O país dos fracos

Você chiou quando a escolha das sedes da Copa do Mundo obedeceu a critérios políticos, em vez de econômicos e/ou técnicos. Fez beicinho quando construíram estádios novinhos ao lado de relíquias, espalhando elefantes brancos pelo país. Torce o nariz a cada vez que anunciam verbas extras, sem licitação, para concluir uma obra da Copa que, surpreendentemente, estourou o orçamento.

Aí você vai e assiste todos os jogos da Copa das Confederações e da Copa do Mundo. Cá entre nós, você é um tremendo bunda mole!

Em novembro de 2009 escrevi A casca de banana de 2016, lembrando a antiga anedota do português que, ao ver uma casca de banana lá na frente, já se resignava com o tombo. Triste profecia.

Com similar antecedência, ficamos sabemos da Copa do Mundo de Futebol. Com igual passividade, ficamos assistindo os cofres públicos sangrarem. E com a mesma estupidez, bateremos palmas para tudo, daqui a pouco mais de três meses.

Você vai bater palmas para esse espetáculo de corrupção?
Você vai bater palmas para esse espetáculo de corrupção?

Para se ter uma breve ideia do rombo, os estádios brasileiros custarão mais do que o dobro dos utilizados na Alemanha e África do Sul somados.

Não bastasse isto, se você quiser realmente ser parte deste lastimável espetáculo de corrupção e premeditada desorganização, ainda terá que entrar na fila para comprar ingressos depois dos pobres beneficiários do Bolsa Família.

Sim, porque assistir jogos de futebol é gênero de primeira necessidade e, assim, quem estiver no programa vai passar na sua frente na fila. O que faz muito sentido, não é mesmo?

Faz muito tempo que deixei de ser um fã do futebol. Minha identificação com um time foi murchando junto com a dos próprios jogadores. Não faz sentido você torcer para atletas que não compartilham seus sentimentos. Que só se importam com os placares quando eles têm impacto em suas contas bancárias.

Quanto mais dinheiro, menos os jogadores se importam com seus clubes. E a seleção brasileira é um fiel retrato desta realidade: quanto mais ricos seus atletas, mais ela cai no ranking da FIFA.

Com o país, em tempos de Copas, acontece exatamente a mesma coisa. Só que ao contrário: quanto mais nos importamos com o futebol, menos dinheiro temos.

Mas eu me importo com o meu dinheiro. Eu me importo com a forma como o meu dinheiro é gasto. E eu não posso fazer parte disto. Eu não vou assistir nenhum jogo da Copa. Nem no estádio, nem na televisão. Você consegue fazer o mesmo? Conseguiremos mandar este recado para nossos políticos, num boicote histórico ao maior evento já realizado aqui?

Os estereótipos e os mensageiros

Esta parte de cá do mundo realmente é habitada por seres muito estranhos. Bertold Brecht disse, certa vez, que todos nós temos uma moral dupla: uma que pregamos mas não praticamos e uma que praticamos mas não pregamos. Desta definição escapamos os brasileiros, provavelmente por desconhecimento do famoso dramaturgo. O brasileiro típico tem dezenas de carapuças diferentes – e alterna-as conforme a conveniência.

Vejamos as notícias do dia: bancários revoltados com Felipão por causa das suas declarações à imprensa. Perguntado se não sentia a pressão de ter que vencer uma Copa do Mundo, o técnico disse que se quisesse um trabalho fácil estaria no Banco do Brasil, onde não se faz nada.

Uma lista com as perguntas feitas por jornalistas esportivos, em qualquer situação, em qualquer ambiente, com (contra?) qualquer entrevistado, não deve ter mais do que cinco linhas – exceto se o cara resolver ser criativo e perguntar ao jogador se ele gosta de ser comparado fisicamente ao Zé Ramalho. Aí um cara com a (teórica) experiência do Felipão ainda cai numa armadilha dessas. Aliás, o que faz o assessor de imprensa da CBF?

Se continuar falando besteira assim, Felipão vai acabar no Congresso.
Se continuar falando besteira assim, Felipão vai acabar no Congresso.

Pois bem, ao responder da forma como o fez, com toda a sua conhecida falta de habilidade, Felipão lançou mão de um estereótipo de funcionalismo público impregnado na cultura nacional. Obviamente contrariados, os atingidos exigiram a imediata retratação, que não tardou a aparecer.

Desculpas pedidas e aceitas, voltamos à nossa programação normal. O mensageiro foi ferido, o estereótipo permanece.

Ora, estereótipos não nascem de geração espontânea. Não há na Bíblia um capítulo da Gênese dizendo em qual dos seis dias eles foram criados. Eles surgiram – e se perpetuaram – em algum momento da história, a partir de ilustrativos exemplos.

As desculpas de Felipão não amenizam tais exemplos. Não desmentem o estereótipo. Não melhoram a imagem dos atingidos. Só mostram que eles sabem se defender.

Agora imaginem que o Diretor de uma empresa seja preso. Independentemente do motivo, alguém consegue pensar na possibilidade de ele se manter no cargo? Pois o presidente da Câmara consegue.

Está havendo uma discussão entre o Supremo e o Congresso se os deputados condenados à prisão no escândalo do Mensalão devem perder seus mandatos automaticamente – e quem deve cassá-los. Mais de uma vez a Câmara já deixou claro que não gosta de punir seus integrantes, mesmo em casos de batom na cueca. Parlamentares filmados recebendo propinas já foram absolvidos por seus pares, numa mistura de medo e corporativismo.

Alguns ministros do Supremo defendem a tese da perda automática do mandato, mas o presidente da Câmara adiantou-se em consultar a Advocacia Geral da União sobre a prerrogativa do ato. Não ficou claro, ao menos para mim, se sua motivação está em ter a honra de defenestrar os criminosos, ou em buscar uma última chance de jogar de vez o nome da Casa na lama, mantendo no cargo parlamentares encarcerados.

Ao insistir na tese de que a decisão do Supremo deve ser ratificada pelo Congresso, Marco Maia renomeia o órgão para Quase-Supremo, já que haveria uma instância superior a validar seus vereditos.

Em ambos os casos o que se vê é uma grande preocupação com o que se fala e um total descaso com o que se faz – e a imagem que passam, consequentemente. Estão, assim, terceirizando a culpa pelos estereótipos.

Não é papel do Banco do Brasil interpelar Felipão através da mídia, mas mostrar que se em algum momento esta era a imagem do funcionalismo público, muita coisa mudou e o ultrapassado estereótipo não retrata mais a realidade. Desde que, é claro, isto seja verdade.

Já o Congresso, pródigo em se avacalhar, não poderia sequer dar-se a chance de ter mais essa mancha em sua história. Porque se depender de seus integrantes, o risco é grande, sabemos. E depois não adianta reclamar por não ter o respeito do país.

Agência de futebol ou time de marketing?

Nem esfriou o meu texto sobre o péssimo momento do futebol brasileiro e já vemos outras claras demonstrações de que o cenário pode ser mais sombrio do que parece.

Desde que o esporte tornou-se um negócio multimilionário, o futebol em si caiu para segundo plano. A principal razão de ser dos grandes clubes de hoje é gerar dinheiro, não importa como, ironicamente para pagar um elenco que cada vez mais afasta-os do seu real core business: ganhar jogos, conquistar títulos.

A primeira pixotada veio do Palmeiras: uma campanha online para arrecadar o valor necessário para a contratação do jogador Wesley (quem???). O Palestra precisa de R$ 21 milhões até o dia 25 de março para pagar o passe do jogador, que pertence ao Werder Bremen.

Como de praxe, o clube compra sem ter dinheiro, assume um compromisso financeiro sem saber como vai saldá-lo. E aí pede pinico à torcida: doe R$ 100,00 para ter o craque no seu time. Hein? Craque? Quem é Wesley? Até ontem, R$ 341.100,00 haviam sido arrecadados, segundo informa em sua coluna Cosme Rímoli, o repórter que não conhece parágrafos.

Outra dúvida que fica no ar é a seguinte: o que acontece depois, quando o cluber revender o jogador? O dinheiro é devolvido aos que fizeram as doações? Outra pegadinha dessa presepada é que, como se diz, dinheiro não tem nome. Então, como o torcedor saberá que sua doação não será revertida em nababescos salários para gestores canhestros?

E o Jackie Chan continua sem contrato...
E o Jackie Chan continua sem contrato…

Aí vem o Corínthians, atual campeão brasileiro e dono da segunda maior torcida do Brasil (a primeira é a do Flamengo, diga-se) e contrata um jogador chinês, de futebol de salão, de um time da segunda divisão em seu país.

Chen Zhizhao tem 23 anos, 1,70 m e 61 kg. É um franguinho, mesmo comparado a Liédson e Jorge Henrique. Mas sua vinda, explicam os arrojados dirigentes corintianos, é para atrair o público chinês, com 1,2 bilhão de potenciais torcedores. Uma arma secreta para brigar com o tênis de mesa, o esporte mais popular daquele longínquo país.

Uma piada de mau gosto com o técnico Tite, em cujos ombros pesa o colossal desafio de trazer o primeiro título continental para o clube.

Se o menino joga bola ou não, é pergunta secundária. A briga por mercados é mais importante do que a disputa de títulos, pensam os cartolas. Se os clubes querem deixar o futebol de lado para se transformar em agência de publicidade, tudo bem, mas que o façam direito – e que combinem isso com a torcida.

A gestão da maior paixão nacional sempre foi de um patético amadorismo por aqui, reflexo de uma grotesca forma jurídica que permite aos clubes multiplicar suas dívidas ad eternum. Assim, você não precisa ser bom nem gerar lucro, porque de qualquer maneira não precisará responder pelos prejuízos. A próxima diretoria que se vire. E os torcedores também.

O país do futebol… mixuruca!

Já que está todo mundo mega engajado no Carnaval, aproveito a saudável falta de atenção para escrever sobre um tema polêmico e do qual não manjo muito. Combinação esta, aliás, muito frequente por aqui. De qualquer forma, exerço meu inalienável direito de dar palpites aleatórios sobre aquilo que não entendo.

Em recente coluna, o rabugento (no ótimo sentido) rubro-negro Renato Maurício Prado menciona uma entrevista de Pep Guardiola, festejado treinador da máquina de jogar bola chamada Barcelona. As palavras do técnico catalão servem de pano de fundo para mais uma forte e merecida crítica ao moribundo futebol brasileiro.

Festejado pela imprensa internacional como um artista dentro e, principalmente, fora dos gramados, Guardiola aponta como ídolos e modelos técnicos argentinos e holandeses. Sua lista exclui, de forma sintomática e categórica, qualquer profissional brasileiro. Ficam de fora os treinadores do país que mais ganhou Copas do Mundo, berço de mais craques do que qualquer outra nação, mas que hoje amarga a sétima colocação no ranking da Fifa. Por enquanto.

- Lá na frente esse troço vai azedar...
– Lá na frente esse troço vai azedar…

Numa das poucas áreas em que alcançou destaque e notoriedade o Brasil representa, atualmente, um melancólico papel de coadjuvante, embora ainda considere-se na vanguarda. Infelizmente, esta não é uma situação restrita ao futebol.

Comandado em nível mundial por dirigentes retrógrados, o esporte bretão carece de inovação e criatividade. Sem novidades no lado técnico, os principais avanços ocorreram na parte física.

Resulta, então, que o futebol de hoje é um esporte muito mais coletivo do que individual. Vem sendo assim, aliás, há pelo menos duas décadas, embora nem jogadores tampouco técnicos brasileiros tenham se dado conta do fato ainda.

Continuamos limitados a esporádicos pseudocraques, que encantam com suas firulas enquanto equipes mais organizadas levantam troféus. Pagamos fortunas a moicanos especializados em desculpas nas derrotas e deprimentes espetáculos egocêntricos nas raras vitórias.

O jogador criativo, para os padrões nacionais, é o que dribla bem, pedala com maestria, distribui canetas e lençóis. Habilidades individuais, cujos resultados também são individuais. Afinal, o malabarismo é uma atividade individual. Não há conjuntos de focas amestradas (qual o coletivo desta espécie?), nem matilhas de cães dançarinos. São artistas solitários e, portanto, não é de se admirar que tenham performance pífia em atividades coletivas.

Porque não há um técnico a guiar-lhes, falta-lhes direcionamento, propósito, finalidade, objetividade. É a firula por si só, o drible suficiente, a presepada solitária. Nada disso mexe no placar, mero detalhe.

Atrevo-me a dizer que no festejado Barcelona não há craques individuais. Messi é um ótimo jogador em seu clube, mas um fracasso na seleção argentina. Puyol é um brucutu bastante limitado. Xavi é um maestro em campo, mas o que realmente faz dele um jogador fora-de-série?

Seu toque de bola preciso, seus passes milimétricos como que adivinhando onde seu companheiros estarão. Não são habilidades coletivas, então? Não dependem de seus companheiros? Da forma como eles se posicionam em campo, como se movimentam, o modo como se espalham e se concentram?

Certamente que o Barcelona tem uma ótima estrutura, uma administração competente e uma filosofia de trabalho vencedora. Mas tudo isso é direcionado para uma finalidade coletiva e não um propósito individual.

Nossa habilidosa dupla de ataque
Nossa habilidosa dupla de ataque

Num cenário assim, dá pena ver os times nacionais. Os últimos Campeonatos Brasileiros foram sofríveis, que dirá os Estaduais. Fora raros lampejos individuais, a qualidade dos jogos vai do horroroso ao medíocre.

Neste ambiente, dominado por estrelismos e vaidades, não é de se admirar que seu jornalismo tenha como estrela máxima uma criança mimada que o transforma num circo grotesco.

Se não há coisas boas para se falar, falemos das ruins. Ou melhor, criemos coisas ruins, para termos sobre o que escrever. Vamos distribuir intrigas, salgar feridas, provocar desafetos, alimentar boatos. Depois fazemos graça com os resultados e apontamos os personagens. Riremos nós, ao menos.

E assim, desta forma já claudicante, caminhamos a passos largos para um fracasso épico, dentro de nossa própria casa. Mano Menezes não é sombra de técnico e suas convocações inconsistente transbordam incompetência. Símbolo de um esporte que endeusa felipões, leões e outros animais, embora recompense-os regiamente, por resultados jamais entregues.

Para piorar isso tudo, nessas fogueiras de vaidades são forjados os ídolos das próximas gerações, garantindo a perpetuação da mediocridade. Moleques imberbes, recém-saídos da adolescência servem de exemplo aos mais novos, espalhando valores frouxos e atitudes inconsequentes.

Em muitos casos, o esporte serve como base para a formação de caráter. Do futebol, especificamente, uma herança perversa está moldando uma juventude torta, desvirtuada. De torcedores passamos a espectadores. O que seremos em seguida?