Outliers – Malcolm Gladwell

6a00e554b11a2e8833010536190a95970c-250wiBastou um capítulo para que eu fosse tomado por sua nova proposta de que o sucesso não é apenas uma questão de mérito pessoal, mas diversos outros fatores contribuem para que uma pessoa destaque-se em sua área de atuação e tenha desempenho superior numa determinada atividade. Um pouco da velha máxima the right man, in the right place.

Refiro-me à parte onde Gladwell descreve o que se convencionou chamar de “efeito Mateus“: há uma passagem bíblica onde um rico senhor dá a três de seus servos diferentes quantias de dinheiro, instruíndo-os a multiplicá-las. Um recebeu cinco talentos (moeda da época), outro dois e um terceiro apenas um. Os que receberam cinco e dois talentos regressaram, tempos depois, com o dobro da quantia original. O que recebera apenas um talento voltou com a mesma quantidade.

O senhor louvou, então, ambos os que prosperaram e ordenou ao que apenas guardou o dinheiro, com medo de que lho roubassem, que entregasse sua quantia ao mais próspero. Resumindo a parábola sobre acreditar e ter fé, Mateus disse: “A todo aquele que tem, será dado mais, e terá em abundância. Mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado” (Mateus, 25, 28-29).

Fecha a Bíblia, volta a Outliers e ao que isso tem a ver com o sucesso das pessoas.

A primeira teoria de Gladwell para mostrar a origem do sucesso de pessoas extraordinárias remonta às nossas origens individuais. Para o autor onde e quando nascemos e crescemos exercem grande influência no nosso desenvolvimento e em nossas chances de sermos bem-sucedidos. A cultura a que pertencemos e os legados recebidos de nossos antecessores têm, segundo ele, consequências diretas em nossos feitos, de uma forma que sequer imaginamos.

6a00e554b11a2e8833010536192349970c-300wi Um exemplo bastante ilustrativo disso pode ser verificado nas ligas esportivas estudantis dos países do primeiro mundo (nenhum ranço terceiro-mundista, mas é que nesses países o esporte nas escolas é extremamente bem organizado; muito provavelmente esse fenômeno também é observado aqui no Brasil, como se verá adiante).

Observando a lista dos jogadores de uma partida final da liga escolar de hóquei sobre o gelo no Canadá, um fato curioso saltou aos olhos: 14 dos 25 jogadores nasceram entre janeiro e março. São 56% em vez dos 25% esperados. Apenas 5 nasceram no segundo semestre (20% em vez de 50%). Ora, mas de que forma o mês de nascimento de uma pessoa interfere em sua performance esportiva?

Aparentemente, não muita coisa. Mas quando a criança tem seis, sete anos – que é quando começam as “peneiras” dos times infantis – quem nasceu em janeiro é onze meses mais velho do que quem nasceu em dezembro. Nessa idade, quase um ano faz uma diferença enorme – só para ficar na parte física, por enquanto. O que ocorre a partir daí? A criança que tinha uma pequena vantagem (força física, desenvolvimento) passa a receber treinamento técnico, tático, psicológico, preparação muscular e o que antes era um leve desequilíbrio para com seus amiguinhos, passa a ser um abismo.

Esse é o fenômeno batizado pelo sociólogo Robert K. Merton de profecia auto-realizável (self-fulfilling prophecy) ou efeito Pigmaleão, onde a simples previsão de que algo vai acontecer conspira para que ela ocorra de fato. Deixo claro que não me refiro aqui aos mantras da auto-ajuda (“pense positivo, Ícaro, e você voará!”), mas ao simples fato de que treinar um menino de sete anos num ambiente profissional, seis horas por dia, durante dez anos fará dele um atleta muito melhor do que seu colega que dedica-se ao esporte somente nos finais de semana (isso é abordado no capítulo seguinte, onde Gladwell apresenta a “regra das dez mil horas“). E por que isso aconteceu, em primeiro lugar? Simplesmente porque um nasceu em janeiro e o outro em novembro.

6a00e554b11a2e883301053610f841970b-250wi Nas ligas onde as datas de corte não são o primeiro dia do ano, o fenômeno se repete conforme o caso: no futebol inglês, que divide os atletas nascidos antes e depois de 1º de setembro, a maioria dos jogadores faz aniversário entre este mês e novembro.

Sei que parece uma teoria radical, porque arbitrária. Mas outras estatísticas comprovam esse fato: a seleção juvenil de futebol da República Tcheca da Copa do Mundo sub-20 de 2007, por exemplo, tinha 15 de seus 21 jogadores nascidos entre janeiro e março (foi vice-campeã). A Argentina (campeã do torneio) tinha onze e Portugal nove. O Brasil apenas cinco. Isso contradiz a teoria? Provavelmente não. Fora a conhecida habilidade inata que o brasileiro tem para o futebol, nós podemos jogar em qualquer metro quadrado de terreno disponível, com algum objeto que se assemelhe a uma bola. Não fazer parte de uma equipe não reduz tanto assim as oportunidades de um brasileirinho praticar o futebol. Bastante diferente de quando é preciso uma pista de gelo, tacos e um puck.

Mas isso só ocorre no esporte? Parece que não. Um estudo de 2006, das pesquisadoras Kelly Bedard e Elizabeth Dhuey mostra que os resultados em testes de Matemática e Ciências de crianças nascidas nos primeiros meses do ano são significativamente melhores do que das do final do ano.

Na fase escolar, dez ou onze meses fazem muita diferença para o desenvolvimento intelectual de uma criança. Mas o fato mais alarmante nesse estudo é que essas crianças (com melhores resultados) são colocadas em turmas mais avançadas e grupos especiais de estudos – o que as distanciará ainda mais de seus coleguinhas.

Bom, para o primeiro capítulo acho que está bom. Vamos aguardar os próximos… A propósito, eu nasci em outubro.

PÓS-POST: Os outros capítulos já estão prontos. Confira, na ordem: Outliers – as dez mil horas; Outliers – habilidades sociais; e Outliers – epílogo.

____________________

* Disponível no Brasil pela Editora Sextante com o Título “Fora-de-série: outliers, descubra porque algumas pessoas têm sucesso e outras não“.

“The professional hockey player starts out a little bit better than his peers. And  that little difference leads to an opportunity that makes that difference a bit bigger, and that edge in turn leads to another opportunity, which makes the initially small difference bigger still – and on and on until the hockey player is a genuine outlier. But he didn’t start out an outlier. He started just a little bit better.”