10 coisas que você (provavelmente) não sabe sobre mim

Tenho escrito recentemente sobre coisas muito pesadas. Falsos ecologistas, redes sociais do mal, população mal educada. Até eu canso disso e nem consigo mais ler meu próprio blog, que dirá você, leitora querida.

Então resolvi buscar um tema bem bobo, quase idiota, para dar uma quebrada nessa sequência tão dramática. Vi a dica no The Smart Passive Income Blog, seja lá o que isso signifique. Sem mais enrolação, vamos às 10 coisas que você (provavelmente) não sabe sobre mim – a menos que você seja a minha mãe:

1 Aos 15 anos tive uma fratura no seio frontal (também conhecido como testa) jogando futebol. Precisei de cirurgia para corrigir um afundamento do crânio e por isso tenho uma cicatriz enorme no lado esquerdo da cabeça, devidamente escondida por minha nem tão vasta cabeleira. Se você já reparou, mas ficou constrangido de perguntar, eis sua resposta! E nunca mais tive sinusite depois disso, mas acho que não valeu a pena.

2 Já trabalhei num bar, no Rio de Janeiro. Fui caixa e, depois, gerente. Lá aprendi a admirar uma profissão mais desgastante e honesta do que as pessoas gostam de imaginar: garçons. Também conheci músicos profissionais, que ganham a vida tocando em casas noturnas. E aprendi a jogar gamão. Bem mal. Tinha um cara que, sempre que chegava, me dava um revólver para eu guardar. Surreal!

3 Apesar de escrever sobre gestão, treinamento, liderança e temas semelhantes, já fui demitido quatro vezes. Uma por corte de custos e três por burrice mesmo. Minha, lógico.

4 Estudei no mesmo colégio a minha vida toda: o glorioso São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro. De lá saí para fazer uma improvável faculdade de Astronomia, na UFRJ. Até hoje não sei explicar o porquê. Abandonei o curso três meses depois, fiz um novo vestibular e me formei em Publicidade e Propaganda, na mesma UFRJ.

5 Quando criança, fiz natação, vôlei, futebol de salão, ginástica olímpica, kung fu e tae-kwon-do. Também frequentei aulas de artes no Parque Lage, tentei tocar violão e jogar xadrez. Não levo nenhum jeito para nada disso. Sou um zero nos esportes, artes e música. Escrevo mais ou menos, mas leio que é uma maravilha!

6 A coisa que mais me emociona é uma verdadeira demonstração de amizade. Aquela pessoa que faz o que você não espera, na hora em que você precisa. Serve em filme, também.

7 Tenho certo apreço pelo minimalismo. Pessoas que conseguem dizer muito com muito pouco, seja na música de Chet Baker, a prosa de Pablo Neruda ou nos traços do Juan Miró. Expressões econômicas são extremamente elegantes. Também gosto de adjetivos incomuns e escorregadios.

8 Passo mal de rir com os filmes do Mr. Bean e com indianos falando inglês. Se um dia o Rowan Atkinson interpretar um indiano, é melhor eu não assistir. Aliás, meu senso de humor é meio bizarro. Nem queira saber…

9 Uma vez tive um ataque de riso numa reunião importante com o Presidente de uma empresa. Foi um dos momentos mais embaraçosos da minha vida profissional – e acho que não teve a ver com uma das minhas quatro demissões. Eu simplesmente não conseguia parar de rir e confesso que não me lembro o motivo.

10 Sigo 100 pessoas no Twitter, sempre. Mais do que isso dispersa a atenção. Quando quero acrescentar uma pessoa, tenho que deletar outra. Algo parecido com a vida real.

11 Não sei contar direito.

Solidário no câncer

Assim que se confirmou o diagnóstico de que o ex-presidente Lula tem câncer na laringe, começou a enxurrada de mensagens oportunistas.

De um lado, sugerem que o presidente se trate no SUS, numa clara alusão ao estado lastimável em que se encontra a saúde pública brasileira – culpa não só de Lula, mas também de seus antecessores.

De outro, os patrulheiros politicamente corretos classificam a campanha como de mau gosto, porque não é de bom tom fazer piada com uma doença tão terrível. Muitos acrescentam, em suas críticas, dramáticas histórias reais e depoimentos pessoais.

Antes de mais nada, ninguém está fazendo piada. O estado lastimável da saúde pública no Brasil não é caso de piada, é caso de polícia. Se o povo quer Lula sendo tratato pelo SUS é porque, como presidente do país por oito anos seguidos, ele teve a chance de melhorar as condições de tratamento da população – o que não fez.

Se hoje uma grávida perde o bebê por falta de atendimento, é porque milhões foram desviados pela máfia dos sanguessugas – e Lula não sabia. Se um idoso não pode se tratar no sistema privado, é porque sua aposentadoria é o que sobra depois que os funcionários públicos recebem seus benefícios integrais – e Lula multiplicou os funcionários públicos em seus governos.

Se para você esta comparação é uma piada de mau gosto, o que você acha que as pessoas que se tratam no SUS pensam? É você quem está dizendo que o lugar onde eles buscam tratar seus problemas de saúde é uma piada. E que eles podem tentar a sorte lá, mas o ex-presidente não. Eles não puderam mudar a qualidade do serviço. Lula pôde, mas não fez. Isso sim, é de mau gosto.

Não acho que Lula deveria se tratar nos hospitais que estão por aí. Ele deveria se tratar nos hospitais que não estão por aí. Nos que foram pagos, mas nunca saíram do papel. Nos enormes elefantes brancos que foram construídos à toa, equipados para nada. Novíssimos tomógrafos e raios-x recém-lançados empoeirados numa sala sem energia elétrica. Modernos monumentos à corrupção que nunca atenderam um paciente sequer. Medicina de última geração para tratar Lula e sua corriola. Sem médicos, sem remédios, sem eletricidade, sem manutenção. Mas com todas as comissões em dia!

Ou como opinou O Inopinado: “A atitude digna não é desejar que o Lula se foda no SUS, mas sim que o SUS deixe de ser uma merda! (perdoem o português erudito)”. Perdoado.

Michael J. Fox: participações especiais em The Good Wife, sem coitadismo
Michael J. Fox: participações especiais em The Good Wife, sem coitadismo

Bem disse meu amigo Victor Hugo, sugerindo que se aproveite o momento para fazer campanhas antifumo, para conscientizar a população sobre os efeitos nocivos do cigarro.

Lula seria um ótimo garoto-propaganda para isso e teria a chance de usar seu enorme carisma para algo positivo.

Quando Reagan teve Alzheimer, o país mobilizou-se para desmistificar a doença e aprender a cuidar de seus pacientes. Michael J. Fox e Muhamed Ali fizeram o mesmo pela doença de Parkinson.

As ONGs dos companheiros e dos comedores de criancinhas poderiam dar exemplo e se unir em torno deste nobre objetivo – em vez de sustentar instituições fantasma em benefício próprio e de seus chegados.

Pararelamente a isso, reforça-se o sinistro hábito de endeusar os mortos, mesmo antes de eles falecerem. Recentemente, o coadjuvante Itamar Franco foi promovido a um dos maiores estadistas que o Brasil já teve. Michael Jackson virou ídolo de todos e Amy Winehouse tornou-se unanimidade.

Não sou como o mineiro do Nélson Rodrigues Otto Lara Resende, solidário só no câncer. Minha solidariedade independe de diagnóstico, de patologia. Gosto independentemente da proximidade do juízo final. Ou não gosto.

Todos os parâmetros relaxam após o último suspiro. No caso de Lula, muitos estão caindo bem antes. Peço a gentileza de não fazerem o mesmo comigo. Gostem de mim agora ou não gostem jamais. Não me perdoem quando eu morrer. Aproveitem agora, enquanto ainda estou vivo. Amem ou odeiem, mas não mudem por minha condição. É assim que eu faço. Nunca gostei de Lula, nunca dificilmente gostarei. Vivo ou morto.

Experimentos em Psicologia – George Miller e o mágico número sete

6a00e554b11a2e88330148c6b8711f970c-200wi Cada um de nós tem uma relação muito particular com os números e os deuses da matemática. Uns amam, outros odeiam, poucos são indiferentes.

Particularmente, sempre gostei de números – mas talvez eles não gostem de mim na mesma proporção. Nunca tive grandes dificuldades em lidar com fórmulas, quantidades ou proporções – apesar de ser canhoto e ter o lado esquerdo do cérebro (responsável pelo raciocínio lógico) menos desenvolvido que o direito. Mas aprendi com Leonard Mlodinow que não somos tão familiarizados com os segredos da matemática como gostamos de imaginar.

Em O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas  ele conta o caso de um espanhol que ganhou milhões numa loteria e, perguntado por que teria escolhido o bilhete com final 48, saiu-se com a seguinte pérola: “Por sete noites consecutivas sonhei com o número sete. E como sete vezes sete dá quarenta e oito, resolvi apostar nesse número.” Certo ou errado ele ficou milionário. Resta saber o que sua habilidade em multiplicar fará com o seu dinheiro…

Mas outras pessoas também guardam estreitas relações com determinados números que, se não as fazem ficar ricas – ainda que acidentalmente – reservam-lhes um lugar de destaque no mundo da ciência e, por que não dizer, no imaginário popular.

George Armitage Miller, um professor de Psicologia em Princeton, revela no início do seu texto que também sentia-se perseguido pelo mesmo número sete. Conta que, durante sete anos, ele encontrava este algarismo em tudo o que era artigo científico que lia. Algumas vezes serelepe e exibido, outras disfarçado e oculto. Mas sempre estava lá.

Embora seu seminal artigo não constitua um Experimento em Psicologia original realizado por ele, sua obra – e a teoria nela contida – continua sendo um dos textos mais citados em Psicologia até hoje, mais de 50 anos após sua publicação.

Trata-se, na verdade, de meta-análise (uma avaliação conjunta de várias pesquisas realizadas sobre um mesmo tema central) sobre nossas habilidades em retransmitir o que os sentidos captam. Mas Miller foi mais além e estendeu suas conclusões à uma característica particular da memória: a capacidade de lembrar pequenas quantidades de informação para uso imediato – ou, como se diz no jargão científico, a memória temporária.

6a00e554b11a2e883301157153b6c2970c-300wiPara Miller, nossa memória temporária é capaz de armazenar entre cinco (sete menos dois) e nove (sete mais dois) conjuntos de dados de cada vez, dependendo da circunstância e do tipo de dado em si.

Confesso que sempre considerei a hipótese do mágico número sete como uma mera coleção de dados episódicos e aleatórios, reunidos numa conveniente coincidência. Para cada elemento que reforça essa teoria (sete cores do arco-íris, sete notas musicais, sete pecados capitais) podemos identificar outros números igualmente mágicos e fora do cabalístico limite 5+2=7+2=9: quatro cavaleiros do apocalipse, quatro estações do ano, quatro pontos cardeais, dez mandamentos, dez algarismos, doze apóstolos, doze meses etc.

Mas ver as bases científicas para estas afirmações mudaram um pouco o meu ponto-de-vista. As implicações da teoria de Miller parecem fazer muito sentido em vários aspectos da nossa vida, desde sua análise sob a ótica evolucionista até o famoso paradoxo da escolha – onde menos opções pode representar decisões mais acertadas do que uma variação muito grande.

Sem mais delongas conheçamos, pois, O mágico número sete, mais ou menos dois: alguns limites na nossa capacidade de processar informação.

NOTA: os textos a seguir trazem algumas informações mais detalhadas sobre os estudos que originaram as teorias de Miller, bem como algumas definições conceituais envolvidas. Caso queira pular essas partes mais acadêmicas, elas estão destacadas em azul e saltá-las não comprometerá a compreensão final.

Antes de iniciar as explicações de sua teoria propriamente dita, Miller faz uma breve introdução a respeito da classificação de dados e da forma como a ciência lidava com algumas grandezas naquela época (lembrando que a publicação original do seu paper foi em 1954). Ele destaca, antes de tudo, que dados discretos são respostas numéricas que surgem através de um processo de contagem; enquanto que dados contínuos são o resultado de uma medição.

6a00e554b11a2e8833011571539979970c-320wi A implicância disso é que os dados contínuos podem variar de forma drástica, por isso, não temos muito como prever alguns resultado (qual a distância entre São Paulo e Madagascar?) tornando gigantesca, assim, a quantidade de informações com que se lida.

Já os dados discretos são limitados por alguma contingência (quantas pessoas cabem num metro quadrado?) e, por isso, na maioria das vezes conseguimos fazer estimativas melhores.

Desta forma, o modo como os sistemas de informações são organizados interfere enormemente na maneira como conseguimos trabalhar com seus conteúdos, isto é, como relacionamos aquilo que recebemos com o que transmitimos, descontando os ruídos pelo caminho.

Esta lógica é a base dos estudos de Miller, pois nos estudos analisados, algum tipo de estímulo sensorial qualquer (como um determinado som) era oferecido aos voluntários e a maneira como cada um retransmitia esse estímulo era posteriormente medida. Se, por assim dizer, o pesquisador tocasse no piano um “Dó” e o voluntário reconhecesse a mesma nota, então a transmissão da informação teria sido perfeita. Caso ele errasse, então a propagação dessa informação teria falhado.

A expectativa dos pesquisadores era que quanto maior a variedade de informações transmitida, maior a taxa de erros dos voluntários. Eles poderiam medir, assim, os limites para a correta transmissão de informações – o que corresponderia, de forma simplificada, aos limites da memória de curto prazo.

Outro conceito importante é a ideia de bit (ou unidade) de informação, que é o insumo para a tomada de decisão. Quando precisamos decidir se uma pessoa tem mais ou menos do que 1,70m, trata-se de um problema binário (duas alternativas: ou é, ou não é) e precisamos, portanto, de uma unidade de informação (sim ou não). Para decidir entre quatro alternativas, seriam necessárias duas unidades de informação (ou dois bits). Para oito possibilidades, três unidades; para dezesseis, quatro bits e assim por diante. Ou seja, conforme dobram as escolhas, mais um bit é necessário para decidir.

Por este conceito pode-se deduzir porque é mais fácil para nós estimar dados discretos (cujas possibilidades são menores, em princípio) do que dados contínuos, já que a quantidade de informações necessárias para tomar decisões difere drasticamente.

6a00e554b11a2e883301157153a40f970c-320wi Num estudo conduzido para a Força Aérea Americana por Iwin Pollack1, após uma breve explicação sobre o que eram ciclos por segundo (cps), os voluntários ouviam sons e tinham que estimar a frequência de cada um deles. Depois de um período de adaptação baseada em tentativa e erro, eles estavam aptos a distinguir precisamente entre dois ou três tons diferentes, estimando corretamente sua frequência numa escala entre 100 e 8.000 cps.

Mesmo com quatro sons diferentes, raramente eles erravam. Mas quando variavam cinco ou mais opções, os erros aumentavam sensivelmente, até o limite de 14 sons diferentes, que foi até onde o experimento chegou – e onde os participantes dificilmente acertavam alguma coisa.

Se lembrarmos da explicação anterior sobre bits, para identificar dois sons a pessoa precisa de apenas uma unidade de informação. Para 14 sons, esse número sobe para 3,8. Como Pollack verificou que o limite dos voluntários ficou entre quatro e cinco tons, ele concluiu que a média de bits que uma pessoa consegue trabalhar com seu sistema auditivo é 2,5 – que corresponde a seis alternativas diferentes.

No ano seguinte, o psicólogo Wendell R. Garner fez um estudo semelhante2 onde, em vez de identificar a frequência dos sons, os voluntários deveriam indicar o volume em que cada nota era tocada, variando de 15 a 110 decibéis. De forma parecida com a pesquisa anterior, Garner concluiu que os participantes tinham boa performance até o limite de 2,3 bits.

6a00e554b11a2e883301157247f467970b-320wiMudando o sentido avaliado, Beebe-Center, Rogers e O’Connell pesquisaram a sensibilidade do nosso paladar3, ao testar voluntários com soluções salinas que variavam entre 0,3 e 34 gramas de sal de cozinha por 100 ml de água. O estudo consistia em oferecer as várias concentrações salinas, combinadas em grupos com diferentes quantidades de opções. Assim, os participantes teriam que identificar a concentração de sal das amostras em conjuntos de 3, 5, 9 ou 17 possibilidades. O limite encontrado aqui foi 1,9 bits, ou cerca de quatro opções.

Já no campo visual, Hake e Garner descobriram que este sentido suporta uma variação bem maior de estímulos4. Ao localizar corretamente a posição de um número numa escala fixa (algo como apontar onde estaria o centímetro 40 num bastão de um metro de comprimento), os voluntários esbarravam no limite de 3,25 bits – o que corresponde a cerca de dez observações.

O número anterior parece até alto, mas devemos considerar que trata-se de uma variável unidimensional. Quando precisaram estimar áreas (uma medida bidimensional), o limite caiu para 2,2 bits, ou cinco categorias, como mostrou o estudo de Ericksen e Hake5. Outros estudos semelhantes apontaram diferentes limites para a visão, como 2,8 bits para tamanhos, 3,1 bits para cor e 2,3 bits para brilho. Já para o tato, os pesquisadores descobriram que somos capazes de identificar quatro intensidades, cinco variações de duração e sete para localização do estímulo.

Estes rudimentares exemplos sugerem como somos limitados em nossa capacidade de distinguir entre diferentes estímulos. Mas as condições experimentais descritas envolviam medidas simples e, na maioria das vezes, com apenas uma dimensão (comprimento de reta, volume do som, salinidade da água). Como será que nossos sentidos trabalham, então, na vida real, onde precisamos lidar com estímulos mais complexos?

6a00e554b11a2e883301157153b2fa970c-300wi Quando uma segunda variável era adicionada aos estudos citados acima, a capacidade de diferenciação das amostras também aumentava, mas não na proporção esperada.

Nas estimativas visuais, por exemplo, os voluntários conseguiam determinar a posição de um ponto numa área qualquer até o limite de 4,6 bits. Mas se área é uma medida bidimensional, era de se esperar que a capacidade fosse a soma de duas capacidades de comprimento (unidimensional), ou 3,25 + 3,25 = 6,5 bits.

Do mesmo modo, o paladar combinado de salgado e doce requer 2,3 bits, menos do que se esperaria da soma de duas categorias (1,9 + 1,9 = 3,8 bits). Na audição, nosso limite em reconhecer o volume de um som é de 2,3 bits e 2,5 bits para sua modulação (graves e agudos), mas quando combinados, tal habilidade fica em 3,1 bits – maior do que qualquer uma das duas, mas menor do que a soma delas.

Aumentando sequencialmente o número de categorias, os pesquisadores perceberam que nossa capacidade de identificação de elementos cresce, mas a habilidade em avaliar aspectos e características específicas diminui. Percebemos melhor o conjunto, mas diminuímos a compreensão dos detalhes. Miller sugere uma abordagem evolucionista para essa questão, onde os organismos que mais se adaptavam ao ambiente eram os que melhor conseguiam responder a uma quantidade maior de estímulos ambientais. A sobrevivência significava, assim, ter pouca informação sobre muita coisa, em vez de muita informação sobre pouca coisa.

No instigante documentário My Brilliant Brain, da National Geographic (recomendo fortemente os três episódios!), um teste muito interessante foi realizado com uma das melhores jogadoras de xadrez de todos os tempos: a bela Susan Polgar. Um cartaz com uma posição de uma partida de xadrez foi colada a uma van que passou pela rua, próximo a um café onde ela gravava o programa. Sem nenhuma dificuldade, a húngara reproduziu exatamente a mesma posição do diagrama, com 28 das 32 peças nas 64 casas da tabuleiro, apesar de tê-la visto apenas alguns segundos.

Certamente uma proeza e tanto para nós mortais, mas nem tanto até para um jogador amador. A verdade é que o enxadrista experiente divide o tabuleiro em partes e trabalha com esses pedaços de informações. Susan memorizou quatro ou cinco setores separados do tabuleiro e assim pôde demonstrar sua enorme capacidade de observação.

6a00e554b11a2e8833011572480056970b-320wiMas em seguida, quando um leigo espalhou aleatoriamente as peças no tabuleiro, ela não conseguiu repetir o feito, pois não havia como detectar padrões naquela situação*.

No primeiro exame de ressonância magnética realizado num enxadrista profissional, a pesquisadora Joy Hirsch, da Universidade de Colúmbia, verificou que Susan utilizava para reconhecer as posições de jogo as mesmas áreas do cérebro responsáveis pela identificação de rostos. Ela havia adaptado uma função específica de sua mente a uma outra tarefa. Deste modo, era capaz de reconhecer uma situação de jogo com a mesma velocidade com que se lembra do rosto de um velho amigo.

Todos nós somos capazes de reconhecer padrões em determinados momentos, sejam rostos conhecidos, sons ou cheiros familiares, ou preços de TVs de LCD. Mas a impressionante habilidade de Susan nessa área foi uma capacidade adquirida com anos de intenso treinamento – e esta rápida e precisa comparação de uma situação com algo que faz parte do seu repertório representa, no caso dela, um sensível diferencial entre os jogadores de alto nível.
banner-npe_v1-2

Do mesmo modo que uma condição da nossa vida (como ser jogador de xadrez) afeta o funcionamento do cérebro, padrões culturais também têm influência na nossa maneira de pensar. O idioma, por exemplo, exerce grande papel na forma como organizamos as informações, interferindo, consequentemente, na nossa capacidade de memorização. Isso significa dizer, por exemplo, que o tamanho da palavra que representa a coisa a ser lembrada – ou a duração do respectivo som – influi em nossa predisposição em memorizá-la.

Faz mais sentido, então, atrelar a capacidade deste tipo específico de memória a um intervalo de tempo. A duração deste intervalo de tempo foi posteriormente estimada em aproximadamente dois segundos. E a quantidade de informação que sonoramente pode ser encaixada nesse intervalo varia, logicamente, de acordo com o idioma. Em inglês, por exemplo, dois segundos correspondem a sete números enquanto que em chinês são dez.

6a00e554b11a2e883301157157ea90970c-250wi
Susan Polgar

Por esse motivo, é mais fácil decorar o número um do que o oitocentos e noventa e quatro. Ou ainda, é mais simples organizar números ordinais em inglês (five hundred seventy first) do que em português (quingentésimo septuagésimo primeiro).

Outros aspectos linguísticos também influem na nossa capacidade de identificar os sons como, por exemplo, se ele é composto de vogais ou consoantes, se é oral ou nasal ou se são fonemas frontais, médios ou anteriores . Esta seria, portanto, mais uma forma de a língua interferir na capacidade de memorização dos indivíduos.

Em Outliers | Fora de Série, Malcolm Gladwell mostra que os orientais têm, geralmente, mais facilidade com números porque seus idiomas usam palavras mais curtas para simbolizar os números. Assim, as crianças chinesas, por exemplo, têm maior aptidão para aprender matemática pois conseguem memorizar mais números e, deste modo, realizam as operações com menos dificuldades. Desenvolvem, portanto, um gosto maior pelo tema desde cedo, interessando-se mais pelo seu aprendizado.

Essas evidências parecem sugerir que temos, portanto, uma capacidade limitada de fazer julgamentos e memorizar informações – seja por nossos processos de aprendizado ou pela organização de nosso cérebro.

No caso dos julgamentos, Miller lembra que podemos recorrer a alguns recursos para ampliar esta acuidade, fugindo um pouco das amarras do mágico número sete. Ele sugere três artifícios:

1. fazer julgamentos relativos em vez de absolutos, comparando uma observação com outra: “ele deve ter mais de 1,80 m porque é um pouco maior do que eu”;

2. utilizar mais de uma dimensão absoluta numa avaliação: “ele deve pesar mais de 90 kg, porque além de mais alto ele é mais gordo do que eu”;

3. fazer mais de uma observação absoluta em sequência: “esta distância deve ser maior do que dois metros, porque seu eu deitar ali, ainda devem sobrar uns dois palmos”.

6a00e554b11a2e88330115724804f1970b-300wi Já com relação à memória, há diversas estratégias para ampliarmos nossa capacidade de lembrar coisas importantes:

1. recodificar a informação de uma maneira que faça mais sentido para você: dividir um número de telefone em blocos que te lembrem alguma data relevante ou uma seqüência do seu próprio CPF. Susan repartiu o tabuleiros em pedaços que faziam sentido para ela;

2. fazer associações entre o que se precisa lembrar e outros fatos marcantes da sua vida: eu me lembro que operei o apêndice quando tinha 13 anos porque estava na oitava série. Sei que o Senna morreu em 1994 porque foi quando o Brasil foi tetracampeão de futebol, na Copa dos EUA.

3. organizar a informação de forma mais prática: é mais fácil calcular de cabeça 237 x 5 ou 237 x 10 ÷ 2?

4. montar pequenas histórias – por mais estapafúrdias que pareçam – encaixando as informações na narrativa: como sugeriu meu professor de biologia do colégio, tentar imaginar a Mona Lisa coçando suas partes íntimas enquanto faz tricô, para lembrar-se do que é trichomonas vaginalis e suas consequências. Soa ridículo, mas eu nunca mais me esqueci disso.

5. se nada disso funcionar, amarre uma fitinha no dedo e boa sorte!

__________

TEXTOS RELACIONADOS:

Os limites da Intuição – parte I: Deep Blue, a máquina

Os limites da Intuição – parte II: Gary Kasparov, o homem

Os limites da Intuição – final: o que faz a diferença?

__________

1. The information of elementary auditory displays. J. Acoust. Soc. Amer. 1952, 24, 745-749.

2. An informational analysis of absolute judgement of loudness. J. Exp. Psychology, 1953, 46, 373-380.

3. Transmission of information about sucrose and saline solutions through the sense of taste, J. Pshychol. 1955, 39, 157-160.

4. The effect of presenting various numbers of discrete steps on scale reading accuracy. J. Exp. Psychol., 1951, 42, 358-366.

5. Absolute judgements as a function of the stimulus range and the number of stimullus and response categories. J. Exp. Psychol., 1955, 49, 323-332

* Outras curiosidades sobre Susan Polgar: ela foi a primeira mulher a quebrar a barreira do sexo no mundo do xadrez, tendo conseguido o primeiro título de Grande Mestre entre os homens (em janeiro de 1991, antes de sua irmã caçula Judith, em dezembro do mesmo ano), sendo também a primeira a disputar o título máximo masculino. Susan também detém o recorde absoluto em partidas jogadas simultaneamente: em julho de 2005 jogou contra 326 adversários, ganhando 309 partidas, empatando 14 e perdendo apenas três (94,8% de vitórias). Ao mesmo tempo.

__________

Leia a Introdução sobre esta série a respeito de famosos Experimentos em Psicologia, além de uma relação dos outros textos já disponíveis.

Experimentos em Psicologia – A unanimidade burra de Solomon Asch

O próximo pesquisador apresentado por Lauren Slater (em Opening Skinner’s Box: Great Psychological Experiments of the Twentieth Century) é Stanley Milgram, que realizou um dos mais perturbadores Experimentos em Psicologia de que se tem notícia. Enquanto cursava Ciências Políticas no Queens College, Nova Iorque, ele participou como assistente de Solomon Asch em algumas de suas pesquisas. Da admiração pelo seu mentor, Milgram decidiu mudar de área. E do mais famoso estudo de Asch – o efeito da pressão social na conformidade – buscou o tema central do seu próprio experimento. Vejamos, então, que extraordinárias teorias o teriam levado a tomar tais decisões.

Solomon Asch nasceu em Varsóvia, na Polônia, em 14 de setembro de 1907 e mudou-se para os EUA com sua família em 1920. Completou seu Doutorado em 1932 na Universidade de Colúmbia e na década de 1950 começou a elaborar suas pesquisas acerca da pressão social exercida pelos grupos. A pergunta que ele pretendia responder era: como e até que ponto as forças sociais moldam as opiniões e atitudes das pessoas? Era uma época em que as telecomunicações experimentavam crescentes avanços e, desde então, já havia a preocupação do poder de influência que a mídia poderia exercer na população.

6a00e554b11a2e88330115711267c1970b-320wiImagine a leitora numa sala com mais sete outros estudantes, cuja tarefa no experimento sobre acuidade visual, para o qual se ofereceram como voluntários, era olhar a linha vertical da figura mais à esquerda e encontrar sua correspondente dentre as três linhas da outra figura. Moleza!, você pensa. E todos respondem letra “C”. No próximo par de figuras, nenhum problema e todos respondem a mesma óbvia opção.

Quando a leitora já começava a se arrepender de estar ali – pois tudo indicava uma tediosa atividade para identificar aspirantes a cego – o primeiro colega da sala a responder claramente cometia um erro. “Como ele pôde? Uma linha é visivelmente maior do que a outra!”, você pensa inconformada. Mas aí o seguinte comete o mesmo erro. E também o terceiro e todos os demais. Você é a última e responde diferente dos demais. Todos olham para você. Que coisa estranha!

No par de figuras seguinte, aquele idiota da primeira cadeira erra novamente. E todos vão atrás. Você tem certeza que eles estão errados. Mas como podem todos estarem errados e você estar certa? Você responde de maneira diferente novamente.

Na próxima rodada você já não tem tanta certeza se está certa. Sua insegurança começa a dar lugar à angústia. Será que você não está enxergando direito? Que constrangimento responder de maneira diferente de todos! Ah, quer saber? posso até errar, mas acho melhor responder igual aos outros. Não estou me sentindo bem discordando de todo mundo, divergindo dessa estranha unanimidade.

No fim do experimento você descobre, porém, que o único voluntário de verdade era você. Os outros sete ali presentes eram atores que faziam parte da pesquisa. Todos foram orientados para dar as respostas erradas para ver até que ponto você resistiria sendo a única dissidente da sala. Pouco, muito pouco. Você não aguentou ser a única respondendo diferente e passou a acompanhar o grupo, mesmo tendo certeza (ao menos no início) de que estava dando a resposta errada.

6a00e554b11a2e8833011570234873970c-800wi

Mas espere um pouco! Como reagiram os outros voluntários? Quantos deles teriam capitulado ante à pressão do grupo e passado a dar respostas erradas também? Curiosamente, os resultados do experimento haveriam de lhe trazer algum conforto…

No total, 123 voluntários (reais) participaram da pesquisa e eles sempre eram os últimos ou penúltimos a responder. Nos dois primeiros testes os assistentes respondiam de forma correta, para deixar o voluntário à vontade, confiante. Mas nos quatorze seguintes eles deveriam errar doze, de modo que o voluntário não desconfiasse de alguma armação – o que ocorreu em poucas ocasiões e os resultados foram desconsiderados no cômputo final. Além disso, eles erravam juntos, apontando a mesma linha. Considerando que a estimativa de respostas erradas nesse tipo de teste é de menos de 1 em 35 (menos de 3%), os resultados foram assombrosos:

75% dos participantes escolheram a alternativa errada ao menos uma vez;

37% dos voluntários erraram a maioria das respostas;

5% deles acompanharam a opção incorreta todas as vezes.

banner-npe_v1-2
Asch e seus colegas ficaram intrigados com o efeito opressor que um grupo poderia exercer sobre seus indivíduos e resolveu investigar mais a fundo os fatores que mais determinavam esse tipo de influência. As posteriores variações do experimento verificaram que:

.: O tamanho do grupo influi negativamente de forma diretamente proporcional e até um certo limite. Quando confrontado com apenas um outro participante, o indivíduo praticamente não mudava de opinião. Contra dois assistentes, o voluntário aceitava a resposta errada em 13,6% das vezes. Se fossem três adversários, o erro subia para 31,8% e permanecia estável. Isto é: a partir de três oponentes o tamanho da unanimidade já não fazia mais tanta diferença.

6a00e554b11a2e883301157037bf7e970c-320wiNa prática, isso parece sugerir que trabalhar com grupos muito grandes pode ser contraproducente, na medida em que algumas opiniões dissidentes podem se perder no caminho, em virtude da pressão da maioria. Por esse motivo os especialistas recomendam que o ideal é formar pequenos conjuntos de até três ou quatro indivíduos.

.: Um aliado aumenta a resistência, pois quando o inocente voluntário tinha o apoio de outro indivíduo na sua discordância, as chances de ele mudar de opinião em favor da maioria caíam em 75%. O interessante era que o aliado nem precisava escolher a resposta certa. Bastava que ele divergisse da maioria. No caso ilustrado anteriormente, por exemplo, se todos escolhessem “A” e o aliado escolhesse “B”, já era suficiente para que o voluntário se sentisse mais à vontade para apontar a correta resposta “C”.

Mas a importância desse aliado está em sua convicção, não em sua presença física. Se após discordar da maioria nas primeiras respostas o aliado mudasse de lado e passasse a errar junto com os demais, o voluntário perdia sua coragem. Após a deserção do seu aliado, os índices de erro passavam a ser iguais ao do experimento original. Por outro lado, se o aliado fosse retirado da sala no momento em que ainda dava respostas corretas, o voluntário mantinha-se independente, respondendo diferente da maioria.

Particularmente considero essa variação uma das mais intrigantes, pois ela ilustra como somos sensíveis à opinião de estranhos quando nos encontramos numa situação de desvantagem ou de informações insuficientes. Este é, basicamente, o formato mais comum dos chamados Contos-do-Vigário, onde um desconhecido oferece ajuda, convencendo a vítima a confiar no golpista que lhe aborda.

Ela sustenta, também, a importância da heterogeneidade dos grupos, como destaca James Surowiecki em A Sabedoria das Multidões. Surowiecki lembra que a diferença não só contribui trazendo novas perspectivas para o ambiente, mas também ajuda os integrantes a expressarem mais livremente suas opiniões – sejam elas divergentes ou não (pp. 38-39).

Mas a mais pitoresca de todas as adaptações do estudo de Asch foi realizada por Vernon Allen. (Infelizmente não encontrei a fonte original nem a referência do artigo/livro e, assim, baseio-me na descrição de Ori e Rom Brafman em Sway: The Irresistible Pull of Irrational Behavior.) Antes de iniciar os supostos experimentos de acuidade visual, os voluntários tinham que preencher um formulário qualquer isolados numa sala. Assim que iniciavam essa tarefa, um dos pesquisadores alegava falta de salas e introduzia um segundo “voluntário” na sala.

6a00e554b11a2e88330115712d011a970b-300wi Este era, na verdade, mais um ator com uma característica muito peculiar: ele usava óculos de lentes grossíssimas, denunciando uma acentuada dificuldade visual. Reforçando essa característica, ator e pesquisador encenavam um diálogo, onde o primeiro perguntava se a tarefa incluía algo em que fosse necessário enxergar de longe. O segundo respondia que sim e pede que o ator leia um cartaz pregado na parede, no que ele, previsível e propositadamente, falha. O pesquisador diz, então, que precisam terminar o estudo de qualquer forma (estão atrasados, com falta de pessoal, blá, blá, blá…) e sugere que ele responda às perguntas de qualquer maneira, prometendo não computar suas respostas.

O resultado mostrou que os voluntários reais reduziam sua conformidade em 30%, ou seja, aproximadamente um terço deles sentiam-se mais à vontade para discordar da maioria, ainda que fossem amparados por um aliado visivelmente (que beleza de trocadilho!) incompetente.

.: A discrepância do erro não influi no resultado, apesar de a intuição sugerir o contrário. Ainda que as figuras fossem exageradamente diferentes umas das outras, isso não diminuía a incidência de respostas erradas do voluntário.

Isso significa que, independentemente do absurdo da situação, a cega imitação das atitudes de um grupo pode nos levar a comportamentos que sequer cogitaríamos individualmente.

Nas entrevistas posteriores ao experimento, os 25% que se mantiveram firmes em suas decisões em todos os testes mostraram uma grande capacidade de se recuperar das dúvidas que experimentaram ao confiar em seus julgamentos. E, diga-se de passagem, sentiram-se aliviados ao saber que o estudo continha uma pequena farsa…

Já dentre os que mais se conformavam com o grupo, suas principais características eram a baixa autoestima (“devo estar errado”) e o desejo de não comprometer o estudo discordando nas respostas. O mais intrigante, porém, era o fato de eles não se considerarem conformistas.

Em seu brilhante O Iconoclasta, o neurologista americano Gregory Berns chega a questionar a influência do grupo sobre a percepção das pessoas. Apesar de os voluntários garantirem terem dado a resposta incorreta (mesmo sabendo a verdadeira), eles honestamente questionavam suas convicções. Alguns duvidavam daquilo que estavam vendo. Aparentemente as percepções permaneciam intactas, mas a fé das pessoas nos seus sentidos, esta sim, parece irremediavelmente abalada pela influência externa alterando, aí sim, as decisões tomadas. E, no fim do dia, o que importa mesmo são as decisões.

O estudo de conformidade de Solomon Asch dá indícios sobre o poder de influência que os grupos exercem sobre os indivíduos. Mostra que o simples desejo de pertencer a um ambiente homogêneo faz com que as pessoas abram mão de suas opiniões, convicções e individualidades.

6a00e554b11a2e88330115712d03c8970b-320wiImagine crianças e adolescentes que são forçados a permanecer longos períodos de tempo convivendo em grupos a que eles não escolheram pertencer, como a classe da escola, por exemplo. Em ambientes onde o diferente acaba marginalizado ou ridicularizado, a pressão por seguir o grupo pode ser irresistível a um jovem com pouca maturidade ou personalidade. E, assim, muitos começam a fumar, beber e usar drogas.

Mas nem só em ambientes mais inocentes encontramos indivíduos sucumbindo à multidão. A tendência de seguir a opinião dos outros comumente é chamada de efeito manada em finanças, identificando um movimento onde os investidores seguem determinada direção, polarizando a tendência do mercado. Atitudes semelhantes podem ser observadas, também, em algumas religiões, agremiações políticas, moda e diversos outros grupos de indivíduos cujas preferências mudam com o tempo. Ou seja, todos.

Ainda que a vida em sociedade dependa de consensos, eles só serão produtivos na medida em que os indivíduos contribuírem com suas experiências pessoais e considerações particulares. Quando o consenso é produto da dominação ou da conformidade, o processo social é corrompido e os valores individuais são deixados de lado.

Fato é que, de maneira consciente ou não, estamos todos sujeitos às pressões do ambiente, seja ele físico ou psicológico. Há várias situações em que nossas atitudes são fortemente influenciadas por essas pressões e muitas formas de explorar tal comportamento – para o bem e para o mal. O que precisamos é estar atentos a essas armadilhas e identificar – de forma sincera, humilde e desprendida – que tipo de decisões tomamos por nossa própria e independente vontade e quais as que visam a paz de espírito de não ir contra a multidão.

O experimento de Asch mostra uma forma de tomar decisões inocentes quando sob efeito da influência do comportamento do grupo. Mas o que acontece quando as decisões não são assim tão inocentes? Como reagem as pessoas que são instigadas a infligir dor e sofrimento a um desconhecido? A seguir, os perturbadores estudos de Stanley Milgram.

__________

Leia a Introdução sobre esta série a respeito de famosos Experimentos em Psicologia, além de uma relação dos outros textos já disponíveis.