Entrevista com Nicholas Carr

FOTO: Cláudio Rossi
FOTO: Cláudio Rossi

No último dia 1o tive a oportunidade de encontrar Nicholas Carr, por ocasião de um evento em São Paulo onde ele foi o keynote speaker. Apesar do seu jeitão introspectivo, Carr respondia bem às previsíveis provocações deste que vos escreve, tornando a entrevista uma agradabilíssima conversa sobre tecnologia, inovação, raciocínio e – por que não? – filosofia.

Agradeço a todos os que me enviaram perguntas (espero que consigam identificá-las no meio do texto) e, antecipadamente, aos que lerão até o final. Um obrigado, também, ao pessoal da INFO Exame, que me proporcionou o encontro e, especialmente, à Amanda Salim, da parceira Você S/A, que uniu todas as pontas e me colocou na cara do gol.

– Em seu novo livro, Nassim Taleb usa o mito grego da Cama de Procusto* para descrever algumas aberrações corporativas do mundo moderno. Você acha que a indústria de TI funciona assim?

6a00e554b11a2e88330148c6864110970c-120wi Acho que em alguns casos sim. O que é estranho nas empresas de TI é que elas usam uma abordagem oposta, tentando customizar tudo, de forma a poderem cobrar mais por isso. Então é o problema oposto, vendendo uma solução única para cada companhia, em vez de perceber que muita coisa pode ser padronizada. Talvez o mais correto seja dizer que eles fazem uma cama específica para cada cliente, em vez de fazer um padrão que seja mais barato para todos.

– Seu livro Does IT Matter? (A Tecnologia de Informação faz diferença?) provocou reações furiosas da comunidade de TI. Isso já passou ou ainda dói? As empresas de TI conseguiram ver o lado positivo da crítica e reinventar seus negócios, como você previu ou sugeriu?

Não acho que ainda doa. A reação mais significativa veio de empresas de TI e não de CIOs. E se você notar o que houve desde então, muitos dos temas aos quais me referi no livro tornaram-se realidades. As empresas de TI já assumiram hardware e os softwares mais básicos como commodities e agora estão se redirecionando para serviços mais específicos. Desde 2004, quando o livro foi lançado, muitas empresas de TI passaram a se comportar da forma como eu previra.

6a00e554b11a2e88330147e07d2177970b-120wi Foi muito difícil para empresas que vendiam produtos com margens elevadas perceber que o que comercializavam havia sido padronizado. Mas isso é o que acontece com tecnologia: as coisas se tornam genéricas e você precisa descobrir novas maneiras de fazer dinheiro. Como, por exemplo, acrescentar uma nova camada de serviços personalizados àquilo que já foi padronizado. SalesForce e os serviços de infra-estrutura de TI da Amazon são bons exemplos disso.

– Você acha que eles tinham noção da forma como tratavam o mercado? Acha que ainda estariam fazendo tudo da mesma forma se alguém não tivesse chamado a atenção para isso?

Eles teriam que mudar, não porque eu ou qualquer outra pessoa disse que era preciso, mas porque seus clientes já estavam começando a mudar. Eles passaram a pensar: “Eu não preciso do melhor computador do mundo, mas de algo que faça o serviço de que preciso”.

– Em The Shallows você sugere que novas tecnologias estão mudando a nossa forma de pensar. Ao mesmo tempo, autores da Economia Comportamental detectaram mudanças nos padrões de motivação das pessoas. Você acha que essas duas tendências podem estar relacionadas de alguma forma?

Acho que sim, deve haver uma relação. Quando a nossa atenção é despedaçada fica mais difícil encontrar maneiras efetivas de oferecer um elemento motivacional, encorajar o pensamento criativo. E se você não consegue se focar em algo, não consegue se motivar. Então deve haver uma relação sim.

– O neurologista americano Gregory Berns afirmou que os iconoclastas têm cérebros diferentes do restante das pessoas, em vários aspectos. A transformação pela qual passamos, descrita em The Shallows, significa que teremos pessoas menos criativas, menos inovadoras, menos espontâneas, menos humanas?

Vamos nos tornar pensadores menos iconoclastas. Obviamente há diferentes maneiras de ser inovador e criativo. Mas o que diferencia um pensador iconoclasta é que ele desafia o status quo, eles desafiam a sabedoria tradicional.

6a00e554b11a2e88330147e07d27dc970b-120wi As evidências científicas sugerem que se você é multitask o tempo todo, mudando o foco da sua atenção frequentemente, você tende a não questionar a sabedoria tradicional. Você pode ser criativo, mas não estará pensando em maneiras completamente novas de fazer as coisas. Você está andando por caminhos já traçados.

Para ser realmente um iconoclasta, para realmente desafiar o status quo, você precisa ser capaz de focar, prestar atenção máxima em apenas uma coisa e filtrar todas as interferências. Então eu realmente me preocupo porque se as pessoas são interrompidas e distraídas o tempo todo, então nós veremos menos destes pensamentos revolucionários.

– Você acha que a perda da atenção afeta mais as novas gerações?

Algumas pessoas traçam esta linha entre os nascidos na tecnologia e os que imigraram para dentro dela e, por isso, os efeitos seriam diferentes. Eu acho que os efeitos são muito similares, não importa a idade. Dito isso, é claro que o cérebro humano é mais adaptável e maleável quando somos mais novos, então quando as crianças começam a usar celulares e computadores os efeitos podem ser maiores. Mas em geral os efeitos básicos da distração e falta de atenção permeiam todas as idades.

– O ex-campeão mundial de xadrez Gary Kasparov disse recentemente que em breve será impossível derrotar os jogadores mais jovens. Isso não seria um contrassenso, considerando que os mais jovens já nascem num ambiente desenhado para distrair?

Como eu disse, não acho que seja um problema específico de uma geração. Mas para ser um jogador excepcional de Xadrez, você precisa de uma combinação de habilidades muito específicas. Então não acho que seja um bom indicador para tendências mais gerais. São pontos fora da curva.

– Que tipo de conselho você daria a pais cujos filhos estão começando a ter contato com as novas tecnologias?

6a00e554b11a2e88330147e07d329f970b-320wi Particularmente para crianças pequenas, eu poria restrições no tempo que eles podem passar usando computadores e seria muito cuidadoso em dar um telefone celular para uma criança pequena. Há uma explosão no uso de SMS por crianças nos EUA e creio que essa distração perpétua pode ser prejudicial ao desenvolvimento da concentração de uma criança. Então acho que o caminho é por restrições no acesso a essas tecnologias.

– Existe alguma regra para determinar uma divisão ótima entre o tempo que se gasta lendo livros ou consumindo outras mídias?

Não acho que haja uma regra específica. Deve haver apenas o equilíbrio. Não há nada errado em fazer várias coisas ao mesmo tempo, usar SMS ou navegar na Internet. Isso só começa a se tornar um problema quando se deixa o resto todo de lado. A pessoa não disponibiliza nenhum tempo para se concentrar na leitura, conversar sem ser interrompido. O importante é manter o equilíbrio e ter certeza de exercitar o lado mais contemplativo do seu cérebro. Porque se você não exercitar isso, você simplesmente perderá estas habilidades.

– Quando escrevi uma resenha sobre The Shallows, muitas das pessoas que comentaram negaram que tivessem alguma perda de concentração por causa da Internet. Este tipo de negação é comum?

Sim, como você pode imaginar há reações de todos os tipos. Há os que me agradecem dizendo “obrigado pela descrição no livro, porque eu também me sinto assim” e também há os que dizem “isso é exagero, não acontece comigo”.

– Se você alertou os outros sobre o problema, quem te alertou?

Bom, isso faz uns dois anos. Eu já usava a Internet e computadores pessoais há um bom tempo e percebi que estava tendo problemas em me concentrar. Quando eu sentava para ler um livro percebia que a minha mente queria funcionar da mesma maneira que faz quando estou online.

6a00e554b11a2e88330148c6866a8c970c-300wi Meu cérebro não queria pensar de uma forma linear e concentrada. Ele queria saltar entre pequenos pedações de informação, checar emails ou outras fontes de mensagens. Isso foi o clique para o livro, então comecei a fazer pesquisas sobre neuroplasticidade e os efeitos da tecnologia.

– Mas como você conseguiu se concentrar, então, para escrever um livro?

Eu não precisei me isolar completamente. Continuei a usar a Internet para pesquisas básicas, mas reduzi a minha dependência da Internet. Eu cancelei minhas contas do Facebook e do Twitter, não usava o celular quando estava em casa e não acessava email enquanto escrevia.

Eu continuo a usar a Internet no que ela é boa – que é encontrar informações importantes, coisas que possam ser úteis para aquilo em que estou trabalhando. Mas normalmente gosto de imprimir os artigos para ler em lugares mais calmos. E não demorou muito até eu perceber que a minha atenção havia voltado ao normal.

– Você costuma conversar sobre o tema com seus amigos e familiares que não leram o livro?

Isso já está se tornando uma preocupação comum às pessoas, que sentem que perdem o controle sobre suas mentes. Percebem que a tecnologia exerce um controle muito grande sobre suas vidas. Já vejo gente que desliga sua conexão com a Internet nos fins de semana.

– No livro você diz que as empresas de Internet dividem a nossa atenção para que possam colocar mais coisas dentro dela. É a velha máxima militar de “dividir para conquistar”?

Não acho que isso seja consciente. Mas se você olhar empresas como Google e Facebook, eles têm vantagens econômicas no despedaçamento da nossa atenção e em nossa mania de ser multitask. Deste modo eles têm mais oportunidades de exibir anúncios, coletar informações e saber mais sobre nós. Acho que muitas das companhias de Internet têm interesse econômico em nos manter distraídos e nos bombardear com pequenos pedaços de informações. Então acho que devemos ser mais conscientes destas influências sobre o funcionamento da nossa mente.

– Décadas atrás, quando concebeu-se o hipertexto, ele foi celebrado como uma ótima ferramenta para melhorar o aprendizado. Só que hoje as evidências mostram que isso não aconteceu realmente. O que deu errado?

O hipertexto nos proporcionou uma forma de navegar entre pequenos pedaços de informação interconectados – e foi isso que deixou os educadores empolgados. Estudantes seriam capazes de rapidamente comparar diferentes pontos-de-vista e assim por diante.

Mas o que eles não perceberam foi que os hyperlinks constantemente interrompem a nossa atenção. O resultado disso é que se você não consegue se concentrar, você não consegue apreender o que acabou de ler. A forma como você capta a informação é crucial para determinar o quanto dela você consegue lembrar ou entender e o quanto você aprende. Esse tipo de ruptura da atenção que o hipertexto causa foi um tiro pela culatra, que piorou a nossa habilidade em aprender.

6a00e554b11a2e88330148c6866c6b970c-320wi O seu cérebro precisa parar, mesmo que por um breve instante, para decidir se clica naquele link ou não. “Este link é importante ou não? Como isso se relaciona com o que estou lendo?”

Mesmo sem considerar se você clicou ou não, o hyperlink tem uma característica que leva a desatenção. O processo decisório de clicar ou não interfere com a interpretação e entendimento daquilo que você está lendo.

– Como as escolas podem contornar o problema da falta de atenção das crianças e o desinteresse pelas aulas?

Penso que as escolas precisam ser mais céticas com relação à tecnologia em geral – e os pais também. Isso não é o mesmo que dizer que os computadores não têm o seu papel na educação, eu acho que eles têm. As escolas precisam entender que há meios de usar o cérebro que não devem ser intermediados pela tecnologia. Os livros impressos têm o seu papel. As palestras e as conversas também têm os seus papéis. Recentemente temos pensado nas escolas em termos de tecnologias e isso é perigoso.

– Esses revéses da tecnologia não poderiam ter sido antecipados antes de começarmos a usá-las?

Quando chega uma nova tecnologia, as pessoas focam nos benefícios práticos imediatos. Poder conversar com três pessoas ao mesmo tempo e encontrar as informações necessárias de forma rápida, foram benefícios que encantaram e levaram a ignorar qualquer consideração com relação aos seus malefícios. Levou algum tempo para que as pessoas começassem a questionar as consequências da tecnologia. Então é possível que tivesse sido capaz de antecipar estes problemas, mas ninguém prestaria atenção aos alertas.

– Você acha que nós, escritores, estamos fadados à extinção?

Acho que não. Porque o valor de ler e extrair informação de um texto escrito é tão grande que não acabará. O que acontece é que a forma como escrevemos muda. Nós assumimos que o leitor não presta atenção, então você muda em direção a ideias mais simples, você quebra as coisas, simplifica os argumentos. O modo como escrevemos mudará. Não acho que as pessoas vão parar de escrever ou de ler.

– Você acha justo comparar a ânsia em estar conectado com o vício em drogas?

Não gosto de rotular essas coisas como vício, porque são bem diferentes. Por outro lado, já ficou bem claro que os seres humanos adoram ter novas informações. Pelos nossos hábitos pessoais e vendo como as pessoas agem, você pode dizer que há algo de impulsividade no uso da tecnologia e uma dificuldade em parar de buscar novas informações.

Não conseguimos parar e pensar sobre o que já encontramos e somos tomados por esse desejo de continuar vendo o que está acontecendo, clicando e lendo emails. Então há um lado viciante no uso de compoutadores e telefones.

– Alguma recomendação final para os que foram capturados pela Rede – além de ler o seu livro?

6a00e554b11a2e88330148c6866d4b970c-320wi O importante é ser consciente sobre a forma como você usa a tecnologia e como ela influencia o seu pensamento. Se você tiver consciência disto, então estará numa posição de fazer escolhas mais razoáveis de forma a se disciplinar melhor. Se você usar a tecnologia de forma inconsciente, então terá problemas.

– Sua palestra será sobre a nova tendência de cloud computing e como isso pode ajudar a resolver problemas antes intratáveis. Além do poder somado de tantos computadores, há mais pesquisadores pensando juntos. Você acha que quanto mais força bruta, mais os pesquisadores precisam se esforçar ou é o contrário?

Acho que quanto mais poderosos os computadores, maior o risco de acharmos que eles são inteligentes. Vão confiar nos computadores para resolver problemas e acho que isso é perigoso. Quando falamos em mastigar números e este tipo de pesquisa, haverá uma explosão de inovações com este enorme poder de processamento tão barato e disponível.

Mas há outros casos onde apenas os seres humanos conseguem pensar em novas possibilidades, enquanto que os computadores só farão aquilo que foram programados para fazer. Então precisamos lembrar que quando se trata de grandes ideias, de descobrir os problemas nos quais os computadores podem ser aproveitados, isto ainda depende de pessoas inteligentes. Pessoas que consigam prestar atenção.

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* Procusto fazia com que seus hóspedes ficassem do exato tamanho da sua cama, seja esticando-os ou cortando suas pernas. Veja aqui o texto que escrevi sobre o livro de Taleb.

Meus favoritos meus

Bom, não vou te enganar. Este é mais um daqueles textos de encher linguiça, requentando o que já está escrito, enquanto o ano não começa de verdade. Até porque, escolher seus – aliás, meus – melhores textos é uma tarefa ingrata, porque a menos que escolha todos, alguns não farão parte da seleção. Escolher os melhores significa, então, escolher os não-melhores ou, em português claro, os piores.

Hummmmm… quem sabe então eu poderia escolher meus piores textos? Aí automaticamente vocês saberiam que os que ficaram de fora são os melhores…? E escolhendo 10 textos ruins, os outros 108 são bons… Vou pensar nesse truque para um próximo post.

Enquanto isso, vou usar critérios altamente científicos para separar o trigo do farelo de trigo: são os textos mais acessados, com umas ligeiras roubadinhas da minha parte, para colocar os que não foram tão acessados quanto eu gostaria (aliás, leitora, essa é uma chance de você se redimir).

Então, sem mais delongas, segue minha particular seleção dos meus textos favoritos do ano:

Retrospectiva atrasada…
Retrospectiva atrasada…

:: Amanhã eu escrevo (fevereiro): foi o texto mais acessado do ano (em grande parte graças a uma citação feita pelo Inagaki no seu Pensar Enlouquece), mas também porque seu tema central – a procrastinação – parece ser um mal moderno que ronda e faz ninho nas melhores famílias.Tanto é que demorei à beça até escrever uma retrospectiva. Mas se você ainda não leu e também sofre desse mal, aproveite e vá lá dar uma espiadinha. Até porque provavelmente você está lendo este texto quando deveria estar fazendo outra coisa, não é mesmo…?

:: Experimentos em Psicologia (junho): talvez o grande divisor de águas do blog nesse ano, a série de 13 textos explorou os mais importantes estudos realizados no século passado, tendo o comportamento humano como tema central. Vários desses textos, como os de Stanley Milgram e Salomon Asch tornaram-se referências nas buscas do Google em seus respectivos assuntos. Imperdíveis para quem quer conhecer um pouco mais da alma humana.

:: O nascimento do auto-atrapalha (setembro): uma ácida crítica aos livros de auto-ajuda e suas  promessas mirabolantes, embora nunca cumpridas. Veja no texto qual a minha teoria sobre os motivos pelos quais os livros vendem tanto, embora seus leitores continuem pobres, ao contrário dos seus autores.

A mais fantástica história de sobrevivência
A mais fantástica história de sobrevivência

:: Endurance – a heróica jornada de Sir Ernest Shackleton (fevereiro): um breve relato sobre a emocionante e inspiradora aventura vivida pelo explorador irlandês e seus 27 marinheiros, perdidos mais de dois anos na gélida Antártida, no começo do século passado, quando seu barco Endurance naufragou. Vale mil livros de auto-ajuda…

:: Caro Rocky Balboa (janeiro): uma bela fábula (talvez o único texto de ficção de todo o blog), escrita em parceria com meu amigo Balu, onde o falecido pugilista Apollo “O Doutrinador” Creed envia uma carta ao seu arqui-rival Rocky Balboa, contando como ambas as vidas foram construídas em torno da sempre saudável rivalidade que cultivavam. Um texto muito divertido e gostoso de escrever – além de ter recebido um dos comentários que mais me deixou feliz desde que comecei a escrever aqui.

:: Iconoclasta (janeiro): um dos livros mais interessantes que li no ano passado, onde um neurologista americano desvenda o funcionamento das pessoas que fazem aquilo que os outros dizem que não era possível. Com impecável clareza, Gregory Berns descreve como diferenças na Percepção, na Reação ao Medo e na Inteligência Social podem ter explicações biológicas e interferirem de forma absolutamente decisiva na história de uma pessoa. Uma breve série de três textos desvenda cada uma dessas características. O livro foi lançado recentemente no Brasil pela Editora Best Business, com o título O Iconoclasta.

:: A farsa de Copenhague (dezembro): os últimos textos do ano não economizaram em polêmicas. Nos três textos que compõem esta série – inspirada em dois livros: Unscientific America e SuperFreakonomics – faço um breve relato sobre os fatos que me levam a crer que há muito mais do que um mero instinto preservacionista por trás das iniciativas para tentar frear o (suposto) aquecimento global. Desde a cabeça fraca daqueles que embarcam nessa onda, sem conhecimento algum, até os que querem apenas aparecer e chegando aos que têm interesses bem mais escusos no assunto (leia-se: dinheiro).

Aqui, ó!!
Aqui, ó!!

:: Fooooooda-se! (fevereiro): de uma inusitada brincadeira com um texto acadêmico que mostrava o poder de persuasão dos palavrões, surgiu meu título mais grosseiro e, ao mesmo tempo, mais divertido. Seja pelo choque, ou mesmo pela curiosidade, a verdade é que muita gente veio conferir que raios poderia estar escrito aqui. Se você não for uma das leitoras curiosas, ficará sem saber por que as pessoas que falam palavrões convencem mais do que as outras… Vai lá, porra!

:: The drunkard’s walk (janeiro): outra curta série de três textos sobre o ótimo livro de Leonard Mlodinow, que conta a evolução do pensamento matemático, desde que a estatística e a probabilidade começaram a engatinhar. Longe de abordar o assunto de forma enfadonha, Mlodinow revela-se um exímio contador de histórias (não à toa ele é roteirista de Hollywood), entremeando acontecimentos marcantes com fatos pitorescos e dando um especial toque de humor em suas narrativas que revelam, no final das contas, o quanto a nossa vida está atrelada ao acaso. Também foi lançado aqui recentemente pela Editora Zahar com o título de O andar do bêbado, naturalmente…

:: Os limites da Intuição (maio): outra pequena série de três artigos onde, à luz da disputa Kasparov vs. Deep Blue nos tabuleiros de xadrez, faço uma pequena análise das diferenças entre o raciocínio do homem e o da máquina. Um pouco de xadrez e algo de neurociências para entender as vantagens e desvantagens do cérebro humano frente ao cibernético e tentar responder à pergunta: no final das contas, o que realmente faz diferença…?

Sentiu falta de algum texto que você gostou e não foi citado? Algum desses acima seria dispensável? Tem alguma idéia interessante sobre o porquê de ter tantos textos do início do ano? Aguardo seus palpites nos Comentários!

Experimentos em Psicologia – George Miller e o mágico número sete

6a00e554b11a2e88330148c6b8711f970c-200wi Cada um de nós tem uma relação muito particular com os números e os deuses da matemática. Uns amam, outros odeiam, poucos são indiferentes.

Particularmente, sempre gostei de números – mas talvez eles não gostem de mim na mesma proporção. Nunca tive grandes dificuldades em lidar com fórmulas, quantidades ou proporções – apesar de ser canhoto e ter o lado esquerdo do cérebro (responsável pelo raciocínio lógico) menos desenvolvido que o direito. Mas aprendi com Leonard Mlodinow que não somos tão familiarizados com os segredos da matemática como gostamos de imaginar.

Em O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas  ele conta o caso de um espanhol que ganhou milhões numa loteria e, perguntado por que teria escolhido o bilhete com final 48, saiu-se com a seguinte pérola: “Por sete noites consecutivas sonhei com o número sete. E como sete vezes sete dá quarenta e oito, resolvi apostar nesse número.” Certo ou errado ele ficou milionário. Resta saber o que sua habilidade em multiplicar fará com o seu dinheiro…

Mas outras pessoas também guardam estreitas relações com determinados números que, se não as fazem ficar ricas – ainda que acidentalmente – reservam-lhes um lugar de destaque no mundo da ciência e, por que não dizer, no imaginário popular.

George Armitage Miller, um professor de Psicologia em Princeton, revela no início do seu texto que também sentia-se perseguido pelo mesmo número sete. Conta que, durante sete anos, ele encontrava este algarismo em tudo o que era artigo científico que lia. Algumas vezes serelepe e exibido, outras disfarçado e oculto. Mas sempre estava lá.

Embora seu seminal artigo não constitua um Experimento em Psicologia original realizado por ele, sua obra – e a teoria nela contida – continua sendo um dos textos mais citados em Psicologia até hoje, mais de 50 anos após sua publicação.

Trata-se, na verdade, de meta-análise (uma avaliação conjunta de várias pesquisas realizadas sobre um mesmo tema central) sobre nossas habilidades em retransmitir o que os sentidos captam. Mas Miller foi mais além e estendeu suas conclusões à uma característica particular da memória: a capacidade de lembrar pequenas quantidades de informação para uso imediato – ou, como se diz no jargão científico, a memória temporária.

6a00e554b11a2e883301157153b6c2970c-300wiPara Miller, nossa memória temporária é capaz de armazenar entre cinco (sete menos dois) e nove (sete mais dois) conjuntos de dados de cada vez, dependendo da circunstância e do tipo de dado em si.

Confesso que sempre considerei a hipótese do mágico número sete como uma mera coleção de dados episódicos e aleatórios, reunidos numa conveniente coincidência. Para cada elemento que reforça essa teoria (sete cores do arco-íris, sete notas musicais, sete pecados capitais) podemos identificar outros números igualmente mágicos e fora do cabalístico limite 5+2=7+2=9: quatro cavaleiros do apocalipse, quatro estações do ano, quatro pontos cardeais, dez mandamentos, dez algarismos, doze apóstolos, doze meses etc.

Mas ver as bases científicas para estas afirmações mudaram um pouco o meu ponto-de-vista. As implicações da teoria de Miller parecem fazer muito sentido em vários aspectos da nossa vida, desde sua análise sob a ótica evolucionista até o famoso paradoxo da escolha – onde menos opções pode representar decisões mais acertadas do que uma variação muito grande.

Sem mais delongas conheçamos, pois, O mágico número sete, mais ou menos dois: alguns limites na nossa capacidade de processar informação.

NOTA: os textos a seguir trazem algumas informações mais detalhadas sobre os estudos que originaram as teorias de Miller, bem como algumas definições conceituais envolvidas. Caso queira pular essas partes mais acadêmicas, elas estão destacadas em azul e saltá-las não comprometerá a compreensão final.

Antes de iniciar as explicações de sua teoria propriamente dita, Miller faz uma breve introdução a respeito da classificação de dados e da forma como a ciência lidava com algumas grandezas naquela época (lembrando que a publicação original do seu paper foi em 1954). Ele destaca, antes de tudo, que dados discretos são respostas numéricas que surgem através de um processo de contagem; enquanto que dados contínuos são o resultado de uma medição.

6a00e554b11a2e8833011571539979970c-320wi A implicância disso é que os dados contínuos podem variar de forma drástica, por isso, não temos muito como prever alguns resultado (qual a distância entre São Paulo e Madagascar?) tornando gigantesca, assim, a quantidade de informações com que se lida.

Já os dados discretos são limitados por alguma contingência (quantas pessoas cabem num metro quadrado?) e, por isso, na maioria das vezes conseguimos fazer estimativas melhores.

Desta forma, o modo como os sistemas de informações são organizados interfere enormemente na maneira como conseguimos trabalhar com seus conteúdos, isto é, como relacionamos aquilo que recebemos com o que transmitimos, descontando os ruídos pelo caminho.

Esta lógica é a base dos estudos de Miller, pois nos estudos analisados, algum tipo de estímulo sensorial qualquer (como um determinado som) era oferecido aos voluntários e a maneira como cada um retransmitia esse estímulo era posteriormente medida. Se, por assim dizer, o pesquisador tocasse no piano um “Dó” e o voluntário reconhecesse a mesma nota, então a transmissão da informação teria sido perfeita. Caso ele errasse, então a propagação dessa informação teria falhado.

A expectativa dos pesquisadores era que quanto maior a variedade de informações transmitida, maior a taxa de erros dos voluntários. Eles poderiam medir, assim, os limites para a correta transmissão de informações – o que corresponderia, de forma simplificada, aos limites da memória de curto prazo.

Outro conceito importante é a ideia de bit (ou unidade) de informação, que é o insumo para a tomada de decisão. Quando precisamos decidir se uma pessoa tem mais ou menos do que 1,70m, trata-se de um problema binário (duas alternativas: ou é, ou não é) e precisamos, portanto, de uma unidade de informação (sim ou não). Para decidir entre quatro alternativas, seriam necessárias duas unidades de informação (ou dois bits). Para oito possibilidades, três unidades; para dezesseis, quatro bits e assim por diante. Ou seja, conforme dobram as escolhas, mais um bit é necessário para decidir.

Por este conceito pode-se deduzir porque é mais fácil para nós estimar dados discretos (cujas possibilidades são menores, em princípio) do que dados contínuos, já que a quantidade de informações necessárias para tomar decisões difere drasticamente.

6a00e554b11a2e883301157153a40f970c-320wi Num estudo conduzido para a Força Aérea Americana por Iwin Pollack1, após uma breve explicação sobre o que eram ciclos por segundo (cps), os voluntários ouviam sons e tinham que estimar a frequência de cada um deles. Depois de um período de adaptação baseada em tentativa e erro, eles estavam aptos a distinguir precisamente entre dois ou três tons diferentes, estimando corretamente sua frequência numa escala entre 100 e 8.000 cps.

Mesmo com quatro sons diferentes, raramente eles erravam. Mas quando variavam cinco ou mais opções, os erros aumentavam sensivelmente, até o limite de 14 sons diferentes, que foi até onde o experimento chegou – e onde os participantes dificilmente acertavam alguma coisa.

Se lembrarmos da explicação anterior sobre bits, para identificar dois sons a pessoa precisa de apenas uma unidade de informação. Para 14 sons, esse número sobe para 3,8. Como Pollack verificou que o limite dos voluntários ficou entre quatro e cinco tons, ele concluiu que a média de bits que uma pessoa consegue trabalhar com seu sistema auditivo é 2,5 – que corresponde a seis alternativas diferentes.

No ano seguinte, o psicólogo Wendell R. Garner fez um estudo semelhante2 onde, em vez de identificar a frequência dos sons, os voluntários deveriam indicar o volume em que cada nota era tocada, variando de 15 a 110 decibéis. De forma parecida com a pesquisa anterior, Garner concluiu que os participantes tinham boa performance até o limite de 2,3 bits.

6a00e554b11a2e883301157247f467970b-320wiMudando o sentido avaliado, Beebe-Center, Rogers e O’Connell pesquisaram a sensibilidade do nosso paladar3, ao testar voluntários com soluções salinas que variavam entre 0,3 e 34 gramas de sal de cozinha por 100 ml de água. O estudo consistia em oferecer as várias concentrações salinas, combinadas em grupos com diferentes quantidades de opções. Assim, os participantes teriam que identificar a concentração de sal das amostras em conjuntos de 3, 5, 9 ou 17 possibilidades. O limite encontrado aqui foi 1,9 bits, ou cerca de quatro opções.

Já no campo visual, Hake e Garner descobriram que este sentido suporta uma variação bem maior de estímulos4. Ao localizar corretamente a posição de um número numa escala fixa (algo como apontar onde estaria o centímetro 40 num bastão de um metro de comprimento), os voluntários esbarravam no limite de 3,25 bits – o que corresponde a cerca de dez observações.

O número anterior parece até alto, mas devemos considerar que trata-se de uma variável unidimensional. Quando precisaram estimar áreas (uma medida bidimensional), o limite caiu para 2,2 bits, ou cinco categorias, como mostrou o estudo de Ericksen e Hake5. Outros estudos semelhantes apontaram diferentes limites para a visão, como 2,8 bits para tamanhos, 3,1 bits para cor e 2,3 bits para brilho. Já para o tato, os pesquisadores descobriram que somos capazes de identificar quatro intensidades, cinco variações de duração e sete para localização do estímulo.

Estes rudimentares exemplos sugerem como somos limitados em nossa capacidade de distinguir entre diferentes estímulos. Mas as condições experimentais descritas envolviam medidas simples e, na maioria das vezes, com apenas uma dimensão (comprimento de reta, volume do som, salinidade da água). Como será que nossos sentidos trabalham, então, na vida real, onde precisamos lidar com estímulos mais complexos?

6a00e554b11a2e883301157153b2fa970c-300wi Quando uma segunda variável era adicionada aos estudos citados acima, a capacidade de diferenciação das amostras também aumentava, mas não na proporção esperada.

Nas estimativas visuais, por exemplo, os voluntários conseguiam determinar a posição de um ponto numa área qualquer até o limite de 4,6 bits. Mas se área é uma medida bidimensional, era de se esperar que a capacidade fosse a soma de duas capacidades de comprimento (unidimensional), ou 3,25 + 3,25 = 6,5 bits.

Do mesmo modo, o paladar combinado de salgado e doce requer 2,3 bits, menos do que se esperaria da soma de duas categorias (1,9 + 1,9 = 3,8 bits). Na audição, nosso limite em reconhecer o volume de um som é de 2,3 bits e 2,5 bits para sua modulação (graves e agudos), mas quando combinados, tal habilidade fica em 3,1 bits – maior do que qualquer uma das duas, mas menor do que a soma delas.

Aumentando sequencialmente o número de categorias, os pesquisadores perceberam que nossa capacidade de identificação de elementos cresce, mas a habilidade em avaliar aspectos e características específicas diminui. Percebemos melhor o conjunto, mas diminuímos a compreensão dos detalhes. Miller sugere uma abordagem evolucionista para essa questão, onde os organismos que mais se adaptavam ao ambiente eram os que melhor conseguiam responder a uma quantidade maior de estímulos ambientais. A sobrevivência significava, assim, ter pouca informação sobre muita coisa, em vez de muita informação sobre pouca coisa.

No instigante documentário My Brilliant Brain, da National Geographic (recomendo fortemente os três episódios!), um teste muito interessante foi realizado com uma das melhores jogadoras de xadrez de todos os tempos: a bela Susan Polgar. Um cartaz com uma posição de uma partida de xadrez foi colada a uma van que passou pela rua, próximo a um café onde ela gravava o programa. Sem nenhuma dificuldade, a húngara reproduziu exatamente a mesma posição do diagrama, com 28 das 32 peças nas 64 casas da tabuleiro, apesar de tê-la visto apenas alguns segundos.

Certamente uma proeza e tanto para nós mortais, mas nem tanto até para um jogador amador. A verdade é que o enxadrista experiente divide o tabuleiro em partes e trabalha com esses pedaços de informações. Susan memorizou quatro ou cinco setores separados do tabuleiro e assim pôde demonstrar sua enorme capacidade de observação.

6a00e554b11a2e8833011572480056970b-320wiMas em seguida, quando um leigo espalhou aleatoriamente as peças no tabuleiro, ela não conseguiu repetir o feito, pois não havia como detectar padrões naquela situação*.

No primeiro exame de ressonância magnética realizado num enxadrista profissional, a pesquisadora Joy Hirsch, da Universidade de Colúmbia, verificou que Susan utilizava para reconhecer as posições de jogo as mesmas áreas do cérebro responsáveis pela identificação de rostos. Ela havia adaptado uma função específica de sua mente a uma outra tarefa. Deste modo, era capaz de reconhecer uma situação de jogo com a mesma velocidade com que se lembra do rosto de um velho amigo.

Todos nós somos capazes de reconhecer padrões em determinados momentos, sejam rostos conhecidos, sons ou cheiros familiares, ou preços de TVs de LCD. Mas a impressionante habilidade de Susan nessa área foi uma capacidade adquirida com anos de intenso treinamento – e esta rápida e precisa comparação de uma situação com algo que faz parte do seu repertório representa, no caso dela, um sensível diferencial entre os jogadores de alto nível.
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Do mesmo modo que uma condição da nossa vida (como ser jogador de xadrez) afeta o funcionamento do cérebro, padrões culturais também têm influência na nossa maneira de pensar. O idioma, por exemplo, exerce grande papel na forma como organizamos as informações, interferindo, consequentemente, na nossa capacidade de memorização. Isso significa dizer, por exemplo, que o tamanho da palavra que representa a coisa a ser lembrada – ou a duração do respectivo som – influi em nossa predisposição em memorizá-la.

Faz mais sentido, então, atrelar a capacidade deste tipo específico de memória a um intervalo de tempo. A duração deste intervalo de tempo foi posteriormente estimada em aproximadamente dois segundos. E a quantidade de informação que sonoramente pode ser encaixada nesse intervalo varia, logicamente, de acordo com o idioma. Em inglês, por exemplo, dois segundos correspondem a sete números enquanto que em chinês são dez.

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Susan Polgar

Por esse motivo, é mais fácil decorar o número um do que o oitocentos e noventa e quatro. Ou ainda, é mais simples organizar números ordinais em inglês (five hundred seventy first) do que em português (quingentésimo septuagésimo primeiro).

Outros aspectos linguísticos também influem na nossa capacidade de identificar os sons como, por exemplo, se ele é composto de vogais ou consoantes, se é oral ou nasal ou se são fonemas frontais, médios ou anteriores . Esta seria, portanto, mais uma forma de a língua interferir na capacidade de memorização dos indivíduos.

Em Outliers | Fora de Série, Malcolm Gladwell mostra que os orientais têm, geralmente, mais facilidade com números porque seus idiomas usam palavras mais curtas para simbolizar os números. Assim, as crianças chinesas, por exemplo, têm maior aptidão para aprender matemática pois conseguem memorizar mais números e, deste modo, realizam as operações com menos dificuldades. Desenvolvem, portanto, um gosto maior pelo tema desde cedo, interessando-se mais pelo seu aprendizado.

Essas evidências parecem sugerir que temos, portanto, uma capacidade limitada de fazer julgamentos e memorizar informações – seja por nossos processos de aprendizado ou pela organização de nosso cérebro.

No caso dos julgamentos, Miller lembra que podemos recorrer a alguns recursos para ampliar esta acuidade, fugindo um pouco das amarras do mágico número sete. Ele sugere três artifícios:

1. fazer julgamentos relativos em vez de absolutos, comparando uma observação com outra: “ele deve ter mais de 1,80 m porque é um pouco maior do que eu”;

2. utilizar mais de uma dimensão absoluta numa avaliação: “ele deve pesar mais de 90 kg, porque além de mais alto ele é mais gordo do que eu”;

3. fazer mais de uma observação absoluta em sequência: “esta distância deve ser maior do que dois metros, porque seu eu deitar ali, ainda devem sobrar uns dois palmos”.

6a00e554b11a2e88330115724804f1970b-300wi Já com relação à memória, há diversas estratégias para ampliarmos nossa capacidade de lembrar coisas importantes:

1. recodificar a informação de uma maneira que faça mais sentido para você: dividir um número de telefone em blocos que te lembrem alguma data relevante ou uma seqüência do seu próprio CPF. Susan repartiu o tabuleiros em pedaços que faziam sentido para ela;

2. fazer associações entre o que se precisa lembrar e outros fatos marcantes da sua vida: eu me lembro que operei o apêndice quando tinha 13 anos porque estava na oitava série. Sei que o Senna morreu em 1994 porque foi quando o Brasil foi tetracampeão de futebol, na Copa dos EUA.

3. organizar a informação de forma mais prática: é mais fácil calcular de cabeça 237 x 5 ou 237 x 10 ÷ 2?

4. montar pequenas histórias – por mais estapafúrdias que pareçam – encaixando as informações na narrativa: como sugeriu meu professor de biologia do colégio, tentar imaginar a Mona Lisa coçando suas partes íntimas enquanto faz tricô, para lembrar-se do que é trichomonas vaginalis e suas consequências. Soa ridículo, mas eu nunca mais me esqueci disso.

5. se nada disso funcionar, amarre uma fitinha no dedo e boa sorte!

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TEXTOS RELACIONADOS:

Os limites da Intuição – parte I: Deep Blue, a máquina

Os limites da Intuição – parte II: Gary Kasparov, o homem

Os limites da Intuição – final: o que faz a diferença?

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1. The information of elementary auditory displays. J. Acoust. Soc. Amer. 1952, 24, 745-749.

2. An informational analysis of absolute judgement of loudness. J. Exp. Psychology, 1953, 46, 373-380.

3. Transmission of information about sucrose and saline solutions through the sense of taste, J. Pshychol. 1955, 39, 157-160.

4. The effect of presenting various numbers of discrete steps on scale reading accuracy. J. Exp. Psychol., 1951, 42, 358-366.

5. Absolute judgements as a function of the stimulus range and the number of stimullus and response categories. J. Exp. Psychol., 1955, 49, 323-332

* Outras curiosidades sobre Susan Polgar: ela foi a primeira mulher a quebrar a barreira do sexo no mundo do xadrez, tendo conseguido o primeiro título de Grande Mestre entre os homens (em janeiro de 1991, antes de sua irmã caçula Judith, em dezembro do mesmo ano), sendo também a primeira a disputar o título máximo masculino. Susan também detém o recorde absoluto em partidas jogadas simultaneamente: em julho de 2005 jogou contra 326 adversários, ganhando 309 partidas, empatando 14 e perdendo apenas três (94,8% de vitórias). Ao mesmo tempo.

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Leia a Introdução sobre esta série a respeito de famosos Experimentos em Psicologia, além de uma relação dos outros textos já disponíveis.

Os limites da Intuição – final: o que faz a diferença?

Nos dois textos anteriores (Os limites da Intuição – parte I: Deep Blue, a máquina e Os limites da Intuição – parte II: Kasparov, o homem) apresentei os dois competidores que mediram forças para apontar, numa série de jogos de Xadrez, que tipo de inteligência seria superior à outra: se a artificial ou a natural.

Apesar da aparente frieza que a mídia leiga tenta atribuir ao Xadrez, nem de longe o jogo resume-se a um asséptico combate. Quando duas mentes medem forças em competições de alto nível, lutam não só suas capacidades como jogadores, mas também suas emoções, fraquezas e vaidades. O Xadrez tem um longo histórico de guerras psicológicas e quando você sabe que seu adversário está fantasiando algo, você trata de incentivá-lo ainda mais.

6a00e554b11a2e883301156f50425f970c-320wiQuando Kasparov derrotou Karpov em 1985 e sagrou-se o mais jovem campeão do mundo, eles já haviam jogado pelo menos uma centena partidas anteriormente. Some-se aos outros jogos de Karpov com outros enxadristas e pode-se dizer que Kasparov conhecia a fundo seu adversário. Estava ciente de suas preferências, sabia seu modo de pensar, previa suas reações. Não havia nenhum tipo de ilusão em relação ao jogo do oponente.

Mas ele jamais vira um jogo de Deep Blue. Não sabia o que estava enfrentando. Enquanto isso, seu adversário tinha um banco de dados com 700 mil partidas – onde estavam incluídas todas as que ele, Kasparov, havia jogado. Além disso, havia um acordo de a IBM entregar aos juízes, após o match, todos os logs dos jogos, que desvendaria o processo decisório empregado pelo Deep Blue a cada lance – o que não foi cumprido.

Outro interessante aspecto em relação a esse vasto banco de dados, é que ele contém tudo o que se sabe sobre teoria de aberturas – um conhecimento acumulado, diga-se de passagem, por jogadores humanos. Assim, o computador pode jogar entre dez ou quinze lances sem qualquer uso do seu fabuloso poder de cálculo, apenas recorrendo ao repertório armazenado – algo como ir de carro nos primeiros dez quilômetros de uma maratona.

Sem o auxílio desse conhecimento o Deep Blue seria consideravelmente mais fraco. É óbvio que essas informações estão disponíveis também ao jogador humano, mas sua capacidade de memória e velocidade de navegação pelos dados são incomparavelmente menores do que as de um cérebro eletrônico.

6a00e554b11a2e883301157065c6d9970b-300wi Então o que pode fazer um ser humano contra uma máquina, num jogo onde todas as possibilidades podem ser antecipadas? Pois é aí que está o maior engano! As dezesseis peças de cada jogador combinam-se de formas impossíveis de serem calculadas no atual desenvolvimento da informática – sem levar em consideração se um lance é melhor que o outro ou não. Consideremos que para cada lance existam, em média, trinta possibilidades de resposta – o que resulta em 3020 seqüências em apenas 20 lances, ou algo como 3,5 x 1029 variações.

São problemas computacionalmente intratáveis, nas palavras de Gigerenzer, onde a solução perfeita está fora de alcance, tornando a intuição essencial. Os números tornam-se astronômicos de forma muito rápida e, mesmo na espantosa velocidade de um cérebro com a capacidade do Deep Blue, seria preciso 55 trilhões de anos para calcular vinte lances na frente e escolher o melhor. Considerando que o Big Bang ocorreu há “apenas” 14 bilhões de anos, é uma façanha e tanto que jogadores profissionais realizem 40 lances em duas horas e meia!

A sutileza é que não é preciso calcular todas as trinta possibilidades em cada lance – apenas algumas mais prováveis e que façam mais sentido no momento. E é exatamente essa distinção que o computador não faz a priori.

Imagine, por exemplo, que o Kléberson drible dois zagueiros adversários, chegue à linha de fundo e precise escolher entre para cruzar para o Obina ou rolar para o Josiel, ambos dentro da área (beleza de opções, hein?). A diferença é que um computador consideraria outros lances bizarros também, como chutar direto ao gol, tocar pela linha de lado ou até mesmo atrasar a bola para o seu próprio goleiro, do outro lado do campo. Claro que essa hipótese seria descartada, mas não sem antes consumir tempo e esforço de cálculo.

Numa entrevista à uma rádio inglesa (veja o vídeo aqui nesse post) Kasparov confessou que normalmente pensa quatro ou cinco lances adiante e às vezes até menos. A maioria das suas decisões baseia-se em conceitos mais abstratos (como concentração de peças em determinada área do tabuleiro, domínio do centro ou de linhas diagonais ou verticais) do que situações específicas (um iminente ataque ao Rei ou trocas sucessivas de peças). Essa abstração do jogo o computador ainda não é capaz de alcançar – daí todo o descontrole do campeão e sua conseqüente desvantagem, ao competir num jogo (também) emocional com um adversário desprovido de emoções.

 

6a00e554b11a2e883301157065ca42970b-250wiApesar do trauma que essa derrota lhe causou, Kasparov admite ser um entusiasta das máquinas que jogam Xadrez. Os atuais softwares aliados a processadores bem mais potentes são capazes de jogar melhor do que o próprio Deep Blue e até auxiliam os jogadores em sua preparação.

Noutro interessante episódio, Kasparov mediu forças com outro grande enxadrista da atualidade, o búlgaro Veselin Topalov, em junho de 1998. Numa modalidade batizada de Xadrez Avançado, cada jogador tem um computador ao seu lado para consultas durante a partida.

Sem precisar dispender grandes esforços nas aberturas, os jogadores podiam concentrar-se nos conceitos estratégicos da partida (aqui eram os dois correndo os primeiros dez quilometros da maratona de carro). Do mesmo modo, o auxílio cibernético poupava-lhes dos erros de cálculo em situações táticas mais complicadas. Ainda assim, segundo suas próprias palavras, os jogos estiveram longe da perfeição, especialmente devido à limitação de tempo.

E já que ambos dispunham dos mesmos recursos a diferença recaía, novamente, na forma com que cada um utilizava tal ferramenta voltando, dessa forma, à tomada de decisão puramente humana (continuando a analogia anterior: são os 32 quilômetros e pouco que ambos percorrerão correndo com suas próprias pernas). O resultado da experiência foi um empate em 3 x 3 – embora Kasparov tenha derrotado Topalov um mês antes num match de Xadrez Rápido (onde cada jogador tem 30 minutos para toda a partida) pelo elástico placar de 4 x 0.

6a00e554b11a2e88330153914837a6970b-150wi Em seu recente livro How Life Imitates Chess: Making the Right Moves, from the Board to the Boardroom Kasparov comenta que “em qualquer disciplina onde o acesso à informação é praticamente ilimitada, mas o tempo é um fator decisivo, a intuição representa um papel crucial”.

Vários jogadores eram conhecidos por suas grandes habilidades intuitivas ao tabuleiro, conforme citam os GMs Alexander Beliavsky e Adrian Mikhalchishin, em Secrets of Chess Intuition. Smyslov, Petrossian, Spassky, Kramnik e Anand guiavam-se muito por seus instintos. Já Capablanca tinha o dom natural de avaliar posições através de rápidos olhares ao tabuleiro, como fartamente descreve a crônica mundial.

Mas talvez nenhum outro enxadrista seja tão citado como intuitivo quanto Mikhail Tal. Mesmo 15 anos após a sua morte, algumas de suas partidas permanecem envoltas em mistérios. O gênio de Riga sempre foi conhecido por seu jogo ousado, onde entregava peças valiosas ao inimigo para concentrar forças numa blitz contra o Rei inimigo*. Tal entrava no tipo de posição em que não se podia prever o resultado final, onde era impossível calcular todas as variantes. Mas sua sensibilidade em relação à posição resultante era-lhe suficiente.

6a00e554b11a2e883301156f6fb3f3970c-250wi Na célebre partida onde, jogando de pretas contra Bobotsov em 1958, ele sacrifica sua Dama no 11o lance, em troca de duas peças brancas é emblemática. Não havia possibilidades de ele ter previsto como ganharia o jogo dezenove lances depois. Havia muitas variantes, com diversas sub-variantes, impossíveis de serem calculadas precisamente. Tinha então dezesseis anos. (Veja também Donald Byrne x Bobby Fischer, chamado de jogo do século.)

Certamente que hoje algumas de suas mais aclamadas criações já foram refutadas e erros foram apontados em seus jogos. Erros dos seus adversários, na maior parte das vezes pois, como disse Kasparov na entrevista citada acima, “ganha o jogo aquele que comete o penúltimo erro”. Mas o fator psicológico também era decisivo quando se jogava contra Mikhail Tal. Certa vez ele teria dito que “existem três tipos de sacrifícios: os certos, os errados e os meus”.

Quando escreveu a série de livros sobre os campeões antes dele ele sabia que analisaria as partidas em condições totalmente diferentes daquelas em que as originais foram jogadas – inclusive com o auxílio de poderosos computadores. Precisaria ser, portanto, condescendente com eventuais equívocos de ambos os lados, pois seu principal objetivo era entender a evolução do Xadrez no último século.

Para esta complexa tarefa, Kasparov procurou reunir a maior quantidade de informações disponíveis para cada jogo incluindo, preferencialmente, aquelas feitas pelos próprio jogadores bem como as de seus contemporâneos. Para sua surpresa, no entanto, as análises posteriores ao jogo referentes às alternativas de cada lance continham muito mais erros do que o próprio jogo em si.

Esse talvez tenha sido um indício de que a escassez de tempo não é tão opressiva assim – pois tempo em abundância pode abrir caminho para encontrar soluções erradas, como mostrou o interessante estudo realizado por Johnson e Raab. Em Take The First: Option-generation and resulting choices eles simularam condições reais de um jogo de handebol. Um atleta amador, vestido com o uniforme de jogo e uma bola na mão, ficava diante de um telão onde era exibida uma cena de um jogo real.

Em determinado momento a imagem era congelada e o participante deveria escolher a melhor opção de jogada, no menor intervalo de tempo possível. Depois dessa rápida decisão, ele dispunha de mais tempo para pensar e buscar outras alternativas possíveis para o mesmo lance para, em seguida, apontar sua decisão final sobre o que teria feito.

6a00e554b11a2e883301156f5ace55970c-300wi Após essa fase, uma equipe de experientes técnicos de handebol reuniu-se para avaliar a qualidade das decisões finais e compará-las com as demais alternativas apontadas. Embora o senso comum sugira que mais tempo seja benéfico – pois pode-se avaliar mais informações – as conclusões do estudo apontaram na direção oposta: a ordem na qual as opções surgiam nas mentes refletiam diretamente a sua qualidade. Isto é, a primeira opção era substancialmente melhor do que a segunda, que era superior à terceira e assim por diante, conforme o gráfico (adaptado) ao lado. Note-se, ainda, que em apenas 40% dos casos o participante decidia mudar sua escolha inicial.

De volta a Kasparov, ele não encoraja que se confie cegamente em seus instintos mas que eles sejam, de alguma forma, mais respeitados e levados em consideração nas tomadas de decisão. O estudo diligente e o acúmulo de conhecimento sobre temas específicos é essencial, até para que a intuição possa ser treinada.

Médicos tomam decisões semelhantes quando escolhem – muitas vezes, de forma instintiva – a linha de diagnóstico a ser adotada para cada paciente, considerando os sintomas apresentados (informações) à luz de um teorias aprendidas através de intensa dedicação (treino). Sem as informações, de nada valeria o treino e, sem este, aquelas seriam igualmente inúteis.

6a00e554b11a2e883301156f6fa577970c-300wi Relacionar o treino e o acúmulo de informações com a Intuição não fere, em absoluto, o conceito da Sabedoria da Ignorância, da forma como abordei num texto recente. Desconhecer determinado assunto pode ser favorável para realizar escolhas simples, com conseqüências limitadas e sem grandes implicações. Jamais para tomar decisões importantes ou embarcar em grandes aventuras.

Além disso, a falta de familiaridade com uma área específica jamais lhe permitirá fazer raciocínios mais complexos relacionados ao tema. Como o estudo de Gigerenzer mostrou, você pode ser capaz de dizer que Detroit tem mais habitantes do que Milwaukee, talvez pelo fato de nunca ter ouvido falar em Milwaukee. Mas não vai experimentar a profundidade de um rio com os dois pés.

Percebam, ainda, que tratamos aqui de um problema onde as regras estão bem definidas e claras para ambos os jogadores. E como encarar as situações onde as mesmas regras não são tão explícitas assim? Como se comportar em situações que não tem um fim definido, ou onde um vencedor não possa ou não deva ser declarado?

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* Mais uma vez buscando auxílio nas analogias futebolísticas, seria como se um time tivesse seus dois zagueiros de área expulsos mas, ainda assim, conseguisse marcar um gol no adversário, porque conseguiu manter a bola somente no campo de ataque – ou seja, concentrou suas forças no local mais importante do campo.

Uma curiosidade: apesar de o estudo ter sido realizado por pesquisadores de universidades alemãs e americanas, parte dos jogadores envolvidos era de times brasileiros que treinavam em Belo Horizonte.

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Um agradecimento especial para meu amigo Carlos Oliveira que fez valiosas sugestões a essa série.