No texto anterior comecei uma revisão dos livros lidos em 2010. A pedidos, inclusive, acrescentei aqueles que já foram lançados em Português e podem ser comprados aqui sem dificuldades. Curiosamente, sobraram dois temas bem ligados a trabalho. Então vejamos a continuação.
LIDERANÇA e MOTIVAÇÃO
Fiquei muito bem impressionado com Daniel Pink depois de assistir a uma palestra sua no TED. Seu segundo livro, Drive: The Surprising Truth About What Motivates Us (Riverhead, 2009) tem os mesmos traços de humor refinado que seu autor esbanja em vídeo.
Pink aborda o tema da motivação de forma completamente fora dos padrões tradicionais - e é exatamente aí que reside todo o valor da sua obra.
Num mundo em que tudo muda numa velocidade assustadora, é incrível notar como coisas tão importantes como a motivação permaneçam atreladas a dogmas de 20, 30 anos atrás. Ou mais. (Em Português: Motivação 3.0.)
Em todo o mundo, a indústria da autoajuda rende bilhões de dólares, subtraídos de trouxas, digo, leitores que esperam encontrar em algumas páginas a solução de todos os seus problemas. Se você é desses, fique longe de Bright-sided: How the Relentless Promotion of Positive Thinking Has Undermined America (Metropolitan Books, 2009).
Barbara Ehrenreich é uma crítica ferrenha não só da autoajuda, mas também do pensamento positivo de um modo geral. Para ela, a promessa de que o pensamento positivo tudo resolve serve apenas para paralisar a iniciativa e esperar o próximo sopro de sorte. Faz um tentido enorme, não faz
Sir Ernest Shackleton é considerado por muitos o maior líder que já existiu. Em Leading at the Edge : Leadership Lessons from the Extraordinary Saga of Shackleton's Antarctic Expedition (AMACOM, 2000) Dennis Perkins analisa algumas das características do explorador irlandês que podem explicar tal fascínio.
Perkins divide o livro em dez traços de personalidade ou atitudes muito marcantes de Shackleton, que tornaram possível manter 28 homens unidos durantes os mais de dois anos em que permaneceram perdidos na Antártida, no início do século passado.
Importantes lições atemporais, úteis para quem precisa liderar equipes sempre no limite - seja da sobrevivência ou da performance. (Em Português: Liderança no Limite.)
Dentro do mesmo tema, Margot Morrell tem uma abordagem bem mais detalhista, em seu Shackleton's Way: Leadership Lessons from the Great Antarctic Explorer (Penguin, 2002).
Ela é responsável, também, pela única descrição que já vi da vida de Shackleton antes da sua famosa expedição com o Endurance. Foi neste livro que descobri, por exemplo, que The Boss era filho de um médico Quaker e que tinha nada menos do que oito irmãs. (A edição em Português, Shackleton - uma lição de coragem, está esgotada na editora.)
John Kotter é um dos mais celebrados autores sobre Lidarança, com meia dúzia de títulos publicados, todos sempre frequentando as melhores listas de best-sellers. Lendo The Heart of Change: Real-Life Stories of How People Change Their Organizations (Harvard Business Press, 2002), percebemos que isso não é à toa.
O livro é uma compilação de diversas pesquisas feitas por Kotter ao longo de mais de 20 anos como consultor, das quais ele extraiu uma série de oito comportamentos típicos de líderes de sucesso.
Mas longe de oferecer uma receita pronta para o sucesso, The heart of change é uma revisão de conceitos bastante simples, que a maioria de nós conhece ou já ouviu falar ao menos uma vez. A grande diferença aqui é vê-los em situações onde fizeram a diferença e foram responsáveis pelo sucesso de uma empresa. Absolutamente imperdível!
Ian Ayres é um advogado, professor de Yale e articulista do Freakonomics. E, como boa parte da população adulta, percebeu que estava perdendo sua briga com a balança. Carrots and Sticks: Unlock the Power of Incentives to Get Things Done (Bantam, 2010) conta um pouco dessa sua luta (vitoriosa) e dos seus aprendizados sobre motivação e inspiração.
Através de curiosos experimentos científicos, Ayres desvenda um pouco do que funciona, do que não funciona e do que tem o efeito inverso quando procuramos aliados na luta contra nossa apatia, preguiça, gula, vício ou simples tendência a procrastinar um pouco mais.
Em Carrots and Sticks você verá o que funciona melhor de acordo com o seu objetivo. Perder peso, parar de fumar, ligar regularmente para a avó, estudar para as provas ou qualquer outra atitude que requeira um pouco mais do que força-de-vontade podem ter suas chances de sucesso multiplicadas se você souber a medida exata de incentivo - ou o castigo correto - que pode se auto impôr. Quer testar?
PROCESSOS DECISÓRIOS
Como você toma suas decisões? Que tipo de considerações faz - ou acha que faz - quando pesa prós e contras de cada opção? Escolhe entre alternativas por impulso ou delibera longamente sobre elas?
Em How We Decide (Mariner Books, 2010), Jonah Lehrer desce (ou sobe?) até os níveis subcorticais do nosso cérebro para entender os caminhos percorridos pelos processos decisórios dentro dos nossos próprios centros de poder.
Além da parte biológica do processo - que no texto de Lehrer ganha uma leveza ímpar - você verá em How we decide a importância da emoção na tomada de decisão, abalando a velha crença de que boas escolhas devem ser feitas de forma estritamente racional. Ao contrário do que prega o senso comum, "razão sem emoção é impotente". (Foi lançado recentemente O momento decisivo, que acredito que seja How we decide)
Já Zachary Shore concentra-se nos erros mais comuns que cometemos quando tomamos decisões. Como o título sugere, Blunder: Why Smart People Make Bad Decisions (Bloomsburry, 2009) trata das peças que nosso cérebro nos prega quando escolhemos algo. O pior de tudo é que são peças invisíveis, já que ninguém cometeria erros de forma deliberada.
Shore tem um histórico de consultoria junto às Forças Armadas americanas, construído ao longo de sua carreira de professor de história. Sua narrativa é recheada de análises bastante interessantes de guerras e conflitos desde a Antiguidade até a Era Moderna, destacando erros e acertos, bem como o que poderia ter sido diferente.
Indo da teoria à prática, Bruce Bueno de Mesquita é o que pode se chamar de um Nostradamus com muitos recursos. As impressionantes taxas de acerto deste especialista em Teoria dos Jogos são sustentadas por sua lógica nua e crua e vitaminadas por poderosos modelos matemáticos.
Mas nada disso torna maçante a leitura de The Predictioneer's Game: Using the Logic of Brazen Self-Interest to See and Shape the Future (Random House, 2010) que, antes disso, assemelha-se mais a uma história de suspense - mas que na maioria das vezes você conhece o final.
E como tomar decisões quando o ambiente é complexo demais, quando muitas variáveis influenciam o resultado, ou quando fatores imprevisíveis parecem vir do nada, com a força de sete furacões?
Kenneth Posner tenta responder algumas destas questões em Stalking the Black Swan: Research and Decision Making in a World of Extreme Volatility (Columbia University Press, 2010), um livro cujo título pega uma carona no best-seller de Nassim Taleb.
Da sua rotina de analista de um grande conglomerado financeiro, Posner certamente foi assombrado por vários Cisnes Negros - eventos com baixíssima probabilidade de acontecerem, mas com efeitos devastadores.
Sua experiência no assunto resulta em valiosas dicas para passar de presa a predador - ainda que, francamente, não acredito que se possa realmente caçar um Cisne Negro...