A última teta do Governo

Enquanto o país mergulha no infame debate da Bela-Adormecida-que-foi-estuprada-ou-não, uma silenciosa entubada espreita-nos, contribuintes, numa medida irresponsável de nossa presidente – ou presidenta, como queiram.

Trata-se do famigerado caso das próteses de silicone francesas e holandesas que, adulteradas, começam a apresentar rupturas e ameaçar a saúde de suas portadoras. Sua Excelência, preocupada que é com a saúde pública, decidiu unilateralmente que o SUS deverá arcar com as cirurgias de remoção das tais turbinas. O mesmo vale para os planos de saúde que, por força da lei, também deverão cobrir a despesa.

O caso envolve má-fé dos fabricantes, que utilizaram material impróprio na confecção dos implantes que, mesmo assim, continuaram a ser comercializados no país, sob as barbas da distraída fiscalização sanitária.

Ainda assim, o Governo apressou-se em pagar a conta da pilantragem, mesmo sem ter a menor ideia de quanto isso vai custar aos cofres públicos ou particulares.

A parte do cidadão comum é fácil de entender, já que será pago com o meu, o seu, o nosso rico dinheirinho arrancado através dos impostos. Do outro lado, a coisa é mais sutil, já que os planos de saúde certamente darão um jeito de repassar a pemba, embutindo-a em alguma linha miúda do seu contrato de cobertura. Assim, se você tem plano de saúde, pagará por dois peitos, em vez de um.

- Viva a Dilma! Vou ligar pra ela pra ver se também posso...
– Viva a Dilma! Vou ligar pra ela pra ver se também posso…

Salvo em casos de mastectomia, relacionados a doenças ou outras causas – nas quais a medida do Governo é compreensível – colocar silicone nos seios é um procedimento puramente estético, eletivo, opcional, facultativo.

Qualquer cirurgia expõe o paciente a riscos diversos, desde a própria anestesia (geral, neste caso), até infecções, hemorragias e demais dissabores, relacionados a procedimentos que incluem um bisturi e linha de costura.

Ao escolher, por livre e espontânea vontade, submeter-se a este incômodo, o paciente (geralmente A paciente) assume todos os riscos envolvidos, inclusive o de ruptura da prótese – seja ela causada por defeito de fabricação, ou por uma buzinada mais empolgada.

De qualquer forma, o risco existe e foi assumido exclusivamente pelo paciente (normalmente pelA paciente, repito), no momento da decisão de fazer a cirurgia.

A ANVISA, que agora aparece montada em seu cavalo branco, deveria impedir que isso acontecesse, com uma fiscalização eficaz daquilo que ela permite que se venda no país (ênfase na parte “a ANVISA liberou a venda das próteses impróprias”). Depois de falhar espetacularmente nesta tarefa, entretanto, ela agora posa de mocinha da história quando, na verdade, é uma das vilãs.

A substituição é necessária, pois parece que o problema detectado é grave, de fato. Seria ótimo se nosso Sistema Único de Saúde tivesse dinheiro sobrando e nenhuma outra preocupação. Mas isso está muito longe de ser verdade, sabemos.

Aliás, mesmo que não apresentem defeito algum, as próteses devem ser trocadas a cada 10 anos, obrigatoriamente e a paciente sabe disso no momento em que toma a decisão. Se ela não tem dinheiro para fazer isso, muita gente também não tem dinheiro para fazer os tratamentos de saúde que o Governo, sem nenhum arrependimento ou culpa, igualmente nega.

Se o dinheiro está sobrando para os peitos – mesmo sem saber o tamanho da conta – está faltando para hemodiálises, transplantes, quimioterapia e diversos outros tratamentos bem mais penosos, arriscados e imprescindíveis. Com a diferença que ninguém optou por precisar deles.

Respeitável bandido

Eu fico incrível com a forma como a mídia trata os bandidos. De todas as castas e das mais variadas espécies, há sempre um eufemismo ou uma palavra carinhosa para descrever toda a sorte de barbaridades. Nunca falta, também, um floreio textual para disfarçar uma aberração jurídica literal. Dois exemplos rápidos para ilustrar a minha indignação:

Um sujeito mata cinco pessoas, é preso, confessa e vai a júri popular. O caso comove a população e, no Jornal Nacional, William Bonner fecha a matéria dizendo, seriíssimo: “Se for condenado, o réu poderá pegar até 150 anos de cadeia”. Você fica com a sensação de que a justiça foi feita e vai dormir, aliviado com essa absurda mentira.

Sim, mentira. Porque o Código Penal brasileiro diz que uma pena não pode ultrapassar 30 anos (salvo engano meu). Se o preso for réu primário e tiver bom comportamento na cadeia, pode até sair após cumprir um sexto da pena (OK, não sei se isso se aplica a um homicídio quíntuplo).

- Vote contra mim para você ver...
– Vote contra mim para você ver…

O outro exemplo é muito mais frequente do que gostaríamos – e menos macabro também. Em casos de corrupção, a imprensa é ainda mais condescendente.

Vejamos o caso de Jaqueline Roriz, filmada recebendo suborno. A matéria do jornal O Globo diz que ela é acusada de receber propina. Ora, ela não é acusada de receber. Isso não é uma hipótese, nem uma suposição. Ela recebeu propina! Está filmado! Está provado!

A matéria deveria dizer que ela recebeu propina, que ela foi subornada, que ela é corrupta. Não cabem o eufemismo nem o benefício da dúvida. A imprensa precisa ser mais enérgica, mais acusatória. Caso contrário verá mais um caso do clã Roriz ser varrido para baixo do tapete, como tantos outros que se acumulam na recente história do País.

Episódio semelhante aconteceu com João Paulo Cunha, que recebeu suborno no escândalo do Mensalão e, ainda pior, confessou que recebeu. Mas nada lhe aconteceu. Por causa de uma Imprensa covarde e de um corporativismo sujo.

O mesmo corporativismo que acaba de livrar Jaqueline de qualquer punição. Seria algum detalhe jurídico? Uma falha no processo? Não, estava tudo lá, filmado. Simplesmente os deputados que deveriam votar sua cassação, preferiram sua absolvição. Simplesmente porque têm medo de ser acusados de corrupção também, caso houvesse vingança ou revanche. Ou seja, bandido livra bandido. Todos cuidando de seus rabos emaranhados. Os que devem, temem – e muito!

Nada menos do que 265 deputados disseram que é legal receber maços de dinheiro diante das câmeras. Que isso é algo mais do que normal. Ao menos para eles. Deputados covardes que se escondem atrás de uma votação secreta. Representantes que não têm a coragem de mostrar o que fazem a seus representados.

Uns dizem que é porque ela não era deputada ainda, quando recebeu seus trinta dinheiros. Que bandidagem tem prazo de validade e que você pode escolher a data de nascimento do seu caráter. Ou que se nunca quiser ser honesto, tudo bem, porque quem também não é vai te salvar nos tribunais.

Minha sugestão? Que os chamem pelo nome: corrupto, bandido, ladrão. No caso do assassino, que digam que mesmo sendo condenado a seiscentos anos de cadeia, só ficam trinta na folha – e que bem antes disso o criminoso será libertado.

Não prego a volta do macartismo, da acusação vazia e irresponsável. Esta destrói muito mais do que constrói e não dá chances de recuperação. A Escola Base está aí para não nos deixar esquecer – embora muitos não se lembrem do que se trata.

Mas há o réu confesso. Há o que foi filmado cometendo o seu crime. Quem lhe absolve deve tanto quanto ele.

Foi assim com Guilherme de Pádua, que assassinou uma colega de trabalho a tesouradas e hoje é réu primário. A culpa é dele? Claro que não. É de uma lei que diz que a vida é assim. É do Jornal Nacional que diz que ele vai apodrecer na cadeia sabendo que em breve ele poderá começar de novo.

Que você será acusado na primeira página, mas que quando a ridícula memória do brasileiro não lembrar mais de você, você pode ir para casa tranquilo e seguir sua vida. Que você será liberado e perdoado por todos aqueles que cometeram semelhante crime. Que ser considerado bandido num país de bandidos é tão fugaz quanto nossa memória de peixinho dourado.

Perto deles Ali Babá era primário, iniciante, bobinho até. Só tinha 40 ladrões consigo. Os de hoje vêm acompanhados de uma Imprensa que finge que não vê, de centenas que os absolvem e milhões que os elegem.

ADENDO: OK, Jackie Roriz não teve seu mandato cassado. Ainda assim ela é corrupta, não é? Afinal, foi filmada recebendo dinheiro sujo. Isso não vai ser investigado??

Não posso mais evitar…

Poucas vezes na minha vida dediquei tanto tempo a alguma coisa – seja um hobby, um emprego ou um relacionamento. Do mesmo modo, poucas coisas tiveram tanta influência na minha vida, em todos os aspectos, quanto escrever um blog – novamente considerando a mesma tríade.

Como hobby entreteve-me e fez-me companhia. Forçou-me a buscar melhorias, aprimoramento, aperfeiçoamento. Li, pesquisei, reli e pesquisei mais a fundo. Debati e discordei, discuti e concordei. Depois tornei a discordar. Ou não.

6a00e554b11a2e8833015433d12050970c-800wi

Como trabalho, o Não Posso Evitar me viu perder dois empregos e ganhar uma profissão. Transformou um comentário malcriado em inúmeras portas abertas e uma improvável amizade que cultivo com iguais respeito, carinho e gratidão.

Replicou-se em colunas de sites expressivos e impressos iniciantes, mas promissores. E acabou culminando numa nova carreira, um outro objetivo de vida, uma completa revisão de crenças e valores.

Como relacionamento o blog mostra a cara do seu criador. Muitos vieram para ficar, adaptando-se estranhamente bem ao ambiente ao mesmo tempo ácido e açucarado, hospitaleiro e hospitalar, rude e aveludado.

Recebi elogios com satisfação confessa; críticas com indisfarçada irritação e pronto desejo de vingança; comentários indiferentes com semelhante indiferença.

Mas sempre hei de me espantar ao receber agradecimentos, confissões e depoimentos sobre o alcance das minhas palavras. Serei sempre surpreendido pela responsabilidade que meus textos carregam, a influência que exercem e os caminhos que indicam.

Encolho-me ao pensar nas vidas que mudei, carreiras que apontei, pais que orientei e filhos que segui. Orgulho-me dos blogs que ajudei a parir e dos que confiaram em mim para assumir suas próprias identidades – sejam espartanos ou meninas tímidas.

Acima de tudo agradeço, ainda incrédulo, os primeiros mil dias da sua atenção e aproveito para prometer outros incríveis mil. Porque mesmo estando apenas no início, já não posso mais evitar.

Dia dos falecidos pais

Essa semana duas amigas jornalistas comentaram comigo sobre um mesmo incômodo: ambas precisavam escrever os infalíveis textos sobre o Dia dos Pais para suas respectivas publicações – sendo que os pais de ambas já morreram. Junto-me a elas como o terceiro da lista, antes por opção pessoal que por obrigação profissional – ou ainda, por solidariedade mesmo.

Como a leitora já deve imaginar, não vejo com muita simpatia essas datas comemorativas. Especialmente as que são completamente desprovidas de algum motivo além de vender quinquilharias – como o já citado, além do Dia das Mães, das Crianças, da Mulher, do Trabalho (quando ninguém trabalha, aliás), da Secretária ou do Médico*.

Implico, certamente, com o caráter essencialmente comercial de tais eventos onde a publicidade reduz, muitas vezes, uma relação que deveria ser espontânea e natural a uma obrigatória troca de presentes. (Atenção: eu disse que a publicidade faz isso, não você.)

A impressão que tenho é que sempre que somos obrigados a fazer algo (num dia específico ou não) é porque não desejamos fazê-lo de verdade. No Dia da Mulher, por exemplo, abundam as piadinhas dizendo que os 364 dias restantes são dos homens, coisa e tal. Sendo assim, raciocínio semelhante aplica-se às demais datas?

6a00e554b11a2e88330134860e1796970c-400wi Como é comum a filhos de pais separados, minha relação com meu pai sempre foi um tanto distante – e o tempo tratou de esticar ainda mais a separação geográfica entre Rio de Janeiro e Brasília.

Sua prematura e repentina partida, em 1997, parece ter deixado isso ainda mais claro. Assim como também deixou claro que uma relação antes capenga, jamais caminharia.

Claro que esse seria um motivo mais do que justo para eu não gostar do Dia dos Pais. Afinal, a gente normalmente desdenha daquilo que não tem, ou não pode curtir e apreciar. Mas eu também não gosto do Dia das Mães (ela já sabe disso) e também não curto Páscoa nem Natal.

Aos que se apressarem em imaginar um coração empedrado e peludo bombeando o meu sangue, pergunto qual o mérito em demonstrar carinho e afeto um dia no ano? Por que você se sente obrigado a amar uma horda de desconhecidos no Natal? E por que volta a ignorá-los no dia seguinte? Pois é assim que vejo essas datas. Um mero intervalo entre rancores diários.

* * * * * * * * * *

É improvável que alguém aqui ignore o pai (ou a mãe) o resto do ano. É um exagero meu para ilustrar um ponto-de-vista. Um ponto-de-vista de quem está fora da festa. Uma festa que já foi, mas não vai mais.

Enfim, também é provável que isso mude no dia em que for eu recebendo os presentes. (Eu disse “os” presentes…?)

____________________

* Tem Dia do Blogueiro?