesso de uma empresa. Absolutamente imperdível! (Ver O Coração da Mudança.)

6a00e554b11a2e88330148c72899d4970c-150wi Ian Ayres é um advogado, professor de Yale e articulista do Freakonomics. E, como boa parte da população adulta, percebeu que estava perdendo sua briga com a balança. Carrots and Sticks: Unlock the Power of Incentives to Get Things Done (Bantam, 2010) conta um pouco dessa sua luta (vitoriosa) e dos seus aprendizados sobre motivação e inspiração.

Através de curiosos experimentos científicos, Ayres desvenda um pouco do que funciona, do que não funciona e do que tem o efeito inverso quando procuramos aliados na luta contra nossa apatia, preguiça, gula, vício ou simples tendência a procrastinar um pouco mais.

Em Carrots and Sticks você verá o que funciona melhor de acordo com o seu objetivo. Perder peso, parar de fumar, ligar regularmente para a avó, estudar para as provas ou qualquer outra atitude que requeira um pouco mais do que força-de-vontade podem ter suas chances de sucesso multiplicadas se você souber a medida exata de incentivo – ou o castigo correto – que pode se auto impôr. Quer testar?

PROCESSOS DECISÓRIOS

Como você toma suas decisões? Que tipo de considerações faz – ou acha que faz – quando pesa prós e contras de cada opção? Escolhe entre alternativas por impulso ou delibera longamente sobre elas?

6a00e554b11a2e88330147e1224657970b-150wi Em How We Decide (Mariner Books, 2010), Jonah Lehrer desce (ou sobe?) até os níveis subcorticais do nosso cérebro para entender os caminhos percorridos pelos processos decisórios dentro dos nossos próprios centros de poder.

Além da parte biológica do processo – que no texto de Lehrer ganha uma leveza ímpar – você verá em How we decide a importância da emoção na tomada de decisão, abalando a velha crença de que boas escolhas devem ser feitas de forma estritamente racional. Ao contrário do que prega o senso comum, “razão sem emoção é impotente”. (Foi lançado recentemente O momento decisivo, que acredito que seja How we decide)

6a00e554b11a2e88330148c6b8b875970c-200wi Já Zachary Shore concentra-se nos erros mais comuns que cometemos quando tomamos decisões. Como o título sugere, Blunder: Why Smart People Make Bad Decisions (Bloomsburry, 2009) trata das peças que nosso cérebro nos prega quando escolhemos algo. O pior de tudo é que são peças invisíveis, já que ninguém cometeria erros de forma deliberada.

Shore tem um histórico de consultoria junto às Forças Armadas americanas, construído ao longo de sua carreira de professor de história. Sua narrativa é recheada de análises bastante interessantes de guerras e conflitos desde a Antiguidade até a Era Moderna, destacando erros e acertos, bem como o que poderia ter sido diferente.

6a00e554b11a2e88330133f5bedaed970b-150wi Indo da teoria à prática, Bruce Bueno de Mesquita é o que pode se chamar de um Nostradamus com muitos recursos. As impressionantes taxas de acerto deste especialista em Teoria dos Jogos são sustentadas por sua lógica nua e crua e vitaminadas por poderosos modelos matemáticos.

Mas nada disso torna maçante a leitura de  The Predictioneer’s Game: Using the Logic of Brazen Self-Interest to See and Shape the Future (Random House, 2010) que, antes disso, assemelha-se mais a uma história de suspense – mas que na maioria das vezes você conhece o final.

6a00e554b11a2e88330147e12297b4970b-150wi E como tomar decisões quando o ambiente é complexo demais, quando muitas variáveis influenciam o resultado, ou quando fatores imprevisíveis parecem vir do nada, com a força de sete furacões?

Kenneth Posner tenta responder algumas destas questões em Stalking the Black Swan: Research and Decision Making in a World of Extreme Volatility (Columbia University Press, 2010), um livro cujo título pega uma carona no best-seller de Nassim Taleb.

Da sua rotina de analista de um grande conglomerado financeiro, Posner certamente foi assombrado por vários Cisnes Negros – eventos com baixíssima probabilidade de acontecerem, mas com efeitos devastadores.

Sua experiência no assunto resulta em valiosas dicas para passar de presa a predador – ainda que, francamente, não acredito que se possa realmente caçar um Cisne Negro…

Positivamente Irracional – Dan Ariely

Positivamente IrracionalMuito provavelmente você está lendo aqui o primeiro texto em português sobre Positivamente Irracional – o novo livro de Dan Ariely (@danariely)*.

Depois do estrondoso sucesso de Previsivelmente Irracional, o escritor americano-israelense brinda-nos, agora, com uma obra mais pessoal, um livro recheado com histórias dos bastidores da suas pesquisas, impressões pessoais e algumas emocionantes narrativas, entremeando suas valiosas contribuições à Economia Comportamental.

Outra grande diferença em relação à primeira obra, como ele mesmo destaca, reside naquilo que ele chama de o lado positivo da nossa irracionalidade, tal como adiantado no título. Também é notória a sua evolução como contador de histórias, fazendo de Upside mais uma divertida viagem pelos misteriosos caminhos da nossa mente.

Ariely abre o livro com um poderoso argumento em favor da irracionalidade humana, em oposição à tão celebrada racionalidade defendida pela Economia Tradicional: a procrastinação. Para o autor, o hábito de adiar tarefas ou adotar comportamentos perniciosos não faria sentido se nossa preocupação central fosse maximizar a utilidade e/ou benefícios em todos os nossos atos. Fôssemos realmente seres estritamente racionais, ninguém fumaria, deixaria os exercícios e a correta alimentação de lado, ou trocaria de carro todo ano em vez de poupar para a aposentadoria.

Dividido em duas partes – a Irracionalidade no Trabalho e na Vida Pessoal -, o passeio pelo tema começa, desta vez, com um assunto que tem sido tema frequente em minhas últimas leituras: a motivação. Tal como abordei num recente texto em O Líder Acidental (Recompensas: a ciência e o mundo real), Ariely acredita que nossos conceitos e crenças sobre o que realmente nos motiva estão equivocados e, geralmente, emprestamos excessiva credibilidade às recompensas – especialmente as financeiras – como impulsionadores do nosso comportamento.

Sustentando suas afirmações, Ariely relata um experimento onde os voluntários recebiam diferentes níveis de recompensas para realizar tarefas, tendo suas performances medidas em comparação com os valores recebidos. O pulo do gato na pesquisa foi realizá-la numa aldeia rural da Índia, onde a reduzidíssima renda per capita da população transformava o limitado orçamento da empreitada em vultuosos e significativos incentivos para seus desprovidos participantes.

Foco é tudo?
Foco é tudo?

Divididos em três grupos (B – recompensa baixa: equivalente a um dia de trabalho; M – recompensa moderada: equivalente a duas semanas de trabalho; e A – recompensa alta: equivalente a cinco meses de trabalho), a equipe de pesquisadores chegou a um surpreendente resultado: quanto maior o incentivo, pior a performance.

Por mais contraintuitiva que a conclusão possa parecer – especialmente para os banqueiros e investidores para quem Ariely teve o desprazer de apresentá-la – ela encontra respaldo em diversos outros experimentos realizados anteriormente, como o famoso Experimento da Vela, realizado por Sam Glucksberg (citado no texto linkado acima e brilhantemente explorado em Drive: The Surprising Truth About What Motivates Us, de Daniel Pink – @DanielPink).

Em ambos os casos, a explicação sugere que incentivos grandes demais tiram o foco da tarefa em si, desviando a atenção do participante para o próprio prêmio. Imagine que lhe oferecessem R$ 1.000.000,00 para que você criasse, em 72 horas, um novo e inovador modelo para vender celulares e planos de tarifas. Quanto tempo você gastaria pensando no projeto e quanto tempo dedicaria imaginando o que faria com um milhão de Reais? Por outro lado, o que aconteceria se eu te desse R$ 10,00 por cada pulo que você desse em 24 horas? Você não passaria o dia todo pulando?

Há um outro lado nessa história (não abordado por Ariely talvez por não ser o foco de suas pesquisas) que diz respeito aos efeitos colaterais que incentivos grandes demais podem ter sobre os incentivados: a fraude. Como explica Bruce Bueno de Mesquita em The Predictioneer’s Game, um bônus grande demais por vezes confunde os limites entre o certo e o errado, abrindo caminho para malabarismos contábeis, piruetas fiscais e outros comportamentos menos éticos na busca por atingir os números mágicos.

Depois que a leitora se recuperar do choque de ver um louco dizendo que dinheiro não é tudo, provavelmente ela se perguntará: OK, o que motiva as pessoas, então, Seu Ariely?

De uma experiência pessoal, Ariely revela um interessante insight: quando iniciamos uma conversa pessoal com um estranho – seja no avião, numa sala de espera ou num bar – comumente contamos o que fazemos profissionalmente antes mesmo de dizer nosso nome. Nossa vida profissional parece ter, ao menos nessas situações, um significado maior até do que a pessoal.

Ocorre, porém, que os ambientes de trabalho parecem ignorar essa importância e reduzem as horas que passamos no escritório a uma finalidade por si mesma: a subsistência. O pensamento corrente nas grandes corporações sugere que o trabalho é algo intrinsecamente desagradável e, por isso, o funcionário precisa de dinheiro e controles para realizá-lo. Claro que o dinheiro é necessário – e muito dinheiro é desejável – mas não é só por isso que você se levanta cedo todas as manhãs. Ou pelo menos não deveria ser.

Desmontando Legos: qual o sentido do que você faz?
Desmontando Legos: qual o sentido do que você faz?

O curioso experimento que sustentou essa afirmação pedia a voluntários que montassem umas figuras de Lego, segundo instruções específicas, recebendo recompensas (em dinheiro) decrescentes por cada etapa cumprida.

Ao terminar uma figura, o pesquisador perguntava se ele queria fazer mais uma, sucessivamente, até que a recompensa chegasse a zero. Era-lhes explicado, também, que as figuras seriam desmontadas logo depois, porque as peças usadas seriam reaproveitadas nas etapas seguintes.

A diferença que separava dois grupos de voluntários estava na situação em que as peças eram desmontadas: para um grupo, tudo o que eles faziam era guardado numa caixa para ser desmontado mais tarde; para o outro, as peças eram desmontadas imediatamente, na frente deles, assim que eles as terminavam.

Nesta sutil variação, conta Ariely, era visível a frustração dos voluntários ao ver seu trabalho desfeito diante de seus olhos. Ainda que a tarefa fosse insignificante, testemunhar a destruição do seu esforço, a inutilização do seu trabalho é algo extremamente desmotivante. Com efeito, este segundo grupo desistia do experimento muito antes do primeiro. Ariely comprovava, então, que encontrar significado naquilo que se faz representa um importante fator motivacional.

Ainda assim, os ferrenhos defensores da Economia Tradicional insistem com Ariely que seus experimentos são muito simplistas e reduzem uma complexa realidade às reduzidas condições de um laboratório. Sem dúvida que a crítica é válida, resultado de limitações dos próprios métodos empregados. Mas é uma limitação inescapável, que pesa sobre a maioria dos experimentos, não só em Psicologia mas também na própria Física, de onde a Economia emprestou seus primeiros fundamentos.

Cabe à leitora, assim, saber equilibrar tais limitações frente ao uso que dá às suas interpretações. De todo modo, são valiosas contribuições que servem, ao menos, para questionar verdades tidas até então como absolutas. Veja um pouco mais a respeito disso e de como é possível motivar as pessoas no texto seguinte.