10 coisas que você (provavelmente) não sabe sobre mim

Tenho escrito recentemente sobre coisas muito pesadas. Falsos ecologistas, redes sociais do mal, população mal educada. Até eu canso disso e nem consigo mais ler meu próprio blog, que dirá você, leitora querida.

Então resolvi buscar um tema bem bobo, quase idiota, para dar uma quebrada nessa sequência tão dramática. Vi a dica no The Smart Passive Income Blog, seja lá o que isso signifique. Sem mais enrolação, vamos às 10 coisas que você (provavelmente) não sabe sobre mim – a menos que você seja a minha mãe:

1 Aos 15 anos tive uma fratura no seio frontal (também conhecido como testa) jogando futebol. Precisei de cirurgia para corrigir um afundamento do crânio e por isso tenho uma cicatriz enorme no lado esquerdo da cabeça, devidamente escondida por minha nem tão vasta cabeleira. Se você já reparou, mas ficou constrangido de perguntar, eis sua resposta! E nunca mais tive sinusite depois disso, mas acho que não valeu a pena.

2 Já trabalhei num bar, no Rio de Janeiro. Fui caixa e, depois, gerente. Lá aprendi a admirar uma profissão mais desgastante e honesta do que as pessoas gostam de imaginar: garçons. Também conheci músicos profissionais, que ganham a vida tocando em casas noturnas. E aprendi a jogar gamão. Bem mal. Tinha um cara que, sempre que chegava, me dava um revólver para eu guardar. Surreal!

3 Apesar de escrever sobre gestão, treinamento, liderança e temas semelhantes, já fui demitido quatro vezes. Uma por corte de custos e três por burrice mesmo. Minha, lógico.

4 Estudei no mesmo colégio a minha vida toda: o glorioso São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro. De lá saí para fazer uma improvável faculdade de Astronomia, na UFRJ. Até hoje não sei explicar o porquê. Abandonei o curso três meses depois, fiz um novo vestibular e me formei em Publicidade e Propaganda, na mesma UFRJ.

5 Quando criança, fiz natação, vôlei, futebol de salão, ginástica olímpica, kung fu e tae-kwon-do. Também frequentei aulas de artes no Parque Lage, tentei tocar violão e jogar xadrez. Não levo nenhum jeito para nada disso. Sou um zero nos esportes, artes e música. Escrevo mais ou menos, mas leio que é uma maravilha!

6 A coisa que mais me emociona é uma verdadeira demonstração de amizade. Aquela pessoa que faz o que você não espera, na hora em que você precisa. Serve em filme, também.

7 Tenho certo apreço pelo minimalismo. Pessoas que conseguem dizer muito com muito pouco, seja na música de Chet Baker, a prosa de Pablo Neruda ou nos traços do Juan Miró. Expressões econômicas são extremamente elegantes. Também gosto de adjetivos incomuns e escorregadios.

8 Passo mal de rir com os filmes do Mr. Bean e com indianos falando inglês. Se um dia o Rowan Atkinson interpretar um indiano, é melhor eu não assistir. Aliás, meu senso de humor é meio bizarro. Nem queira saber…

9 Uma vez tive um ataque de riso numa reunião importante com o Presidente de uma empresa. Foi um dos momentos mais embaraçosos da minha vida profissional – e acho que não teve a ver com uma das minhas quatro demissões. Eu simplesmente não conseguia parar de rir e confesso que não me lembro o motivo.

10 Sigo 100 pessoas no Twitter, sempre. Mais do que isso dispersa a atenção. Quando quero acrescentar uma pessoa, tenho que deletar outra. Algo parecido com a vida real.

11 Não sei contar direito.

O mindset de crescimento

Acabo de levar um duro golpe: não fui aceito no processo seletivo para o Doutorado em Administração da USP. Fiz as difíceis provas da ANPAD – nas quais fui bem – e as específicas da Universidade – nas quais fui bem mais ou menos. De qualquer forma, qualifiquei-me para a segunda fase. Elaborei o projeto de tese, reuni a documentação necessária e fui adiante, sendo classificado para a terceira fase, de entrevistas. Aí babou…

Dos onze candidatos, fui um dos quatro que não passaram. Não ver o seu nome numa lista de sete futuros Doutores é algo realmente desagradável, dadas as expectativas. Não importa quantas vezes você leia, seu nome não está lá. Então algo extraordinário aconteceu.

Durante boa parte da minha vida fui considerado uma pessoa acima da média. Quem me acompanha há mais tempo aqui no Não Posso Evitar… sabe que não dou adepto da falsa modéstia, da humildade exagerada, tampouco do coitadismo.

6a00e554b11a2e88330162fd159173970d-400wiMas carregar o rótulo de pessoa inteligente tem seu preço: você não pode errar. Porque quando você erra, põe em dúvida seus títulos, suas conquistas, suas qualidades. Errar significa passar para o outro lado – do qual você definitivamente não quer fazer parte.

Ao menos enquanto você acreditar que a divisão entre os capazes e os incapazes é fixa, imutável, eterna. E esta é uma mentalidade limitante, é o mindset fixo.

Quem descreve muito bem esses tipos de pensamento é Carol Dweck, em seu imprescindível Mindset: The New Psychology of Success (Ballantine Books, 2007). Para ela, ter um mindset fixo significa acreditar que as pessoas têm uma capacidade intelectual finita, determinada, rígida. O que você é hoje, você será para sempre.

Por outro lado, ter um mindset de crescimento envolve acreditar no constante aprendizado, na eterna busca por melhoria, no desenvolvimento diário, em todos os aspectos da sua vida. E isso inclui seus revéses: o erro, a perda e o fracasso. A diferença é que você enxerga tais efeitos colaterais como mais uma etapa – e não como destino final.

Uma das piores consequências do mindset fixo é o medo de errar, porque ele se transforma em medo de tentar. Em O Iconoclasta, o psiquiatra americano Gregory Berns escreve que uma das principais características das pessoas que fazem o que os outros diziam ser impossível é a forma como elas lidam com o medo. Quantas vezes você deixou de enfrentar um desafio pelo simples medo de fracassar? Pelo medo de se expôr? Pelo medo de parecer – ou de se sentir – menos apto, menos inteligente?

Só perde o pênalti quem bate o pênalti
Só perde o pênalti quem bate o pênalti

Pois quando você tem o mindset de crescimento, você vê seu fracasso por outra lente. Ele faz com que você busque as razões do erro, analise em que aspectos precisa melhorar, em que pontos deve evoluir. Tivesse eu num mindset fixo, estaria chorando na cama, que é lugar quente.

Tempos atrás, confesso, é bem provável que fosse este o meu desejo no momento. Mas aprendi a encarar tais episódios de maneira bem diferente.

Melhor dizendo, escolhi encarar tais episódios de maneira diferente. E esta transição foi algo bem mais simples do que você pode imaginar.

Não estou feliz por ter fracassado porque, no fim das contas, isso ainda não acabou. Em vez de pensar que não passei, prefiro pensar que não passei ainda. O “ainda” faz toda a diferença.  E vida que segue…

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Por favor, reserve seus comentários para o tema dos mindsets; evite condolências.

Quem deve fazer a prova?

Pelo Twitter o amigo Flavio Carvalho faz o seguinte desabafo:

6a00e554b11a2e8833015392f1021d970b-400wiDe fato, o modelo educacional tradicional deixa muito a desejar quando mede o desempenho dos alunos através de provas, testes e outros elementos quantitativos. Mas como escrevi em Aprender a ensinar ou ensinar a aprender?, tal sistema ainda é utilizado para atender a uma necessidade do início do século passado: a padronização do ensino, para atender ao maior número possível de alunos.

A inadequação do método fica mais evidente conforme mudam as habilidades exigidas dos profissionais no mercado de trabalho. Em tarefas onde inovação e criatividade são essenciais, tem-se alunos habituados a preencher formulários, marcar opções corretas (ou erradas), memorizar datas e decorar fórmulas.

Pergunta ruim, resposta adequada
Pergunta ruim, resposta adequada

Mas hoje o ambiente corporativo tem necessidades bem diferentes. Se um jovem é acostumado a escolher dentre alternativas pré-estabelecidas, como ele haverá de criar suas próprias, quando as atuais não servirem?

O atual modelo educacional condiciona o aluno a um pensamento de múltipla escolha, para depois forçá-lo a viver num mundo dissertativo. Quando se enfrenta a realidade, não adianta saber dar as respostas – é preciso saber fazer as perguntas.

Ora, se o importante é saber fazer as perguntas – em vez de dar as respostas – então nada melhor do que uma prova! O erro está em quem faz a prova. Se você quer que o aluno aprenda a fazer as perguntas, então deixe que ele, o aluno, elabore a prova.

Dê-lhe uma folha em branco e peça-lhe que escreva o que deveria ser perguntado na tal prova. Que tipo de questão deveria ser feita? Quais os principais temas abordados no último bimestre ou semestre? Como deve ser aplicado o conhecimento adquirido até então? Como você avaliaria o seu próprio aprendizado?

Este breve momento de reflexão do aluno servirá para que ele faça uma revisão muito mais valiosa de como foi o seu aproveitamento durante o curso. Além disso, servirá como um incentivo à criatividade na elaboração das questões, fugindo um pouco da mesmice que sempre marcou as provas acadêmicas, seja na escola ou na universidade, seja em Literatura ou em Física (“se um carro parte do ponto A às 10:00h a 60 km/h em direção ao ponto B blá, blá, blá…”)

Algum professor aí se habilita a seguir minha sugestão? Desde já deixo o espaço do blog aberto para contar a experiência.

The bed of Procrustes – Nicholas Nassim Taleb

6a00e554b11a2e88330148c6864110970c-120wi A primeira conclusão a que cheguei ao terminar The Bed of Procrustes: Philosophical and Practical Aphorisms (Random House, 2010) é que Nicholas Nassim Taleb perdeu o resto de fé que tinha na humanidade.

Três anos após o clássico A Lógica do Cisne Negro Taleb castigou seus fãs com uma obra sofrível – talvez não por seu conteúdo, mas certamente por sua forma.

Suas magras 112 páginas (contra 480 da obra anterior) reúnem uma coleção de sentenças raivosas, observações rancorosas e muito despeito. Dei-me ao trabalho de contar 402 frases divididas em 22 “temas”. Pois é, o livro é um apanhado de frases aleatórias cuspidas por uma metralhadora giratória, especialmente apontada, eu diria, para os economistas.

Minha maior decepção foi, talvez, pelo fato de Taleb ter desperdiçado um argumento excelente –  algo como o Paulo Coelho escrever sobre o assassinato do Kennedy. O título do livro refere-se ao mito grego de Procrusto, o esticador, um bandido filho de Posseidon, que morava numa fortaleza vizinha a Atenas.

Diz a lenda que Procrusto convidava os viajantes a passar a noite em sua casa e dormir em sua famosa cama. Ocorre que o anfitrião obrigava seus hóspedes a se encaixar perfeitamente no leito, seja esticando os mais baixos, ou cortando as pernas dos mais altos.

Ainda segundo a mitologia, Procrusto foi morto por Teseu (sim, o do Minotauro) em sua própria cama, usando o mesmo modus operandi de Hércules, que derrotava seus inimigos com suas próprias armas.

A Cama de Procrusto representa, portanto, uma ilustrativa metáfora para aquilo que é excessivamente padronizado e abusivamente imposto, independentemente das particularidades de quem a necessite*.

Taleb é, sim, um cara brilhante, dono de uma erudição invejável que ele não faz nenhuma questão de esconder. Até aí tudo bem, porque somente uma inteligência assim poderia nos dar algo do quilate de The Black Swan. Mas The Bed of Procrustes tem um ranço de “minha obra genial que ficará para a posteridade”.

A impressão que dá é que Taleb joga um monte de frases de efeito no ventilador, esperando que algumas se tornem lemas, ditados ou mesmo leis imutáveis. Pelo que você verá a seguir, em seleção e tradução próprias, ele passou longe de ser o novo Barão de Itararé…

Para falir um tolo, dê-lhe informação.
To bankrupt a fool, give him information.

Se pela manhã você souber com precisão como será o seu dia, você está meio morto – quanto mais precisão, mais morto você está.
If you know, in the morning, what your day looks like with any precision, you are a bit dead – the more precision, the more dead you are.

Procrastinação é a alma se rebelando contra o aprisionamento.
Procrastination is the soul rebelling against entrapment.

Elogiar alguém por sua falta de defeitos também implica na sua falta de virtudes.
By praising someone for his lack of defects you are also implying his lack of virtues.

Muitos alimentam suas obsessões tentando se livrar delas.
Most feed their obsessions by trying to get rid of them.

Rumores só têm valor quando negados.
Rumors are only valuable when they are denied.

As pessoas normalmente se desculpam para poder repetir o erro.
People usually apologize so they can do it again.

Os três vícios mais danosos são heroína, carboidratos e um salário mensal.
The three most harmful addictions are heroin, carbohydrates, and a monthly salary.

Você constantemente precisa se lembrar do óbvio: o charme está no não-dito, no não-escrito e no não-mostrado. É preciso maestria para controlar o silêncio.
You need to keep reminding yourself of the obvious: charm lies in the unsaid, the unwritten, and the undisplayed. It takes mastery to control silence.

Ciência de base dá resultados sensacionais através de um processo terrivelmente entediante; a filosofia dá resultados entediantes através de um processo sensacional; a literatura dá resultados sensacionais através de um processo sensacional; a economia dá resultados entediantes através de um processo entediante.
Hard science gives sensational results with a horribly boring process; philosophy gives boring results with a sensational process; literature gives sensational results with a sensational process; and economics gives boring results with a boring process.

Ainda me lembro daquilo que aprendi sozinho.
What I learned on my own I still remember.

O trágico é que muito do que você acha que é aleatório está sob o seu controle e, o que é pior, o contrário.
The tragedy is that much of what you think is random is in your control and, what’s worse, the opposite.

Você só convence as pessoas que pensam que terão benefícios se forem convencidas.
You can only convince people who think they can benefit from being convinced.

Evite chamar de heróis aqueles que não tiveram escolha.
Avoid calling heroes those who had no other choice.

Um homem ético adapta sua profissão às suas crenças, em vez de adaptar suas crenças à sua profissão.
Ethical man accords his profession to his beliefs, instead of according his beliefs to his profession.

Falar sobre a “matemática da incerteza” é o mesmo que falar sobre a “castidade do sexo” – o que é calculado não é mais incerto, e vice versa.
Saying “the mathematics of uncertainty” is like saying “the chastity of sex” – what is mathematized is no longer uncertain, and vice versa.

Um matemático começa com um problema e cria uma solução; um consultor começa oferecendo uma “solução” e cria um problema.
A mathematician starts with a problem and creates a solution; a consultant starts by offering a “solution” and creates a problem.

Ciências Sociais significa inventar um tipo de humano que possamos entender.
Social science means inventing a certain brand of human we can understand.

Você sabe que tem influência quando as pessoas começam a notar mais a sua falta do que a presença dos outros.
You know that you have influence when people start noticing your absence more than the presence of others.

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* Serviu, inclusive, como tema para a pergunta de abertura de minha entrevista com Nicholas Carr.