Retrato do país II – a educação

Dando continuidade à análise dos recém-publicados dados socio-econômicos iniciada no post anterior, convido o leitor a fazer algumas reflexões sobre o distanciamento entre quantidade e qualidade na educação brasileira. Antes de prosseguir, adianto que não sou professor, nem diretor de escola, muito menos estudioso do tema. Sou apenas um leitor crítico daquilo que o governo tenta nos vender através das prateleiras da mídia.

analfabetismo_na_escola_2O gráfico ao lado mostra o percentual de crianças analfabetas que frequenta a escola. Antes de olhar o gráfico, estranhamos o próprio conceito: como assim, o jovem vai à escola fazer o que, então? Boa pergunta… Como é possível que mais da metade das crianças com 13 anos de idade não saibam ler, apesar de irem para a escola? Verificando a proporção de analfabetos que frequentam as salas de aula, chegamos à essa disparidade entre o muito que se parece fazer e o pouco que efetivamente se realiza.

A simples presença do aluno na escola parece almejar tão-somente uma descarada manipulação nas estatísticas que ora analisamos. Desde os incentivos para que isso ocorra – Bolsa-Escola, Bolsa-Família, Bolsa-Voto (quando criarão o Bolsa-Bolsa?) – passando pelo sistema de ensino propriamente dito (como fica o equilíbrio entre recompensa vs. punição num modelo que não reprova o aluno?) até chegar à propaganda desses pseudo-resultados (“O Governo Fulano aumentou o número de alunos nas escolas”), tudo parece conspirar para a falácia da educação brasileira.

analfabeto_placa Como disse Mark Twain, “Existem três tipos de mentiras: mentiras, mentiras disfarçadas e estatísticas”. Misturando os três tipos conseguimos comparar o que lemos nos jornais sobre o tema com o que encontramos no nosso dia-a-dia. O fato de um jovem passar quatro, cinco anos numa escola sem aprender a ler e a escrever tem um reflexo pernicioso na qualificação da mão-de-obra brasileira. Um enorme contingente de analfabetos funcionais preenche vagas de trabalho por absoluta falta de alternativa.

Você pode pegar um texto em qualquer idioma que use o nosso alfabeto e conseguirá lê-lo. Pode até compreender uma ou outra palavra por sua semelhança com o português ou outra língua latina, mas dificilmente entenderá o contexto. Assim é o analfabeto funcional.

Nossos ambientes de trabalho estão repletos de gente assim. Quem nunca se apavorou com erros de ortografia nos emails que recebe? Ou na absoluta inadequação da pontuação utilizada? Some-se a isso a completa desorganização das idéias, falta de adequação dos termos e incoerência do raciocínio e temos textos absolutamente incompreensíveis. Às vezes tão ruins que nem mesmo seu próprio autor consegue endende-lo.

tecladoTive um assistente que não entendia se o email que recebeu instruía-o a cancelar uma passagem aérea ou a comprar mais cinco. O mesmo fenômeno parece aplicar-se à matemática: estive recentemente num restaurante, onde o garçom não conseguia subtrair 15 de 60 e pagar a conta tornou-se um exercício constrangedor.

Se nas camadas sociais menos favorecidas esse quadro revela-se dramático noutras, onde há maior acesso à educação de qualidade e recursos mais sofisticados, o prognóstico não é muito melhor. Os já citados emails indecifráveis não se restringem aos funcionários dos escalões mais baixos: gerentes e diretores também cometem deslizes incompatíveis com seus cargos. Jovens universitários – de quem esperamos um nível cultural melhor – são altamente limitados naquilo que produzem.

Nas seções dos jornais online onde os leitores fazem seus comentários, os textos seriam cômicos, não fossem trágicos. E num grande periódico carioca, um jornalista que narrava a recente crise econômica fez uma quantia em dólares ficar maior que sua correspondente em euros – mesmo essa moeda sendo mais valorizada que aquela – numa total confusão de proporções.

061024_3livrossabiosfull_2O que percebemos é uma enorme restrição das pessoas em suas fontes de conhecimento. Não escrevem bem, não raciocinam direito, não compreendem as coisas porque lêm pouco ou o fazem sem qualidade. Na era da abundância da informação e da proliferação das fontes online, os livros descansam intocados nas prateleiras. Você, leitor, quando foi que leu algo fora de uma tela de computador? Livros, revistas ou jornais? Com que freqüência isso acontece? Quantos livros lê por ano? Quando foi o último que leu depois que saiu da faculdade?

Longe de ser um um imortal não represento, nem de longe, a perfeição com as palavras, pontuação ou regras formais. Mas tenho certeza que ler meus textos não é nenhum suplício – ao menos no que se refere à sua correção. E você não continua lendo meu blog porque eu sou lindo ou por querer me agradar.

Resta saber, então, até onde continuaremos ouvindo tais mentiras, acreditando nessas balelas e, principalmente, votando nelas.

Retrato do país I – a população

Acaba de ser publicada pelo IBGE a Síntese dos Indicadores Sociais 2008 – Uma análise das condições de vida da população brasileira.

grfico_populaoHá vários dados interessantes sobre melhora da renda e da qualidade de vida no Brasil. Entre 1997 e 2007, por exemplo, o percentual de famílias com renda per capita inferior a ½ salário mínimo caiu de 31,6% para 23,5%, tendo sido a queda mais acentuada no Nordeste (de 53,9% para 43,1%).

Outros números mostram uma mudança no perfil dos nossos lares, como o crescimento do fenômeno DINC (Double Income and No Children) – casais sem filhos, ambos com renda – que quase dobrou para 3,4% (1,9 milhão) de domicílios, com uma renda média é de 3,5 salários mínimos por pessoa.

Com relação à taxa de natalidade – grande preocupação de países em desenvolvimento – 63% das mulheres têm filhos, mas a quantidade de progenitoras com apenas 1 filho subiu de 25,8% para 30,7%. Com relação à idade 6,4% das adolescentes entre 15 e 17 anos são mães – porcentagem que se manteve estável desde o último estudo.
trficoSobre expectativa de vida, nas regiões Sul e Sudeste – com um nível acima das demais – não há grandes diferenças de um Estado para o outro entre o sexo feminino. Mas entre os homens, no Rio de Janeiro vive-se sensivelmente menos. Está abaixo, inclusive, da média nacional. Quem achar que isso está relacionado à violência ganha um doce. É onde se tem, também, a menor taxa de fecundidade e a maior de mortalidade.

Para as mulheres um aviso: Amazonas e Roraima são os únicos Estados brasileiros onde há mais homens do que mulheres. Mas não é muito: só as primeiras 5.219 que chegarem encontrarão essa desproporção. Na região metropolitana do Rio de Janeiro, há aproximadamente 721 mil mulheres sobrando, enquanto que em São Paulo são 938 mil.

Mas o que realmente chamou a minha atenção nos números foi a parte que trata da educação. O Brasil ainda tem uma alta taxa de analfabetismo: são 14,1 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que não sabem ler (10%). A proporção caiu em relação a dez anos atrás, quando eram 14,7%. Ficou ainda menor entre habitantes com renda superior a dois salários mínimos: 1,4%.
2007_ilustracao_censo_jp1A divisão de analfabetismo por raça mostra 6,1% para os brancos, 14% para pretos e pardos (denominação do próprio IBGE). Quando o quesito é sexo, nota-se que a mulher tem, em média, um ano a mais de escolaridade que o homem, além de ter ampliado sua dominância entre os universitários, passando de 53,6% para 57,1%. Em se tratando de idade, no grupo de 15 a 17 anos a freqüência à escola subiu de 77,3% para 82,1%, mas apenas 48,% deles estão na série adequada à idade, contra 26,6% do período anterior. Mas em nenhuma das faixas etárias a média de anos estudados atingiu o nível ideal.

Fiquei um pouco na dúvida com o comentário sobre o aumento da desigualdade entre brancos e negros/pardos nas universidades. Em 1997, 9,6% dos brancos e 2,2% dos negros/pardos com 25 anos ou mais tinham nível superior no país. Dez anos depois os números passaram a ser 13,4% e 4,0%, respectivamente. Vejo pelo menos três maneiras de comparar esses dados (sem dúvida há muito mais):
– Diferença absoluta: quantos porcento um número é maior que o outro num período e a mesma conta para o outro. Nesse caso aumentou, passando de 7,4% para 9,4%.;

– Diferença entre o crescimento de cada uma: o quanto cada percentual cresceu de um período para outro. O percentual de alunos brancos aumentou 40%, enquanto que há mais 84% de negros e pardos nas universidades

– Diferença da razão entre um e outro: quantas vezes um número é maior que outro num período e no outro. O número de brancos era 4,4 vezes maior do que o de negros/pardos e caiu para 3,4 vezes.

Em qual desses números você se embasaria, leitor, para dizer que a desigualdade aumentou ou diminuiu? Ou gostaria de criar o seu próprio racional? Cartas para a redação.

Atocha a tocha

Estou quase arrependido das coisas que tenho falado sobre o acelerador de partículas… Minha bronca maior é com relação ao astronômico custo do projeto e seu tempo de execução, frente àquilo que os estudos ali gerados poderão acrescentar à humanidade. Isso acabou depois que eu vi nos jornais de hoje o parecer inicial do TCU sobre o Pan 2007.

6a00e554b11a2e8833014e8644f638970d-300wiQuando li o que estava nos periódicos achei que estava vendo coisas, sonhando. Pelos fatos em si e pela postura dos jornais. Resolvi buscar na fonte e acessei o site do TCU. A notícia está em destaque na Home Page, sob o inócuo título “Pan 2007: TCU faz determinações ao Ministério do Esporte”.

Curioso, pensei. Vamos ler o documento. Nele, o relator ministro Marcos Vilaça reclama da morosidade do Ministério do Esporte em averiguar o cumprimento dos contratos de reforma do Estádio do Maracanã, Parque Aquático Maria Lenk, do Velódromo e a infra-estrutura da Vila do Pan.

Ora, levaram uns quatro anos para misturar o primeiro saco de cimento e agora vocês querem que expliquem tudo rapidinho? Mais adiante o ministro comenta, também, da “incapacidade dos agentes envolvidos de prever, antecipadamente e de forma realista, os dispêndios necessários à realização de empreendimento desta vanguarda, em face da extraordinária evolução dos gastos da União, que saltaram de pouco mais de R$ 95 milhões para R$ 1,8 bilhão.”

Pausa para respirar. Como é que é? Os custos foram estimados em pouco mais de R$ 95 milhões e fecharam em R$ 1,8 bilhão?? Quase VINTE VEZES MAIS?!?!?! Isso não é um salto qualquer… (Não esqueça que o TCU analisa apenas despesas do Governo Federal. O custo total do evento foi de R$ 3,3 bilhões!)

6a00e554b11a2e8833014e8644fa5c970d-320wi Vamos a algumas pérolas do relatório:

Na construção do Complexo Desportivo de Deodoro, que consumiu R$ 120 milhões, foram apontadas algumas irregularidades: “Inadequação do Projeto Básico, Não-Parcelamento do Objeto, Subcontratação Irregular, Excesso de Alterações Contratuais, Deficiência na Fiscalização do Contrato, Atos de Gestão Antieconômicos e Indícios de Superfaturamento”.

O que foi feito direito? Isso porque, em 2004, o custo havia sido estimado em R$ 36 milhões. Em maio de 2006 ela foi contratada por R$ 77 milhões (mais que o dobro, em dois anos) e, por conta de aditivos contratuais, saiu por R$ 120 milhões. Quase quatro vezes o que foi inicialmente imaginado. Fora isso, tudo bem.

O sistema de credenciamento e acesso às instalações foi orçado em R$ 55 mil. Algumas alterações foram solicitadas posteriormente e esse custo passou para algo em torno de R$ 27 milhões. Não, eu não errei no número: foi de R$ 55 mil para R$ 27 milhões. Quase 500 vezes mais! Bom, ao menos tudo correu às mil maravilhas, certo? ERRADO! Há no documento vários relatos de falhas nos sistemas de acesso.

tocha_pan2007 A tocha é um capítulo à parte. Pagaram R$ 1,5 milhão por 4.000 tochas. Apenas 460 foram entregues e 102 sobraram intactas. Ou seja, apenas 358 foram necessárias. Quem previu 3.642 a mais? DEZ VEZES??? E onde as 3.540 que não foram entregues foram atochadas?

O que eu considero um maravilhoso exercício de fantasia é o TCU dizer que existem “indícios” de que há algo errado. Imagine que você pede à sua empregada para ir na padaria comprar cinco pães e ela te diz, na volta, que eles custaram R$ 25,00. Estranho… Seu filho diz que vai ao McDonald’s com o seu cartão, e um Big Mac custa-lhe R$ 300,00. Que coisa… Ou sua esposa abastece o carro com R$ 2.500,00. Humm… acho que tem algo errado…

PERAÍ, PORRA!! Há pelo menos seis anos sabia-se que o Pan seria no Rio de Janeiro! Em outubro de 2005 o TCU alega que avisou às autoridades sobre a falta de planejamento na execução das obras. O contrato da empresa que fiscalizou as obras era irregular, feito sem licitação.

6a00e554b11a2e88330147e2c5bae2970b-300wi Tudo foi concluído às pressas. O asfalto da Vila do Pan cedeu dias antes das competições. Teve epidemia de dengue.

A hospedagem de cada atleta ou membro de delegação desportiva custou ao poder público R$1.137,00 por dia. E isso porque se amontoavam três ou quatro em cada quarto. Dava para ter ficado no Copacabana Palace. Sem dengue!

Se uma conta prevista em R$ 95 milhões fecha em R$ 1,8 bilhão, das duas uma: quem tocou esse projeto é muito burro ou é um ladrão. Em qualquer um dos casos não serve para gerir o meu, o seu, o nosso dinheiro. Alguém foi demitido por errar tanto assim, ou preso por roubar tanto assim? Quem vai responder por isso?

Por favor, não façam uma Copa do Mundo no Brasil! Olimpíadas em 2016? Brincadeira de mau gosto… Vai ser muito triste passar por isso novamente. Como brasileiro, que paga impostos, acho isso humilhante.

Peguem esse dinheiro e construam um mini-acelerador de partículas, em nome da ciência. Tudo bem que, com esses planejadores, orçamentistas e gestores de obras que temos aqui, o túnel mal vai dar a volta no quarteirão e a partícula vai parar no meio do caminho, sem velocidade. A única coisa que vai até o final é o dinheiro. Acelerado!