Atocha a tocha

Estou quase arrependido das coisas que tenho falado sobre o acelerador de partículas… Minha bronca maior é com relação ao astronômico custo do projeto e seu tempo de execução, frente àquilo que os estudos ali gerados poderão acrescentar à humanidade. Isso acabou depois que eu vi nos jornais de hoje o parecer inicial do TCU sobre o Pan 2007.

6a00e554b11a2e8833014e8644f638970d-300wiQuando li o que estava nos periódicos achei que estava vendo coisas, sonhando. Pelos fatos em si e pela postura dos jornais. Resolvi buscar na fonte e acessei o site do TCU. A notícia está em destaque na Home Page, sob o inócuo título “Pan 2007: TCU faz determinações ao Ministério do Esporte”.

Curioso, pensei. Vamos ler o documento. Nele, o relator ministro Marcos Vilaça reclama da morosidade do Ministério do Esporte em averiguar o cumprimento dos contratos de reforma do Estádio do Maracanã, Parque Aquático Maria Lenk, do Velódromo e a infra-estrutura da Vila do Pan.

Ora, levaram uns quatro anos para misturar o primeiro saco de cimento e agora vocês querem que expliquem tudo rapidinho? Mais adiante o ministro comenta, também, da “incapacidade dos agentes envolvidos de prever, antecipadamente e de forma realista, os dispêndios necessários à realização de empreendimento desta vanguarda, em face da extraordinária evolução dos gastos da União, que saltaram de pouco mais de R$ 95 milhões para R$ 1,8 bilhão.”

Pausa para respirar. Como é que é? Os custos foram estimados em pouco mais de R$ 95 milhões e fecharam em R$ 1,8 bilhão?? Quase VINTE VEZES MAIS?!?!?! Isso não é um salto qualquer… (Não esqueça que o TCU analisa apenas despesas do Governo Federal. O custo total do evento foi de R$ 3,3 bilhões!)

6a00e554b11a2e8833014e8644fa5c970d-320wi Vamos a algumas pérolas do relatório:

Na construção do Complexo Desportivo de Deodoro, que consumiu R$ 120 milhões, foram apontadas algumas irregularidades: “Inadequação do Projeto Básico, Não-Parcelamento do Objeto, Subcontratação Irregular, Excesso de Alterações Contratuais, Deficiência na Fiscalização do Contrato, Atos de Gestão Antieconômicos e Indícios de Superfaturamento”.

O que foi feito direito? Isso porque, em 2004, o custo havia sido estimado em R$ 36 milhões. Em maio de 2006 ela foi contratada por R$ 77 milhões (mais que o dobro, em dois anos) e, por conta de aditivos contratuais, saiu por R$ 120 milhões. Quase quatro vezes o que foi inicialmente imaginado. Fora isso, tudo bem.

O sistema de credenciamento e acesso às instalações foi orçado em R$ 55 mil. Algumas alterações foram solicitadas posteriormente e esse custo passou para algo em torno de R$ 27 milhões. Não, eu não errei no número: foi de R$ 55 mil para R$ 27 milhões. Quase 500 vezes mais! Bom, ao menos tudo correu às mil maravilhas, certo? ERRADO! Há no documento vários relatos de falhas nos sistemas de acesso.

tocha_pan2007 A tocha é um capítulo à parte. Pagaram R$ 1,5 milhão por 4.000 tochas. Apenas 460 foram entregues e 102 sobraram intactas. Ou seja, apenas 358 foram necessárias. Quem previu 3.642 a mais? DEZ VEZES??? E onde as 3.540 que não foram entregues foram atochadas?

O que eu considero um maravilhoso exercício de fantasia é o TCU dizer que existem “indícios” de que há algo errado. Imagine que você pede à sua empregada para ir na padaria comprar cinco pães e ela te diz, na volta, que eles custaram R$ 25,00. Estranho… Seu filho diz que vai ao McDonald’s com o seu cartão, e um Big Mac custa-lhe R$ 300,00. Que coisa… Ou sua esposa abastece o carro com R$ 2.500,00. Humm… acho que tem algo errado…

PERAÍ, PORRA!! Há pelo menos seis anos sabia-se que o Pan seria no Rio de Janeiro! Em outubro de 2005 o TCU alega que avisou às autoridades sobre a falta de planejamento na execução das obras. O contrato da empresa que fiscalizou as obras era irregular, feito sem licitação.

6a00e554b11a2e88330147e2c5bae2970b-300wi Tudo foi concluído às pressas. O asfalto da Vila do Pan cedeu dias antes das competições. Teve epidemia de dengue.

A hospedagem de cada atleta ou membro de delegação desportiva custou ao poder público R$1.137,00 por dia. E isso porque se amontoavam três ou quatro em cada quarto. Dava para ter ficado no Copacabana Palace. Sem dengue!

Se uma conta prevista em R$ 95 milhões fecha em R$ 1,8 bilhão, das duas uma: quem tocou esse projeto é muito burro ou é um ladrão. Em qualquer um dos casos não serve para gerir o meu, o seu, o nosso dinheiro. Alguém foi demitido por errar tanto assim, ou preso por roubar tanto assim? Quem vai responder por isso?

Por favor, não façam uma Copa do Mundo no Brasil! Olimpíadas em 2016? Brincadeira de mau gosto… Vai ser muito triste passar por isso novamente. Como brasileiro, que paga impostos, acho isso humilhante.

Peguem esse dinheiro e construam um mini-acelerador de partículas, em nome da ciência. Tudo bem que, com esses planejadores, orçamentistas e gestores de obras que temos aqui, o túnel mal vai dar a volta no quarteirão e a partícula vai parar no meio do caminho, sem velocidade. A única coisa que vai até o final é o dinheiro. Acelerado!

Desafios gravitacionais

Seguindo mais um interessante post do blog do Balu, cheguei a um curioso artigo publicado recentemente no British Medical Journal, uma das mais respeitadas revistas de divulgação científica do mundo. Antes do artigo, porém, um breve preâmbulo sobre o seu contexto:

MedicinaO conceito de medicina baseada em evidência diz que só se devem utilizar métodos cientificamente comprovados no tratamento de doenças. À primeira vista parece um tanto quanto razoável, uma vez que por trás de um comprimido parece haver sempre uma enorme carga de ciência. Mas é aí que a coisa começa a se complicar.

Há vários níveis de estudos que podem ser feitos para que a eficácia de um medicamento seja, de fato, comprovada. Para a aprovação de um tratamento, de um medicamento, as exigências são bem altas com o objetivo de torná-lo o mais à prova de erros (e fraudes) possível.

Alguns pré-requisitos são básicos como um grupo-controle (o mesmo número de pessoas que toma o medicamento em teste toma uma pílula igual porém sem efeito – ou, placebo – para comparação dos resultados); duplo-cego (quando nem o médico nem o paciente sabem quem está tomando o medicamento e quem está tomando o placebo – para evitar o conhecido “efeito placebo”, que é a melhora do quadro clínico do paciente, mesmo ele tomando um comprimido inerte); randomizado (onde quem-vai-tomar-o-quê é decidido aleatoriamente).

O número de pacientes que participa do estudo também influi na sua credibilidade uma vez que, quanto maior a amostra, mais representativa ela é da população e, portanto, mais fiéis serão os resultados.

wise_monkeysQuestões éticas também devem ser observadas. A inclusão de crianças em estudos é sempre polêmica – ainda que determinadas doenças sejam eminentemente infantis. Outras condições crônicas apresentam alguns dilemas: não se pode suspender a medicação usual para dar placebo a um hipertenso ou diabético num estudo, pois sua condição pode se agravar.

A comunidade médica busca, assim, comprovações fortemente embasadas para suas práticas, de forma a melhor avaliar riscos e benefícios na escolha de uma conduta terapêutica. E consegue, indiretamente, proteção para suas decisões – já que sustentam-se em guidelines correntes.

A discussão do artigo mencionado acima gira em torno do excessivo apego a resultados de estudos. Claro que a medicina deve ser baseada em evidências científicas, mas não só isso. Muito do que se faz hoje – e com resultados – é fruto de observações mas que, por algum motivo, não podem ser comprovadas da forma como os mais puristas gostariam. E assim fecham-se as portas para alguns métodos e procedimentos há muito consagrados pela medicina tradicional.

Gordon Smith (professor da Universidade de Cambridge) e Jill Pell (Universidade de Glasgow) questionaram as evidências científicas de que o uso de pára-quedas previne morte ou traumas graves no “combate a desafios gravitacionais” – nada mais do que uma queda livre.

Para tanto eles realizaram uma meta-análise (revisão de todos os estudos já publicados sobre o assunto, combinando seus resultados através de procedimentos estatísticos) em busca de artigos que explorassem o tema (o pára-quedas é “bom” para queda livre?)obedecendo aos critérios:

paratrooper_2:: grupo controle (parte das pessoas pulavam com pára-quedas, parte pulava sem);

:: duplo-cego (nem os pesquisadores nem os voluntários sabiam que mochilas continham os pára-quedas); e

:: randomizado (os voluntários que receberiam mochilas com e sem pára-quedas seriam escolhidos aleatoriamente).

Buscando as principais fontes de artigos médicos disponíveis, Smith e Pell encontraram mais ou menos, algo em torno de aproximadamente nenhum exemplo que obedecesse aos critérios acima. Óbvio, não? Ora, por que, então, as pessoas continuam usando pára-quedas? Afinal, esclarecem, nem todo mundo que usa pára-quedas sobrevive e nem todo mundo que pula ou cai de alturas altas morre.

O tom um tanto jocoso e galhofesco do artigo, bem como o absurdo de seu tema, servem a um objetivo bastante claro na medicina, qual seja, a necessidade de referências altamente científicas que justifiquem uma opinião própria.

Claro que os avanços tecnológicos do século XXI formaram bases para uma medicina não tão baseada no achismo e na experimentação. Até porque os advogados do século XXI seguiram o mesmo caminho. Mas isso não significa que práticas consagradas pelo uso, pela tradição e, principalmente, pelo bom-senso devam ser completamente abandonadas

 

medicina_tradicionalTraçando um paralelo para outras áreas do conhecimento, talvez precisemos dar um pouco mais de atenção ao bom-senso em detrimento da ciência pura.

Um pouco mais de atenção à intuição e outros sentidos do que a fórmulas e cientificismos exagerados. Ou, pelo bem da ciência, da humanidade, você estaria disposto a participar do primeiro estudo controlado, duplo-cego e randomizado testando a real eficácia dos pára-quedas?

No meio desse post encontrei um outro artigo falando sobre o mesmo tema, o mesmo paper. Quase desisti de terminá-lo, pois está muito bem escrito e seu autor é um médico. Mas eu não poderia fazer isso com vocês, queridos leitores… De qualquer forma, sugiro uma olhada!

Das coisas rápidas – e das nem tão rápidas

Pessoal, ótima notícia para todo mundo: o LHC foi ligado ontem! O que? Você não sabia? Um dos maiores eventos da história da humanidade aconteceu ontem e você não soube? Onde você andava? Estava procurando o índice Bovespa na profundezas abissais do pré-sal? Assistindo a mais um lamurioso documentário sobre o aniversário do atentado às torres gêmeas? Se você – assim como eu – achava que LHC é um parente próximo do ex-presidente, então vai ver algum sentido nesse texto. Se, por outro lado, você é físico ou algo parecido, ou algum outro tipo de amante das ciências no seu mais puro grau, desculpe, você vai se divertir mais se for arrancar um dente.

Antes de mais nada quero deixar muito claro que vou começar a falar sobre um assunto que não entendo profundamente. Nem superficialmente. Mas o blog é meu e eu vou falar assim mesmo. Está nas regras desse blog. (Essa é a sua última chance de ir embora.) Minhas opiniões serão, por isso mesmo, superficiais e muitas vezes vazias. Mas tenho certeza que muita gente se identificará com elas.

lhc_2Tudo o que sei sobre aceleradores de partículas aprendi na graduação. Não é muito, considerando que cursei Publicidade e Propaganda. Por isso minha compreensão não alcança a magnitude da conquista que o início da operação de um Large Hadron Collider representa.

Mas que tipo de descoberta revolucionária poderá sair dos seus 27 quilômetros de comprimento? Quando digo revolucionária não me refiro a descobrir que o Big Bang ocorreu há 13,9 em vez de 13,7 bilhões de anos. Ou se “puxa, verdade, a massa atômica do tungstênio de fato é 184!” Isso pode ter um valor enorme para parte da comunidade acadêmica e representar o trabalho de uma vida para alguns pesquisadores. Gerações de cientistas devem ter esperado por esse momento. Para mim não passa de fetiche intelectual.

Mas aonde isso leva? Vai dar para purificar água nessa máquina, quando todas as reservas estiverem salobras? Jorrará petróleo não-poluente desses canos? Alguma nova fonte de energia fará um milharal produzir em 48 horas? Ou isso curará a AIDS? Não. Não. Talvez. Não.

“Ah, mas poderemos prever se um grande asteróide vai se chocar com a Terra daqui a quatro mil anos.” Maravilha, hein? Vou correndo preparar o meu testamento! Ou “saberemos se haverá uma catastrófica chuva cósmica com seiscentas horas de antecedência”. Supimpa! Isso nos dará o tempo suficiente para construirmos um sensacional guarda-chuva galático! Ou uma arca de Noé.

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De novo, imagino que isso deva ter um enorme valor, mas minha ignorância não alcança. Um monte de gente deve achar que as coisas de que eu gosto também são baboseiras sem tamanho. (Vai, pode confessar…). Mas nenhuma delas levou 14 anos nem consumiu US$ 8 bilhões para ser construído. Minha grande pergunta é: não haveria jeito melhor de torrar esse dinheiro? Quanto dinheiro é gasto levando gente para a Lua? Porra, se até um brasileiro já foi lá, não deve ser o melhor lugar do mundo. Digo, do Sistema Solar. Que interessa se cresce feijão sem gravidade, se ainda é mais fácil fazê-lo brotar no Saara do que em Fobos ou Deimos (te peguei, hein!)?

Desde que aprendi a calcular a distância de uma tempestade multiplicando o intervalo entre o relâmpago e o trovão por sei lá quanto, nunca mais vi uma aplicação prática para esse nível de ciência. E isso é tão prático e usual na minha vida que eu nem lembro mais. Até porque, de que adianta saber a distância da tempestade? Você vai sair correndo?

Por isso, continuo achando que um acelerador de partículas não passa de uma máquina onde você coloca uma partícula lenta de um lado e ela sai rapidinha do outro…