O caráter esquecido

Em 1960, John F. Kennedy venceu uma apertadíssima eleição contra Richard Nixon, que talvez fizesse George W. Bush gargalhar. Quatro anos depois, no entanto, a vitória na eleição transformou-se numa surra nas urnas: uma pesquisa que perguntou aos eleitores em quem eles haviam votado no pleito enterior revelou uma vantagem de 28 pontos percentuais em favor de Kennedy (64% contra 36%)1.

Kennedy lépido e faceiro em Dallas: candidato bom é candidato morto!
Kennedy lépido e faceiro em Dallas: candidato bom é candidato morto!

O tema é abordado pelos psicólogos americanos Christopher Chabris e Daniel Simons em O Gorila Invisível (Rocco, 2011), nas discussões sobre o quão precisas são nossas memórias. Os autores sustentam que nossos estados emocionais interferem no modo como nos lembramos de fatos cotidianos.

Algo semelhante parece ter ocorrido no Senado brasileiro no início deste mês, quando da eleição de Renan Calheiros para a presidência daquela Casa de má fama. Numa pesquisa da Folha de São Paulo envolvendo 73 dos 78 senadores que votaram, apenas 35 admitiram ter escolhido o candidato alagoano – enquanto que a eleição oficial contou 56.

Em ambos os casos, os sentimentos dos eleitores com relação às suas escolhas interferiram diretamente na forma como se lembraram dos fatos, mas de forma diametralmente oposta, tanto na variação do resultado, quanto na justificativa dos motivos.

No caso de Kennedy, a população americana ainda estava emocionalmente abalada com o brutal assassinato do seu querido presidente, ocorrido meses antes. Já no caso do Senado brasileiro, os eleitores experimentavam um misto de medo e vergonha de suas próprias decisões.

Quando a população vota para escolher membros do Executivo e do Legislativo, o voto secreto garante a legitimidade do processo, de modo a (tentar) evitar as pressões de currais eleitorais. Mas no caso do Congresso, a falta de transparência no voto impossibilita que os eleitores acompanhem as ações de seus representantes, impedindo que eles sejam cobrados por suas atitudes. A canalhice individual acaba diluída na bandidagem coletiva.

Como bem lembrou Rogério Gentile no lúcido Voto Envergonhado, o voto secreto era necessário na década de 1950, quando “[o] Brasil tinha deixado havia apenas sete anos o Estado Novo, e o sigilo do voto fazia sentido num país ainda traumatizado pela ditadura Vargas, num Congresso que estava tentando se fortalecer”.

Hoje em dia, no entanto, a pressão dentro do Congresso não se dá mais por uma ditadura militar, como era o receio daquela época, mas por uma quadrilha que impõe seus interesses através de chantagens ou promessas igualmente escusas.

A evidência disto é que, no mínimo2, 16 senadores “se enganaram” sobre seus votos por medo da repercussão negativa que o apoio a Renan poderia causar-lhes fora de Alagoas. Some-se a isto o fato de que o candidato derrotado, Pedro Taques, recebeu o apoio formal dos partidos “de oposição” mas, contados os votos, teve apenas 18 dos 30 prometidos. Nota-se, assim, que os senadores traem não só os seus eleitores mas, também, seus próprios partidos.

A verdade é que o voto secreto no Congresso serve apenas para encobrir os rabos presos e os apoios escusos e fortalecer as quadrilhas que loteiam o poder. Funciona como escudo contra a urna, antepõe um filtro à verdade e blinda a corrupção. Absolve renans, sarney e jaquelines e transforma a democracia numa mera alegoria, uma corroída fantasia.

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1. Ver To Tell the Truth to Pollsters, CBS News, 2010.

2. Se considerarmos, por exemplo, que os cinco senadores que não responderam à enquete votaram em Renan. No caso oposto, seriam 21 senadores “com lapsos de memória”.

O desserviço da imprensa

Mais de uma vez, ao revisar textos, atitudes ou crenças, senti uma firme convicção de que eu era um irremediável pessimista. Consigo, inclusive, imaginar a leitora acenando com a cabeça, concordando.

Ao terminar de ler The Optimism Bias: A Tour of the Irrationally Positive Brain (Pantheon, 2012), de Tali Sharot, surpreendi-me ao reclassificar-me como um otimista nato. Embora isto pareça incoerente com as opiniões aqui publicadas, há uma explicação bastante simples para tal constatação: sou uma pessoa que acredita firmemente na bondade humana.

Minha crença tem pouco a ver, no entanto, com pirações new age, inclinações religiosas, ou isoladas manifestações de amor ao próximo. Como em outras áreas da minha vida, baseio meus instintos na Ciência. Diversos estudos já sugeriram que o homem é um ser gregário, amoroso, empático, caridoso. Aqueles que se desviam deste tipo de conduta representam, portanto, a exceção, não a regra.

Um forte indício em favor desta observação está no excepcional documentário Sex, Death and The Meaning of Life, de Richard Dawkins. No primeiro dos três episódios (assista abaixo, no YouTube), Dawkins entrevista o psicólogo canadense Steven Pinker, autor do provocante The Better Angels of Our Nature: Why Violence Has Declined.

Professor de Psicologia em Harvard, Pinker baseia seu livro em estatísticas oficiais sobre crimes e sua conclusão é a de que os índices de violência vêm caindo sistematicamente no mundo inteiro. Nos últimos 40 anos, por exemplo, os estupros diminuíram 80% nos EUA.

Mas por que será que, de uma forma geral, nossa impressão é a de que a maldade vem, ao contrário, aumentando? A resposta está no que os próprios psicólogos costumam chamar de viés de disponibilidade: tendemos a acreditar que o que lembramos mais facilmente é, de fato, o que mais acontece.

Em outras palavras, quando algo é extensamente publicado, noticiado – e, por isso, não sai da nossa cabeça – somos levados a acreditar que aquilo é muito mais frequente do que realmente é.

Na prática, é isto o que acontece quando você assiste um programa do Datena, no qual ele passa três horas falando de crianças molestadas, idosos espancados e assassinos ensandecidos. Você imediatamente imagina que o mundo está acabando. Mas a verdade, felizmente, está bem longe disto.

Boa parte da mídia, no entanto, é ocupada por este tipo de programação, ou dá destaque exagerado a estes eventos. Por causa do viés de disponibilidade todos ficamos, então, com a sensação de que o mundo é habitado por criaturas terríveis. E todos passamos, assim, a tratar os outros como criaturas terríveis.

Mas por que este tipo de programa policial pseudo-jornalistico proliferou na última década, especialmente nas TVs abertas? Porque isso dá audiência e vende jornal. Porque o público gosta. Porque o público quer ver sangue. Porque o público é sádico.

A verdade é que o mundo está melhorando. Nunca foi tão bom. Nunca tivemos coisas tão sensacionais. Nunca houve tanta tolerância, aceitação e respeito – o que não significa que não exista, ainda, um longo caminho a percorrer. E mesmo assim insistimos em achar tudo uma porcaria.

Claro que há lugares onde realmente (quase) tudo é uma porcaria. Nossa política é um antro de corrupção. A violência no Brasil ainda é uma aberração – e honestamente eu não saberia dizer para onde apontam as tendências.

Mas acredito sinceramente que são pontos fora da curva dentro de um cenário mais amplo. E nenhuma destas exceções deveria fazer com que acreditássemos no destino sombrio que a imprensa nos sugere diariamente.

Pense nisso na próxima vez em que assistir a um noticiário. Por que a imprensa fala tanto de violência? Por que as pessoas assistem tanto estes programas? Por que eu assisto?

Livros de 2010 – parte II

No texto anterior comecei uma revisão dos livros lidos em 2010. A pedidos, inclusive, acrescentei aqueles que já foram lançados em Português e podem ser comprados aqui sem dificuldades. Curiosamente, sobraram dois temas bem ligados a trabalho. Então vejamos a continuação.

LIDERANÇA e MOTIVAÇÃO

6a00e554b11a2e88330148c7285bc0970c-150wi Fiquei muito bem impressionado com Daniel Pink depois de assistir a uma palestra sua no TED. Seu segundo livro, Drive: The Surprising Truth About What Motivates Us (Riverhead, 2009) tem os mesmos traços de humor refinado que seu autor esbanja em vídeo.

Pink aborda o tema da motivação de forma completamente fora dos padrões tradicionais – e é exatamente aí que reside todo o valor da sua obra.

Num mundo em que tudo muda numa velocidade assustadora, é incrível notar como coisas tão importantes como a motivação permaneçam atreladas a dogmas de 20, 30 anos atrás. Ou mais. (Em Português: Motivação 3.0.)

6a00e554b11a2e88330147e0aebc43970b-200wi Em todo o mundo, a indústria da autoajuda rende bilhões de dólares, subtraídos de trouxas, digo, leitores que esperam encontrar em algumas páginas a solução de todos os seus problemas. Se você é desses, fique longe de Bright-sided: How the Relentless Promotion of Positive Thinking Has Undermined America (Metropolitan Books, 2009).

Barbara Ehrenreich é uma crítica ferrenha não só da autoajuda, mas também do pensamento positivo de um modo geral. Para ela, a promessa de que o pensamento positivo tudo resolve serve apenas para paralisar a iniciativa e esperar o próximo sopro de sorte. Faz um tentido enorme, não faz

6a00e554b11a2e88330133f5977df6970b-200wi Sir Ernest Shackleton é considerado por muitos o maior líder que já existiu. Em Leading at the Edge : Leadership Lessons from the Extraordinary Saga of Shackleton’s Antarctic Expedition (AMACOM, 2000) Dennis Perkins analisa algumas das características do explorador irlandês que podem explicar tal fascínio.

Perkins divide o livro em dez traços de personalidade ou atitudes muito marcantes de Shackleton, que tornaram possível manter 28 homens unidos durantes os mais de dois anos em que permaneceram perdidos na Antártida, no início do século passado.

Importantes lições atemporais, úteis para quem precisa liderar equipes sempre no limite – seja da sobrevivência ou da performance. (Em Português: Liderança no Limite.)

6a00e554b11a2e88330147e11ef9f6970b-150wi Dentro do mesmo tema, Margot Morrell tem uma abordagem bem mais detalhista, em seu Shackleton’s Way: Leadership Lessons from the Great Antarctic Explorer (Penguin, 2002).

Ela é responsável, também, pela única descrição que já vi da vida de Shackleton antes da sua famosa expedição com o Endurance. Foi neste livro que descobri, por exemplo, que The Boss era filho de um médico Quaker e que tinha nada menos do que oito irmãs. (A edição em Português, Shackleton – uma lição de coragem, está esgotada na editora.)

6a00e554b11a2e88330147e11f0742970b-150wi John Kotter é um dos mais celebrados autores sobre Lidarança, com meia dúzia de títulos publicados, todos sempre frequentando as melhores listas de best-sellers. Lendo The Heart of Change: Real-Life Stories of How People Change Their Organizations (Harvard Business Press, 2002), percebemos que isso não é à toa.

O livro é uma compilação de diversas pesquisas feitas por Kotter ao longo de mais de 20 anos como consultor, das quais ele extraiu uma série de oito comportamentos típicos de líderes de sucesso.

Mas longe de oferecer uma receita pronta para o sucesso, The heart of change é uma revisão de conceitos bastante simples, que a maioria de nós conhece ou já ouviu falar ao menos uma vez. A grande diferença aqui é vê-los em situações onde fizeram a diferença e foram responsáveis pelo sucesso de uma empresa. Absolutamente imperdível! (Ver O Coração da Mudança.)

6a00e554b11a2e88330148c72899d4970c-150wi Ian Ayres é um advogado, professor de Yale e articulista do Freakonomics. E, como boa parte da população adulta, percebeu que estava perdendo sua briga com a balança. Carrots and Sticks: Unlock the Power of Incentives to Get Things Done (Bantam, 2010) conta um pouco dessa sua luta (vitoriosa) e dos seus aprendizados sobre motivação e inspiração.

Através de curiosos experimentos científicos, Ayres desvenda um pouco do que funciona, do que não funciona e do que tem o efeito inverso quando procuramos aliados na luta contra nossa apatia, preguiça, gula, vício ou simples tendência a procrastinar um pouco mais.

Em Carrots and Sticks você verá o que funciona melhor de acordo com o seu objetivo. Perder peso, parar de fumar, ligar regularmente para a avó, estudar para as provas ou qualquer outra atitude que requeira um pouco mais do que força-de-vontade podem ter suas chances de sucesso multiplicadas se você souber a medida exata de incentivo – ou o castigo correto – que pode se auto impôr. Quer testar?

PROCESSOS DECISÓRIOS

Como você toma suas decisões? Que tipo de considerações faz – ou acha que faz – quando pesa prós e contras de cada opção? Escolhe entre alternativas por impulso ou delibera longamente sobre elas?

6a00e554b11a2e88330147e1224657970b-150wi Em How We Decide (Mariner Books, 2010), Jonah Lehrer desce (ou sobe?) até os níveis subcorticais do nosso cérebro para entender os caminhos percorridos pelos processos decisórios dentro dos nossos próprios centros de poder.

Além da parte biológica do processo – que no texto de Lehrer ganha uma leveza ímpar – você verá em How we decide a importância da emoção na tomada de decisão, abalando a velha crença de que boas escolhas devem ser feitas de forma estritamente racional. Ao contrário do que prega o senso comum, “razão sem emoção é impotente”. (Foi lançado recentemente O momento decisivo, que acredito que seja How we decide)

6a00e554b11a2e88330148c6b8b875970c-200wi Já Zachary Shore concentra-se nos erros mais comuns que cometemos quando tomamos decisões. Como o título sugere, Blunder: Why Smart People Make Bad Decisions (Bloomsburry, 2009) trata das peças que nosso cérebro nos prega quando escolhemos algo. O pior de tudo é que são peças invisíveis, já que ninguém cometeria erros de forma deliberada.

Shore tem um histórico de consultoria junto às Forças Armadas americanas, construído ao longo de sua carreira de professor de história. Sua narrativa é recheada de análises bastante interessantes de guerras e conflitos desde a Antiguidade até a Era Moderna, destacando erros e acertos, bem como o que poderia ter sido diferente.

6a00e554b11a2e88330133f5bedaed970b-150wi Indo da teoria à prática, Bruce Bueno de Mesquita é o que pode se chamar de um Nostradamus com muitos recursos. As impressionantes taxas de acerto deste especialista em Teoria dos Jogos são sustentadas por sua lógica nua e crua e vitaminadas por poderosos modelos matemáticos.

Mas nada disso torna maçante a leitura de  The Predictioneer’s Game: Using the Logic of Brazen Self-Interest to See and Shape the Future (Random House, 2010) que, antes disso, assemelha-se mais a uma história de suspense – mas que na maioria das vezes você conhece o final.

6a00e554b11a2e88330147e12297b4970b-150wi E como tomar decisões quando o ambiente é complexo demais, quando muitas variáveis influenciam o resultado, ou quando fatores imprevisíveis parecem vir do nada, com a força de sete furacões?

Kenneth Posner tenta responder algumas destas questões em Stalking the Black Swan: Research and Decision Making in a World of Extreme Volatility (Columbia University Press, 2010), um livro cujo título pega uma carona no best-seller de Nassim Taleb.

Da sua rotina de analista de um grande conglomerado financeiro, Posner certamente foi assombrado por vários Cisnes Negros – eventos com baixíssima probabilidade de acontecerem, mas com efeitos devastadores.

Sua experiência no assunto resulta em valiosas dicas para passar de presa a predador – ainda que, francamente, não acredito que se possa realmente caçar um Cisne Negro…

Livros de 2010 – parte I

Depois da Retrospectiva 2010, lembrando os textos que mais gostei de escrever neste ano, senti-me um pouco forçado a comentar sobre o que mais gostei de ler.

A leitora haverá de notar que, mesmo para os meus padrões, 2010 foi um ano atípico pela quantidade. Do lado de cá, no entanto, diria que foi ainda mais atípico pela qualidade. Como li coisas boas neste ano! Não foram raros os momentos em que terminava um livro com um sentimento de pesar, por virar a última de uma sequência de ótimas páginas.

Assim como na revisão dos textos, achei por bem dividir os livros em tópicos, mesmo que eu jamais tenha pensado em qualquer classificação enquanto os lia, tampouco no momento de comprá-los.

Como o texto vai ficar longo, recomendo que você dê uma passada de olhos e pare nos títulos ou assuntos que mais lhe interessem.

BIOGRAFIAS

6a00e554b11a2e88330147e118e087970b-150wi Depois de conhecer os perturbadores estudos de Stanley Milgram – onde ele avaliava o poder da autoridade sobre um indivíduo – busquei mais informações sobre a pessoa por trás do cientista (no bom sentido, claro). The Man Who Shocked The World: The Life and Legacy of Stanley Milgram (Basic Books, 2009) é um relato primoroso sobre o peso que representa escancarar ao mundo uma face do ser humano que ele próprio preferia não conhecer.

Mas Thomas Blass faz ainda mais e nos conta um pouco sobre vários outros trabalhos de Milgram, revelando um pesquisador inquieto, criativo e extremamente ousado para o seu tempo. Leitura fácil se você gosta de Psicologia.

6a00e554b11a2e88330147e1197547970b-150wiEndurance: Shackleton’s Incredible Voyage (Carroll & Graf, 1999) não é exatamente uma biografia, mas um relato sobre uma das mais incríveis aventuras de todos os tempos: os dois anos em que Sir Ernest Shackleton e seus 27 companheiros vagaram pela Antártida, no início do século passado, depois de uma fracassada tentativa de atravessar o contiente a pé.

A narrativa de Alfred Lansing foi escrita na década de 1950, a partir dos diários originais dos tripulantes, além de diversas entrevistas com os próprios e, por isso, serve como base para a maior parte do que se escreve sobre a viagem. Mais abaixo você ainda verá um pouco mais sobre este tema…

CIÊNCIAS

6a00e554b11a2e88330147e11900f1970b-150wi O primeiro livro desta categoria é a antítese de um livro sobre Ciências. Idiot America: How Stupidity Became a Virtue in the Land of the Free (Anchor, 2010) critica a forma como a disciplina é ensinada nas escolas e posteriormente tratada pela sociedade americana.

Os autores mostram como as políticas científicas de sucessivos governos foram capazes de aumentar ainda mais o abismo existente entre a comunidade acadêmica e o público leigo, marginalizando aqueles e condenando estes às eternas trevas da imbecilidade – situação com a qual parecem extremamente confortáveis.

6a00e554b11a2e88330148c72272a7970c-150wi Parece pouco promissor que alguém seja capaz de escrever algo sobre a inexatidão – e, menos ainda, que isso possa ser interessante. Pois Kees van Deemter consegue as duas coisas em Not Exactly: In Praise of Vagueness (Oxford University Press, 2010), um livro tão agradável quanto improvável.

Sua obra mostra o quanto conceitos tomados como finitos, concretos e absolutos são, em verdade, infinitos, abstratos e relativos. Sem apelar muito para fórmulas elaboradas ou explicações muito científicas – coisa que o livro anterior já deveria ter desencorajado – o autor desfia uma lógica extremamente elegante para expor a falta de precisão de nossas frases, argumentos e pensamentos.

A parte boa, segundo van Deemter, é que a maioria das imprecisões que propagamos são benignas e até necessárias pois sem ela, prossegue, não haveria muita alternativa para a comunicação.

6a00e554b11a2e88330148c7227fe9970c-150wi A leitora mais assídua já não aguenta mais me ouvir falar/ver escrever sobre The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains (WW Norton, 2010). Além de uma longa resenha sobre o livro (leia aqui), também publiquei uma entrevista com o autor, Nicholas Carr (veja aqui).

HISTÓRIA

Origin of Wealth: Evolution, Complexity, and the Radical Remaking of Economics (Harvard Business Press, 2007) foi sugerido pelo amigo Marcelo Pereira de Carvalho, com efusivas recomendações sobre sua qualidade.

6a00e554b11a2e88330147e11929f8970b-150wi Nenhum elogio era exagerado ou desmerecido, mas o início desta leitura foi adiado diversas vezes devido ao seu intimidador tamanho: quase 600 páginas bem recheadas – e que valem uma por uma.

Eric D. Beinhocker foge um pouco dos textos tradicionais da economia que buscam mostrar a forma como a riqueza é dividida. Para ele interessa, antes disso, a forma como ela é criada. Boa parte dos argumentos são emprestados da biologia e suas teorias evolutivas.

Ao mostrar a gênese da organização econômica através destas analogias, Beinhocker propõe um modelo extensivo, abrangente e, ao mesmo tempo, de fácil compreensão.

ILUSÕES COGNITIVAS

6a00e554b11a2e88330148c7229969970c-150wi Tanto Think Twice: Harnessing the Power of Counterintuition (Harvard Business School Press, 2009) quanto The Invisible Gorilla: And Other Ways Our Intuitions Deceive Us (Crown, 2010) são excelentes coleções de Ilusões Cognitivas muito bem explicadas.

O primeiro, escrito por Michael Mauboussin, é um pouco mais técnico e já mereceu, inclusive, uma resenha (leia aqui). Aliás, não escrevi ainda sobre o jogo de palavras da capa do livro. Você consegue percebê-lo?

6a00e554b11a2e88330148c722a23a970c-150wiThe invisible gorilla é a transposição para o papel de um estudo realizado por seus autores, Simons e Chabris, e que resultou numa espetacular ilusão, dando origem a diversas variações de pesquisas.

6a00e554b11a2e88330148c722d1f5970c-150wiThe Upside of Irrationality: The Unexpected Benefits of Defying Logic at Work and at Home (Harper, 2010) é o segundo ótimo livro de Dan Ariely, sobre o qual já escrevi uma série de três textos (veja o primeiro aqui) e, por isso, não vou me repetir.

O livro é bom – não tanto quanto Predictably Irrational por conta da novidade do tema – mas a escrita é mais pessoal e mostra um autor bem mais maduro.

Ariely escreve um pouco sobre alguns de seus dramas pessoais que motivaram a realização de pesquisas que respondem a perguntas aparentemente bizarras, como: Será que gente feia procura gente feia para casar? Por que umas pessoas aguentam mais a dor do que outras? É melhor sentir uma dor forte de uma vez ou uma dor fraca e mais prolongada?

PSICOLOGIA

6a00e554b11a2e88330148c722bc4b970c-150wi Demorei quase um ano para conseguir terminar de ler The Lucifer Effect: Understanding How Good People Turn Evil (Random House, 2008). Não porque o texto fosse ruim, o tema desinteressante ou o livro muito extenso (576 páginas embaralhadas com a menor letra distinguível a olho nu). Muito pelo contrário, talvez tenha sido o melhor do ano.

Tanto que antes mesmo de começar a ler The Lucifer Effect eu já havia escrito dois textos sobre o tema, dentro da série Experimentos em Psicologia.

Mas o tema é pesado, algumas passagens são extremamente deprimentes e a todo o tempo você compartilha das desanimadoras conclusões de Philip Zimbardo sobre a natureza humana, mostrando por que mesmo pessoas boas são capazes de atos de abominável maldade.

6a00e554b11a2e88330148c722c6f0970c-150wi A parte boa é que Zimbardo tem uma mensagem de otimismo muito positiva, ao descrever o que ele acredita ser o antídoto para o Efeito Lúcifer: a Imaginação Heróica.

O interessante é que recentemente fui consultado pela revista Amanhã (uma publicação do Sul especializada em negócios) , numa matéria sobre o Efeito Lúcifer nos escritórios.

Na qualidade de especialista sobre o tema e a obra de Zimbardo (sim, eu…!) ajudei a elaborar o texto que acabou sendo a capa da edição de Outubro de 2010, como você pode ver ao lado.

Bom, não teve jeito, vou precisar deixar os demais livros para outro texto. Minha leitura não terminou aqui. Veja aqui a outra metade…

Para o pessoal que está pedindo, apenas dois destes livros foram lançados aqui: A incrível viagem de Shackleton e Positivamente Irracional (The upside of irrationality).