Exemplos exemplares de ídolos idos

O recente texto que escrevi sobre o espantoso apreço que o brasileiro nutre pelo hábito de levar multas ainda não esfriou e eis que, não menos do que de repente, novas evidências se acumulam sobre o fato. Representando uma das últimas classes respeitadas no país por seus rígidos padrões morais e firmeza de caráter, os ex-jogadores de futebol Renato Gaúcho e Júnior protagonizaram decepcionantes papéis na noitada da última sexta-feira: ambos foram autuados numa blitz da Polícia Militar na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.

Cidadão, assopre aqui, por favor.
Cidadão, assopre aqui, por favor.

O motivo? Os dois se recusaram a fazer o teste do bafômetro. Para piorar, Renato Gaúcho estava com a documentação do carro irregular e teve o veículo apreendido.

Pixotadas como essa são ótimas para desencavar alguns assuntos que o brasileiro adora varrer para baixo do tapete.

A forma surreal como Ancelmo Góis noticiou o episódio na sua insossa coluna retrata, em primeiro lugar, uma deturpada visão sobre as leis. Depois de dizer que um teve a carteira apreendida, o carro rebocado e pagará uma multa de R$ 957,70, o jornalista informa que o outro “(…) teve mais sorte, porque seu carro estava em dia (…)”. Acho incrível que um colunista do peso dele encontre alguma irresponsável relação entre cumprir uma obrigação e o acaso. Legalidade não é uma questão de sorte, Ancelmo, mas sim de fazer a coisa correta.

Em segundo lugar, mas nem por isso menos importante, está a forma sempre anárquica com que o brasileiro tenta se livrar de qualquer controle que se queira fazer – por mais justo que seja. Procura brechas na lei que lhe permitam não assoprar o bafômetro – quando na verdade deveria era não beber!

Balas, enxaguatórios bucais, gelo sêco e diversas alquimias semelhantes já circularam pelos emails prometendo uma virginal baforada no detector de álcool. Tudo para evitar o azar (segundo a lógica do Ancelmo) de ser flagrado dirigindo bêbado. Então quem não bebe (e paga seus impostos em dia) tem sorte porque nada lhe acontece quando passa por uma blitz? E a pessoa que não bebe e é esmigalhado por um bêbado ao volante, também é azar?

Tuitando a blitz, tal qual os fogueteiros do tráfico
Tuitando a blitz, tal qual os fogueteiros do tráfico

Para dar mais uma força ainda no já institucionalizado bundalelê no qual vivemos, um carioca criou um Twitter contra a Lei Seca, onde você pode ver as informações mais atualizadas sobre onde a polícia está fazendo suas operações.

Júnior sempre encarnou o papel de bom moço que, por seus hábitos franciscanos, conseguiu estender sua carreira até mais tarde. Seu canto do cisne rendeu-lhe, ainda, algumas glórias nas areias da praia, onde comandou algumas conquistas da seleção de beach soccer.

Como comentarista, Júnior tem especial apego aos adversários do Flamengo, time que o consagrou. Nos jogos em que trabalha, o rubro-negro sempre joga pior, merece a derrota, acha um empate ou não faz jus à vitória. Seus pitacos sempre deixam claro que nenhum time do Flamengo jamais chega (ou chegará) perto do que foi o que comandou no último título nacional do Mengão (o quinto!) em 1992. Seus comentários mesquinhos sempre têm a oculta intenção de eternizar sua glória, como se o Flamengo não fosse muito maior do que o seu capacete.

Já Renato Gaúcho, fanfarrão por natureza, sempre foi polêmico dentro, na beira e fora dos campos. Seu temperamento explosivo custou-lhe, inclusive, uma Copa do Mundo. Depois de conquistar todos os títulos possíveis pelos clubes que defendeu, Renato virou técnico, mantendo sempre seu jeito falastrão. Perto de tornar-se o primeiro técnico tri-rebaixado pelo tetra-rebaixado tricolor, o gaúcho nunca foi um modelo de comportamento nem dentro nem fora dos gramados.

Júnior (em pé) e Renato (sentado)
Júnior (em pé) e Renato (sentado)

Quis o destino que ambos fossem parados e autuados na mesma blitz. E que ambos tivessem o mesmo comportamento condenável: se recusar a fazer o teste do bafômetro.

OK, é um direito que têm. Mas uma clara confissão de culpa. Ora, convenhamos que se a pessoa não bebeu, não tem nada a perder fazendo o teste. Então ambos tinham o que esconder. Um verdadeiro papelão.

O mais espantoso é que a população defenda esse tipo de atitude. Em qualquer país sério, ambos estariam na TV dando declarações arrependidas e sinceramente envergonhadas por seus atos. E provavelmente também se ofereceriam para fazer campanhas de prevenção de acidentes, dizendo para os jovens que não sigam seus exemlpos.

Mas aqui, a população os defende – como muitos dos comentários lidos em O Globo. Acha que não devem se submeter a tal arbitrariedade. Que ídolos devem ser mais respeitados e pairar acima do bem e do mal. Que Edmundo também teve azar ao se envolver num acidente e matar três jovens – crimes pelos quais jamais pagou.

Júnior e Renato devem ficar sem suas carteiras. Devem fazer cursos de reciclagem para recebê-las novamente daqui a um ano – caso passem nos testes. Uma imprensa responsável e atuante deve fiscalizar isso. Cidadãos de bem devem fotografá-los ao volante e não buscar meios de fugir da blitz.

Em cinco meses, apenas 7,3% dos 46.431 motoristas parados agiram como Júnior e Renato, se recusando a fazer o teste do bafômetro. No total, 9.664 motoristas foram multados, 4.641 carteiras apreendidas e 3.008 carros rebocados – como o de Renato.

É burrice não ver que isso é uma das causas da redução de 20,6% em acidentes de trânsito no Rio de Janeiro em julho deste ano, comparando com o ano passado. Isso significa diminuir os pavorosos índices de mortes no trânsito mais violento do mundo.

Assim, na próxima vez em que você achar que isso é um exagero, ou que todo mundo tem mais é que furar blitz, ou se recusar a soprar o bafômetro, lembre-se daquele seu amigo que morreu num acidente de carro. E, em respeito à sua memória, pense novamente.

ATUALIZAÇÃO 26/10/2009: Djalminha também recusa-se a fazer o teste do bafômetro e tem seu carro (com IPVA vencido desde 2007) apreendido pela polícia.

Ave, Júlios!

Mais uma atuação previsivelmente bisonha da nossa seleção ontem à noite mostrou o momento patético que atravessa o futebol brasileiro. Com o comando sempre frágil e instável de Dunga, jogadores em má-fase em seus clubes buscam reabilitar-se vestindo a camisa canarinho – aliás, ondem, azulzinha.

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Sem ir muito longe, na época de Zico, Leandro e Falcão, o jogador precisava recuperar-se e estar bem ANTES de ir para a seleção. Ele tinha que jogar muita bola em seu clube e atravessar ótima fase para poder ser convocado. Hoje, o Elano usa as Eliminatórias para tentar recuperar sua posição no… qual o time mesmo? Ronaldinho Gaúcho junta-se ao grupo para tentar emagrecer.

Estar na seleção sempre teve muito mais importância do que a situação de qualquer time, seja de que país fosse. Hoje serve de moeda de troca.

6a00e554b11a2e883301156e9d1dfd970c-320wi Atualmente os jogadores preocupam-se apenas com suas aparências. Um corta o cabelo à navalha, com toda a precisão que lhe falta aos passes. Outro arrisca trancinhas afro, imitanto o Predador, num visual que inspira mais riso do que medo. Brincos e pulseiras esbanjam ouro e diamantes, cujo brilho ofusca o minguado talento que ainda resta a esses medíocres jogadores. Cada chuteira tem uma cor diferente, variando do amarelo ao rosa, compondo o retrato afetado de quem um dia já jogou bola.

As atuais musas da seleção brasileira têm procedência mais do que duvidosa. Participam das raves canarinhos regadas a sabe-lá-Deus-o-quê e fazem xixi em pé…

Ronaldinho Gaúcho parece ter cadeira cativa na seleção, onde há muito não faz por merecê-la. Sua indiferença ao jogo contrasta com o que se espera dele, que fez da sua escalada ao topo um ângulo bem agudo, onde a rapidez da chegada deu lugar à queda vertiginosa.

6a00e554b11a2e883301156e9d0b4f970c-320wi Um programa esportivo antes do jogo ressaltava o fato de os técnicos das outras seleções estarem sempre presentes aos jogos dos campeonatos europeus. Acompanhando seus atletas de perto, eles podem ver quem está realmente atuando bem, quem tem alguns lampejos e quem escora-se num remoto passado soterrado pela implacável balança.

Só o nosso técnico não vai ao estádio. Não atravessa a rua para ver o Nilmar no Beira-Rio. Não entra num avião para acompanhar o Keirrison. Liga dos Campeões, então, nem pensar! Convoca pela televisão.

Não deveria ser assim mas hoje, mais do que nunca, ficamos aliviados em ter um dos melhores goleiros do mundo. Num jogo contra… o Equador!