Inovação: de onde vem, para onde vai?

Desde que começou a recente crise financeira, escrevi alguns textos a respeito, sempre destacando que, após o susto inicial e a retomada dos investimentos, alguns setores da economia tradicional tenderiam a atrair maior atenção que outros meramente especulativos. Isso haverá de refletir-se, sem dúvida, nas iniciativas cujo foco é a inovação.

Quando abordei a crise sob a ótica de Mintzberg, lembrei que as inovações precisam percorrer longos caminhos dentro das empresas e muitas vezes acabam exterminadas no ninho, por sua natureza pouco lucrativa. Epa? Inovação pouco lucrativa? Mas o iPod não vende milhões? O carro híbrido não está bombando? Sim, sim, mas não é bem assim, ou melhor, não foi sempre assim. O começo é árduo e a jornada, tortuosa. Por isso muitos ficam pelo caminho.

6a00e554b11a2e8833010535dcb9fc970c-320wi Os produtos ditos revolucionários têm, na maioria das vezes, performances piores e preços bem maiores do que seus concorrentes, numa ingrata relação custo/benefício. Lembrem-se, por exemplo, que os primeiros carros híbridos custavam pequenas fortunas, tinham pouca autonomia e desenvolviam baixa velocidade final; assim como os primeiros mp3 players armazenavam poucas músicas pois a memória flash era cara demais.

Por conta disso essas inovações revolucionárias ficam restritas, inicialmente, a nichos bastante específicos. Esses mercados incipientes – criados com tecnologias realmente disruptivas – são pequenos demais e/ou oferecem margens pouco atrativas às grandes companhias, quando comparados às suas atividades tradicionais e acabam ficando, conseqüentemente, de fora dos seus planos de negócio.

Quando a tecnologia embarcada nesses produtos se desenvolve um pouco mais (baterias mais leves e potentes; memórias mais baratas), tais produtos eventualmente evoluem e alcançam os players já estabelecidos. Foi o que ocorreu quando, por exemplo, o Toyota Prius ganhou mais velocidade e autonomia aproximando-se dos seus concorrentes movidos somente à gasolina ou diesel, ou quando os iPods romperam a barreira das dezenas de gigabytes de memória.

6a00e554b11a2e8833010535d60ddb970b-300wi Com o aumento nas vendas vieram as economias de escala, que trouxeram seus preços aos níveis de seus competidores mais próximos. E, assim, melhoraram as margens, o que permitiu novos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, criando um ciclo virtuoso de inovação/renovação, em que cada novidade já trazia embutida em si sua própria obsolescência.

Por esse motivo, a maior parte das recentes (r)evoluções nos mercados mundiais teve, em algum momento, a participação de uma startup. Alguma pequena empresa que resolveu explorar e desenvolver uma nova tecnologia ou um modelo de negócio inovador, sem compromisso com os volumes fabulosos, margens colossais ou resultados trimestrais das grandes corporações.

Foram iniciativas que, apesar das dificuldades, provaram-se consistentes e atingiram maturidade. Várias delas atraíram a atenção de empresas maiores e foram alvos de fusões e aquisições. Outras tornaram-se tão grandes que dominaram seus mercados.

O Dilema da InovaçãoEm sua seminal obra O Dilema da Inovação, Clayton Christensen demonstra que grandes corporações investem seus recursos de P&D em iniciativas que lhes trarão, no final das contas, avanços (tecnológicos) incrementais mantendo, assim, o status quo do próprio mercado, acrescido de uma taxa orgânica de crescimento.

Para as mudanças que rompem de fato com os tradicionais modelos de negócio, existem barreiras quase intransponíveis nas grandes empresas como, por exemplo, suas estruturas de custos.

O próprio Christensen explora o tema novamente em “Innovation Killers: how financial tools destroy your capacity to do new things, onde ilustra a forma como algumas ferramentas de análise financeira descartam iniciativas por conta de seus prováveis resultados. Comparam, freqüentemente, o ROI de novos investimentos com a manutenção do atual nível de atividade, o que quase sempre resulta no engavetamento de projetos mais ousados. Esquecem-se, contudo, que não há garantias de que o atual nível de atividade seja mantido – e em tecnologia temos visto que é exatamente o oposto.

O que se percebe é que o ritmo de criação de startups diminuiu no Brasil, bem como a freqüência e o volume de fusões e aquisições. Certamente esse não é um fenômeno nacional, mas uma realidade em todos os mercados mundiais que experimentam, desde já, dificuldades em manter os padrões de crescimento exigidos pelos investidores – especialmente os do mercado de ações.

As grandes corporações de hoje estão, sem dúvida, em busca das empresas que serão o que elas foram no passado: startups que inovaram e definiram seus mercados de amanhã. Onde estão essas empresas? Quais serão as novas tecnologias? O que você está fazendo de novo? Em quê você está apostando e quem está apostando em você?

A crise e a produtividade

Num artigo publicado há pouco mais de um ano na Harvard Business Review, Henry Mintzberg (que considero um dos mais brilhantes pensadores e teóricos no campo da estratégia) alertou-nos que a obsessão pela produtividade estava minando as grandes corporações americanas.

6a00e554b11a2e8833010535b645dd970b-150wi Em seu brilhante manifesto Productivity is killing american enterprise, o autor expressa seu temor de que a incessante busca por lucros imediatos (leia-se trimestrais), exigida pelos investidores, esteja comprometendo a sobrevivência das empresas no longo prazo. Para entregar o maldito double digit growth as companhias tomam decisões que, segundo ele, diminuirão em breve sua competitividade. Nas suas palavras, “estão trocando sua riqueza futura por resultados de curto prazo”.

Num exemplo surreal, imagine que você demita todos os funcionários da sua empresa e passe a vender seu estoque. Seus custos (insumos, mão-de-obra, energia etc.) cairíam a zero, sua receita continuaria estável e a produtividade/lucratividade dispararia. Até o dia que suas prateleiras ficariam vazias.

Na comparação feita por Mintzberg, as prateleiras das empresas começam a esvaziar no momento em que elas optam pelo lucro imediato em vez do investimento no futuro, numa atitude subserviente à vontade do acionista.

No brilhante Innovation Killers: How Financial Tools Destroy Your Capacity to Do New Things, Clayton Christensen (já citado num post anterior) mostra como as ferramentas de análise financeira usadas por quase todas as empresas jogam projetos inovadores no lixo, por sua natureza pouco rentável.

6a00e554b11a2e8833010535bd60d8970c-250wi A boa notícia, no meio de tantas más, é que o estouro dessa bolha imobiliária talvez represente o prenúncio de que o mercado operava num patamar e num ritmo irreais. As taxas de rentabilidade exigidas pelo mercado financeiro estavam, possivelmente, um pouco acima do que as empresas tradicionais podiam entregar – ao menos de forma saudável e consistente, sem precisar vender o almoço para comprar o jantar.

Se realmente houver uma diminuição no retorno exigido pelo acionista e as empresas puderem voltar a investir de forma consistente em seus futuros – leia-se inovação, pesquisa, construção e fortalecimento de marcas -, aí realmente viveremos tempos de reconstrução, renascimento de valores. Perceberemos, afinal, o quão vazios são esses milagres econômicos e os males causados pela recém-finada euforia financeira – requiescat in pace.

Ainda não perguntei a Mintzberg a opinião dele a respeito, mas gostaria de saber a sua. Cartas para a redação, obrigado.