Ode ao Passaralho

Muitos dos meus textos mais recentes tiveram a Imprensa como tema secundário, ou mesmo central. E como, atualmente, a Imprensa tem tido grande destaque na Imprensa, voltemos a ele, pois.

Para quem ainda não está familiarizado com o termo do título (refiro-me, lógico, ao Passaralho, porque se você não sabe o que é Ode, está no blog errado), trata-se do nome popular da espécie caralhus fudencius, do gênero desempregus iminentis, da família negocius falidus, da ordem non-innovatus, da classe novus economicae, do filo globalizatium, do reino communicatus.

Como ave de rapina que é, há tempos o Passaralho vem ceifando empregos mundo afora. Se ora ele volta seu instinto predatório às redações de jornais e outros veículos de imprensa com especial voracidade, é preciso entender o porquê de este habitat ter-se tornado o paraíso gastronômico desta insaciável criatura.

Em 2007, quando li The Black Swan – no qual o Nassim Taleb revela ter parado de ler jornais, pelo simples fato de que eles não lhe acrescentavam nada – comecei a perceber que o autor tinha razão. O tempo investido em periódicos poderia ser utilizado em atividades mais produtivas, como dormir por exemplo.

De lá para cá – e estamos falando em um curto período de seis anos – o cenário piorou bastante, mas somente para quem ainda cultiva o hábito de ler jornais. Para estas pessoas, o que antes era conhecido como notícia agora resume-se a escândalos com pseudopersonalidades e peladeiros, bizarrices cotidianas, vulgaridades aleatórias, violência gratuita e impune, além de outros tipos de variações escatológicas de comportamento, tão grotescas quanto inúteis.

E se no passado tal categoria ficava restrita a tablóides sensacionalistas e veículos com pouca credibilidade, hoje ela representa o establishment. Abra um jornal centenário e você lerá um resumo da novela das oito, digo, das nove. Visite um grande portal de internet e você saberá o que um Brother da edição de cinco anos atrás almoçou anteontem. Assista um telejornal no horário nobre e você descubrirá o que inspirou o funk safadinho que está bombando nas redes sociais. Este é o retrato da Imprensa atual.

O obsoleto tratamento de Laranja Mecânica: ninguém mais precisa ser obrigado a consumir lixo
O obsoleto tratamento de Laranja Mecânica: ninguém mais precisa ser obrigado a consumir lixo

Mas a vertiginosa queda na qualidade da Imprensa foi uma consequência da falência do seu modelo de distribuição – e não a sua causa.

Incapazes de lidar com a concorrência da Internet e da distribuição gratuita de conteúdo, a mídia impressa sucumbiu ao seu poder e, incapaz de encontrar uma alternativa econômica viável, aderiu a um formato para o qual não estava preparada – e não está até hoje.

O resultado disto foi a juniorização das redações, onde crianças escrevem para crianças e as fotos e letras são cada vez maiores, em detrimento do conteúdo cada vez mais pobre e insosso. Fosse hoje, a queda do muro de Berlim seria noticiada com uma grande foto e três parágrafos, dois dos quais comentando a roupa da Angelina Jolie, madrinha do evento.

Enquanto os paladinos anonimistas celebram a distribuição gratuita dos conteúdos dos mais importantes jornais do mundo, os Diretores Financeiros destes conglomerados se contorcem para fechar as contas. Eles sabem que não existe almoço grátis.

Eles sabem que a vertiginosa queda nas receitas de assinaturas deverão ser compensadas por incessantes revoadas de Passaralhos. E eles também sabem que, em breve, os anonimistas não terão mais nada para ler, a não ser fofoquinhas imbecis escritas por meninos imberbes. Os mesmos que amanhã serão petiscos de Passaralhos. Muito sem gosto, aliás.

Dito assim, parece que os jornalistas são vítimas da inadequação de um negócio à nova ordem econômica, que já quebrou muitas indústrias adormecidas, mas que só agora derrama sua praga sobre a Imprensa.

Mas não é bem assim. Eles deixaram que isso acontecesse. Foram espectadores passivos de sua própria desgraça. Contribuíram decisivamente para construir este cenário de dor e ranger de dentes, ao se acovardar diante de uma realidade na qual valiam menos do que as cadeiras nas quais sentavam suas bundas.

Em cada notinha sobre Chico Buarque atravessando a rua no Leblon, em cada matéria sobre um idiota que bateu o recorde de engolir calangos vivos, em cada debate idiota sobre a psicologia do sujeito que estuprou a própria mãe os jornalistas se tornavam cada vez menos jornalistas.

De pauta em pauta, ergueram masmorras e calabouços nos quais se contorcem hoje. Tal qual o sapo colocado em uma panela com água, que morre porque não percebe que a temperatura vai subindo aos poucos, os jornalistas foram incapazes de perceber as mudanças graduais do seu ambiente. Ou perceberam, mas continuaram acomodados.

Deixaram que sua profissão fosse transformada em entretenimento barato – tanto no sentido de preço baixo quanto no de mediocridade. E ambas as interpretações voltam, agora, a assombrar-lhes, pois são pagos miseravelmente e tratados com indisfarçado desprezo.

Esperemos, então, que esta revoada de Passaralhos cumpra o seu papel evolutivo na seleção natural. Que seu apetite promova as mudanças necessárias e lembre, de forma contundente, que o jornalismo tem uma função muito mais nobre na sociedade. E que sua sombra seja o aviso sempre presente de que é preciso ser fiel àquilo em que se acredita. Que todos devem honrar a profissão que escolheram. Que o jornalismo deve ser algo parecido com a cena abaixo:

(Este é o mais brilhante momento – dentre tantos outros memoráveis – da série The Newsroom, cuja segunda temporada está por começar. Recomendo!)

Muita gente diz por aí que a Imprensa está morrendo. Eu discordo. Ela já morreu faz tempo. Falta só enterrar. E, enquanto isso, o corpo fica fedendo por aí.

O desserviço da imprensa

Mais de uma vez, ao revisar textos, atitudes ou crenças, senti uma firme convicção de que eu era um irremediável pessimista. Consigo, inclusive, imaginar a leitora acenando com a cabeça, concordando.

Ao terminar de ler The Optimism Bias: A Tour of the Irrationally Positive Brain (Pantheon, 2012), de Tali Sharot, surpreendi-me ao reclassificar-me como um otimista nato. Embora isto pareça incoerente com as opiniões aqui publicadas, há uma explicação bastante simples para tal constatação: sou uma pessoa que acredita firmemente na bondade humana.

Minha crença tem pouco a ver, no entanto, com pirações new age, inclinações religiosas, ou isoladas manifestações de amor ao próximo. Como em outras áreas da minha vida, baseio meus instintos na Ciência. Diversos estudos já sugeriram que o homem é um ser gregário, amoroso, empático, caridoso. Aqueles que se desviam deste tipo de conduta representam, portanto, a exceção, não a regra.

Um forte indício em favor desta observação está no excepcional documentário Sex, Death and The Meaning of Life, de Richard Dawkins. No primeiro dos três episódios (assista abaixo, no YouTube), Dawkins entrevista o psicólogo canadense Steven Pinker, autor do provocante The Better Angels of Our Nature: Why Violence Has Declined.

Professor de Psicologia em Harvard, Pinker baseia seu livro em estatísticas oficiais sobre crimes e sua conclusão é a de que os índices de violência vêm caindo sistematicamente no mundo inteiro. Nos últimos 40 anos, por exemplo, os estupros diminuíram 80% nos EUA.

Mas por que será que, de uma forma geral, nossa impressão é a de que a maldade vem, ao contrário, aumentando? A resposta está no que os próprios psicólogos costumam chamar de viés de disponibilidade: tendemos a acreditar que o que lembramos mais facilmente é, de fato, o que mais acontece.

Em outras palavras, quando algo é extensamente publicado, noticiado – e, por isso, não sai da nossa cabeça – somos levados a acreditar que aquilo é muito mais frequente do que realmente é.

Na prática, é isto o que acontece quando você assiste um programa do Datena, no qual ele passa três horas falando de crianças molestadas, idosos espancados e assassinos ensandecidos. Você imediatamente imagina que o mundo está acabando. Mas a verdade, felizmente, está bem longe disto.

Boa parte da mídia, no entanto, é ocupada por este tipo de programação, ou dá destaque exagerado a estes eventos. Por causa do viés de disponibilidade todos ficamos, então, com a sensação de que o mundo é habitado por criaturas terríveis. E todos passamos, assim, a tratar os outros como criaturas terríveis.

Mas por que este tipo de programa policial pseudo-jornalistico proliferou na última década, especialmente nas TVs abertas? Porque isso dá audiência e vende jornal. Porque o público gosta. Porque o público quer ver sangue. Porque o público é sádico.

A verdade é que o mundo está melhorando. Nunca foi tão bom. Nunca tivemos coisas tão sensacionais. Nunca houve tanta tolerância, aceitação e respeito – o que não significa que não exista, ainda, um longo caminho a percorrer. E mesmo assim insistimos em achar tudo uma porcaria.

Claro que há lugares onde realmente (quase) tudo é uma porcaria. Nossa política é um antro de corrupção. A violência no Brasil ainda é uma aberração – e honestamente eu não saberia dizer para onde apontam as tendências.

Mas acredito sinceramente que são pontos fora da curva dentro de um cenário mais amplo. E nenhuma destas exceções deveria fazer com que acreditássemos no destino sombrio que a imprensa nos sugere diariamente.

Pense nisso na próxima vez em que assistir a um noticiário. Por que a imprensa fala tanto de violência? Por que as pessoas assistem tanto estes programas? Por que eu assisto?

Traído pela ambição

Acompanho com tristeza os recentes desdobramentos da meteórica carreira do escritor americano Jonah Lehrer. Os eventos da última semana puseram em xeque o talento do jovem autor que, aos 31 anos, já tinha três livros lançados com enorme sucesso e despontava para uma promissora carreira.

Formado em Neurociências pela Universidade de Columbia e com Doutorado em Literatura e Psicologia em Oxford, Lehrer tem inegável talento para traduzir Ciências para o público leigo, mostrando no dia-a-dia as implicações do que se pesquisa na Academia.

Além dos livros, Lehrer era editor-assistente da Wired, até ser contratado pela The New Yorker para seu staff de articulistas. Foi quando tudo começou a azedar.

Jonah Lehrer em São Paulo - junho de 2012 (FOTO: minha mesmo)
Jonah Lehrer em São Paulo – junho de 2012 (FOTO: minha mesmo)

Conheci Lehrer em junho, quando da sua vinda a São Paulo para um evento de educação corporativa no qual promoveria, também, seu mais recente livro, Imagine: How Creativity Works, resenhado como Livro do Mês no blog da PharmaCoaching.

Simpático e articulado em conversa informal, Lehrer surpreendeu-me pela sua postura em palco, ao dar sua palestra: apático, parecia ler um texto pronto, demonstrando pouca empatia com o público. Apesar de ter-se mostrado cordial e inclusive deixado uma entrevista agendada para o mês seguinte, quando da minha ida a Los Angeles, onde reside, algo parecia errado.

Minhas suspeitas se confirmaram dias depois, quando encontrei Daniel Pink em Phoenix. Comentei o encontro e minhas impressões com Pink, que disse que, de fato, havia algo errado ali. Mas, elegante, ele não disse o quê.

Numa rápida googlada encontrei o possível motivo de seu comportamento errático: Lehrer estava sendo acusado de auto-plágio, caracterizado pela reutilização de material próprio, previamente publicado, sem referência ao original. O autor requentara alguns textos antigos na The New Yorker. Uma falha grave, mas pequena em comparação com o que viria a seguir.

Em Imagine, um profundo estudo sobre as origens da criatividade e como ela funciona, Lehrer usa Bob Dylan como exemplo para alguns dos conceitos que explora no livro. Mas Michael C. Moynihan, jornalista do Tablet e fã ardoroso do ídolo pop americano, encontrou inconsistências nas referências a Dylan e começou a questionar Lehrer.

Profundo conhecedor da biografia do autor de Like a Rolling Stone, Moynihan pressionou o autor de Imagine, até que ele confessou: algumas frases e contextos haviam sido fabricados. Lehrer citou frases que Dylan nunca pronunciou e distorceu alguns fatos para embasar suas teorias.

A farsa manchou de vez a reputação de Lehrer, expondo um comportamento reprovável para um autor de sua projeção. Enquanto via-se forçado a pedir demissão da The New Yorker, sua editora, a  Houghton Mifflin Harcourt, iniciava um recall do recém-lançado Imagine. De fato, o livro já não é mais encontrado na Amazon, nem na Barnes & Noble.

Mas o que leva um autor em franca ascensão a tal comportamento que, no fim das contas, pode custar-lhe a carreira? Uns dizem que o compromisso assumido com a The New Yorker seria o início de uma pressão para a qual ele talvez não estivesse preparado, sendo obrigado a publicar frequentemente, num tema extremamente complexo e original.

Outra vertente sustenta que Lehrer foi traído pela própria ambição, ao despontar muito cedo numa carreira que exige constante inovação – curiosamente, o tema de sua derradeira obra.

Qualquer que seja a razão, fica o alerta não só para os autores iniciantes sobre os limites do próprio talento, algo que muitos teimam em não reconhecer. Escrever já não é nada fácil, especialmente quando você entra numa lista de best sellers da qual não quer mais sair, ou precisa reinventar-se o tempo todo. E o mesmo vale para a textos acadêmicos.

Do outro lado, cabe aos editores o cuidado de equilibrar o que o público quer com o que sua equipe pode oferecer. Quantidade e qualidade raramente andam de mãos dadas no mercado editorial. A relação com o staff de escritores deve ser pautada pela confiança, mas resguardada pela pesquisa e investigação criteriosa dos materiais submetidos.

Fico triste com o ocorrido, porque além de gostar de Imagine e de How we decide?, sua obra anterior, Lehrer certamente tem talento para produzir livros de alto nível, sem precisar apelar a artifícios tão grosseiros quanto infantis. Porque, a bem da verdade, Imagine tem seus méritos e poderia passar sem Bob Dylan, por assim dizer.

Torço para que Lehrer aprenda as lições do erro cometido e consiga dar a volta por cima, com mais maturidade e menos ansiedade.

Sobre referências e mentiras

Muitas vezes usamos certas palavras para fazer classificações subjetivas, comparando determinado objeto com padrões e gostos pessoais. Quando digo que fulana é bonita ou beltrano é alto, refiro-me aos meus padrões particulares de beleza e altura, respectivamente. Padrões estes que, em maior ou menor grau, sofrem influência do senso comum.

Estas classificações podem fazer alusão, também, a determinadas referências. Se eu digo, por exemplo, que fulana é mais bonita do que a Susan Boyle ou que beltrano é mais alto do que o Nelson Ned, nada de muito relevante foi dito.

Um pequeno gigante ou um enorme anão?
Um pequeno gigante ou um enorme anão?

Se você não souber que padrões eu estou utilizando, minhas comparações não servirão de muita coisa. De modo semelhante, se meus padrões forem muito baixos (ou muito altos), em relação àquilo que estou classificando, minha informação poderá ser igualmente irrelevante.

Esta breve introdução serve como base para explicar uma das maiores farsas do atual governo, cujas desastrosas consequências estão logo ali na esquina – e você só não está vendo porque tem se sentido seguro e confortável com os noticiários. Pois eu vou lhe dar uma péssima notícia.

Quase tudo o que temos lido nos jornais sobre a economia do país apoia-se sobre o espantoso crescimento da classe média brasileira.

Que ela é o maior sintoma da recuperação do país, que é reflexo de uma política econômica voltada aos menos favorecidos e que o seu consumo não deixará que o país embarque na crise mundial.

Os jornais só falam disso. Cada dia dão conta de mais empresas e mais investimentos indo atrás deste enorme contingente de consumidores e seu estrondoso potencial de compra. De TVs de LED a celulares último tipo, notebooks e tablets, toda sorte de quinquilharias começa a equipar as casas das Classes C, D e E.

Tudo parece lindo. Só que não.

No excelente Not Exactly: In Praise of Vagueness, (Oxford University Press, New York, 2010), Kees van Deemter explica que “quando eu digo que X é grande, estou dizendo que X está acima do meu limite de grande. Se você sabe algo sobre o meu limite, isso dirá algo sobre X; mas se você sabe algo sobre X, então isso dirá algo sobre o meu limite”1.

Um exemplo idiota seria dizer que eu acho que todo mundo acima de 99 centímetros é alto. Isto provavelmente classificaria mais de 95% da população adulta como alto – embora este não fosse o caso, definitivamente. Ninguém precisaria se espantar com isso, no entanto, porque a minha definição seria algo pessoal que, logicamente, não mudaria a opinião de ninguém.

Mas e se eu fosse um legislador com o poder de dizer, arbitrariamente, que medida deveria ser considerada como limite para que uma pessoa tivesse o status de alta? E que isso, de alguma forma, tivesse algum impacto em uma política pública?

Pois o que o governo fez com a definição de classe média é exatamente a mesma coisa. Na semana passada, a Secretaria de Assuntos Estratégicos redefiniu os parâmetros para classificar a classe média.

- EU SOU RYCAAAAAA!!!
– EU SOU RYCAAAAAA!!!

Antes de prosseguir aviso-lhe, desde já, que se você não for um catador de papel, então você está na mesma classe social do Eike Batista. E, provavelmente, do seu porteiro.

No fantástico2 Porque conceituar a classe média (sic), a SAE estipula que pertence à classe média quem tiver renda entre R$ 291,00 e R$ 1.019,00. Para que você não ache que eu me enganei nos números, escreverei por extenso: entre Duzentos e Noventa e Um Reais e Um Mil e Dezenove Reais.

Isto engloba 54% da população brasileira. Isto engloba o mendigo que pede esmola no sinal na esquina da minha rua, porque se ele ganhar R$ 10,00 por dia, pode ter uma folga no mês e ainda será classe média.

É esta classe média – leia-se: de mendigos – que sustentará a pujante economia deste país durante uma grave recessão mundial? É esta classe média que deve encher-nos de orgulho por ter uma sociedade (teoricamente) mais justa? Estes valores indicam melhor distribuição de renda?

Claro que não. Mas com estes valores o governo diz que seus resultados são espetaculares. Com estes números o governo diz que nunca antes na história deste país a classe média cresceu tanto. Com estes valores, este governo vai se reeleger.

Porque para este governo, até a mentira é uma questão de referência.

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1. (…) by saying that X is large, I am saying that X is above my threshold for largeness: X > threshold. If you knew my threshold, this tells you something about X, but if you knew X, then it tells you something about my threshold – p 123.

2. Fantástico no sentido de ser algo criado pela imaginação, não por ser extraordinário.