Quero meus 4 porcento!

Outro dia conversei com um especialista em tributação e ele me contou algo digno de nota: se a alíquota de impostos fosse uniforme, igual para todo mundo, todos nós pagaríamos menos impostos. Isso você já deve ter ouvido falar, certo? Mas o que você provavelmente não sabe é quanto seria essa alíquota.

Quero meus 4 porcentoEstá sentado? Pois ela seria de 4%. Isso mesmo: 4%. Em extenso, para não haver dúvidas: quatro porcento.

A explicação é muito simples e lógica, desde que não seja você o responsável pela criação das políticas, porque aí você deve ser bem burrinho e isso vai passar longe da sua capacidade.

Arrecadação de impostos é um jogo de soma-zero que, segundo a Teoria dos Jogos, é quando para um lado ganhar algo, o outro lado tem que perder este mesmo algo. O governo não faz como uma empresa normal que, ao deparar-se com uma despesa inesperada, corta seus custos em outra área para compensar. (Na verdade ele faz até o contrário: quanto mais aumenta o déficit, mais ele contrata gente para aparelhar o Estado.) O que ele faz ao diminuir ou eliminar uma alíquota é aumentar outra, para compensar a perda.

Assim, quando alguns medicamentos têm seus impostos zerados, esta conta vai para outras categorias de produtos, como combustíveis, por exemlpo. O efeito prático disso é que alguém tem que transportar a matéria prima dos medicamentos, alguém tem que levar os trabalhadores até a fábrica de medicamentos, alguém tem que levar os medicamentos até os distribuidores, alguém tem que levar os medicamentos até as farmácias. E este alguém usa combustível, cujos impostos foram aumentados para compensar a isenção dos medicamentos. Percebe que o preço final é o mesmo, se não maior?

– Mas se é um jogo de soma zero, Rodolfo, então não faz diferença, dirão os mais atentos.

Claro que faz. Em primeiro lugar porque se a cadeia produtiva do setor em questão fizer uso intensivo do produto cuja alíquota a está subsidiando, então o preço sobe. Em segundo lugar porque a zona que se criou com a incompreensível legislação tributária brasileira precisa de uma absurda máquina administrativa para operar, cujo custo é altíssimo. Com uma alíquota única o trabalho seria infinitamente mais simples e, consequentemente, mais barato.

Fora isso, uma alíquota única e universal impediria a guerra fiscal entre os Estados que, além de ilegal, prejudica todo mundo.

Mas então por que existem isenções de impostos? Por que essas medidas são tomadas, se no fim todo mundo sai perdendo?

Isenções de impostos são medidas populistas que parecem ajudar no curto prazo, mas que mandam a conta depois. E é claro que não é todo mundo que sai perdendo. O Governo ganha porque o povo acha que está levando alguma vantagem – e este é o principal objetivo de vida do brasileiro.

Então ele fica feliz de comprar alface sem imposto, mas paga 40% de impostos em um carro. Uma diferença que daria para abastecer sua casa de alface por cinco gerações.

O bonzinho e o bundão

Em recente entrevista, durante a inauguração de um estádio em Natal, a presidente Dilma reforçou seu discurso ufanista tecendo maravilhas sobre o campeonato de futebol que nosso país talvez sedie em junho. Como de praxe, suas palavras pediram o apoio público ao evento e, por extensão, às obras realizadas para tal:

“É como dizia Nelson Rodrigues: não é possível apostar no pior. O governador [do Paraná, Beto Richa], o prefeito [de Curitiba, Gustavo Fruet] e o empresário [CAP/SA] vão fazer estádio no prazo. O Brasil tem que apostar a seu favor, não contra”

O bonzinho e o bundãoCitando o canteiro de obras do Paraná, Dilma apela às pessoas que ela diz torcer para tudo dar errado na Copa. Que o dever do brasileiro é torcer pelo Brasil.

Aqui eu me incluo fora dessa.

Eu quero, SIM, que dê tudo errado nesta Copa, por um simples motivo: quando as coisas dão certo no final, todo mundo acha que tudo foi feito de maneira correta desde o início.

Este é um erro grave. Um bom resultado não significa, necessariamente, que boas decisões foram tomadas.

Mas ninguém fica revendo as decisões tomadas depois de um bom resultado. E, ainda pior, elas tendem a se repetir. Decisões só costumam ser revistas quando algo dá errado de verdade. E enquanto nós, brasileiros, continuarmos a achar que nosso país está dando certo, nada faremos para mudá-lo.

Antes que digam que este é um discurso anti-PT, adianto que estou me referindo a “país que dá certo” em um sentido muito mais amplo do que o vosso complexo de perseguição alcança.

Não me refiro apenas aos problemas de corrupção (que ocorrem, sabemos, independentemente da sigla), mas a mazelas muito mais profundas da nossa sociedade. Além da corrupção, temos a violência, o altíssimo custo de vida, os impostos e aquela lista a que, infelizmente, já nos acostumamos.

O “infelizmente” acima, no entanto, refere-se ao “nos acostumamos”, não aos problemas. Porque o brasileiro é, antes de tudo, um povo acostumado a se foder. Acostumado a sofrer violências. Acostumado a pagar caro por tudo. Acostumado a não fazer nada. Acostumado a ser passivo, fraco, bonzinho, bundão. Acostumado a achar que é feio torcer contra.

Enquanto o povo continuar assim, nada muda. Enquanto acharmos que é erradinho torcer contra, vamos continuar a sofrer violências, pagar caro e só ficar olhando. Enquanto acharmos que as coisas dão certo por fora, não saberemos o que deu errado por dentro.

Como em vezes anteriores, este texto ficou com ares um tanto pessimistas. Mas ainda vai piorar.

Eu acho que o país tem jeito sim. Acho que as coisas aqui podem mudar. Mas as mudanças não virão de pessoas comuns, como eu e você, que um belo dia acordarão e irão para as ruas mudar o país. Aquelas manifestações patéticas do ano passado deixaram isto bem claro. As mudanças também não virão de movimentos organizados e líderes políticos.

Infelizmente, mais uma vez, as mudanças de que este país precisam só virão quando ocorrer uma grande, enorme tragédia.

Não falo em tragédias como perder a final da Copa do Mundo em pleno Maracanã (se você pensou isso, está perdendo a transmissão do BBB e eu não quero te atrapalhar). Também não me refiro ao estouro de uma possível bolha imobiliária, ou outro tipo de crise financeira. Nem de vinte centavos. (Aliás, no fim das contas, era isso mesmo, né?) Como disse antes, esse tipo de coisa não abala o brasileiro, este ser tão acostumado a se foder.

Lamentavelmente precisaremos de algo grave, muito grave. Algo que jamais tivemos. Muitas pessoas só se transformam após traumas aparentemente irrecuperáveis. Assim parece acontecer com povos, também. Os exemplos estão aí, para quem quiser ver. E para quem não quiser também.

A ditadura da liberdade

O tema é a onda de rolezinho que, por enquanto, anda assustando a paulicéia e adjacências. Mas poderia ser a sequência de manifestações que, inutilmente, varreu o país no ano passado. Fique comigo mais um pouco e você entenderá o porquê.

Através das redes sociais, jovens combinam de se encontrar em grandes shoppings da cidade. O motivo? Confesso que até o momento não sei. Combinam pela simples razão de combinar. Encontram-se pelo simples motivo de se encontrar. Ou pelo menos era assim no início.

Depois do primeiro evento, os responsáveis pelos shoppings ficaram preocupados – e com muita razão para isso. (Explico mais tarde.) Ato contínuo, tomaram providências para evitar riscos, tanto às pessoas que frequentam os locais, quanto ao patrimônio de quem os paga para zelar.

Então, como de hábito, vêm os defensores das minorias (que, neste caso, é maioria, mas não vem ao caso), das liberdades, dos inocentes e desprivilegiados. Sem pestanejar, traçam uma grossa e definitiva linha separando estes dos ricos, poderosos, segregacionistas, nazistas, fascistas, usurpadores, elitistas, arianos e assemelhados. Chegaram a sugerir a formação de um apartheid.

Então, como de hábito novamente, somos todos obrigados a aceitar essa divisão e escolher um lado. Porque se você é legal, você tem que defender o rolezinho. Se não, cai em uma das nefastas categorias do segundo bloco. Sem meio termo, sem argumentação. Em nome da liberdade, você é forçado a concordar com os movimentos sociais, mesmo que eles sejam apenas movimentos, sem conotações sociais.

Aqui começam as semelhanças com o inútil inverno dos 20 centavos: uma reunião que começou com uma finalidade, mas que logo foi usurpada e deturpada por outros grupos – estes, sim, com uma agenda específica e definida.

O enredo chega a ser patético, de tão batido e primário: jovens combinam de se encontrar – repito: só por se encontrar – e logo enxergam uma geração descontente, protestando contra uma sociedade injusta, que propositadamente nega-lhe o futuro a que têm direito.

Em outras palavras: o pessoal vai passear no shopping e isso vira notícia. A notícia é transformada em movimento. O movimento passa a ser entendido como rebelião. A rebelião passa a ser a verdade absoluta, com ares de justiça social. E ai de quem discordar.

Agora vamos à parte que está todo mundo pisando em ovos para debater, sequer enxergar:

A grande mentira por trás de tudo o que se diz sobre o rolezinho é que, como de hábito – pela terceira vez – tomam liberdade como um conceito absoluto. E a partir deste ponto tudo se deturpa.

Shopping centers são locais fechados, com acessos limitados e, por isso, potencialmente perigosos quando se junta muita gente – independentemente da classe social desta “muita gente”. Quando uma multidão entra em pânico, não importa se é composta por analfabetos ou doutores, por serventes ou servidos. Todos saem correndo, passando por cima de quem estiver à frente.

Gente morre pisoteada por causa disso e não fica bonita na foto. Alguns, inclusive, aproveitam-se desses momentos para depredar e saquear lojas, como no ano passado. Só que isso, obviamente, fica em segundo plano. Lembrar disso, aliás, é preconceituoso.

Mas de onde vem esse preconceito? Se os dirigentes dos shoppings estão reforçando sua segurança e chamando a polícia – precaução que seria tomada em qualquer lugar do mundo – isso não é preocupação com a segurança, é preconceito. Mas preconceito de quem? De quem faz ou de quem julga?

E se nenhuma providência for tomada e acontecer uma tragédia? Culparão os shoppings e o poder público por omissão? Os mortos tornar-se-ão mártires de um mundo injusto? E se um parente seu estiver na lista, isso muda?

Acho bacana todo esse pessoal defendendo os rolezinhos, protegidos atrás dos muros altos dos seus condomínios, na segurança e conforto de seus lares. Mas eu quero ver você, defensor do rolezinho enquanto manifestação social legítima, ter coragem de ficar num shopping com seus filhos, assistindo a cenas como estas:

Quero ver você, árduo defensor das minorias, pensar que fugir correndo de um ambiente assim é coisa de gente preconceituosa. Que as pessoas mostradas no vídeo estão exercendo seus direitos, gozando de sua liberdade, plena e absoluta como gostam de definir.

Nem pensar, né? Você vai sair correndo, se borrando de medo. Vai se esquecer do seu belo discurso sobre igualdade e tentar, a todo custo, proteger seus filhinhos apavorados, procurando minimizar o inveitável trauma.

Como disse há pouco, liberdade não é um conceito absoluto. Neste caso, estão confundindo a liberdade de ir aos lugares públicos com a liberdade de criar tumulto. Estão confundindo liberdade com anarquia. Tal como aconteceu no inverno dos 20 centavos. E sempre haverá gente disposta a tirar proveito disso.

Lembram-se qual foi a consequência daquelas manifestações do ano passado? Os resultados? Bem, de benefícios práticos para a população o saldo foi zero. Como herança, no entanto, agora temos  manifestações todos os dias, por todos os motivos. Os reais e os banais.

Trinta pessoas se reunem para protestar contra a mudança de mão de uma rua e fecham a Via Dutra, a mais importante rodovia federal. Tudo bem. Cinquenta professores se juntam para reivindicar mais segurança e bloqueiam a Avenida Paulista. Estão no seu direito. Quinze alunos se aglomeram para pedir mais verbas para a educação e interditam a Ponte Rio-Niterói. Pobrezinhos.

Pois bem, os Sem-Terra já marcaram seu rolezinho em shoppings da Zona Sul de São Paulo. É só o começo.

Houve, ainda, quem fizesse a esdrúxula comparação entre o rolezinho e o flash mob que, segundo querem fazer crer, é o rolezinho do rico e por isso é permitido. Faz-me rir o argumento, especialmente quando vemos um flash mob deste quilate:

– Mas isso é na Europa, não dá para comparar, dirão alguns. Claro que não dá para comparar! Especialmente enquanto nós mesmos formos os responsáveis por reforçar o aparentemente intransponível abismo entre nós e o Velho Continente.

Então eu pergunto por quê não há rolezinhos nos museus da cidade? Nas bibliotecas? Nas inúmeras ofertas de lazer e cultura que as cidades proporcionam, mas que vivem às moscas?

– Porque no shopping a gente vai causar, dirão os jovens.

– Porque os jovens não têm esses hábitos, são de uma outra geração, responderão os mais velhos, os engajados.

– Ora, deste jeito, jamais terão esses hábitos. Jamais sairão da condição em que vivem, retrucarei eu.

São, por natureza, por herança, desprivilegiados. Não têm dinheiro nem acesso à cultura. Em parte isso é verdade. Em parte, porque como pode ser visto no primeiro vídeo, têm dinheiro para nikes, abercrombies e smartphones. E “causar” vem em primeiro lugar. Mas muitos escolhem fazer parte desta geração nem nem – que nem estuda, nem trabalha e, segundo o IBGE, soma 20% dos jovens.

Certamente muitos torcerão o nariz para o “escolhem”, em negrito na frase anterior. A eles eu respondo que alguns dessa geração conseguem se decolar de seus pares e trilhar caminhos diferentes, mesmo partindo das mesmas condições que seus pares. Se isso acontece é porque isso é possível. Porque estes alguns também escolhem dar outros rumos para suas vidas – sem que seja preciso renunciar às suas origens. É preciso apenas vontade e coragem.

Vontade de mudar de vida e coragem para não se deixar enganar por quem passa-lhes a mão na cabeça, perdoando seus pecados e legitimando suas faltas. Escapam de seus pseudodefensores que, no fundo, são os grandes responsáveis pela perpetuação desta condição, na medida em que os coloca na posição de pobres vítimas.

Desfile de cretinice

Ministra ignora decisão da comissão que avalia projetos e autoriza três estilistas a captarem R$ 7,4 milhões para desfiles em São Paulo, Paris e Nova York

Em condições normais eu deveria ficar surpreso com a notícia acima, veiculada hoje em O GLOBO. Não o faço por três motivos básicos:

1. Envolve o Ministério da Cultura: Desde sempre, este é um tema que não é levado a sério no país. Pior ainda, vale-se de incentivos fiscais – que é dinheiro! – para patrocinar eventos sem nenhuma relevância neste contexto, tais como musicais da Broadway, shows de artistas consagrados e filmes da Xuxa. Nada contra os dois primeiros, mas há outras prioridades.

2. Envolve o PT: O Partido dos Trambiques abandonou de vez o bom senso, a vergonha, o escrúpulo. Já nem tenta mais disfarçar. Provavelmente porque descobriu que não precisa disfarçar. O povo se contenta em quebrar umas vidraças de vez em quando e acha que fez uma revolução.

3. Envolve a Marta Suplicy: Desde o episódio do “relaxa e goza”, no qual esta senhora demonstrou  uma irreconciliável distância entre o mundo em que vive e a realidade brasileira, sua figura deveria ter sido banida da vida pública, relegando-a tão somente à privada*. Para o Partido das Tramóias, no entanto, defeitos deste tipo são vistos como virtudes.

Sobre o fato, em si, a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (vinculada ao MinC) já havia negado o pedido de verba. Sete conselheiros votaram contra e sete se abstiveram. Nenhum votou a favor mas, mesmo assim, Marta passou por cima desta decisão, desautorizou sua área técnica e empurrou o projeto goela abaixo.

Como destacou a Folha de São Paulo, em reportagem sobre a sandice, o público de um desfile deste porte é de cerca de 300 pessoas. Dividindo o valor de cada projeto, dá cerca de R$ 4.700,00 por pessoa, para assistir a um desfile de modas.

- Relaxem e gozem, meus amores!
– Relaxem e gozem, meus amores!

Pedro Lourenço, por exemplo, agraciado com R$ 2,8 milhões de Reais, faz uma coleção inspirada em Carmen Miranda. Um dos argumentos de Marta sustenta-se na divulgação da imagem do Brasil no exterior.

Carmen Miranda, sabemos, era PORTUGUESA! E com todo o respeito à Pequena Notável, não consigo enxergar como uma moça de maiô carregando uma feira na cabeça pode melhorar nossa imagem. Antes, vai apenas reforçar o estereótipo malandro-tropical-sexual.

Se moda é ou não é cultura, não me cabe discutir. Mas certamente não deveria ser uma prioridade do Governo. Se, mesmo assim, o objetivo for desenvolver o setor aqui no Brasil, o incentivo precisaria focar em quem não tem este tipo de oportunidade – como costureiras e estilistas de comunidades carentes – e não em nomes já consagrados.

O mesmo vale para espetáculos do Cirque du Soleil e peças do Miguel Falabella. Com ingressos a meio salário mínimo, de quê forma um incentivo do Governo está fomentando a cultura?

Mais uma vez, a velha prática de lotear cargos públicos para atender interesses políticos coloca gente incompetente para decidir assuntos importantes. E como Marta já não consegue mais se eleger nem síndica do prédio, o PT vive procurando uma forma de dar-lhe sua mesada. O que prova, mais uma vez, que este Governo não liga a mínima para a Cultura.

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* Não esqueçamos, também, da sua campanha pela Prefeitura de São Paulo em 2008, baseada em alegações sobre a duvidosa sexualidade de seu oponente.