Técnico ganha jogo?

Discussões sobre futebol normalmente pendem muito mais para a emoção do que para a razão. É praticamente impossível separar o torcedor do analista, o fanático do especialista. Exatamente por isso os debates em torno do tema raramente chegam a conclusões unânimes. Tentarei, ainda assim, responder à pergunta do título: Técnico ganha jogo ou não ganha?

Como é que um time que vence tudo começa, de repente, a perder para o lanterna da competição, sem nenhum motivo aparente? Como é que o lanterna perde cinco jogos seguidos e depois ganha do líder do campeonato? Por que um time sai da zona de rebaixamento ao trocar de técnico, mesmo mantendo o mesmo elenco? Por que os melhores técnicos às vezes fracassam com os melhores jogadores?

Sistemas complexos – como um time de futebol – contam com muitas variáveis, cujos graus de influência também oscilam, tanto no decorrer de uma partida, quanto ao longo de um campeonato. É por isso que mesmo os especialistas em futebol têm um péssimo histórico nas resenhas que precedem os torneios.

A grande dificuldade resulta dos ambientes e atores envolvidos. Um ótimo técnico em um time pode ser um fracasso noutro. Um perna de pau de uma equipe pode ser a salvação de outra. Ou o contrário.

Assista o vídeo abaixo (2'25") e veja como isso se aplica no dia a dia corporativo – e depois voltamos ao tema:

A busca por um Líder Ideal é tão equivocada quanto a noção de que um ótimo técnico de futebol pode dar jeito em qualquer time de pangarés. Empresas e times de futebol são organizações complicadíssimas que envolvem muito mais do que o que vemos entre as quatro linhas ou dentro dos escritórios.

É preciso parar de prestar atenção apenas a quem distribui os coletes durante o coletivo e entender melhor quem os veste, o que eles fazem fora dos gramados, quais são suas histórias, seus objetivos e ambições. É preciso ver se estão bem fisicamente, se conseguem acertar um passe de 50 metros e se são capazes de voltar correndo para cobrir o lateral que foi atacar.

Porque técnicos consagrados e jogadores campeões do mundo, também rebaixam times à Segunda Divisão. Mesmo que tenham o perfil de líder ideal.

Eu torço por mim

Estou vendo um monte de gente dizendo que vai torcer na Copa, porque a seleção não tem nada a ver com os problemas do país. Se a seleção não tem nada a ver com os problemas do país, então o que ela tem a ver com você? Se esta seleção não te representa, qual o sentido dessa paixão, desse amor?

Eu torço por mimVamos recapitular uma coisinha que disse tempos atrás: a seleção brasileira é uma empresa. Você está torcendo por uma empresa que, por acaso, veste uma camisa amarela, às vezes azul. É como se você estivesse indo ao estádio torcer pela Coca-Cola ou pela Petrobrás. É uma empresa que há pouco você mesmo pedia a prisão do seu presidente, por corrupção. Ele, aliás, continua morrendo de rir daquilo.

Eu também torci em 1982, 1986, 1990… Mas o tempo passou e não sou mais aquela criança que achava Spectreman o máximo. Também já achei que o Carnaval era a coisa mais divertida do mundo e que beber todo dia na faculdade era o paraíso. Não é porque fiz uma vez e achei divertido que vou me sentir na obrigação de repetir o tempo todo. Isso não é motivo, é desculpa. E quando você pede desculpas antecipadas por algo que vai fazer, caceta, dá tempo de mudar.

“Espírito de Copa”. Sério, o que é isso? De verdade, pensa de onde vem isso, se não da TV! A TV que você diz odiar. “Todo mundo se abraçando nas ruas, comemorando juntos”. Sério, o que é isso? Você realmente acha o máximo fazer isso uma vez na vida e depois voltar a olhar para os estranhos como leprosos? Só porque você abraça um estranho na rua, já se acha a melhor pessoa do mundo?

E o seu trabalho? Você vive dizendo que é ocupadíssimo, que não tem tempo para nada, que não pode passar algumas horas a mais com seus filhos. Que não consegue tirar férias. Que não tem como fazer uma pós-graduação nem estudar Inglês. Mas vai deixar tudo de lado para ver o futebol. Vai assistir Bósnia X Irã. OK, cada um sabe das suas prioridades.

Eu torço por mim. Vou aproveitar este mês de hipnose nacional para alavancar os meus negócios, adiantar meus projetos. Vou trabalhar duro enquanto todos vivem essa fantasia e falam do mesmíssimo assunto aborrecido, o dia todo. E no dia 13 de julho, quando isso acabar, vá no caixa eletrônico ou acesse sua conta pelo home banking, tire um extrato e responda: independentemente do campeão, o que mudou na sua vida?

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ADENDO: Outra pachecada típica é aquela assim: “Vamos tratar bem os torcedores que estão vindo para a Copa”. Se você é o Príncipe Não-Sei-O-Quê de Orleans e Bragança, você tem certa legitimidade, embora esteja defasado. Mas se você é um reles mortal, como eu, que tipo de pedido é esse, insinuando que somos um bando de selvagens e tratamos mal as pessoas? E porque a preocupação a respeito do tratamento só com o turista e só em tempo de Copa do Mundo? Isso é muito vira-lata!

Outra: “Vamos mostrar ao mundo que somos capazes de fazer isso e aquilo”. Pra quê? Sério, pra quê? Vamos ganhar uma plaquinha, ou algo assim? Temos que mostrar a nós mesmos que somos capazes de fazer o básico, porque somos bem ruins nisso. Isso é muito vira-lata!

O bonzinho e o bundão

Em recente entrevista, durante a inauguração de um estádio em Natal, a presidente Dilma reforçou seu discurso ufanista tecendo maravilhas sobre o campeonato de futebol que nosso país talvez sedie em junho. Como de praxe, suas palavras pediram o apoio público ao evento e, por extensão, às obras realizadas para tal:

“É como dizia Nelson Rodrigues: não é possível apostar no pior. O governador [do Paraná, Beto Richa], o prefeito [de Curitiba, Gustavo Fruet] e o empresário [CAP/SA] vão fazer estádio no prazo. O Brasil tem que apostar a seu favor, não contra”

O bonzinho e o bundãoCitando o canteiro de obras do Paraná, Dilma apela às pessoas que ela diz torcer para tudo dar errado na Copa. Que o dever do brasileiro é torcer pelo Brasil.

Aqui eu me incluo fora dessa.

Eu quero, SIM, que dê tudo errado nesta Copa, por um simples motivo: quando as coisas dão certo no final, todo mundo acha que tudo foi feito de maneira correta desde o início.

Este é um erro grave. Um bom resultado não significa, necessariamente, que boas decisões foram tomadas.

Mas ninguém fica revendo as decisões tomadas depois de um bom resultado. E, ainda pior, elas tendem a se repetir. Decisões só costumam ser revistas quando algo dá errado de verdade. E enquanto nós, brasileiros, continuarmos a achar que nosso país está dando certo, nada faremos para mudá-lo.

Antes que digam que este é um discurso anti-PT, adianto que estou me referindo a “país que dá certo” em um sentido muito mais amplo do que o vosso complexo de perseguição alcança.

Não me refiro apenas aos problemas de corrupção (que ocorrem, sabemos, independentemente da sigla), mas a mazelas muito mais profundas da nossa sociedade. Além da corrupção, temos a violência, o altíssimo custo de vida, os impostos e aquela lista a que, infelizmente, já nos acostumamos.

O “infelizmente” acima, no entanto, refere-se ao “nos acostumamos”, não aos problemas. Porque o brasileiro é, antes de tudo, um povo acostumado a se foder. Acostumado a sofrer violências. Acostumado a pagar caro por tudo. Acostumado a não fazer nada. Acostumado a ser passivo, fraco, bonzinho, bundão. Acostumado a achar que é feio torcer contra.

Enquanto o povo continuar assim, nada muda. Enquanto acharmos que é erradinho torcer contra, vamos continuar a sofrer violências, pagar caro e só ficar olhando. Enquanto acharmos que as coisas dão certo por fora, não saberemos o que deu errado por dentro.

Como em vezes anteriores, este texto ficou com ares um tanto pessimistas. Mas ainda vai piorar.

Eu acho que o país tem jeito sim. Acho que as coisas aqui podem mudar. Mas as mudanças não virão de pessoas comuns, como eu e você, que um belo dia acordarão e irão para as ruas mudar o país. Aquelas manifestações patéticas do ano passado deixaram isto bem claro. As mudanças também não virão de movimentos organizados e líderes políticos.

Infelizmente, mais uma vez, as mudanças de que este país precisam só virão quando ocorrer uma grande, enorme tragédia.

Não falo em tragédias como perder a final da Copa do Mundo em pleno Maracanã (se você pensou isso, está perdendo a transmissão do BBB e eu não quero te atrapalhar). Também não me refiro ao estouro de uma possível bolha imobiliária, ou outro tipo de crise financeira. Nem de vinte centavos. (Aliás, no fim das contas, era isso mesmo, né?) Como disse antes, esse tipo de coisa não abala o brasileiro, este ser tão acostumado a se foder.

Lamentavelmente precisaremos de algo grave, muito grave. Algo que jamais tivemos. Muitas pessoas só se transformam após traumas aparentemente irrecuperáveis. Assim parece acontecer com povos, também. Os exemplos estão aí, para quem quiser ver. E para quem não quiser também.

Censura para quem precisa II*

Gostaria muito que censurassem irrevogavelmente este debate em torno da Censura. É a coisa mais chata das últimas horas – dadas nossas infinitas pressa e criatividade em criar coisas chatas.

Até hoje li três ou quatro biografias na minha vida. Duas me impressionaram bastante: Chatô – O Rei do Brasil (Companhia das Letras, 1994), de Fernando Morais e O Anjo Pornográfico (Companhia das Letras, 1992), de Ruy Castro.

Na primeira, aprendi que Assis Chateaubriand criou um vasto império da comunicação do país valendo-se, várias vezes, de pura e simples chantagem a quem lhe atravessava o caminho. Na segunda, espantei-me com a figura inocente e semi-angelical por trás dos picantes romances e peças teatrais, cujos enredos eram compostos de uma vil mistura de sordidez, mesquinharia e sexo, muito sexo – além de descobrir que Nélson Rodrigues teve todos os seus dentes arrancados aos 21 anos, porque à época acreditava-se que isto era um tratamento adequado à tuberculose.

Nada como uma edição após a outra...
Nada como uma edição após a outra…

Biografias servem para trazer o lado humano de figuras sobre-humanas, salvo exceções. Funcionam, também, para contextualizar determinados fatos, certas atitudes e passagens específicas. E o resto.

Daí surgem duas categorias distintas: a história e a fofoca.

A história explica um pouco daquilo que o biografado viveu, contra o quê lutou, seus demônios e talentos, vícios e virtudes. É o que opõe o gênio da comédia ao pedófilo, o inventor do automóvel ao simpatizante nazista, o criador do cubismo ao adúltero.

Já a fofoca simplesmente sacia a incompreensível e nefasta sede por detalhes sórdidos da vida privada, não só dos famosos em geral, mas também das subcelebridades e dos ilustres desconhecidos como um todo. A vontade de conhecer os podres alheios como se isso aliviasse nossas próprias consciências, quase sempre pesadas.

Exemplo disso nota-se em um dos mais célebres casos de censura a biografias aqui no Brasil: Estrela Solitária (também de Ruy Castro, Companhia das Letras, 1995), sobre a vida de Garrincha. Nos debates pós-lançamento, o fato mais comentado não foi que ele era muito mais inteligente do que a mídia insistia em especular – e o folclore acabou por sacramentar – mas detalhes sobre a avantajada anatomia do jogador do Pau Grande (refiro-me ao time do bairro de Macaé-RJ, onde Mané nasceu, seus obscenos).

Daí já é possível separar o que se entende por biografia e o que apenas coleciona polêmicas para vender mais exemplares – bem como o público de um e de outro.

Em um outro extremo, vemos celebridades com destaque parecido antecipando-se e revelando, elas mesmas, seus mais íntimos segredos, suas piores passagens, seus mais loucos desvairios. Dois vêm imediatamente à mente: Lobão e Casagrande que, recentemente, expuseram ao escrutínio público fatos dos quais não se orgulham, que provavelmente prefeririam esconder, mas que são parte de suas vidas, traços de suas personalidades, resquícios de seus caráteres.

- Põe pra fora, filho!
– Põe pra fora, filho!

Curiosamente, ambos são figuras malditas, quase proscritas em seus próprios meios. Provavelmente por causa da autenticidade de suas opiniões e da franqueza de suas ideias, que sempre doem em quem deve doer. Algo virtualmente impensável para outros que acreditam pairar acima do bem e do mal, reinando em palácios com telhados aparentemente feitos de vidro.

Ocorre que todos eles dependem da mesma máquina de moer carne chamada mídia e, assim, precisam lidar com seus status de celebridades.

Este é o outro lado da moeda de depender de um público ávido por saber quem está comendo quem, quem faz xixi sentado e quem gosta de pipoca doce.

Este é o revés de ser notícia por fatos tão cotidianos como atravessar uma rua em Ipanema, comprar pão na Rio-Lisboa ou comer uma pizza na Guanabara.

Este é o ônus por vender tantos discos ruins e livros vazios, quanto os bons e geniais. É a cama da fama, muitas vezes desfeita e bagunçada.

Já falei demais sobre este interesse quase doentio que o público em geral tem por este tipo de inutilidade – e combater isso seria uma campanha muito mais útil na qual as figuras públicas poderiam se engajar.

Jamais impedindo (ou tentando impedir) a divulgação de o que quer que seja, mas mostrando o quão inútil isso é, o quão idiota, fútil, imbecil e vazio (eu poderia escrever um post inteiro só com adjetivos para isso). Mas sugerindo que gastem seu tempo com coisas mais importantes, que leiam coisas mais interessantes e não este desfile de fofocas que parecem apoiar e do qual teimam em se aproveitar.

Porque cedo ou tarde, essas fofocas acabam reunidas em um livro, que alguém haverá de chamar de biografia. Aí, quando eles tentam impedir, já é tarde demais – e o tiro sai pela culatra.

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Leia o outro post em que defendo a Censura (mas não da forma como você está pensando): Censura para quem precisa.