Eu torço por mim

Estou vendo um monte de gente dizendo que vai torcer na Copa, porque a seleção não tem nada a ver com os problemas do país. Se a seleção não tem nada a ver com os problemas do país, então o que ela tem a ver com você? Se esta seleção não te representa, qual o sentido dessa paixão, desse amor?

Eu torço por mimVamos recapitular uma coisinha que disse tempos atrás: a seleção brasileira é uma empresa. Você está torcendo por uma empresa que, por acaso, veste uma camisa amarela, às vezes azul. É como se você estivesse indo ao estádio torcer pela Coca-Cola ou pela Petrobrás. É uma empresa que há pouco você mesmo pedia a prisão do seu presidente, por corrupção. Ele, aliás, continua morrendo de rir daquilo.

Eu também torci em 1982, 1986, 1990… Mas o tempo passou e não sou mais aquela criança que achava Spectreman o máximo. Também já achei que o Carnaval era a coisa mais divertida do mundo e que beber todo dia na faculdade era o paraíso. Não é porque fiz uma vez e achei divertido que vou me sentir na obrigação de repetir o tempo todo. Isso não é motivo, é desculpa. E quando você pede desculpas antecipadas por algo que vai fazer, caceta, dá tempo de mudar.

“Espírito de Copa”. Sério, o que é isso? De verdade, pensa de onde vem isso, se não da TV! A TV que você diz odiar. “Todo mundo se abraçando nas ruas, comemorando juntos”. Sério, o que é isso? Você realmente acha o máximo fazer isso uma vez na vida e depois voltar a olhar para os estranhos como leprosos? Só porque você abraça um estranho na rua, já se acha a melhor pessoa do mundo?

E o seu trabalho? Você vive dizendo que é ocupadíssimo, que não tem tempo para nada, que não pode passar algumas horas a mais com seus filhos. Que não consegue tirar férias. Que não tem como fazer uma pós-graduação nem estudar Inglês. Mas vai deixar tudo de lado para ver o futebol. Vai assistir Bósnia X Irã. OK, cada um sabe das suas prioridades.

Eu torço por mim. Vou aproveitar este mês de hipnose nacional para alavancar os meus negócios, adiantar meus projetos. Vou trabalhar duro enquanto todos vivem essa fantasia e falam do mesmíssimo assunto aborrecido, o dia todo. E no dia 13 de julho, quando isso acabar, vá no caixa eletrônico ou acesse sua conta pelo home banking, tire um extrato e responda: independentemente do campeão, o que mudou na sua vida?

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ADENDO: Outra pachecada típica é aquela assim: “Vamos tratar bem os torcedores que estão vindo para a Copa”. Se você é o Príncipe Não-Sei-O-Quê de Orleans e Bragança, você tem certa legitimidade, embora esteja defasado. Mas se você é um reles mortal, como eu, que tipo de pedido é esse, insinuando que somos um bando de selvagens e tratamos mal as pessoas? E porque a preocupação a respeito do tratamento só com o turista e só em tempo de Copa do Mundo? Isso é muito vira-lata!

Outra: “Vamos mostrar ao mundo que somos capazes de fazer isso e aquilo”. Pra quê? Sério, pra quê? Vamos ganhar uma plaquinha, ou algo assim? Temos que mostrar a nós mesmos que somos capazes de fazer o básico, porque somos bem ruins nisso. Isso é muito vira-lata!

Ode ao Passaralho

Muitos dos meus textos mais recentes tiveram a Imprensa como tema secundário, ou mesmo central. E como, atualmente, a Imprensa tem tido grande destaque na Imprensa, voltemos a ele, pois.

Para quem ainda não está familiarizado com o termo do título (refiro-me, lógico, ao Passaralho, porque se você não sabe o que é Ode, está no blog errado), trata-se do nome popular da espécie caralhus fudencius, do gênero desempregus iminentis, da família negocius falidus, da ordem non-innovatus, da classe novus economicae, do filo globalizatium, do reino communicatus.

Como ave de rapina que é, há tempos o Passaralho vem ceifando empregos mundo afora. Se ora ele volta seu instinto predatório às redações de jornais e outros veículos de imprensa com especial voracidade, é preciso entender o porquê de este habitat ter-se tornado o paraíso gastronômico desta insaciável criatura.

Em 2007, quando li The Black Swan – no qual o Nassim Taleb revela ter parado de ler jornais, pelo simples fato de que eles não lhe acrescentavam nada – comecei a perceber que o autor tinha razão. O tempo investido em periódicos poderia ser utilizado em atividades mais produtivas, como dormir por exemplo.

De lá para cá – e estamos falando em um curto período de seis anos – o cenário piorou bastante, mas somente para quem ainda cultiva o hábito de ler jornais. Para estas pessoas, o que antes era conhecido como notícia agora resume-se a escândalos com pseudopersonalidades e peladeiros, bizarrices cotidianas, vulgaridades aleatórias, violência gratuita e impune, além de outros tipos de variações escatológicas de comportamento, tão grotescas quanto inúteis.

E se no passado tal categoria ficava restrita a tablóides sensacionalistas e veículos com pouca credibilidade, hoje ela representa o establishment. Abra um jornal centenário e você lerá um resumo da novela das oito, digo, das nove. Visite um grande portal de internet e você saberá o que um Brother da edição de cinco anos atrás almoçou anteontem. Assista um telejornal no horário nobre e você descubrirá o que inspirou o funk safadinho que está bombando nas redes sociais. Este é o retrato da Imprensa atual.

O obsoleto tratamento de Laranja Mecânica: ninguém mais precisa ser obrigado a consumir lixo
O obsoleto tratamento de Laranja Mecânica: ninguém mais precisa ser obrigado a consumir lixo

Mas a vertiginosa queda na qualidade da Imprensa foi uma consequência da falência do seu modelo de distribuição – e não a sua causa.

Incapazes de lidar com a concorrência da Internet e da distribuição gratuita de conteúdo, a mídia impressa sucumbiu ao seu poder e, incapaz de encontrar uma alternativa econômica viável, aderiu a um formato para o qual não estava preparada – e não está até hoje.

O resultado disto foi a juniorização das redações, onde crianças escrevem para crianças e as fotos e letras são cada vez maiores, em detrimento do conteúdo cada vez mais pobre e insosso. Fosse hoje, a queda do muro de Berlim seria noticiada com uma grande foto e três parágrafos, dois dos quais comentando a roupa da Angelina Jolie, madrinha do evento.

Enquanto os paladinos anonimistas celebram a distribuição gratuita dos conteúdos dos mais importantes jornais do mundo, os Diretores Financeiros destes conglomerados se contorcem para fechar as contas. Eles sabem que não existe almoço grátis.

Eles sabem que a vertiginosa queda nas receitas de assinaturas deverão ser compensadas por incessantes revoadas de Passaralhos. E eles também sabem que, em breve, os anonimistas não terão mais nada para ler, a não ser fofoquinhas imbecis escritas por meninos imberbes. Os mesmos que amanhã serão petiscos de Passaralhos. Muito sem gosto, aliás.

Dito assim, parece que os jornalistas são vítimas da inadequação de um negócio à nova ordem econômica, que já quebrou muitas indústrias adormecidas, mas que só agora derrama sua praga sobre a Imprensa.

Mas não é bem assim. Eles deixaram que isso acontecesse. Foram espectadores passivos de sua própria desgraça. Contribuíram decisivamente para construir este cenário de dor e ranger de dentes, ao se acovardar diante de uma realidade na qual valiam menos do que as cadeiras nas quais sentavam suas bundas.

Em cada notinha sobre Chico Buarque atravessando a rua no Leblon, em cada matéria sobre um idiota que bateu o recorde de engolir calangos vivos, em cada debate idiota sobre a psicologia do sujeito que estuprou a própria mãe os jornalistas se tornavam cada vez menos jornalistas.

De pauta em pauta, ergueram masmorras e calabouços nos quais se contorcem hoje. Tal qual o sapo colocado em uma panela com água, que morre porque não percebe que a temperatura vai subindo aos poucos, os jornalistas foram incapazes de perceber as mudanças graduais do seu ambiente. Ou perceberam, mas continuaram acomodados.

Deixaram que sua profissão fosse transformada em entretenimento barato – tanto no sentido de preço baixo quanto no de mediocridade. E ambas as interpretações voltam, agora, a assombrar-lhes, pois são pagos miseravelmente e tratados com indisfarçado desprezo.

Esperemos, então, que esta revoada de Passaralhos cumpra o seu papel evolutivo na seleção natural. Que seu apetite promova as mudanças necessárias e lembre, de forma contundente, que o jornalismo tem uma função muito mais nobre na sociedade. E que sua sombra seja o aviso sempre presente de que é preciso ser fiel àquilo em que se acredita. Que todos devem honrar a profissão que escolheram. Que o jornalismo deve ser algo parecido com a cena abaixo:

(Este é o mais brilhante momento – dentre tantos outros memoráveis – da série The Newsroom, cuja segunda temporada está por começar. Recomendo!)

Muita gente diz por aí que a Imprensa está morrendo. Eu discordo. Ela já morreu faz tempo. Falta só enterrar. E, enquanto isso, o corpo fica fedendo por aí.

Pai patrão

Acompanho intrigado um processo trabalhista que ganhou a mídia, no qual o reclamante acusa seu ex-empregador de assédio moral. A suposta vítima responsabiliza a Ambev por obrigá-lo a participar de reuniões de vendas em que garotas de programa desfilavam nuas e eram oferecidas como prêmios por alcançar metas de vendas.

Já ouvi diversas histórias tristes de gente que trabalhou na Ambev, falando de seus métodos pouco ortodoxos de trabalho. Além da lavagem cerebral que proíbe seus funcionários de consumir qualquer produto do concorrente, há um regime de trabalho extremamente puxado e uma exagerada competição interna – sempre incentivada pelos gestores.

Se a publicidade é assim, o que você espera da empresa?
Se a publicidade é assim, o que você espera da empresa?

Mesmo estas práticas gerenciais sendo públicas e notórias, a Ambev continua sendo o sonho de consumo de muitos profissionais – especialmente de trainees.

A razão é muito simples: a política de remuneração da empresa é agressiva, isto é, ela paga muito bem.

À primeira vista, os candidatos parecem dispostos a trocar um quinhão da sua dignidade por dinheiro. Aceitam colocar a ambição profissional antes de seus valores pessoais.

Uma vez lá dentro, no entanto, percebem o erro que cometeram – ou o quão fracos são.

Havia, porém, outra coisa que me parecia estranha na reportagem: se o funcionário estava tão insatisfeito com as normas da empresa, por que simplesmente não pedia demissão? Ou por que não fazia uma denúncia formal à área de governança corporativa?

A resposta estava um pouco adiante: ele queria ser demitido, mas a companhia não concordava. Ou seja: ele queria receber mais dinheiro, para deixar a empresa por sua livre e espontânea vontade.

A prática – pedir para ser demitido para receber a multa de 40% do FGTS, além do direito de sacar o fundo – é tão disseminada que ninguém questiona sua legitimidade, tampouco sua ética. Por conta disto, o rapaz da reportagem conta que ficou mais dois anos na Ambev, até que sua demissão fosse liberada – e ele pudesse se livrar do ambiente que tanto lhe fazia mal, coitado. E aí, mesmo conseguindo a demissão como queria, entrou na Justiça do Trabalho contra a empresa, por assédio moral.

Ora, a regra faz parte da Consolidação das Leis do Trabalho e seu objetivo é garantir alguns direitos básicos do trabalhador. Mas, como tantas outras coisas no Brasil, ela acabou tomando ares de direito adquirido e passou a ser exigido mesmo por aqueles que tomam a decisão de se desligar do seu empregador. O trabalhador pega, então, algo que deveria proteger-lhe e usa como arma contra seu patrão.

Este mesmo trabalhador depois vem reclamar que faltam empregos com carteira assinada, que a empresa quer pagar por fora ou contratar através de pessoa jurídica. Este mesmo trabalhador depois reclama que o custo Brasil é muito alto, que os impostos oprimem a classe média e que os políticos têm muitos benefícios.

Quando este trabalhador for reclamar na imprensa – ou na Justiça – que se sentia um lixo ao trabalhar ao lado de garotas de programa, deveria pensar antes em quê ele difere delas. Fora o fato de desprezá-las gratuitamente.

Conteúdo de pelúcia

Como é comum em muitos mercados, a imprensa obedece, também, às dinâmicas de oferta e demanda, entregando ao seu público aquilo que ele deseja ter. Por isso temos sexo e sangue na novela das oito, sexo e sangue nos telejornais e sexo e sangue nos programas de auditório.

A mídia impressa – e sua prima mais nova, a Internet – varia um pouco mais seus temas, adicionando elementos mais úteis e inteligentes a seu portifólio de assuntos: além de sexo e sangue, tem também os bichinhos fofinhos, as frases de autoajuda, a celebração do calendário semanal (ver foto) e, claro, fofocas.

A programação de uma emissora ou editora será, portanto, tão imbecil quanto sua audiência. Só que nesta relação entre oferta e demanda, a influência exercida de uma sobre a outra tem sido somente no sentido de piorar a qualidade do que se transmite ou publica.

PeluciaDesde que me entendo por gente, jamais vi a população boicotar deliberadamente um veículo porque os temas abordados eram ruins. Só vi quebrarem jornais que tentavam ir contra a maré, mantendo-se fiéis a alguns parcos princípios editoriais. Mas sem bunda nem soco no olho, ninguém se mantém.

Recentemente, o acidental domínio das redes sociais sobre os conteúdos da mídia vem tratando de acelerar o processo de idiotização da audiência. Tal como crianças (menores de cinco anos) e analfabetos, ninguém lê mais nada e a navegação apressada resume-se a ver figuras – de preferência as que remetam àquela infância na qual o cérebro ficou estacionado.

Então, o que dá audiência nas redes sociais hoje – e tem muita gente achando que esta é a tendência do momento e que será assim para sempre – são as fotos de bichinhos fofinhos, frases rasteiras de autoajuda sobre ilustrações de artesanato de quermesse e, last but not least, torcidas organizadas para personagens de novelas – os atuais heróis nacionais, já que estamos na entressafra do Big Brother.

Temos, então, que mesmo os veículos especializados vem se entregando à esta tendência, incapazes de oferecer algo melhor àquela que, antes, era uma audiência qualificada. É por isso que revistas de negócio agora estampam bichinhos fofinhos em suas fan pages, buscando um público que não tem a menor ideia do que seja core business ou inovação disruptiva – o que é até bom, considerando que suas redações, cada vez mais juniorizadas, também não sabem escrever sobre isso.

Quando deparei-me com o descrito acima, logo pensei: “Agora só falta colocar mulher pelada nesta revista.”

Pois não falta mais! A foto seguinte, da mesma publicação, tinha uma elaborada desculpa (Artistas tiram a roupa para mostrar o que alimenta sua alma), mas a inegável essência. Como meu monitor não projeta ectoplasma, em vez de almas eu vi peitos e bundas.

Se você fizer o tipo puritano e não quiser conferir a arrojada matéria, aceite outra sugestão que encarna, certamente, o suprassumo da literatura gerencial: Artistas americanos recriam quadros usando jujubas.

Muitos dizem que a mídia tradicional está morrendo por causa da Internet. Não é verdade. A mídia tradicional definha junto com o Q.I. da sua audiência. As tecnologias surgidas recentemente tinham tudo para impulsionar um salto de maturidade nos provedores de conteúdo. Mas parece ter ocorrido o inverso, deixando prostrado o espectador – que não é inocente neste processo -, agarrado ao seu conteúdo de pelúcia. Fofinho e estúpido.

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Leia mais sobre o acelerado declínio da imprensa:

A viralização da violência – quando um anúncio causa mais espanto do que um homicídio

Publicando o joio – o editor é alguém que separa o joio do trigo, e publica o joio.

Sua próxima vítima – por que os massacres de escola são culpa sua, seu sádico?

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As periguetes e os virgens – moçoilas arrojadas e príncipes lisos na semana do julgamento do Mensalão.