Atirando no que não viu IV

E lá vou eu, mais uma vez, tentar fazer graça com as presepadas que empurram internautas desavisados aqui para os meus domínios. Para quem (ainda) não leu nada desta série, é uma coletânea das toscas consultas feitas ao Google e que, inadvertidamente, acabam resultando num acesso ao Não Posso Evitar… Senão vejamos:

O texto sobre canhotos continua tirando as dúvidas sobre esse pessoal esquisito, mas também deixa algumas coisas no ar. O sujeito que digitou “qual e o cerebro predominante do individuo que usa a mao esquerda”, ficaria surpreso em saber que, no caso dele, não é nenhum.

6a00e554b11a2e88330168e7ed4ebb970c-320wi Outro post sempre presente nestas compilações é A orgia das freiras universitárias – por motivos quase óbvios. Através do Google Images, um praticante do esporte solitário procurava fotos de “cabelinhos na perereca” – sem saber que batráqueos são carecas. Pena, para ele, que a única foto sugestiva tinha um X bem no xis da questão.

Já o leitor gordinho estava interessado em maneiras alternativas para perder uns quilinhos e perguntou ao oráculo “quantas calorias se perde em uma cagada”. Claro que a resposta não estava no meu texto antiecológico. Aliás, não deve estar em lugar algum.

Os sempre presente analfabetos conectados também deixaram suas marcas. O primeiro – que provavelmente é filho único – tinha uma dúvida absolutamente cinematográfica: “o filme que duas ermas se apaixonam pelo mesmo rapaz que morre no final do filme esse filme passou na tv em 1996”. Minha tag sobre filmes não tem nada parecido com isso. Nem com irmãs, muito menos com emas.

O segundo tem problemas de visão – o que atrapalham sua melhor escrita: “como enchegar o outro lado em uma negociação”. Antes de mais nada, queridão, vai negociar a leitura de um dicionário, porque conhecer as teorias de William Ury não vão te ajudar se você continuar escrevendo assim.

6a00e554b11a2e88330147e2f2a61a970b-320wi Quando alguém faz uma pergunta mais prática, como “e normal um carro soluça ao arrancar”, fico imaginando se ele vai realmente trocar a oficina pelo Google. De qualquer forma, é normal sim, principalmente se você tiver acabado de abastecê-lo. Então, o ideal é dar uns tapinhas no capô e esperar até que ele arrote. Neste caso, não importa se quem apareceu primeiro foi a solução ou o problema.

Há também aqueles que fazem perguntas bem completas. Tão completas que já vêm com a resposta. Mas a própria pessoa que pergunta não sabe disso. Exemplo (real): “como se denomina a teoria da dissonância cognitiva de Leon Festinger?” Como assim, animal, que parte você não entendeu? A cor do cavalo branco do Napoleão?

Por fim, deixo um recado ao presepeiro que buscou por “swallows rodolfo araujo”. Espero que seu interesse seja no livro do Nicholas Carr resenhado aqui: The SHALLOWS. Caso contrário, prefiro nem imaginar…

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Veja os outros textos desta séria série: Atirando no que não viu I, Atirando no que não viu II e Atirando no que não viu III.

P.S.: Arkanon, vai sim!

Retrospectiva 2010

Segundo o Google Analytics, quase 160 mil pessoas passaram pelo blog neste ano – um número do qual me orgulho muito, depois de mais de dois anos do início do Não posso evitar…

2010 não foi um ano tão prolífico quanto o anterior: escrevi apenas 69 textos. OK, não foi tão pouco assim, mas ficou longe dos 118 exclusivos aqui publicados em 2009.

6a00e554b11a2e883301116863c15e970c-320wiO campeão do blog continua a ser o texto sobre Procrastinação (Amanhã eu escrevo) – o que representa, aliás, um contrassenso, já que ninguém deixa para depois a tarefa de lê-lo – mas, certamente, encontra o texto durante alguma pausa preguiçosa.

Entre os mais lidos em 2010, o primeiro efetivamente escrito neste ano aparece somente em 19o lugar: O canhoto, este ser sinistro (07/04). Sete posições adiante, O golfinho benevolente e a vitória da autoajuda (14/03). O fato de os textos mais lidos serem os mais antigos pode muito bem ter a ver com os links espalhados por aí, ou com o fato de 36,59% do meu tráfego ainda vir do Google. Ou porque eu já fui melhor nisso…

De qualquer forma, não vai fazer sentido comentar pelo ranking e, por isso, farei uma relação daqueles que mais gostei de escrever. Veremos, assim, se o meu gosto bate com o seu ou se realmente você só cai aqui por acidente.

UM ANO DE CRÍTICAS

Mais do que nos anos anteriores escrevi algumas críticas um tanto quanto fortes sobre o comportamento humano – tema pelo qual, aliás, nutro um profundo interesse.

Após os trágicos terremotos que sacudiram o Haiti logo no início do ano, impressionou-me a capacidade de mobilização das pessoas em determinados momentos, em oposição a uma total indiferença com o mesmo objeto em períodos menos turbulentos. Em Haiti: o apêndice global (14/01), ressalto a semelhança entre este comportamento à inflamação que chega sem aviso: você só percebe que o apêndice existe quando dói. Mas no caso do Haiti, onde dói? Por que você se preocupa? E por que se preocupa mais com o haitiano do que com o seu vizinho?

Parte deste comportamento pode ser atribuído à forma como a mídia explora tais catástrofes. A viralização da violência (04/06) mostra como tragédias são transformadas em notícias e exploradas como mercadoria. Pouco antes, A TV é um meio sem princípios nem fim (21/04) já havia iniciado uma análise sobre o impacto da televisão sobre a formação da sociedade e sua influência sobre as gerações.

6a00e554b11a2e883301348009ce2c970c-300wi Um dos grandes eventos da televisão em 2010 foi, por sinal, o fim de uma das mais celebradas séries da história. Por que o final de Lost foi tão bom? (30/05) especula que mesmo que você tenha se decepcionado enormemente com os últimos capítulos, dificilmente você admitirá que foi enganado durante seis anos.

Por falar em enganação, minha cruzada contra os livros de autoajuda receberam o apoio do ótimo Bright-sided: How the Relentless Promotion of Positive Thinking Has Undermined America, escrito por Barbara Ehrenreich. Baseado neste livro, escrevi uma pequena série mostrando como o otimismo exagerado pode ser ruim, na medida em que nos distancia da realidade. Confira em O motor do consumismo e a morte da iniciativa (06/03), Do pessimismo calvinista ao otimismo paralisante (10/03) e O golfinho benevolente e a vitória da autoajuda (14/03).

LIVROS E CONCEITOS INTERESSANTES

Duas publicações mereceram destaque por aqui neste ano: The Upside of Irrationality (26/06) escrito por Dan Ariely inspirou três textos publicados aqui antes mesmo de o livro ser traduzido para o Português (Positivamente Irracional). Depois de nos mostrar o quão irracionais nossas atitudes são, Ariely explora o lado positivo de nossas pequenas incongruências. The shallows: a superficialidade da inteligência (14/10), por outro lado, faz um oportuno alerta à forma como nossas mentes estão sendo mudadas pelo contínuo consumo das novas tecnologias. Este texto serviu-me, também, para abrir caminho para uma improvável entrevista com Nicholas Carr, autor do livro.

Um grande especialista em Persuasão. Ao seu lado, Robert Cialdini
Um grande especialista em Persuasão. Ao seu lado, Robert Cialdini

Indo um pouco mais a fundo noutro tema pelo qual também me interesso bastante, fui assistir à palestra de Robert Cialdini (05/10) no Fórum Mundial HSM de Negociação. Sua revisão dos Seis Princípios de Influência foi magistral e, ao fim, a boa notícia de que um novo livro está a caminho.

Os ensinamentos de Cialdini são ótimos exemplos de como algumas de nossas atitudes estão longe daquilo que a teoria nos ensina – ou poderia nos ensinar caso a conhecêssemos melhor. Algumas dessas atitudes foram ilustradas em Dicas de um pai que nunca foi (07/01) e Mais dicas de um pai que nunca foi (19/02), explicando porque às vezes as melhores intenções podem ter efeitos opostos.

UM POUCO DE DIVERSÃO, AFINAL

Para quem gosta tanto de cinema, o ano não poderia ter ficado sem a sua dose de textos sobre filmes. Depois de fazer uma revisão sobre Meus filmes favoritos da década de 2000*, percebi que boa parte dos meus prediletos haviam sido produzidos no período anterior. Por este motivo escrevi sua continuação às avessas: Meus filmes da década de 1990 (01/08).

Por fim, 2010 marcou também a mudança de layout e domínio (01/11) do site, na busca por um visual mais clean e agradável de se ler, além de facilitar a visitação através do www.naopossoevitar.com.br. Aliás, você se lembra como era o visual anterior…?

Isto posto, espero poder produzir coisas tão bacanas (baixa autocrítica) em 2011 e contar novamente com a sua visita!

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* Este texto não tem data porque precisei roubar para encaixá-lo aqui: ele foi escrito em 31/12/2009.

Acabou o Karatê Kid

Espero que você tenha gostado do remake de Karatê Kid, porque você nunca mais verá um filme como este. Nem tanto pela qualidade da obra, mas porque sua trama corre o risco de ficar totalmente inverossímil.

Além de confirmar o talento precoce de Jaden Smith, a obra revelou um Jackie Chan ator – e não só o ótimo malabarista de sempre. A cena do treino nas sombras com as varetas guia, por sinal, é forte candidata à mais emocionante do ano.

- Pegue o casaco, pendure o casaco, pegue o casaco... - Cansei! Vou ligar para a Embaixada. E pro Chuck Norris também!
– Pegue o casaco, pendure o casaco, pegue o casaco…
– Cansei! Vou ligar para a Embaixada. E pro Chuck Norris também!

Talvez chamasse a polícia e conseguisse um mandato de restrição de aproximação – ou sei lá o nome que se dá a isso.Mas hoje percebo que o filme foi rodado na China por motivos além do enredo: a estória jamais seria possível nos EUA. Fosse em solo americano, o franzino Dre Parker iria à direção da escola e denunciaria Cheng por bullying.

Por ser negro, ainda acusaria o oriental de racismo e conseguiria para ele uma passagem só de ida (ou só de volta?) para a China.

Dre teria o respaldo, apoio e aplauso do seu presidente que, na semana passada, reforçou a cruzada americana anti bullying. Obama incentivou as crianças a denunciar seus coleguinhas agressores a “uma pessoa de confiança”.

O país dos excessos jurídicos abre mais um perigoso precedente para estragar de vez suas futuras gerações. Por mais cruel e pernicioso que seja o bullying, a criança precisa aprender a se defender sozinha em seus ambientes coletivos. Desde pequena, deve cultivar anticorpos sociais para passar à vida adulta. Escapar – e defender-se, até – dos assépticos conceitos politicamente corretos. Se de cara ela já apela para uma lei, vira a mariquinha intocável da escola.

Quando era criança, tive minha (pequena) cota de bater e apanhar. Os tapas que dei provavelmente me ensinaram mais do que os que levei. Mas não trocaria nenhum deles por levar uma bronca do Diretor da Escola ou dedurar um valentão que me perseguisse.

Brigar na escola é preciso. Você não precisa sair no tapa, mas tem que saber se defender na hora certa e ser agressivo quando necessário. Sem estes conflitos naturais, termos gerações covardes que vão sempre voltar correndo para casa, choramingando, para ir com a mãe na delegacia.

De qualquer forma, temos um país que proíbe as crianças de brigar – trazendo as leis adultas para o mundo infantil – quando deveria mostrar para elas que não se deve brigar. Que as diferenças são inevitáveis, mas os conflitos podem ser contornados ou amenizados.

É realmente um país esquizofrênico. As crianças não podem brigar na escola, mas seus pais podem ter arsenais em casa. Armas automáticas, quilos de munição e calibres próprios para safaris. Os meninos não podem se estapear, mas todas as condições para promoverem massacres estão disponíveis. Talvez eles devessem brigar mais e atirar menos.

Além de continuações de Karatê Kid, estão condenados os remakes de Cuidado com o meu guarda costas (1980), A vingança dos Nerds (1984), De volta para o futuro (1985), Te pego lá fora (1987), Garotos não choram (1999), Legalmente loira (2001), Meninas malvadas (2004), além de um dos meus seriados favoritos: Todo mundo odeia o Chris (2005-9). Você se lembra de mais algum?

Aliás, todos os filmes americanos com adolescentes em escolas ou universidades estão condenados. O cinema lá agora vai viver só de Marvel – que aliás dá porrada em todo mundo…

A Origem: uma obra-de-arte de Christopher Nolan

Se você não gostou de Amnésia – ou não entendeu – então passe bem longe de “A Origem” (Inception, 2010). Assim vai economizar algum dinheiro e sua cabecinha não vai doer.

Em seu filme de estréia* o diretor britânico Christopher Nolan já hava pregado várias peças no público, fazendo com que muitos espectadores saíssem do cinema com a sensação de que algo lhes escapara, em meio às idas e vindas de um filme rodado às avessas. Depois disso entregou o bom Insônia (2002), o muito bom O Grande Truque (2006), o ótimo Batman (2005) e o formidável O Cavaleiro das Trevas (2008).

Nessa impressionante escalada de qualidade, muitos se perguntavam do que Nolan ainda seria capaz. Pois “A Origem” é a estrondosa resposta do cineasta mais brilhante da última década – e que tem tudo para merecer novamente o título.

DiCaprio e Nolan, promissora parceria
DiCaprio e Nolan, promissora parceria

Como em suas obras anteriores – especialmente em o Cavaleiro das Trevas – Nolan não se contentou em apenas escrever um roteiro absurdamente original. A realização também precisava ser fantástica. Em todos os aspectos.

E de fato ela é. Primorosa, impecável, indescritível. As ações e histórias encaixam-se de uma forma arrebatadora.

Uma vez que a trama roda nos sonhos dos personagens, Nolan teve total liberdade para criar qualquer tipo de situação imaginável. Nos 150 minutos do filme ele parece levar isso às últimas consequências, usando e abusando de diferentes ritmos de narrativa, intercalando vários níveis entre diferentes realidades. Tudo ao mesmo tempo.

E, assim como em O Cavaleiro das Trevas, A Origem foi filmada sem uma
Segunda Unidade de Produção, isto é: Nolan dirigiu, ele
mesmo, absolutamente todas as cenas. Também como nas outras vezes, tudo supervisionado pela produção competente de Emma Thomas, aliás, sua esposa.

Diante das câmeras Leonardo DiCaprio reforça sua maturidade (mostrada desde Os Infiltrados) na pele do atormentado Cobb, um astuto criminoso que persegue um objetivo profissional, enquanto o objetivo pessoal o persegue de volta.

Gordon-Levitt, DiCaprio e Hardy sonhando com dias melhores
Gordon-Levitt, DiCaprio e Hardy sonhando com dias melhores

Como seu braço direito, Joseph Gordon-Levitt é um coadjuvante correto, responsável por uma das mais ousadas sequências do filme, em que transporta um comboio de gente por um ambiente sem gravidade. Além disso, são deles as cenas de luta de perder o fôlego onde, aliás, ele não usa dublês. De espantar, também, sua semelhança física e os mesmos trejeitos do falecido Heath Ledger.

Nos papéis femininos, Ellen Page é a menina-prodígio que ajuda Cobb a desvendar seus próprios segredos, descobrindo e explicando os caminhos a percorrer. Enquanto isso Marion Cotillard vive (num sentido um pouco figurado) a esposa amalucada que atormenta-lhe a vida, quase sempre ao som de sua inesquecível Piaf. (Ambas concorreram ao Oscar em 2008, que Cotillard levou.)

Despontando para a repentina fama vem também o novo Mad Max Tom Hardy, o abrutalhado galã que desabrochou em Handsome Bob, o valentão gay de RocknRolla. Hardy participa de outra série de cenas originalíssimas no enredo, revezando-as com Tom Berenger – digamos, no sentido mais literal da palavra.

O andrógino Cillian Murphy (o espantalho do primeiro Batman) e o samurai Ken Watanabe completam as peças que faltam no filme, sem comprometer, mas também sem nenhuma emoção adicional. Ah, e Michael Caine, que não fede nem cheira.

Desce daí, menino!
Desce daí, menino!

A história da criação e produção deste filme vem de longe: assim que acabou de rodar Insônia, Nolan ofereceu o roteiro de Inception à Warner, que prontamente aceitou-o. Mas naquela época não havia uma linha escrita, sequer. Acreditando que a tarefa levaria alguns meses, Nolan errou feio sua previsão e finalizou o script nada menos que oito anos depois.

Grosso modo – e isso não será um spoiler, pois é o resumo dos jornais – o filme fala de um ladrão de dados que usa técnicas específicas para furtá-los diretamente das cabeças das pessoas. Quando lhe pedem para fazer o inverso (isto é: colocar algo lá dentro), a coisa se complica.

Neste aspecto, um dos grandes méritos do filme – e que também acredito que tenha sido a maior dificuldade de Nolan nesses oito anos em que brigou com o roteiro – foi encontrar explicações minimamente plausíveis para a trama. Claro, considerando que estamos falando de invadir os sonhos dos outros…

Ainda assim, até mesmo a parte central, onde uma idéia é implantada, tem um fundamento de verdade: no final da década de 1980 a psicóloga americana Elizabeth Loftus realizou um experimento onde ela foi capaz de implantar memórias nas mentes de seus voluntários. Seu célebre estudo Perdido no Shopping mostrou que nossas lembranças nem sempre são fiéis aos fatos originais.

Mas o que Nolan explora em toda a sua repicada narrativa é: que fatos são originais?

O que essa minha arquiteta aprontou...?
O que essa minha arquiteta aprontou…?

Em resumo, “A Origem” é um filme excepcional. Um marco na história do cinema. Um enredo sólido numa realização soberba. Um projeto ousado, um convite, um desafio. A cada nova reviravolta eu dava risinhos na poltrona, enquanto pensava: “de onde esse louco tirou isso…?” Realmente não dá para saber. Só posso imaginar que ele deve ter sonhado com tudo aquilo…

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* Na verdade o longa-metragem de estréia de Nolan foi Following (1998), mas ele não teve lançamento comercial de fato.

Sua personagem, Ariadne, na mitologia grega era filha do Rei Minos, de Creta e foi quem deu a Teseu um novelo de linha para ajudá-lo a escapar do labirinto onde prendeu o Minotauro.