Ser rico para quê?

Ser rico para quêHá um novo título na praça (Capital in the Twenty-First Century, de Thomas Piketty) dizendo que a desigualdade vem aumentando no mundo, blá, blá, blá… comunismo, blá, blá, blá… Cuba, blá, blá… e que, por isso mesmo, já se tornou o livro de cabeceira dos esquerdistas, embora eles também não tenham lido.

Em primeiro lugar, a própria discussão em si não tem sentido nenhum. Desigualdade é uma medida relativa, não absoluta. Isso quer dizer que a pessoa mais pobre de um país pode ter renda mensal de US$ 10.000 e ainda assim haver desigualdade, porque há gente que ganha trilhões de vezes mais.

É preciso cuidar do extremo inferior (pobreza). Estando ele OK, por quê olhar para o outro? Aliás, não entendo o porquê desta gritaria em torno do livro aqui no Brasil, exatamente vinda das pessoas que dizem ter acabado com a pobreza no Brasil. Isto parece-me um tanto incoerente e contraditório, especialmente para quem bate no peito e apropria-se do fato de ter eliminado a miséria (contribuição do Leandro Vieira).

Em segundo lugar – e este é o tema central aqui – o livro é tomado como mais uma arma na caça aos ricos, estes usurpadores da dignidade, feitores dos assalariados, responsáveis por todo mal, amém.

Uma das soluções apontadas – como sempre – é taxar mais os ricos. Fui ler uma crítica do livro feita por ninguém menos que Nassim Nicholas Taleb (ver nota 156) e vi um argumento altamente coerente:

– Se taxarmos os ricos indefinidamente para reduzir as desigualdades, quem vai querer ser rico?

Imagine que alguém chegue para o Mark Zukerberg e diga: “Olha, Mark, vamos taxar (tomar) 50% do seu dinheiro”. E que ele responda: “Então foda-se, vou fechar o Facebook porque eu não quero mais brincar”. Onde é que você vai reclamar da vida? Você ainda pode retrucar: “Ah, mas o Bill Gates doou toda a sua fortuna para a caridade”.

Sim, certo. Mas há uma diferença fundamental entre doar algo e ver aquilo que é seu ser tomado, de uma hora para outra. Com políticas assim, não haverá zukerbergs de quem tomar o dinheiro, muito menos gates para doar dinheiro – porque para doar muito dinheiro, primeiro é preciso ganhar muito dinheiro. E, mais do que nunca, os pobres continuarão pobres. Aliás, todo mundo continuará pobre. É esta igualdade que você quer? Pois é essa que você terá. Cuba está aí para comprovar.

Nas palavras do próprio Taleb: “Eu consigo me dar bem na vida. Estou pagando mais impostos. Como pode haver progresso se aqueles fazendo a coisa certa precisam financiar os que fazem errado? Se você ganhou dinheiro em 2009 – o que significa que você tinha um negócio robusto – você está pagando mais taxas. Se perdeu dinheiro em 2009, você consegue isenção. É o oposto de tudo em que acredito”.1

O problema desta cruzada maniqueísta contra a riqueza é que ela combate a única solução contra a pobreza: os investimentos (leia-se: dinheiro). Ao taxar a riqueza, tira-se um dos incentivos à criatividade e à inovação. Quem vai querer arriscar-se a criar algo novo se, depois, tudo o que conseguir ser-lhe-á tirado sob a forma de impostos?

Foi exatamente por isso que os regimes comunistas quebraram: pela simples falta de incentivo para fazer algo melhor do que simplesmente bater cartão, em sociedades com pouquíssimas desigualdades (claro, se você desconsiderar os burocratas milionários que comandavam tais regimes, porque deles não se ouvia falar, graças à censura).

Por fim, o tal livro de Piketty recebeu uma outra saraivada de críticas, desta vez técnicas, com relação a seu conteúdo. Segundo o Financial Times, Capital in the Twenty-First Century “contém uma série de erros que distorcem suas conclusões“.

Em uma das passagens do livro, por exemplo, Piketty diz que 10% dos britânicos acumulam 71% da riqueza do país, ao passo que os dados oficiais apontam para 44%.2 Não é um erro pequeno!

Por muito menos, Jonah Lehrer teve seu livro Imagine recolhido das livrarias e hoje ele amarga o ostracismo causado por sua desonestidade intelectual. Mas hoje acompanhamos a celeuma causada por outra obra recheada de meias-verdades e dados fabricados, levada como verdade absoluta em uma discussão quase sempre acompanhada por paixões e inclinações políticas – ou inclinações e paixões políticas.

Pelo lado positivo, temos o surgimento de discussões valiosas e produtivas, desde que se tome o cuidado de investigar o que há de verdade por trás de afirmações tão sérias.

____________________

1. I happen to do OK. I am paying more taxes,” Taleb said. “How can you have evolution if those who do the right thing have to finance those who did the wrong thing? If you are making money in 2009 – that means you have a robust business in the cycle – you are paying more taxes. If you are losing money in 2009 you get a bigger tax break. It is the opposite of everything I believe in. Leia aqui a íntegra da matéria.

2. Professor Piketty cited a figure showing the top 10 per cent of British people held 71 per cent of total national wealth. The Office for National Statistics latest Wealth and Assets Survey put the figure at only 44 per cent. Esta e outras análises mais detalhadas sobre os erros de cálculo e conceito do livro podem ser vistas aqui.

 

Eu torço por mim

Estou vendo um monte de gente dizendo que vai torcer na Copa, porque a seleção não tem nada a ver com os problemas do país. Se a seleção não tem nada a ver com os problemas do país, então o que ela tem a ver com você? Se esta seleção não te representa, qual o sentido dessa paixão, desse amor?

Eu torço por mimVamos recapitular uma coisinha que disse tempos atrás: a seleção brasileira é uma empresa. Você está torcendo por uma empresa que, por acaso, veste uma camisa amarela, às vezes azul. É como se você estivesse indo ao estádio torcer pela Coca-Cola ou pela Petrobrás. É uma empresa que há pouco você mesmo pedia a prisão do seu presidente, por corrupção. Ele, aliás, continua morrendo de rir daquilo.

Eu também torci em 1982, 1986, 1990… Mas o tempo passou e não sou mais aquela criança que achava Spectreman o máximo. Também já achei que o Carnaval era a coisa mais divertida do mundo e que beber todo dia na faculdade era o paraíso. Não é porque fiz uma vez e achei divertido que vou me sentir na obrigação de repetir o tempo todo. Isso não é motivo, é desculpa. E quando você pede desculpas antecipadas por algo que vai fazer, caceta, dá tempo de mudar.

“Espírito de Copa”. Sério, o que é isso? De verdade, pensa de onde vem isso, se não da TV! A TV que você diz odiar. “Todo mundo se abraçando nas ruas, comemorando juntos”. Sério, o que é isso? Você realmente acha o máximo fazer isso uma vez na vida e depois voltar a olhar para os estranhos como leprosos? Só porque você abraça um estranho na rua, já se acha a melhor pessoa do mundo?

E o seu trabalho? Você vive dizendo que é ocupadíssimo, que não tem tempo para nada, que não pode passar algumas horas a mais com seus filhos. Que não consegue tirar férias. Que não tem como fazer uma pós-graduação nem estudar Inglês. Mas vai deixar tudo de lado para ver o futebol. Vai assistir Bósnia X Irã. OK, cada um sabe das suas prioridades.

Eu torço por mim. Vou aproveitar este mês de hipnose nacional para alavancar os meus negócios, adiantar meus projetos. Vou trabalhar duro enquanto todos vivem essa fantasia e falam do mesmíssimo assunto aborrecido, o dia todo. E no dia 13 de julho, quando isso acabar, vá no caixa eletrônico ou acesse sua conta pelo home banking, tire um extrato e responda: independentemente do campeão, o que mudou na sua vida?

____________________

ADENDO: Outra pachecada típica é aquela assim: “Vamos tratar bem os torcedores que estão vindo para a Copa”. Se você é o Príncipe Não-Sei-O-Quê de Orleans e Bragança, você tem certa legitimidade, embora esteja defasado. Mas se você é um reles mortal, como eu, que tipo de pedido é esse, insinuando que somos um bando de selvagens e tratamos mal as pessoas? E porque a preocupação a respeito do tratamento só com o turista e só em tempo de Copa do Mundo? Isso é muito vira-lata!

Outra: “Vamos mostrar ao mundo que somos capazes de fazer isso e aquilo”. Pra quê? Sério, pra quê? Vamos ganhar uma plaquinha, ou algo assim? Temos que mostrar a nós mesmos que somos capazes de fazer o básico, porque somos bem ruins nisso. Isso é muito vira-lata!

Quero meus 4 porcento!

Outro dia conversei com um especialista em tributação e ele me contou algo digno de nota: se a alíquota de impostos fosse uniforme, igual para todo mundo, todos nós pagaríamos menos impostos. Isso você já deve ter ouvido falar, certo? Mas o que você provavelmente não sabe é quanto seria essa alíquota.

Quero meus 4 porcentoEstá sentado? Pois ela seria de 4%. Isso mesmo: 4%. Em extenso, para não haver dúvidas: quatro porcento.

A explicação é muito simples e lógica, desde que não seja você o responsável pela criação das políticas, porque aí você deve ser bem burrinho e isso vai passar longe da sua capacidade.

Arrecadação de impostos é um jogo de soma-zero que, segundo a Teoria dos Jogos, é quando para um lado ganhar algo, o outro lado tem que perder este mesmo algo. O governo não faz como uma empresa normal que, ao deparar-se com uma despesa inesperada, corta seus custos em outra área para compensar. (Na verdade ele faz até o contrário: quanto mais aumenta o déficit, mais ele contrata gente para aparelhar o Estado.) O que ele faz ao diminuir ou eliminar uma alíquota é aumentar outra, para compensar a perda.

Assim, quando alguns medicamentos têm seus impostos zerados, esta conta vai para outras categorias de produtos, como combustíveis, por exemlpo. O efeito prático disso é que alguém tem que transportar a matéria prima dos medicamentos, alguém tem que levar os trabalhadores até a fábrica de medicamentos, alguém tem que levar os medicamentos até os distribuidores, alguém tem que levar os medicamentos até as farmácias. E este alguém usa combustível, cujos impostos foram aumentados para compensar a isenção dos medicamentos. Percebe que o preço final é o mesmo, se não maior?

– Mas se é um jogo de soma zero, Rodolfo, então não faz diferença, dirão os mais atentos.

Claro que faz. Em primeiro lugar porque se a cadeia produtiva do setor em questão fizer uso intensivo do produto cuja alíquota a está subsidiando, então o preço sobe. Em segundo lugar porque a zona que se criou com a incompreensível legislação tributária brasileira precisa de uma absurda máquina administrativa para operar, cujo custo é altíssimo. Com uma alíquota única o trabalho seria infinitamente mais simples e, consequentemente, mais barato.

Fora isso, uma alíquota única e universal impediria a guerra fiscal entre os Estados que, além de ilegal, prejudica todo mundo.

Mas então por que existem isenções de impostos? Por que essas medidas são tomadas, se no fim todo mundo sai perdendo?

Isenções de impostos são medidas populistas que parecem ajudar no curto prazo, mas que mandam a conta depois. E é claro que não é todo mundo que sai perdendo. O Governo ganha porque o povo acha que está levando alguma vantagem – e este é o principal objetivo de vida do brasileiro.

Então ele fica feliz de comprar alface sem imposto, mas paga 40% de impostos em um carro. Uma diferença que daria para abastecer sua casa de alface por cinco gerações.

O bonzinho e o bundão

Em recente entrevista, durante a inauguração de um estádio em Natal, a presidente Dilma reforçou seu discurso ufanista tecendo maravilhas sobre o campeonato de futebol que nosso país talvez sedie em junho. Como de praxe, suas palavras pediram o apoio público ao evento e, por extensão, às obras realizadas para tal:

“É como dizia Nelson Rodrigues: não é possível apostar no pior. O governador [do Paraná, Beto Richa], o prefeito [de Curitiba, Gustavo Fruet] e o empresário [CAP/SA] vão fazer estádio no prazo. O Brasil tem que apostar a seu favor, não contra”

O bonzinho e o bundãoCitando o canteiro de obras do Paraná, Dilma apela às pessoas que ela diz torcer para tudo dar errado na Copa. Que o dever do brasileiro é torcer pelo Brasil.

Aqui eu me incluo fora dessa.

Eu quero, SIM, que dê tudo errado nesta Copa, por um simples motivo: quando as coisas dão certo no final, todo mundo acha que tudo foi feito de maneira correta desde o início.

Este é um erro grave. Um bom resultado não significa, necessariamente, que boas decisões foram tomadas.

Mas ninguém fica revendo as decisões tomadas depois de um bom resultado. E, ainda pior, elas tendem a se repetir. Decisões só costumam ser revistas quando algo dá errado de verdade. E enquanto nós, brasileiros, continuarmos a achar que nosso país está dando certo, nada faremos para mudá-lo.

Antes que digam que este é um discurso anti-PT, adianto que estou me referindo a “país que dá certo” em um sentido muito mais amplo do que o vosso complexo de perseguição alcança.

Não me refiro apenas aos problemas de corrupção (que ocorrem, sabemos, independentemente da sigla), mas a mazelas muito mais profundas da nossa sociedade. Além da corrupção, temos a violência, o altíssimo custo de vida, os impostos e aquela lista a que, infelizmente, já nos acostumamos.

O “infelizmente” acima, no entanto, refere-se ao “nos acostumamos”, não aos problemas. Porque o brasileiro é, antes de tudo, um povo acostumado a se foder. Acostumado a sofrer violências. Acostumado a pagar caro por tudo. Acostumado a não fazer nada. Acostumado a ser passivo, fraco, bonzinho, bundão. Acostumado a achar que é feio torcer contra.

Enquanto o povo continuar assim, nada muda. Enquanto acharmos que é erradinho torcer contra, vamos continuar a sofrer violências, pagar caro e só ficar olhando. Enquanto acharmos que as coisas dão certo por fora, não saberemos o que deu errado por dentro.

Como em vezes anteriores, este texto ficou com ares um tanto pessimistas. Mas ainda vai piorar.

Eu acho que o país tem jeito sim. Acho que as coisas aqui podem mudar. Mas as mudanças não virão de pessoas comuns, como eu e você, que um belo dia acordarão e irão para as ruas mudar o país. Aquelas manifestações patéticas do ano passado deixaram isto bem claro. As mudanças também não virão de movimentos organizados e líderes políticos.

Infelizmente, mais uma vez, as mudanças de que este país precisam só virão quando ocorrer uma grande, enorme tragédia.

Não falo em tragédias como perder a final da Copa do Mundo em pleno Maracanã (se você pensou isso, está perdendo a transmissão do BBB e eu não quero te atrapalhar). Também não me refiro ao estouro de uma possível bolha imobiliária, ou outro tipo de crise financeira. Nem de vinte centavos. (Aliás, no fim das contas, era isso mesmo, né?) Como disse antes, esse tipo de coisa não abala o brasileiro, este ser tão acostumado a se foder.

Lamentavelmente precisaremos de algo grave, muito grave. Algo que jamais tivemos. Muitas pessoas só se transformam após traumas aparentemente irrecuperáveis. Assim parece acontecer com povos, também. Os exemplos estão aí, para quem quiser ver. E para quem não quiser também.